sábado, 2 de maio de 2026

Observador - Alterações climáticas: um debate estéril (Alberto Gonçalves)

 

(sublinhados pessoais. Reflexões silenciosas...)

Alterações climáticas: um debate estéril

Fora do “wishful thinking” de determinadas comunidades “científicas” e da redacção do “Expresso”, não deve haver praticamente uma alminha que evite ter filhos por se afligir com a temperatura

A partir de um estudo estrangeiro de 2021 e de um estudo nacional ainda não publicado, o “Expresso” concluiu que “Quatro em cada dez jovens hesitam ter filhos [sic] por causa das alterações climáticas”.

Os resultados são assustadores: assusta assistir na nossa época tão informada e esclarecida à repetição do exacto “milenarismo” de há mil anos. E “exacto” é força de expressão. Por regra, as crenças medievais no iminente fim dos tempos tinham alguma razão de ser, e aconteciam em períodos de crise ligados a guerras, fome e epidemias – ou seja, às trivialidades quotidianas daqueles tempos. Hoje, os “jovens”, que prolongam a juventude até à meia-idade e beneficiam de um conforto que os senhores feudais nem sequer podiam imaginar, deixam-se tolher face a uma ameaça vaga, discutível e, salvo na retórica apocalíptica do eng. Guterres, remota. Além disso, os medos justificados de antigamente, aliados à escassez de anticoncepcionais eficazes, não impediam as pessoas de se reproduzirem, imprudência sem a qual não estaríamos aqui, eu, o leitor, os jornalistas do “Expresso” e as jovens que padecem de “ecoansiedade” entrevistadas pelo “Expresso”. Já os medos comparativamente injustificados de agora parecem implicar uma apetência para a extinção da espécie. Antes que o clima trate do assunto, a própria espécie despacha-o mediante suicídio programado.

Isto tudo, note-se, se levarmos a sério os referidos estudos e o artigo do “Expresso”. No artigo, se o espremermos bem, o vetusto semanário limita-se a falar com duas “jovens” portuguesas. Uma, Catarina, 25 anos, teme procriar por não encontrar “respostas claras” a duas perguntas “difíceis”: “Até que idade poderá viver um filho que tenha nos dias de hoje? Será que a zona onde vivemos continuará habitável daqui a algumas décadas?”. Não são perguntas difíceis. Eis as respostas: 1) até aos oitenta, oitenta e dois, se atendermos à esperança de vida actual; 2) à conta das proezas do “poder local” e dos efeitos da “arquitectura” contemporânea, inúmeras “zonas” do país já não são habitáveis há muito.

A segunda “jovem” a falar com o “Expresso” chama-se Mourana, tem 29 anos e pertenceu à Greve Climática Estudantil, uns moços e moças que, a fim de prevenir o degelo,  lançam tinta em cima de políticos, vandalizam montras e bloqueiam estradas. Após ter cortado nos banhos e na carne, vencido as insónias e experimentado “diferenças nas capacidades cognitivas”, Mourana licenciou-se em psicologia, arranjou emprego (?) no grupo EcoPsi, “focado na promoção da saúde mental no cenário de alterações climáticas”, e “recuperou o sonho de ser mãe”. Que bom. Ou não.

É que há duas questões fundamentais em que o artigo do “Expresso” não toca. Por um lado, é positivo não só que os “ecoansiosos” tenham reservas em produzir descendentes como é sobretudo aconselhável que não o façam de todo. A julgar pelo alegado desarranjo mental dos hipotéticos pais, nada indica que os filhos, alimentados a caldos de imaturidade, ilusões de grandeza, visões do Juízo Final e paranóia, possam sair menos avariados. O provável é saírem mais avariados, mesmo que convenha apurar se tal é possível.

A outra questão de que o “Expresso” foge é a seguinte: em vez de debater se as alterações climáticas de influência antropogénica existem na dimensão propagada e com as consequências anunciadas, não seria preferível aceitar que existem, desejar que existam e rogar aos santinhos que cumpram o seu papel com rapidez? Dito de maneira diferente, vale a pena ambicionar a continuação de sociedades em que uma parte significativa da população não regula bem? Se as percentagens de “ecoansiosos” forem autênticas, é altura de começar a ponderar não os riscos das alterações climáticas, e sim a respectiva necessidade. Os perigos decorrentes de gente que, sem reparar no absurdo, recorre a tecnologia avançada para organizar manifestações em que se exige a devolução da humanidade ao Paleolítico são muito maiores. Entre ver a Terra arrasada por ondas de calor e inundações ou entregue a multidões de tontos, o meu coração não balançaria.

A nossa sorte é que estes dilemas épicos não se colocam. De regresso à realidade, fora do “wishful thinking” de determinadas (e financiadas) comunidades “científicas” e da redacção do “Expresso”, não deve haver praticamente uma alminha que evite ter filhos por se afligir com a temperatura a longo prazo. As novas gerações evitam ter filhos, e na verdade têm pouquíssimos, porque as casas são caras, porque os salários são baixos, porque tendem ao egoísmo, porque não apreciam obrigações, porque simplesmente não calhou e porque dispõem da pílula, ora essa.

A invocação, neste contexto, das “alterações climáticas” apenas visa conceder uma dignidade postiça a motivos prosaicos. É um tique contagioso, uma forma infantil de legitimação, uma “causa” que à semelhança da adesão a “causas” similares convence os meninos e as meninas de que têm relevância nos destinos do mundo. Depois, na maioria dos casos, os meninos e as meninas crescem. E uns tantos multiplicam-se.


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