Fiz 50 anos de jornalismo. Adoro o que faço, não o que fazem
Comecei em Julho de 1976, vi muito e assisti a transformações radicais, mas quero seguir inquieto e não conformista, até por não querer que o jornalismo se suicide como às vezes parece tentado a fazer
1 Fez agora 50 anos que comecei a trabalhar nos jornais: o primeiro em que escrevi foi publicado no princípio de Julho de 1976. Tinha chegado à sua redação uns dias antes procurando uma forma de ganhar a vida – com 19 anos já era pai, a militância política estudantil não me punha comer na mesa da família. Recordo-me que o meu primeiro ordenado era diminuto, o equivalente ao salário mínimo da altura, quatro contos, algo que, com correcção monetária, hoje equivaleria a 569 euros. Não daria para viver sem o apoio familiar que tinha, mas foi um começo.
O jornal em que me estreei tinha um nome que era todo um programa: chamava-se “25 de Abril do Povo”, nascera como semanário com a ambição de se tornar diário mas morreria pouco depois, publicando apenas 11 números. O projecto – fazer reviver a campanha eleitoral de Otelo nas Presidenciais de 1976 – revelar-se-ia um enorme fiasco, o que significa que poucas semanas depois desta minha estreia já estava de novo desempregado. Felizmente a política proporcionava outras oportunidades, pelo que fui andando por várias publicações militantes até à sua bancarrota final e ao momento em que fui bater à porta da imprensa profissional (quem quiser mais detalhes sobre estes meus anos de militância adolescente e juvenil pode sempre encontrá-los em “Era uma Vez a Revolução”).
Quando bati à porta do Expresso no início da década de 1980, num tempo de sérios apuros financeiros, não só os tempos da revolução e da imprensa mais militante estavam a ficar para trás, como eu próprio já me tinha afastado dos meus desvarios juvenis ao perceber o imenso logro que era a utopia comunista – uma trágica e mortal ilusão, uma catástrofe onde só por deliberada cegueira se podia continuar a acreditar.
Tenho boa memória do primeiro artigo que propus para publicação: era sobre alterações climáticas – chamava-se “Secas e inundações, frio e calor: quem tem mão no tempo?” e saiu a 16 de Maio de 1981, ou seja, há mais de 45 anos – e o tema era tão novo que o texto esteve algumas semanas à espera de ter luz verde para ser publicado, para meu desespero.
Sei também que nessa altura ainda não tinha a certeza de querer ser jornalista toda a vida. Tinha voltado a estudar pouco tempo antes – depois de ter entrado em Medicina optei pelo meu tema de paixão, a Biologia – e estava convencido que um dia me cansaria deste mundo da informação, pelo que necessitaria de outra profissão. O mínimo que posso dizer é que não foi isso que aconteceu, pelo contrário: como a Coca-Cola na famosa frase de Pessoa, isto foi qualquer coisa que ao princípio estranhei, e depois se me entranhou.
2 Ao longo destes 50 anos fiz de quase tudo, de todos os géneros, em todos os suportes, passando por todas as secções e nos diferentes registos. Assisti não apenas à radical transformação tecnológica deste sector como a profundas transformações tanto na forma de fazer jornalismo – transformações que não creio que estejam a ser bem interiorizadas pela profissão – como na relação entre jornalistas, órgãos de informação, política e espaço público.
Depois de um período de enorme politização e mesmo partidarização e de enorme condicionamento por a maior parte dos órgãos de informação pertencerem ao Estado e seguirem as orientações dos governos de turno, a viragem para a normalidade dá-se no final dos anos 1980, inícios dos anos 1990, graças à privatização de jornais e rádios, à abertura dos canais privados de televisão, a uma conjuntura económica favorável, com um crescimento rápido do mercado publicitário, e ainda ao aparecimento de projectos editoriais inovadores e modernos.
Mas o clima de euforia não duraria muito, pois a chegada primeiro da Internet e depois das redes sociais viria a transformar radicalmente a forma como as pessoas se informam e desafiar a centralidade do jornalismo como guardião e polícia sinaleiro do espaço público.
3 Historicamente o jornalista era quem levava e trazia as notícias, quem seleccionava o que valia ou não valia a pena relatar, quem testemunhava os acontecimentos para depois os contar ao grande público. As transmissões em directo, primeiro na rádio e depois na televisão, mudaram um pouco essa realidade, criando a ilusão de que todos podiam assistir a tudo, mas não mudaram o essencial, um essencial definido pela forma como se hierarquizavam as notícias numa primeira página ou estas eram arrumadas no alinhamento de um telejornal. Tudo com hora mais ou menos marcada, fosse na rotina de comprar o jornal da manhã ou no hábito de jantar com a família à hora dos noticiários.
O cidadão comum tinha de esperar pelo jornalista para saber o que se passava na sua cidade ou no mundo, estava condicionado pelas escolhas dos profissionais, e parecia que estes hábitos ordeiros (e pouco variados) durariam para sempre. Não duraram.
À partida a nova realidade só traria vantagens, pois seria mais fácil ler vários jornais e não apenas aquele para que se tinha dinheiro, ver vários canais de televisão a qualquer hora, consultar directamente as fontes, acompanhar as recomendações dos amigos, no fundo estar-se melhor informado.
Aconteceu algo diferente: a natureza tribal do ser humano veio ao de cima. Mais fontes de informação, mesmo fontes de informação profissionais, não corresponderam, como se esperava, a mais pluralismo, antes levaram a uma pulverização do espaço público e, depois, ao entrincheiramento das diferentes facções. A explicação é simples: quando procura informar-se, a maioria das pessoas não procura conhecer as realidades que desafiam as suas convicções, antes prefere o conforto das histórias que reforçam o seu ponto de vista.
4 Foi algures neste processo que, com frequência, o jornalismo perdeu o norte. Pior: foi ao perceber que estava a perder centralidade que muito jornalismo preferiu entrincheirar-se e fazer coro com os que explicam os males do mundo culpando as “fake news” e as redes sociais.
Na verdade o que as redes sociais fizeram foi dar a todos a possibilidade de produzirem notícias e comentários não apenas à mesa do café mas num espaço público agora muito menos hierarquizado, já sem jornalistas a determinarem o que valia ou não valia a pena ser noticiado, já sem profissionais da comunicação a determinarem rigidamente o “agenda setting”.
Esta nova realidade teve consequências para o funcionamento dos sistemas democráticos, facilitando tanto a extrema polarização dos debates (uma consequência de se viver na “bolha” dos que pensam igual) como a fragmentação da representação política (num espaço público pulverizado e cruzado por inúmeros microtemas é mais difícil manter a hegemonia dos grandes partidos de antigamente).
A perda de crédito do jornalismo, uma tendência a que assistimos na generalidade das nossas democracias, não decorreu apenas de os cidadãos começarem a procurar outras fontes de informação e terem-nas encontrado nas redes sociais – decorreu também de muito jornalismo se ter fechado na sua bolha. Esse mal foi claramente diagnosticado há dez anos nos Estados Unidos, quando ninguém na chamada “legacy media” antecipou a primeira vitória de Donald Trump. Nessa altura todos prometeram que iriam sair das suas rotinas confortáveis em Manhattan e passar a ir mais vezes aos Apalaches, mas o que aconteceu depois foi exactamente o contrário, pelo que em 2026 a imprensa dos Estados Unidos caiu para o fundo do fundo nas avaliações da confiança nas instituições, como de resto sublinhei quando os mesmos de sempre voltaram a ficar surpreendidos com a nova vitória de Trump.
5 Portugal ainda não bateu tanto no fundo, mas não escapa a esta tendência, com a confiança nas notícias a cair de 66% para 51% entre 2015 e 2026, sendo que a desconfiança é bem mais elevada entre os mais novos e substancialmente maior entre as pessoas que se declaram de direita comparando com as que se declaram de esquerda. Não há que ficar admirado, a realidade é o que é, e a verdade é que muito do nosso jornalismo continua a acreditar que tem o monopólio da moral e como missão promover certas causas ou combater determinados protagonistas.
Quem seguir o nosso comentariato sabe que não se pode dizer que se discorda das opções políticas de Trump – tem de se demonstrar que tudo correu mal, que no fundo não passa de um tarado e que, se não tivermos cuidado, vem aí o fascismo. Sabe também que André Ventura perde todos os debates em que participa e é sempre o mau da fita. Assim como sabe que as propostas do Chega são inumanas mesmo quando correspondem a políticas adoptadas noutros países.
Quem seguir as notícias sabe também que um protesto de uma mão cheia de activistas climáticos terá por regra mais cobertura mediática do que centenas ou mesmo milhares de pessoas a manifestarem-se contra o aborto. Quem ouvir os noticiários fica muitas vezes a interrogar-se porque é que o noticiário sobre crimes quase sempre omite as características de quem esteve envolvido (excepto, claro, se forem homens brancos e cisgénero).
Podia continuar a dar exemplos – porque é que se sente tantas vezes que só se pode falar de lucros das empresas se lhes dermos um carácter pecaminoso? porque é tão sistematicamente desequilibrada a cobertura do conflito israelo-palestiniano? ou porque é que só se fala de bebés a nascerem em ambulâncias quando se está a discutir uma reestruturação dos serviços de saúde? – mas creio que a distância entre o jornalismo e todos os que são tentados por aquilo a que os jornalistas chamam indiferenciadamente “populismo” tem muito a ver com a incapacidade de ver os ângulos cegos de um mundo e de um país com inquietações menos activistas.
6 Mesmo assim, 50 anos depois, continuo a adorar o que faço e tudo aquilo que sempre me motivou nesta profissão: manter viva a curiosidade pelo desconhecido, pelo diferente e pelo surpreendente; descobrir as notícias que alguém preferia que não fossem dadas; revelar o que devia estar à vista mas que não vemos porque estamos distraídos; procurar explicações e partilhá-las, pois todos desejam perceber e aprender; contribuir para uma cidadania com mais sentido crítico e sem medo do contraditório; pensar pela minha própria cabeça com um feroz sentido de independência; e por fim defender, nos espaços próprios, os valores em que acredito sem disfarce e sem receio de estar em minoria, mesmo uma “minoria de um” se tal for necessário.
Dan Rather, um jornalista americano famoso que conheci de raspão durante a primeira guerra do Iraque, em 1991, recomendou um dia que se tivesse cuidado pois “o jornalismo é mais aditivo do que cocaína, por vezes desequilibramos as nossas vidas”. Só posso confirmar que ele tem razão e que, apesar de toda a intensidade com que vivi estas cinco décadas e das muitas compensações que tive, ainda aqui estou – entre outras coisas para procurar um equilíbrio que tantas vezes sinto faltar na minha profissão.