quinta-feira, 18 de junho de 2026

Observador - A grande perversão (Nuno Lebreiro)

 


(sublinhados pessoais)

A grande perversão

De onde vem, então, esta auto-destruição do pluralismo, da democracia, no fundo, da liberdade, no Ocidente?

Uma das coisas que não deixa de me deixar perplexo nos dias de hoje é que aquilo que seria quase unanimemente apontado como a grande riqueza das democracias Ocidentais até há muito poucos anos atrás — a sua diversidade de pensamento e opinião — deu lugar, repentinamente, não apenas a um pastoso e cinzento, ainda que histérico, monocórdico unanimismo, como, pior, passou a exaltar-se e celebrar-se esse mesmo unanimismo, vilipendiando, ostracizando, silenciando, as poucas vozes que ousem dissonar da opinião majoritária. É, portanto, uma verdadeira inversão de um dos princípios mais estruturais do Ocidente, um princípio que se esvai num vazio de debate público, de investigação académica, de discussão política.

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Em boa verdade, ao melhor estilo de criança mimada, as mais ridículas figurinhas do establishment tendem ainda a vangloriar-se de uma coisa e do seu contrário. Veja-se, por exemplo, a facilidade como a sinistra burocrata-chefe da toda-poderosa Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, lava a boca com a superioridade da diversidade, pluralismo e democracia europeia nos mesmíssimos parágrafos em que promete milhões para combater a “desinformação” nas diabólicas redes sociais — por desinformação, entenda-se toda a informação que contrarie a narrativa oficial carimbada por Bruxelas. Curiosamente, como foi no caso da COVID, ainda que nenhum responsável o admita, a alegada “desinformação” tendeu a acertar muito mais que a “informação” oficial imposta a megafone, máscara obrigatória e injecções que definiam se se podia ir ou não ao emprego, ao restaurante e ao barbeiro.

Não. A única diversidade que de facto se defende, e apregoa, de forma efectiva na Europa, é a racial, cultural, religiosa, devendo, em boa verdade, ler-se esta apologia da diversidade como um combate sem tréguas à herança cultural, espiritual e genética europeia. Esta outra perversão, uma auto-flagelação exótica historicamente, absurda racionalmente, tão extraordinária como a abdicação da pluralidade intelectual antes mencionada, é, aliás, a arma com que se justifica o tal unanimismo que veio substituir a base plural da cidadania democrática europeia. Umas coisa não estará, portanto, separada da outra.

Que estas radicais alterações passem despercebidas à maioria dos habitantes do espaço público — políticos, jornaleiros e pseudo-especializados comentadores — não deixa também de ser extraordinário. E, talvez por isso mesmo, revelador de que algo apodrece profundamente nas sociedades europeias. No entanto, para todos os demais, uma minoria, que se vão apercebendo desta perniciosa mudança sócio-cultural em curso, convém apontar que a grande ilusão que mantém a narrativa coerentemente de pé — apesar de ridiculamente insana — não está tanto na subtileza da revolução, que de subtil nada tem, mas no facto de nada ter de recente. Pelo contrário, colhemos agora os frutos de um processo que já corre desde há muito no Ocidente.

Alexander Soljenítsin, provavelmente o intelectual do século XX com maior autoridade moral para criticar o autoritarismo, homem marcado pelo Gulag e pelas atrocidades da URSS, bem que alertou, já em 1978, para quem quisesse ouvir, que os tão apregoados princípios de diversidade e pluralismo Ocidentais não eram assim tão diversos, nem plurais. No seu célebre discurso em Harvard, Soljenítsin, longe de celebrar a liberdade da imprensa Ocidental, apontou nela uma das maiores fraquezas da nossa democracia: uma máquina de informação sem relevância, entregue à superficialidade sensacionalista, capaz de fabricar opinião pública e de silenciar vozes incómodas sob o pretexto da neutralidade que usa e abusa sem qualquer vislumbre de responsabilidade moral — ou, pelo menos, de uma moral que se reconhecesse como tal.

Noutro campo, na academia, no mesmo discurso, Soljenítsin denunciou ainda o conformismo intelectual, onde a verdadeira diversidade de pensamento fora, pensava ele já naquela altura, substituída por modas ideológicas transitórias que, sem proibir abertamente, excluem o dissidente com a elegância fria da irrelevância — hoje traduzidas no de-funding, no ostracismo mediático, ou nos ataques de uma turba sem fim de alegados “estudantes”, normalmente auto-imaginados como “activistas”, ignaros mentais que, aos urros, tentam silenciar quem consideram não ter o “direito” de exprimir discurso que entendam como sendo “ofensivo” ou de “ódio”.

No final, e parece-me que mais importante ainda, foi na própria estrutura do espaço público que Soljenítsin observou uma estranha cobardia civil: um Ocidente rico em direitos e pobre em coragem, onde o pluralismo se revelava, afinal, uma ilusão bem-educada, um uníssono disfarçado de orquestra por acaso bem-afinada, mas onde todos, por receio de serem considerados diferentes, acabam tocando a mesma música, não porque o desejem, mas porque, mais preocupados com a promoção, com a reputação, ou a possibilidade de alardear virtudes publicamente louvadas, não se atrevem a desafinar. A clarividência da análise, uma que, ainda que escapando à análise dos maiores especialistas da especialidade contemporânea, apenas assusta porque demasiado certeira, apenas pode indicar que o problema acima indicado, mais do que deste tempo, já virá de tempos ainda anteriores aos dos reparos de Soljenítsin.

De facto, antes de 1978, já muitos outros avisos tinham soado. Em 1984, escrito entre 1946 e 48, publicado em 1949, Orwell não pintou uma distopia assim tão distante, talvez hoje em dia descartada como “ficção” apenas pelo facto da data ficcional já ter passado — chamasse Orwell o seu livro de 2044 e talvez estivéssemos a prestar mais atenção. Nesse livro, como Soljenítsin 30 anos depois, Orwell dissecou o tempo com um bisturi que nos antevê com uma presciência implacável.

Sob o olhar omnipotente do Grande Irmão, o romance intuiu o horror supremo da tirania moderna — mais que a força bruta, esta culmina na colonização totalizada da alma e na destruição do espírito individual. Desde os “dois minutos de ódio”, onde se canalizava para um bode expiatório a frustração com a colectivização, passando pela “novilíngua”, que reduzia o pensamento a meros slogans, assim permitindo que a memória fosse reescrita diariamente pelo carimbo do “Ministério da Verdade” difundido de forma omnipresente pelos ecrãs, terminamos defronte de uma realidade maleável pelas mãos do poder que, a cada momento, lá vai instituindo uma narrativa oficial, verdadeira, correcta, ainda que oposta à anterior. O que mais aterroriza não será tanto o sofrimento físico, mas a liquefação da verdade e da individualidade num vazio onde nada faz sentido, ou melhor, nada precisa de fazer sentido para ser aceite pela população — a cada momento, consoante a narrativa, até as palavras encontram novos significados.

Orwell, já profundamente doente, mas com uma angustiada lucidez, finaliza a sua visão terrífica mostrando como o totalitarismo perfeito não precisa de campos de concentração quando consegue fazer o homem desejar a sua própria prisão. Nas linhas finais de 1984, quando Winston, em lágrimas, assume perante ele próprio amar o Grande Irmão, é na aparente “libertação” da personagem principal que vemos a maior tragédia humana — a abdicação da individualidade pela imersão acéfala, acrítica, na torrente do colectivo. Eis, em suma, a verdadeira essência do autoritarismo Orwelliano: não aquele poder duro e implacável que nos impõe contra a nossa vontade, ainda que exista, mas aqueloutra, mais profunda, que, de forma mais ou menos evidente, é bem-sucedida em convencer-nos a verdadeiramente desejar para nós aquilo que é a vontade do tirano.

Aliás, o mesmo fez Aldous Huxley em O Admirável Mundo Novo, publicado ainda antes, em 1932, onde o totalitarismo consegue ser mais subtil e disfarçado: aí, o colectivismo não se impõe pelo terror, mas pela difusão da felicidade obrigatória, no caso atingida pelo escapismo que a soma, uma droga, oferece a toda a população. A felicidade colectiva impõe-se, então, por uma estratificação social genética onde o laboratório substituiu a família e o pensamento individual, crítico, foi aniquilado pela necessidade de estabilidade social  coletiva assente na abundância do conforto e do consumo que garante a ausência de ansiedade, de medo, de agruras, individuais — o último safe space, portanto. Does it ring a bell?

Na sua essência, a conclusão dos dois autores, mesmo que assim não tão aparente, é a mesma: o indivíduo subjugado, derrotado, destruído, vergado, de sua própria vontade impondo, apoiando, crendo e amando o poder despótico que o regula, limita, molda e controla. Discordavam, no entanto, na forma como esse último estádio de amor à própria servidão poderia ser alcançado. Na carta que Huxley envia a Orwell a 21 de Outubro de 1949, poucos meses após a publicação de 1984, ainda que reconhecendo a grandeza e a importância do livro, aquele não resiste a afirmar que o terror bruto do Grande Irmão — a famosa bota que esmagava a individualidade para o resto dos tempos — assim ao estilo soviético, seria demasiado dispendioso e instável na vida quotidiana futura. Para Huxley, o verdadeiro poder tirano seria mais subtil, e por isso mais eficiente, passando pela sedução: condicionamento desde o berço, a narco-hipnose, o prazer organizado e a arte suprema de fazer o homem amar, desejar, o statu-quo, não se imaginando sequer como podendo, ou querendo, viver fora da sua própria servidão.

Ou seja, já há praticamente 100 anos que, para alguns espíritos mais prescientes, a nossa actual condição, ainda que tratada de forma alegórica, exagerada, pelo menos por enquanto, era algo de algum modo expectável. (Num aparte, apenas por aqui se vê a diversidade de profundidade intelectual que pode existir entre seres humanos: note-se o abismo entre estes autores que viram há décadas aquilo que hoje a maior parte não consegue sequer vislumbrar). Em suma, o processo para o qual somos alertados há pelo menos 100 anos é aquele da desestruturação da sociedade, do desaparecimento da família, da atomização social, e da abdicação desses indivíduos da sua liberdade individual face ao colectivo, curiosamente por vontade própria.

Ora, um processo tão complexo, capaz de perverter por completo os valores de uma civilização inteira, ainda para mais a mais poderosa da e bem-sicedisa da História humana, bem como tão longo, centenário mesmo, não pode ser explicado por causas passageiras, modas, ou simples coincidências. Não. Um processo com a dimensão de mudança, previsto pela capacidade de antevisão que aqui se descreve, só pode ser conduzido, como Leo Tolstoi explicava em Guerra e Paz, pelas “grandes correntes da história” — as forças impessoais, colectivas e quase imperceptíveis que movem os povos, muito mais do que as acções individuais, fortuitas, dos “grandes homens”, como Napoleão.

De onde vem, então, esta auto-destruição do pluralismo, da democracia, no fundo, da liberdade, no Ocidente? Em Political Ideas in the Twentieth Century, escrito em 1950, Isaiah Berlin aponta essa transformação subtil que também vislumbrava como uma importante tendência já, então, na Europa Ocidental. Longe dos grandes combates ideológicos sobre princípios fundamentais, Berlin repara que a vida política do pós-guerra se deslocara para discussões técnicas e instrumentais visando aquilo que Charles Taylor, muito mais tarde, em 1989, estabelecerá como o valor máximo da modernidade Ocidental: a “afirmação da vida ordinária”. Berlin resume esse valor como reduzindo a política à procura de consensos tecnocráticos sobre quais os melhores métodos para garantir um mínimo de estabilidade económica e social. Consequentemente, focando-se o debate no material e ordinário, os debates sobre os fins últimos da existência humana, como as grandes causas, tornaram-se abstractos e académicos, relegados perante as urgências do dia-a-dia para as franjas do debate público — como até hoje, onde no discurso público pouco mais se discute do que a vírgula do orçamento que permite melhorar a vida doméstica de cada cidadão.

Berlin não se ilude, porém, com esta aparente neutralidade pragmática. O que parece um abandono sereno de velhos valores não é para ele, na verdade, simples materialismo, mas, pelo contrário, o resultado de uma fé cega e quase desesperada nos novos valores propalados pela modernidade — razão, ciência, tecnologia. Uma adesão irracional, dogmática, portanto, marcada, como todos os dogmas, por intolerância feroz perante o cepticismo, ou, por outras palavras, a dissensão — o que explica o crescente horror Ocidental ao “negacionista”. De onde nasce tal fervorosa crença nos novos valores? Para Berlin, do vazio legado pelo desaparecimento dos anteriores e do terror a esse vazio, bem como a ânsia de segurança que cada homem passou a carregar dentro de si próprio como forma de aplacar aquele medo existencial face ao desconhecido e a morte que antes o Cristianismo integrava.

Berlin explica: ao contrário do que a modernidade racionalista imaginou, os homens são mais que meros cogitos de racionalidade, pelo que carecem de crer que, à falta de melhor termo, “no final vai ficar tudo bem”. Ou seja, que serão salvos ou, pelo menos, que existe um caminho para essa salvação, um caminho que os liberte dos grilhos da angústia humana perante o desconhecido, a tragédia, a catástrofe e a morte que caracterizam a vida terrena. Uma libertação espiritual, portanto, que apenas se atinge para lá da razão — o tal salto de fé que Hamman e Kierkegaard tanto advogaram como a verdadeira essência do conhecimento e do caminho para a “verdade” redentora, salvífica, transcendente face à condição humana. Apenas que, na nova fé, a salvação já não vem do além Cristão, mas, ao contrário de todas as crenças anteriores, é oferecida, convenientemente, antes da morte: no mundo material do aqui e agora que a razão, a ciência e a tecnologia irão, algures no futuro, resolver.

Eis então, aqui, o busílis da questão, o momento inicial da inversão, ou perversão, dos valores que fizeram o Ocidente democrático e liberal: o triunfo como ideal salvífico do dogma pseudo-científico, racional, exacto, matemático, como princípio moral norteador do Bem e da Criação. Ora, é essa crença na certeza científica que tudo vem perverter: primeiro, porque onde há certeza não cabe discussão e pluralismo; segundo, porque o verdadeiro princípio revolucionário que trouxe a libertação face ao Antigo Regime para as populações, para o conhecimento, para os mercados livres, para a ciência, como se sabe, foi precisamente o exorcismo do dogma no altar da única coisa que caracteriza verdadeiramente o conhecimento humano — a dúvida. A ilusão de certeza — uma ilusão facilmente demonstrável como Popper argumentou —, apenas representa, portanto, um imenso retrocesso intelectual.

Não será, assim, de estranhar que, à medida que os novos dogmas triunfam, se pervertam as velhas virtudes. A pouco e pouco, ao longo de mais de um século, as instituições mudam, os princípios re-interpretam-se, a sociedade reorganiza-se. E, onde antes a dúvida, a verdadeira ciência aberta a todos, bem como a opinião, o conhecimento, as vontades primordiais, se batiam de forma honesta e frontal num pluralismo democrático, livremente ordenado de forma espontânea pelas próprias regras da sociedade, ao fim de tanto tempo com o novo dogma a afirmar-se, agora, triunfante, majoritário, o vemos tudo vir regular.

Das instituições aos mercados, das pessoas às opiniões, para o nosso bem, para a nossa salvação, vivemos hoje um exercício, acima de tudo, de abdicação: da sociedade face ao Estado que criou para se auto-regular e para o qual abdica agora o monopólio moral do Bem e do Mal; do indivíduo face ao colectivo para o qual abdica alegremente da sua responsabilidade individual de garantir por si próprio o seu destino, a sua felicidade, a sua “salvação”; da civilização face ao mundo, porque não se reconhece já nos valores que a criaram.

No final, sobra uma conclusão: muito enganados andam aqueles que imaginam que é com uma mudança de governo, ou de regime, que o problema se resolve. Não é. É todo um “admirável mundo novo” que se ergue diante dos nossos olhos, um mundo de conformismo, irrelevância, ignorância e autoritarismo travestido de diversidade, ciência e liberdade — enfim, o triunfo máximo da novilíngua. Caberá, portanto, a cada um decidir como enfrentar os resultados desta abdicação generalizada.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Desporto - Portugal R. Congo

PRELO (o costume...) - a mala cheia de sonhos...



1ª parte (1º "pesadelo")




Já falta pouco: 2 centrais, um trinco de jeito e dois avançados. Enfim, uma mala de sonhos...

The Spectator - My night under fire at the White House correspondents’ dinner

 


(personal underlines)

My night under fire at the White House correspondents’ dinner

Last Saturday evening, the American media class descended for its annual jamboree of back-slapping at the Washington Hilton. Protestors outside waved signs reading ‘Death to tyrants’ and ‘Death to all of them’.

The atmosphere inside was more jovial. Donald Trump was attending the dinner for the first time since becoming President, along with most of his cabinet and senior officials. We were expecting him to give the assembled media a good roasting – and some of us were looking forward to it.

Attendees had to show invitations to get into the hotel, but there were few ID checks and no screening as we went to the pre-parties thrown by the major news organisations. Only when we walked into the main dinner hall did we pass through metal detectors.

The President, Vice-President and heads of the White House Correspondents’ Association took their places at the raised head table. The US colours were displayed and the national anthem sung. Then we got down to the real business of the evening: gossip.

I was picking at my burrata and talking to colleagues when the chaos began. Those by the main doors heard the gunshots first, but I was seated at one of the New York Post tables, just in front of the President. All I heard was a crash from the back and then gasps before what seemed like a legion of armed agents, guns drawn, swarmed through the centre of the room, shouting: ‘Get down.’ Everybody did as they were told, though I see from the live footage that I kept poking my head up to try to work out what was going on. With the music cut, the sole, eerie noise was that of secret service agents clambering over tables and chairs. I assumed they were looking for a second shooter. At some point a man started shouting ‘USA, USA’ but the hall hushed him. It is hard to quieten a roomful of journalists but most people knew the secret service needed silence to do their job.

The main thing that struck me was how disciplined everyone was. The secret service threw aside whatever was in their way to get the President, Vice-President and then the rest of the cabinet out. Kneeling on the floor, I looked at Robert Kennedy Jr, directly across from me, and felt a terrible sadness, wondering what was going through the mind of a man who had lost his father and uncle to such moments.

As the central aisle was cleared, the cabinet ministers at our table were rushed out by their security teams. What had felt impressive earlier – almost everyone in the chain of command being within a few feet of each other– suddenly seemed an unimaginable risk.

Shielding his wife, Secretary of War Pete Hegseth marched down the centre of the room. Then we were locked down. People started whispering about what they had heard. A confirmed shooter was said to be dead in the hall outside, then it was two dead shooters. Some journalists started to do ‘live to camera’ pieces on their phones, some under their tables, others moving around. I quipped to a friend how pleased a few looked to be able to report from the front lines while having access to a buffet.

The internet takes a harsher attitude. I learned later that a blonde woman had become a hate figure after being filmed grabbing a bottle of champagne when we were finally allowed out. In Britain she would be deemed a legend.

The online inferno also unearthed Charlie Kirk’s widow, filmed leaving the venue in tears, saying she wanted to go home. It is amazing how heartless the virtual world can be. I had seen her earlier in the evening and can’t imagine how someone who lost her husband to an assassin’s bullet just seven months ago felt that night.

Meanwhile, for those who remained, there was only professionalism and stoicism. Some people had been trampled upon and others wounded by flying chairs and the like. In order to avoid a crush, many of us stayed until ordered out, exchanging accounts of what we had seen, knew or guessed. I assured people that the President would want to come back and finish the dinner. I was right, but it became clear that the secret service wouldn’t allow it.

While huddling in the hotel lobby, the New York Post got hold of the would-be assassin’s ‘manifesto’. The contents sounded remarkably similar to what the protestors outside had been screaming. The Post’s scoop revealed the insane claims that the gunman had made against the President – that although he wanted to kill Trump and everyone in the administration, those who had ‘chosen’ to attend the dinner were also ‘complicit’ and therefore fair game, too.

‘Demonisation’ is one of the words of the era, but last Saturday night the effects of demonisation took on a fresh aspect. The people who have for years called Trump ‘Hitler’ and much more once again nearly got the logical end-point of their claims. The people who say we are all run by a perverse paedophile class of Jeffrey Epstein–associated child-rapists almost got their moment of impact. And the people who pretend that everyone in the media is a corrupt liar almost got a replay of their fever dreams too.

There is a phrase in America – ‘Monday-morning quarterbacking’ – which refers to all the things that people claim in hindsight should have happened. There is a reason why it is used sarcastically. In hindsight, the security at the Hilton should obviously have been tighter. But as a great philosopher said, it is one of life’s tragedies that while it is lived forwards it is only understood backwards. In the moment, people do the best they can. The secret service did the best they could – and succeeded in keeping everyone in the ballroom safe. The journalists did their job – with their editors checking on them while keeping abreast of the news and informing the public. It is often said that true character is shown in moments of trial. Everyone did themselves and their professions proud.

Meanwhile, the event is to be rescheduled. We will gather together again within the next 30 days.

Observador - Zeros à esquerda fulos com zeros à direita do Elon (Tiago Dores)

 


(sublinhados pessoais)

Zeros à esquerda fulos com zeros à direita do Elon

Se Musk fosse decente, vendia tudo e dividia a fortuna pelo mundo. Causaria o colapso económico global, sim, mas não seriam 150€ a impedir uma criança em África de ir ao próximo concerto do Bad Bunny.

É hoje que Portugal se estreia no Mundial: que emoção! Uma pessoa até se esquece que a Procissão do Corpo de Deus alterou o seu percurso para evitar o Martim Moniz e não correr o risco de maçar os fãs do multiculturalismo; que o Presidente da República vetou o decreto sobre a colocação de bandeiras ideológicas em edifícios públicos denotando total desconhecimento do que é um Estado, o que não é assim tão relevante num Chefe de Estado; que André Ventura apareceu de D. Afonso Henriques no Dia de Portugal causando polémica com o lema “Deus, Pátria e Família”, quando o lema mais indicado para estes tempos de imigração desgovernada e inexistente natalidade seria “Adeus, Pátria e Família”.

Na verdade, agora que chegou o dia do primeiro jogo da selecção portuguesa até já me tinha esquecido que o mundial estava a decorrer. Que neste torneio com um critério de entrada mais lasso que o de um bar na rua principal de Albufeira há mais joguinhos do que na política portuguesa. Que dizer, por exemplo, do excitante Haiti-Escócia? Talvez o mesmo que há a dizer da peregrinação dos políticos portugueses para irem ver jogos do mundial, directa ou indirectamente às custas do erário público. Deprimente.

Mas atenção, nisto de aceitarem borlas da Federação Portuguesa de Futebol para ver a selecção no mundial, não vamos pôr todos os partidos no mesmo saco. Nomeadamente, o Bloco de Esquerda, que não enviará qualquer ponta de lança ao mundial 2026. Também porque foi o único partido a não ser convidado pela FPF, é certo. Mas mesmo que tivesse sido convidado, o BE não enviava ninguém aos EUA. Para já, porque isto é malta que considera que a única forma legítima de entrar na América é saltando a fronteira. E depois porque, muito provavelmente, não lhes foi dirigido qualquer convite uma vez que embarques em flotilhas financiadas por terroristas do Hamas não devem ser compatíveis com desembarques em terras do Tio Sam.

O que é compatível com as terras do Tio Sam é isto: após a entrada em bolsa da Space X, alguém como Elon Musk tornar-se o primeiro trilionário do mundo. Quantos zeros são isto? Digamos que são quase tantos zeros como os que há anualmente na prova específica de Matemática de acesso à faculdade. E digamos também que o que não tem faltado por aí são inúmeros zeros à esquerda danados com os zeros à direita que o Elon acumulou.

Mas se conseguissem ser justos, até os zeros à esquerda reconheceriam o trabalhão que deu ao Musk acumular esta fortuna. Não foi nada fácil. O homem só aqui chegou após décadas e décadas a percorrer África, América Central, América do Sul e toda a Ásia, a tirar o pãozinho da boca de crianças famélicas e a vender as carcaças ao melhor preço nos comércios locais. Tudo para amealhar este 1.000.000.000.000 de dólares, mais centena de milhar de milhão, menos centena de milhar de milhão.

Agora, os zeros à esquerda até têm um ponto. Se o Elon Musk fosse um tipo realmente decente, vendia tudo o que tem e distribuía a fortuna pelo mundo. Provavelmente provocava um colapso económico global, claro, mas, por outro lado, não seriam 150€ a impedir uma criança, sei lá, na República Dominicana, de ir ao próximo concerto do Bad Bunny.

E não mencionei o clássico “Ele devia era acabar com a fome no mundo!”, porque isso, infelizmente, não é viável. Não tanto por culpa do Musk, mas mais pelo real desinteresse demonstrado pela própria ONU de Guterres. Basta recordar que, há cinco anos, o diretor do Programa Alimentar Mundial afirmou que 6 mil milhões de dólares vindos de bilionários como Musk poderiam ajudar a resolver a crise de fome global. Ao que Elon Musk respondeu propondo vender parte das ações da Tesla para doar exatamente esse valor, com uma única condição: que as Nações Unidas explicassem, de forma transparente, como é que esse montante acabaria com a fome no mundo e como os fundos seriam usados. A resposta da ONU foi um sonoro “cri, cri… cri, cri… cri, cri”, seguido de um diplomático “… Bom, vamos almoçar! Às quatro voltamos para aprovar umas resoluções a acusar Israel de genocídio e está feito o dia.” E está feito o dia.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Observador - Pense em nós, Sr. Presidente (Vieira Barbosa)

 

(sublinhados pessoais)

Pense em nós, Sr. Presidente

Surpreenda os seus amigos e eleitores fazendo o que eles não esperam: devolva a Portugal um pouco de dignidade, orgulho e princípios civilizacionais, justiça e vergonha na cara.

Faça-o, porque os portugueses são um povo triste que canta o fado, que tem como herói Cristiano Ronaldo e que agora, que se aproxima Julho, se prepara para rumar à Praia da Rocha com as bermudas cerimoniais do ano passado e mais uma dívida ao banco. Os portugueses merecem essa atenção de V. Excelência, merecem a dádiva do seu silêncio. Mesmo os mais apoucadinhos merecem-no, são eles que dão mais atenção aos seus discursos, mas estimariam que v. Excelência não os desafiasse demasiado ao raciocínio – porque lhes custa pensar e, ao fim, não chegando a nenhuma conclusão aproveitável, admitem com angústia que a culpa é deles. Até ao 5 de Outubro, essa improfícua data, ainda o Sr. Presidente tem muito tempo para reflectir. E, se no entretanto pedirem a V. Excelência que proceda à inauguração de um jardim-escola, ou de uma azinheira, não aceite. Pode não parecer mas é uma coisa de alguma responsabilidade. E se aceitar, o que fará pela delicadeza que todos lhe reconhecem, alegue que está com uma laringite e não vai poder discursar. É bom para todos e em particular é muito importante para debelar a laringite.

As declarações públicas que V. Excelência tem pronunciado, com destaque para o discurso com que no 10 de Junho dedicou aos abismados portugueses ou as que, na mesma linha, dirigiu aos jogadores de futebol da selecção, foram notáveis. Roçaram o nível de profundidade que todos reconhecem em V. Excelência, conseguiram aliar a denguice desarmante à inocuidade com tanta mestria que todos aplaudiram. E, só por isso, porque não continham a perigosa sonsice com que V. Excelência arrazoou sobre as bandeiras LGBT, merecem algum reconhecimento. Infelizmente, é pouco. Ou, vendo as coisas de outra maneira, é demais.

Nenhum português ignora quanto tem sido desanimadora a vida política de V. Excelência. Sabem isso os académicos e as despreocupadas avezinhas do céu, sabem-no melhor e com activa perfídia os seus camaradas socialistas, eles que à frente de todos o projectaram para o sítio onde agora está, umas vezes em Belém e outras nas Caldas. Fizeram-no porque desejavam a sua vacuidade, tão universal como uma ficha USB que entra em todo o lado e se presta, por isso, a qualquer torradeira disfarçada de cidadania. Para o levarem a bem usaram expressões polidas como desiderato e múnus, mas havia neles apenas o desígnio escondido de prolongarem o entremez de V. Excelência num lugar onde se visse melhor. E, apesar de uma certa improbabilidade, também para o desanimar de um dia prescindir da presidência do país para se habilitar ao secretariado do PS.

Pode parecer ao Senhor Presidente que são palavras um pouquinho duras e apressadas. Não são. Elas só querem o bem de V. Excelência. Seriam evitáveis se V. Excelência estivesse servido por um staff que o estimasse, que lhe desse bons conselhos sobre assuntos de política e o encaminhasse a direito em questões de bom-senso. Não parece o caso e, mais preocupante do que essa falha de casting, é a verificação de que V. Excelência ainda não reparou nisso. É verdade que nem sempre as suas escolhas são catastróficas. A sua lista de nomeados para o Conselho de Estado é ternurenta – uma maioria de 3 em 5 ligada às ciências e uma minoria de 2 atolada no passado. A escolha, é certo, denuncia uma interpretação enviesada sobre os problemas de Portugal, que não são as questões biomédicas nem do mar. Mas oferece a imagem de um presidente preocupado com as esponjas, que se propõe compreender os lamelibrânquios e lê com atenção a National Geographic. Também revela, por oposição, que não lê com idêntico empenho os relatórios internacionais sobre demografia e migrações, sobre fragmentação identitária e outras ideias peregrinas. Assim tivesse V. Excelência verdadeiros amigos para o avisarem dessa lacuna.

Lembre-se V. Excelência que não foi eleito. V. Excelência foi repescado. V. Excelência é a Eritreia do hóquei no gelo – depois da desistência do Canadá, da falta de vistos da Suécia e do equipamento considerado impróprio da Finlândia. O caminho que abriram debaixo dos seus pés não se destinava a ir a lado nenhum, era para fugir de várias coisas tremendas – o fascismo, o discurso de ódio, a destruição do Serviço Nacional de Saúde, o encerramento das fronteiras, a violência policial e a proibição do aborto. Foi o que disseram a V. Excelência.

Vossa Excelência teve a confiança do Partido Socialista, se assim se pode dizer. O agradecimento que deve ao seu partido poderá ser dirigido simbolicamente à Dra. Marta Temido que não lhe deu o voto na primeira volta e lho atirou aos pés como o “único possível” na segunda volta. O bom gosto de V. Excelência não deixou de interpretar como deselegante essa temida resignação – e tê-la-á comparado, com indiscutível perspicácia, ao casamento de uma solteirona com o desafortunado da aldeia, a última oportunidade de não ficar para tia.

Vossa Excelência congregou o voto de inúmeras personalidades mediáticas do PSD. Mas não do PSD. Não deve alimentar ilusões sobre os seus propósitos. Todos eles são filhos temporariamente espúrios de um pai sem princípios e a quem preocupa apenas o que pode dizer a vizinhança. Foi-lhes dito, de modo explícito ou pelas sinalefas dos corredores, que podiam sair e andar com quem quisessem – senhoras de má vida ou carteiristas – desde que não aparecessem com eles lá em casa. Por causa do falatório. Outros não-socialistas, assim ditos, engrossaram aquele conglomerado social-democrata com as suas convicções momentaneamente transformadas na falta delas. O melhor que pode acontecer a V. Excelência é que uma quantidade suficiente desses seus apoiantes se mantenha sem pensar e sem vergonha durante os próximos 5 anos.

Vossa Excelência atraiu a simpatia do Partido Comunista, do Livre e do Bloco de Esquerda – aqui referidos em conjunto para que desse aproveitamento de restos se consiga uma quantidade da coisa digna de um parágrafo. Foi o Sr. Presidente muito feliz porque alcançou a união das esquerdas, uma das grandes utopias dos comentadores. Não foi necessário comover aqueles agrupamentos com a urgência de promover o Hamas à decência, aniquilar Israel e assumirem eles próprios a miséria moral do terrorismo islâmico. Bastou que V. Excelência não sugerisse nada em contrário, não afirmasse coisa nenhuma, não expendesse qualquer ideia e acenasse com a mão, que é como fazem os presidentes. Faltaram a apoiar V. Excelência o MRPP e o MAS, para citar os de maior implantação, assim como sobreviventes de uma esquerda histórica que desapareceu mas nunca estará morta: o PCP m-l, o PC(R), a LCI, a FER, a UDP, a OCMLP, o PT, o PUP, a FSP, o PRT, o PSR, o POUS, o PST, a FUP, os GDUPs… Mas nada apagará o mérito de V. Excelência em ter ajuntado na mesma bicha para a eternidade os netos de Estaline e os filhos de Trotsky.


Vossa Excelência ajuntou os votos de médicos, de católicos e de psicólogos. Foi elevado por 3 milhões e meio de portugueses mas alguns, aqueles, organizaram-se em listas identificados pela profissão ou pela fé. Não se conformaram com o anonimato corporativo, como fizeram os encadernadores, os enólogos e os cantoneiros. Ao dizerem quem são deixaram a V. Excelência a tarefa de saber se votaram no seu nome por causa de ou apesar disso. No primeiro caso imputam ao Senhor Presidente uma obrigação de especial estima, no segundo caso deve entender-se que lhe desvelaram uma subtil intimação. Ou pode não ter sido por nenhuma daquelas razões e V. Excelência terá sido vítima de uma mania possidónia de se juntarem as assinaturas de várias personalidades para que nenhuma delas exista por si e entregue à sua própria insignificância.

Vossa Excelência teve o apoio de artistas de todos os géneros. A lista de artistas é inclusiva, tem de tudo e não aparecem descriminados em alíneas. Mas sabe-se que em Portugal os artistas podem ser trompetistas da orquestra da Gulbenkian ou dançarinas mamalhudas de música pimba. Há-os que ganham esforçadamente a sua vida como funâmbulos itinerantes ou a escrever poesias que ninguém lê, e há os que moram em cidades abrigadas e celebram ajustes directos para o espalhamento de monos em rotundas. Considere que todos são artistas, cada um à sua maneira, e que o apoio que dão a V. Excelência significa uma confiança ilimitada em que não serão esquecidos. Há-de V. Excelência ter reparado que nenhuma lista de 500 personalidades ligadas à indústria e ao comércio apelou ao voto na sua candidatura. Que nem ao menos 100 agricultores declararam a expectativa cintilante com que vão acompanhar o seu magistério. Os cidadãos que não são artistas olham para V. Excelência e para aqueles que estão consigo, e inquietam-se – nem todos, só os que se indignam com o adiamento económico do país e a flacidez de carácter dos homens. Existem criaturas dessas, não leve a mal. É gente que considera com reserva os subsídios e as cotas, que lamenta as ninhadas de criaturas impudentes que se consideram artistas e estendem a mão. Os artistas que incorporaram a pedinchice do país, vêem a sua artistice com a cegueira narcísica dos incapazes, têm as suas habilidades na conta de uma variante da arte com o mesmo estatuto prebendário dos grandes estropiados. Pense V. Excelência nisso, se quiser arriscar uma dor de cabeça.

Fora do universo da esquerda também V. Excelência teve muitos apoios. É verdade que alguns declararam fazê-lo sem entusiasmo, uma carência das maiores que pode associar-se a um acto cívico, e outros fizeram disso, por pudor, um segredo de Polichinelo. Em quase todos, pela pressa com que acolheram a sua candidatura e pela declaração ostensiva de que também eles a iriam socorrer, foram notórios o medo e a resignação. Pode V. Excelência orgulhar-se das muitas figuras excelentes que acreditam em si, porque não têm mais nada em que acreditar proveniente de V. Excelência. Mas não deixe de reparar que é pouco de confiar, e nada higiénico, ter o seu magistério apoiado numa trupe de medrosos e borrados.

Vossa Excelência teve a pouca sorte de ter sido apanhado numa curva do mercado. Sabe-se que muito em breve vão aparecer modelos inovadores e mais caros. Por exemplo de automóveis, não é preciso ir mais longe. E ninguém quis arriscar muito. Todos acharam bem ajeitarem-se com um modelo usado mas com bom aspecto, fraquinho mas de confiança, incapaz de grandes velocidades mas poupado, sem fôlego para as ladeiras mas deslizando muito bem se for empurrado nas descidas. Foi nesse ponto que V. Excelência teve a sua oportunidade. Mereceu-a afinal de contas. Oxalá seja capaz de reflectir com dureza sobre o que o rodeia, que não é apenas o que vê mas também o que se esconde debaixo das saias de uma modernidade imbecil – não apenas o que lhe mostram mas também o que reclama coragem para ver e enfrentar. Surpreenda os seus amigos e eleitores fazendo o que eles não esperam: devolva a Portugal um pouco de dignidade, orgulho e princípios civilizacionais, justiça e vergonha na cara.

E deixe, Sr. Presidente, que o passado ilumine os seus passos. As oportunidades são raras, em particular a oportunidade de fazer alguma coisa boa debaixo do olhar expectante de um povo, um povo triste, conforme já assinalado anteriormente, um povo pobre e a empobrecer, atrasado e a embrutecer, ralo e a diluir-se. Esta é já a segunda oportunidade de V. Excelência. A primeira foi desaproveitada no próprio dia em que foi eleito presidente. Olhando para os pressupostos da escolha que o beneficiou, para quem o escolheu e para as razões porque o fizeram, podia muito bem V. Excelência ter ido embora naquela noite. Os dois terços de portugueses que não votaram em V. Excelência respeita-lo-iam por esse gesto de grandeza e desprendimento. E ficaria na História por ter recusado ser residual, ser apenas o que outros queriam que não fosse. Tente V. Excelência ficar de outra maneira, como o presidente que conseguiu ser mais do que aquilo que era.


Cartoons Jim Unger

 



The Spectator - The rise and fall of Tariq Ramadan

 


(personal underlines)

The rise and fall of Tariq Ramadan

There has been so much news of late that stories which might once have caused a splash have sailed by all but unnoticed. One in particular seems worthy of bringing into a greater light, not least because it has been almost entirely ignored by the English-language media.

Tariq Ramadan is the grandson of the founder of the Muslim Brotherhood. In recent years he was probably the most famous Muslim intellectual in the West. Last month, a court in Paris found him guilty of the rape of three women and sentenced him to 18 years in prison.

The case is the culmination of several trials since allegations were first made against him in 2017. Clearly expecting a guilty verdict, despite denying the charges, Ramadan broke a court order and skipped France. The 63-year-old is currently hiding out in Switzerland, claiming he was unable to attend his Paris trial because he is suffering from anxiety and depression linked to an alleged flare-up of multiple sclerosis. The court found him fit to attend. But now he has been sentenced, Ramadan will presumably continue to try to evade French justice and stay in Switzerland.

The trial was held behind closed doors due to potential witness intimidation. Ramadan and his defenders will doubtless continue to insist that he is the victim of persecution by an ‘Islamophobic’ justice system. But the most extraordinary thing about Ramadan is not his fall but his rise.

For a time in the 2000s and early 2010s, he was regularly referred to as one of the most important voices on the planet – certainly one of the most important Islamic voices. In many ways, this was a mystery.

Ramadan’s scholarly credentials were questionable and principally came from his being awarded a PhD by the University of Geneva. On multiple occasions he misrepresented the subject of his thesis – the political thought of his Islamist grandfather, Hassan al-Banna. It was initially rejected but seems to have been crowbarred through the academic system despite much opposition, not least because Ramadan was accused of having whitewashed much of his grandfather’s fascistic thought.

Ramadan’s French-Swiss accent and suave-ish demeanour impressed some people. But had he not come from Islamist royalty he would most likely have remained unknown. Fortunately for him he was born who he was and when he was – specifically coming of age at a time when the West had a deep need of ‘public moderate Muslim figures’ and a small supply of them.

This was how I first encountered him in the 2000s. I had helped arrange an English publication of Caroline Fourest’s Frère Tariq, in which the French journalist devastatingly showed how Ramadan spoke out of both sides of his mouth. To Islamic audiences he preached one message, to western audiences he told another.

On the rare occasions he was put on the spot, Ramadan was evasive. In a French TV debate in 2003, Nicolas Sarkozy – not then president – tried to get him to condemn the Islamic teaching that a woman should be stoned to death for adultery. The most he could say was he thought there should be a ‘moratorium’ on stoning for such a crime.

Ordinarily such talk would go down badly. But at around this time the situation in Europe was getting worse. After the 7/7 bombings in London in 2005, Ramadan was one of the Muslims appointed to the UK government’s counter-extremism taskforce. A number of us were sharply critical of this, but nothing seemed able to stop Ramadan´s remorseless rise. In television studios and debating chambers across many countries he and I debated and argued against each other for years. I once called him ‘my closest enemy’. He always came across to me as both fraudulent and cunning.

In 2005 he was made a professor at St Antony’s College, Oxford, and held a teaching position at the university right up until the first sexual assault allegations were made against him more than a decade later.

Why he should ever have been given such a position at Oxford was itself a mystery. One of the people who put him forward for the role once admitted to me that he had no knowledge of Ramadan’s academic history, nor his Islamist track record. So why was he appointed to St Antony’s? The college had always been known as the ‘spook college’. Was it a sign that parts of the Establishment had found a way to embed and elevate Ramadan? As the years went on, and no allegation or misstep seemed to touch him, that certainly became my own suspicion.‘Language! You’re not the President of the USA.’

As the relationship between Europe and its Muslims came under an ever-greater spotlight it was in the interests of officials, like those in the Blair government, to promote ‘moderate’ Muslim voices – whether they were actually moderate or not. Ramadan fitted a bill. One explanation as to why (until recently) no criticism or exposé of him ever landed is that he was simply too important to certain people.

When the Obama administration came into office in the US, Ramadan had an almost equally gilded ride. Past travel bans relating to his alleged funding of terrorist-linked groups and connections to extremists were forgotten.

From Athens to Oxford, whenever I encountered him I could never understand the entitled, arrogant attitude he projected as he mouthed evasive platitudes. It was as though he knew he was always going to be fine. Life was good to Tariq.

All of this has come to an end due to something I suppose not many people could foresee. But, as I say, the more striking thing about Ramadan is not his fall, but his rise.

He will doubtless appeal the French verdict. But I would be surprised if we hear much from him again. The accounts of his victims tell us too much about him. But the supply and demand problem that created him says an awful lot about us, too.


The Spectator - Meet the anti-Gretas: the women celebrating nuclear energy

 

(personal underlines)

Meet the anti-Gretas: the women celebrating nuclear energy

A group of female activists are optimistic that the planet can be saved. And why wouldn’t they be?

The Mothers for Nuclear campaign group gathers in Germany, 2022 (Photo: Paris Ortiz-Wines)

Over the course of their lives, Americans have an average carbon footprint of 1,200 tonnes of CO2. Paris Ortiz-Wines, a young woman from San Francisco, has already cancelled hers out. She could hop on a flight every week for the rest of her life, eat ribeyes at every meal and sip almond milk all day long, and still be in the clear. Back in 2021, Ortiz-Wines played a key role in the campaign that stopped the closure of California’s only nuclear power plant, Diablo Canyon. This has already saved more than 30 million tonnes of CO2 emissions. 

Ortiz-Wines is part of a new generation of women advocating for nuclear energy, even though surveys show most women are sceptics. Call them the Nuclear Power Rangers. Engineers, community organisers, influencers, even models, they have atomic levels of gumption and are helping move the dial on our most misunderstood energy source. And that’s not an easy mission: there are a lot of villains to blast into oblivion. 

Science unequivocally proves that nuclear power is super safe and super clean. But, as Oliver Stone argues in his eye-opening documentary Nuclear Now, it’s been demonised. For decades now, an unlikely tag team has sought to snuff out nuclear energy: oil lobbyists and pro-renewables green activists. The sworn enemies buried the hatchet to take down what each sees as the competition. Do-gooding celebrities, from Jane Fonda to Jackson Browne, joined in too.  

As a result, anti-nuclear disinformation has spread far and wide. Nuclear power, we hear, is expensive and unreliable. And, of course, it’s lethal. Accidents like Chernobyl and Fukushima are cherry picked when, in fact, nuclear power has led to fewer deaths globally than wind power, let alone oil or coal

Today, the atom supplies barely 9 per cent of the world’s electricity. (In the UK, the figure is 14 per cent.) Yet every passing day makes us realise how much more of it we need, whether that’s to combat climate change and reach net zero, power AI or achieve energy independence. 

True, public opinion is changing, but not fast enough. Nuclear power consistently garners less backing than renewables – and is especially unpopular with women. Polling commissioned by Radiant Energy Group has uncovered a ‘gender gap’. Across 20 countries, including the UK, just 26 per cent of women are for it. By comparison, 45 per cent of men are. Why? Richard Ollington, formerly at Radiant and now at Emys Energy, suggests this might be down to a heightened perception among women that it’s dangerous and dirty. 

Until recently, the nuclear industry did little to change the narrative. ‘We didn’t promote the value message’, says Heather Hoff, an operator at Diablo Canyon and the co-founder of Mothers For Nuclear. ‘It’s been, “We operate the plant safely and effectively, and we don’t talk to anyone about it. We fly under the radar.”’  

As such, the Nuclear Power Rangers figured they better fly high and perform aerobatics as well. There are, of course, prominent male advocates of nuclear power, but it’s women who are really leading the charge. In a male-dominated sector – only 24 per cent of employees worldwide are women – this might sound counterintuitive. And yet, just like in Silicon Valley, it’s often outsiders who disrupt ossified industries. 

Hoff started Mothers For Nuclear in 2016 with her Diablo Canyon colleague Kristin Zaitz because ‘our industry wasn’t good at communicating with women’. When the two learned that California authorities were decommissioning Diablo Canyon, they realised they had to step up. ‘We have, like, half our population that doesn’t support nuclear’, she remembers them thinking. ‘If we boost that up, we’re good to go!’ 

To that end, Mothers For Nuclear crafted an uplifting message: nuclear power will usher in a bright future. ‘I have this hope that, by supporting nuclear, that’s like the root of everything,’ Hoff says. Ortiz-Wines, who has spearheaded pro-nuclear campaigns in 32 countries, concurs. ‘Nuclear in general provides more societal benefits. And if we have healthy societies, that means we can have healthy humans.’ 

For the Nuclear Power Rangers, the medium is as important as the message. Take the model Isabelle Boemeke, who also had a starring role in the campaign to save Diablo Canyon. She produces social media content that entertains as much as it informs. In one viral TikTok video, she uses her skincare routine to debunk myths about radioactivity. Or take Jenifer Avellaneda, a nuclear engineer whose online moniker is ‘Nuclear Hazelnut’. Her posts use pop culture savvy, she tells me, ‘to make nuclear energy more approachable and more human’. 

It might seem an obvious strategy in hindsight, but the Nuclear Power Rangers were initially ignored by the very sector they were trying to boost. The campaign to save Diablo Canyon, for instance, received no industry funding. Cut to today, and companies are contacting Hoff and Ortiz-Wines for advice. It’s the ultimate form of vindication. ‘I think that’s huge,’ Hoff gushes. 

What’s also huge is the vibe shift in climate activism that the Nuclear Power Rangers are heralding. They are optimistic that the planet can be saved. And why wouldn’t they be? The stakes are too high to be mopey. Think of them as the anti-Greta Thunbergs. 

The green movement too often resembles a doomsday cult these days. Rather than offering solutions, they offer self-flagellation sessions to keep busy until the Rapture. No wonder that more and more young people suffer from ‘eco-anxiety’. Ortiz-Wines, who studied environmental science and came up in the environmental movement, can relate. ‘I felt so hopeless when I learned about climate change,’ she says.  

The good news is that we can solve the climate crisis if we massively scale up nuclear power. ‘Nuclear is inherently beautiful’, Ortiz-Wines concludes. ‘In dark times, when we think everything is going wrong, it is so refreshing to have a vision you can subscribe to’.

Observador - A gaiola das polémicas (Nuno Gonçalo Poças)

 


(sublinhados pessoais)

A gaiola das polémicas

Episódios que são o retrato fiel do que somos: um bando de saloios embrulhados numa bebedeira de positivismo legalista, de pacóvios que tremem de cada vez que surge alguém no redil com mais dinheiro.

Depois de uma pesquisa rápida no Google, deparei-me com várias. Há polémica na Casa do Secret Story e Liliana é o tema. A FIFA gerou polémica ao vetar o espanhol nas conferências do Mundial. O grupo musical Santamaria está impedido de tocar grande êxito, o que gerou, naturalmente, polémica. O vereador da CDU está envolvido em nova polémica por uso de carro da Câmara de Azambuja. António Pombeiro e Viegas Nunes serão ouvidos no Parlamento sobre a polémica do SIRESP. Houve polémica no Mundial: «Esta não é a Shakira, é uma sósia!». Há nova polémica no Mundial, agora com os hotéis. Kanye West celebrou o aniversário com um vídeo polémico protagonizado pela mulher. Já há solução para a realização do polémico jogo entre Irlanda e Israel. O polémico caso da Murtosa ficou por resolver? Auscultação pública sobre elevação da Póvoa do Lanhoso a cidade gera polémica política. Avenças em Resende geram polémica política. Polémica em Lisboa, com o PS a acusar Carlos Moedas de manter secretário-geral ilegalmente no cargo. Homenagem a Lula da Silva no Carnaval do Rio causou polémica. Os Bandidos do Cante falaram sobre a polémica com Israel. Nova estrutura da Câmara de Resende gera polémica política (algo se passa em Resende, assunto a que terei forçosamente de me dedicar logo que terminar este texto, e que agora até me parece mais interessante do que o assunto a que pretendo chegar e a que, tarde ou cedo, chegarei, não sem antes maçar o leitor com a curiosidade que agora Resende me deixou). Bom, polémicas sobejam, e era a duas delas, mais recentes e lamentavelmente mais lisboetas (na Estrela e na praia do Garrão, que é Lisboa em calções de banho), que me queria dedicar.

Não sei qual das duas polémicas chegou primeiro ao espaço público, mas para o caso a ordem é indiferente.

A primeira refere-se à discussão sobre a possibilidade de se colocarem chapéus de sol na praia em frente às áreas concessionadas. O Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente e a ministra do Ambiente, convergiram na mensagem: impedir os banhistas de colocarem guarda-sóis particulares em frente às áreas concessionadas é um comportamento abusivo. Ergueu-se um belíssimo debate sobre este assunto que atingiu o clímax com gente semi-despida a falar com repórteres de televisão, exibindo já o seu guarda-sol devidamente instalado em frente a umas espreguiçadeiras, utilizadas suponho que por gente rica que pagou por elas, e que, talvez por isso mesmo, talvez merecesse mesmo acabar com o pauzinho do guarda-sol enfiado no peito; e não deixámos ainda a famosa polémica sem comentários da Associação Portuguesa de Defesa do Consumidor, que rapidamente se colocou ao lado da APA e do Governo, não deixando de alertar para a miríade de multas a que está sujeito quem, podendo instalar o seu guarda-sol em frente aos coqueiros das concessionárias, se podia esquecer de que a selvajaria é ilegal, pelo que não é possível ouvir música através de colunas portáteis de forma a perturbar outros utilizadores (coimas entre 200 e 4.000 euros), não se pode praticar desporto fora das zonas autorizadas ou levar animais a praias onde não são permitidos (coimas até 550 euros), nem se pode fazer circular ou estacionar veículos motorizados pela praia (coimas entre 250 e 2.500 euros); e acabou, por fim, com a sugestão ministerial de que se fizesse um desenhinho à entrada de cada praia, para que cada um soubesse onde pode e não pode fazer o quê.

A segunda polémica refere-se ao quiosque do jardim da Estrela. Na rede social de Elon Musk, Pedro Marques Lopes afirmou que «Neste espaço no Jardim da Estrela havia uma esplanada com um café, onde gente conversava e jogava às cartas. Agora está um restaurante de luxo, com dois carros de luxo na frente. É um bom exemplo do que Carlos Moedas quer para a cidade.» Evidentemente, o Bloco de Esquerda já anteriormente tinha questionado o presidente da Câmara sobre possíveis alterações na concessão do quiosque e, descobrindo-se o atentado, a vereadora dos bloquistas exigiu explicações, invocando que a instalação de um restaurante de luxo afronta a ideia de jardim público enquanto espaço para convivência e lazer, devendo a sua utilização privilegiar o acesso universal, livre e não discriminatório por parte da população.

Suspiro.

Apetecia-me discorrer largamente sobre a famosa inveja nacional, sobre aquela ideia de que em Portugal o habitual é alguém ver o vizinho com um carro melhor e acabar não a desejar ter um carro igual, mas sonhando com o dia em que o vizinho fique sem o carro. Eventualmente salientar que aquele quiosque alegadamente acessível nunca o foi. Não vale a pena. Não vou convencer ninguém, estes dois episódios não são sequer verdadeiras polémicas. São o retrato fiel do que somos: um bando de saloios embrulhados numa bebedeira de positivismo legalista, que descura práticas de usos e costumes, um aglomerado urbanita de pacóvios que treme de cada vez que surge alguém no redil com mais dinheiro na bolsa. Talvez por isso as elites políticas, culturais, intelectuais, até mesmo financeiras, deste país sejam quem anda há anos a tentar convencer-nos de que quando chega um francês com dinheiro à Estrela, a cidade está em acelerada gentrificação, mas se chegar 1 milhão de desgraçados e mal pagos aos bairros onde a elite lisboeta sempre desprezou viver, isso passa a ser desenvolvimento cultural.

Entre polémicas que não o são, o que fica deste retrato é que Portugal é este território semi-ocupado onde prevalece a incapacidade de olhar para um rico como uma pessoa normal. Ou é definitivamente um explorador ou é um modelo indiscutível de sucesso. Nunca é apenas um cidadão que tem mais dinheiro. Da mesma forma, o pobre continua a ser tratado ora como vítima sagrada e irrecuperável, ora como problema social para cima do qual se atira dinheiro e ao qual se compram votos. Nunca como um ser humano completo. E fica ainda a certeza absoluta e inquestionável de que não há alma que não sinta um prazer imenso em exibir um certo sentimento de vingança social por quem pode pagar mais, nem há burguês lisboeta que não se sinta afinal um trambolho quando perde a possibilidade de frequentar os seus espaços de sempre, que já eram caros e inacessíveis à maioria dos transeuntes, e os perde para uma concorrência social de valor mais elevado. Tal como, por outro lado, não perde uma oportunidade para lamentar aqueles espaços que eram tão seus, como o Algarve, para onde se ia usufruir de praias desertas, com um rebanho de criadas atrás, vendo casinhas caiadas com dez filhos lá dentro a contar os dentes que tinham na boca, e que agora estão, desgraçadamente, cheias de gente sem maneiras, que come em buffets como quem tem a ilusão da abastança e pica melancias com um garfo embrulhado em guardanapos de papel.

Pelo meio, parecemos todos esquecidos de que a dignidade das pessoas não se mede pelo que tem no bolso, pelo que pode pagar, que não somos apenas o que temos. É possível que esta evidência nunca tenha sido sequer definitivamente instalada na psique colectiva, nem mesmo neste país que foi governado por uma ditadura durante meio século e que sofre de um viés de esquerda há outro meio século e que, afinal, nos brinda sempre que pode com a sua própria apologia da pobreza, já não apenas glorificada, como a de Salazar, mas também vingativa, como a dos incapazes, e que segue assim, de polémica em polémica, até ao ridículo final.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

The Spectator - HS2 is a national scandal

 (enviado a JSS) Espero que estejam ok.


Quando puderes e te lembrares, manda-me sites de universidades da "tua outra terra”, em que se discute, a sério, outros temas, sejam eles de engenharia ou de política.

Abraço


(personal underlines) - Lá como cá...

HS2 is a national scandal

The HS2 Bromford Tunnel (Image: Getty)

HS2 has never had the attention it needs and the scrutiny its scale demands. This is Britain’s largest infrastructure project, dwarfing the Channel Tunnel by a factor of around ten in terms of the cost and yet it has been allowed to bumble along as if it were the construction a little branch line to a Suffolk village.

Ministers come and go, civil servants stick their heads in the sand and the media gets bored with the story apart from covering protestors digging themselves under Euston or living in trees.

Now there is a brief focus on the scheme with the ‘reset’ which has been 18 months in gestation but I suspect that the project, which is costing taxpayers £7 billion every year, will again retreat back to the shadows. It shouldn’t this is a national scandal and disgrace and deserves far more attention than it gets.

Despite having covered this story since the construction of the line was first announced in 2009, the ‘reset’ revealed this week by Heidi Alexander tests my credulity.  I think it helps to set out the estimated cost in real numbers, as a ‘billion’ is still a nebulous concept. So Alexander announced the likely costs would be £102,700,000,000. Actually, my sources inside the scheme say that is a gross underestimate as it does not include the rolling stock, the depots and various other associated costs. Let’s call it £110,000,000,000.

But even taking Ms Alexander’s figure that is, give or take a few bob, £1,500 for every person in the country. For a 135-mile line that duplicates two other railways between London and Birmingham. Robert Stephenson who built the first one in the 1830s would be appalled.

Then there is the timeline. We are now told the line will not open until 2036 at the earliest, a mere ten years after the initial date. Probably that is being optimistic since she gave a range of dates stretching to 2039. That’s because Mark Wild, the new CEO, is a cautious fellow who, when in 2019 given the task of finishing Crossrail which had fallen behind schedule, refused to be committed to any precise completion date until very near its eventual opening in May 2022.

That project, which is now the very successful Elizabeth Line, was much criticised for being three and a half years late and at £19 billion, a mere 30 per cent above budget. How Wild would love to be in that situation. HS2 is currently set to cost at least three times its original estimate. And remember that estimate of £32.7 billion – admittedly at 2011 prices – was for the whole Y shaped HS2 to Leeds and Manchester, not the truncated version which I have dubbed the Acton to Aston shuttle, connecting Old Oak Common, five rather inaccessible miles by road from central London, with Birmingham Curzon Street, a mile away from the city’s main station, New Street.

Euston will not be reached, Alexander admitted, until the mid 2040s, although the tunnel boring machines are on their way there from Old Oak Common and due to emerge in a year’s time. As for the connection with Manchester, that simply ain’t going to happen and Leeds is an even more distant dream.

Alexander’s statement was accompanied by the publication of a very revealing assessment of the governance of the project by Sir Stephen Lovegrove who focused on the role of the civil service and of HS2 Ltd the company created to manage the project. His analysis uncovers a series of failings by both the board and the Department for Transport’s civil servants, in particular over the soaring costs of the project. The board, far from scrutinising why costs had soared, instead, according to Lovegrove, proselytised for the scheme: ‘the Board focused more on advocacy for high‑speed rail and maintaining visible progress on the programme rather than on rigorous delivery within the cost envelope’. As for the auditors, HS2 relied on the Government’s Internal Audit Agency (GIAA) which not only failed to provide Lovegrove with a full list of audits it had carried out but did not have the requisite skills to cope with such a large project which was, as he puts it, ‘beyond the capabilities of the GIAA to address’.

Given all this, and the well-rehearsed arguments about a scheme that had no clear remit, suffered from politically-motivated changes resulting in a ten mile tunnel under the Chiltern hills, and received insufficient scrutiny, it is still impossible to understand how come it needs another ten years and some £40-50 billion more to be spent on it. Ever those figures are vague estimates rather than real commitments.

Surely it should be possible to tell us when the damn thing will be finished and how much it will cost. Mark Wild has taken 18 months to produce his reset, which was expected to be issued last December, and still we do not have this level of detail.

Of course, the cheapest and quickest way to finish the project would be to do it quickly. But here I suspect the malign role of the Treasury is involved. The Treasury, rather understandably, does not trust the railways but worse does not really believe in them – seeing rail not as a vital part of the nation’s infrastructure but rather a bottomless money pit. This hostility means there is a lack of trust that ironically results in extra costs because of scrutiny of every detail but no overall assessment of the long-term overall costs.

Ms Alexander was quick to blame the previous Tory administration for the overspend and delay, and there is some truth in that. In Sally Gimson’s excellent book on the HS2 debacle published last year, she highlights the fact that only one of the many rail and transport ministers during their various administrations, Andrew Stephenson, took a concerted and detailed interest in the project. The rest just seemed to agree to the huge sums being spent without scrutiny or questioning why costs were soaring. 

However, one could also ask why it has taken 18 months to issue this reset and why Keir Starmer has shown no interest in the project despite its budget of £7 billion per year and the fact that a key part of it, the terminus at Euston Station is in his constituency. Last summer I met him at a social gathering and bearded him about Euston, informing him that my contacts there said that Labour was haemorrhaging votes over the chaos around the station. He responded to my warning with a dismissive ‘it’s all in hand’, something I knew was not true and, indeed, remains so since no plan for the new Euston station exists. Two proposed plans have been rejected as too expensive.

We need to hear from Starmer about what is going to happen at Euston and how he intends to improve the management of this out of control project. Otherwise Labour will have to share part of the blame for its failings.

Christian Wolmar’s book on high speed railways across the world, Fasts Track, will be published on July 23