sábado, 6 de junho de 2026

Livros novos - La Tyrannie sportive (Jean - Marie Brohm)

 Ao fim de dois meses de espera, e mesmo assim teve de vir da Irlanda...??





Cartoon - Jim Unger (Herman)

 







Almoço (Turma IST)

Em 05.06.2026 na antiga Casa Marítima com Fernando Freitas, Jacinto, Zé Monteiro, João Cruz, Zé Morgado e Jorge Matos






The Spectator - The British road trip is over

 (personal underlines)

The British road trip is over

The impractical lie of the open road

(Picture: Getty)

You set off on a spring morning, windows down, full of hope. Sunglasses, flasks of tea and a picnic rug are packed. You are ready to experience the freedom of the road, leave your worries in the rear-view mirror, put pedal to the metal (and every other optimistic road trip cliché).

Follow the brown signs to the Pembrokeshire Coast 200, South West 660, Wales Way, Antrim Coast Road or any of the other curated, promoted and hash-tagged routes now crisscrossing the UK. Whether it’s following the signs for the North Coast 500’s Highland circuit, starting in Inverness, or the Atlantic Highway through North Cornwall, thousands of us will head off this year in search of a mythical experience – the one we saw in the drone video of a couple in an open-top car winding between hedgerows.

You plan to potter across pretty Cambridgeshire, for example, marvelling at a panorama of floral verges, flint cottages and pretty churches. But it won’t be long until you arrive at Reality City, UK. That place where a crater suddenly swallows your front offside wheel. You might even plunge into the recent Cambridgeshire pothole filled with naan bread by an enterprising restaurateur — a culinary protest against council neglect (with a good bit of PR thrown in). Or if you’re really lucky, perhaps another Cambridgeshire crater, the one recently decorated with fake legs sticking out from the tarmac, serving as a surreal warning. Yes, really. 

Forget spotting charming buildings and wildflowers, driving is now about zigzagging on roads where any puddle could be hiding a suspension-destroying sink hole, waiting at temporary traffic lights by a tiny pile of earth where no-one seems to be working, or negotiating our draconian speed limits.

The only officially approved acceleration for motorists is now the rapid proliferation of 20mph limits, which only increase noise, fuel use and vehicle wear and tear, with little noticeable benefit. If your road trip takes you through a town you’ll be pleased to discover that a third of the UK’s urban roads now have this infuriating third-gear, 20mph limit that didn’t exist 20 years ago.

So, you find yourself standing next to your bent wheel in sunny Cambridgeshire, holiday punctured, naan bread smeared on your tyres, mannequin limbs poking from pitted tarmac, and you realise: this is the precise opposite of the road trip you imagined. 

Britain now has more than 42,000 speed humps, 8,000 speed cameras (more per mile than any European country) and more than a million potholesA third of UK drivers have reported vehicle damage from potholes, more than a fifth have reported speed bump damage and record numbers (around three million a year) are being caught ‘speeding’, including half a million who were driving under 30mphBritish driving is now about bus lanes, bike lanes, road-narrowing schemes and bollards.

In fact, we currently boast ten million traffic cones. We also now negotiate thousands of temporary traffic lights across the UK at any one time, increasingly deemed necessary for the most minor repairs. And there’s another recent road-speed record to celebrate: 500,000 miles of roadworks undertaken a year across the UK.

Add emission and congestion zones, low-traffic neighbourhood schemes and a stalled road-building programme and Britain has more cars than ever on roads that are worse than ever on every possible metric.

Yet the road trip continues to be promoted with missionary zeal. We have quietly filled our island with curated drives. County loops, heritage highways and coastal cruises are sold as open-road discovery. They are cheap to create and photogenic to market. It’s tourism without infrastructure. You can traverse the country entirely by branded loop, drifting from one logo to the next.

I say this with some professional guilt. I spent years devising, driving and promoting road trips. One assignment involved breaking the world record for visiting the most countries by car in a single day – 12, if you’re interested – and I researched, created, wrote and mapped the route for the South West 660. I have driven LeJog (twice), the new SWC 300 in Galloway and the beautiful Mourne Coastal Route. I’ve written books and articles celebrating the open road. 

Both travel insurance company ABTA and Booking.com report a global surge in self-drive holidays, part of a post-pandemic lust for independence and space. Iceland ring-road and Australian outback routes star in many 2026 brochures. This summer’s 100th anniversary of America’s Route 66 promises roadside celebrations and floods of tourists. While the US markets classic open highways, Britain adds more humps and 20mph zones. It’s the endless highway versus the endless roadworks.

Other countries still frame driving as a normal mode of mobility rather than a behaviour to be discouraged. Here humps, chicanes and pinch-points physically throttle roads once driven fluidly. The scenic drive has become a sequence of forced braking, its rhythm broken by design.

While tourism bodies promise open-road discovery, transport policy multiplies constraints and tolerates decay. The road trip survives vividly in the imagination — but it is an increasingly disappointing reality. 

Observador - Lucrar em vez de delirar contra os EUA (Pedro Caetano)

 



(sublinhados pessoais, intransmissíveis e deliciosos!)

Lucrar em vez de delirar contra os EUA

Trump pode ter sido o disruptor desagradável, mas necessário para travar a deriva despesista esquerdista europeia, mas Rubio pode vir a ser o arquiteto do Ocidente revigorado.

De Boston, onde residimos, observamos com uma mistura de perplexidade e satisfação financeira o abismo que separa a retórica dos comentadores portugueses da realidade imparável da economia americana. Para o investidor atento, o prognóstico é simples: cada vez que em Lisboa ou Bruxelas se profetiza o “fim da América” é mais uma oportunidade para reforçar a carteira bolsista americana!  Para quem como nós investe na realidade e verdade, a ficção e falsidade dos comentadores aí contra os EUA são uma dadiva que agradecemos.  Não só nos rimos dos delírios contra os EUA em praticamente todas as TVs e jornais lusos, como ainda por cima lucramos com tal ignorância coletivaChegamos a ver painéis em Portugal de 4 comentadores a ascenderem, num turbilhão conjunto, para um espaço louco hiperbólico, cada vez mais distante da realidade, como afirmarem que Gengis Khan anda à solta aqui nos EUA Não há um único entre eles que realmente viva nos EUA reais para os chamar à terra e sanidade. O contraditório é proibido.  Assim, para quem investe, tais comentadores são analistas ou corretores bolsistas gratuitos e uteis… se fizermos exatamente o contrário do que nos dizem.

Cada vez que na europa se profetiza o apocalipse americano, a NASDAQ (bolsa tecnológica americana) entra em promoção com saldos curtos (de poucos dias a um mês) de cerca de 10% de queda geral. Isto para logo depois subir a pique dada a realidade americana de liderança astronómica na inovação tecnológica.  Sumarizamos infra o padrão de quedas temporárias recentes ligadas ao pessimismo e maledicência europeia contra a América. Estas serviram de excelente ponto de entrada ideal para comprar ainda mais ações americanas.

O delírio europeu antiamericano versus a realidade bolsista americana:

Outubro de 2024: “Se os Republicanos forem eleitos será o fim da economia.” Só no dia a seguir às eleições presidências a NASDAQ subiu 3%. Desde aí cresceu 44%.

Janeiro de 2025: “O DeepSeek chinês é o fim da IA americana.”  Durante um dia ou dois as ações de companhias tecnologias líderes como a Nvidia estiveram em saldos de quase 20%. Desde aí a NASDAQ valorizou-se 37%.
Março de 2025: “As tarifas vão destruir Wall Street e a economia mundial.” Foi um mês de saldo para as ações, mas desde aí a NASDAQ aumentou 30%.

Outubro 2025: “A bolha da IA americana vai rebentar porque eles gastam muito em centros de dados” Desde aí até agora a NASDAQ ganhou 18%.

Março de 2026: “Os EUA estão a ser humilhados pelo Irão.” Só em abril essa “humilhação” rendeu 8% para quem comprou ações nos saldos de março.

Em cada um destes momentos de pânico televisivo europeu hiperbolizado em Portugal, comprámos ações americanas. Esperemos que 2027 traga um terceiro março consecutivo de saldos na bolsa a seguir a disparates europeus sobre os EUA.   Enquanto alegados intelectuais europeus discutiam a “decadência americana”, aqui acumulávamos bons retornos em simples índices NASDAQ e ganhos enormes até 1.000% (os famosos ten-baggers) nas ações das empresas que constroem o futuro tecnológico americano ligado à Inteligência Artificial: desde a ARM que faz chips com baixo consumo de energia, ou a Broadcom que faz a ligação entre chips, passando pela Lumentum ou Coherent que fazem a condução dos dados em fibra ótica, até à Vertiv e Confort systems que fazem ar condicionado refrigerado para os centros de dados de IA.

É que ao contrário dos ignorantes delirantes aí, nós aqui testemunhamos uma imparável inovação tecnológica e pujança empreendedora desde a acima referida inteligência artificial à maravilhosa biotecnologia que luta contra doenças neurodegenerativas, entre tantas outras áreas. Enquanto em Portugal se enchem as páginas dos jornais com insultos contra os EUA aqui em Boston vimos a Summit Therapeutics ou a Akero, por exemplo, a criarem mais riqueza num semestre de iniciativa privada americana do que décadas de subsídios europeus em Portugal. Aqui o mercado premeia novos tratamentos para o cancro do pulmão, não a submissão de mais um formulário fiscal para mais uma taxa ou subsídio. Vivemos aqui numa sociedade ocidental capitalista e de livre mercado geradora de excelentes companhias que promovem o bem público e respetivos empregos individuais bem pagos.  Segundo dados recentes do FMI, o americano medio ganha o dobro anual do europeu medio e quase o triplo do português medio; cerca de 80 mil euros, 40 mil euros e 30 mil euros, respetivamente.

Além disso há uma prosperidade geral através das contas de poupança e reforma ligadas à espantosa bolsa americana. Tudo isto aumenta ainda mais a divergência de riqueza entre americanos e europeus. Não admira que sejam os americanos, quando se reformam, muitas vezes bastante mais cedo que os portugueses (vide o movimento FIRE), a comprarem as melhores casas em Portugal. A justiça social mora cada vez mais nos EUA e cada vez menos na Europa cheia só de conversa social, mas com a pobreza cada vez mais alastrada e salários nivelados por baixo.

O segredo da maior prosperidade social americana é simples: a inovação tecnológica não quer saber da regulação asfixiante de uma Europa socialista e híper-taxadora. No mercado livre, o mérito e o esforço ditam as regras. Na bolsa americana a pujança continua imparável, esta semana foi a oferta publica de ações da Cerebras que fabrica o maior chip do mundo e em breve virão também os IPOs titânicos das ainda privadas OpenAI do ChatGPT, Anthropic do Claude e SpaceX.

A américa tem um futuro fantástico pela frente que a europa também pode ter se parar para refletir e aprender em vez de só, com uma arrogância ignorante e inexplicável, criticar. Seria, portanto, útil que em vez de só criticarem os EUA, os nossos comentadores parassem para refletirem no quão iludidos estão ou no quanto nos querem iludir e empobrecer ainda mais.

A degeneração económica da Europa socialista em relação à américa capitalista é assustadora. Os americanos podem não ter um líder ideal, mas livraram-se do “Costismo-Sanchismo” globalista socialista miserabilista wokista europeu encarnado por Kamala Harris nos EUA. Viram os resultados cada vez mais desastrosos de tais políticas desde Portugal e Espanha à Venezuela e Cuba, passando pela degeneração aterradora de cidades inglesas ou americanas outrora fantásticas como Manchester, Birmingham, LA, San Francisco, Seattle, Portland, Chicago, ou Minneapolis que caíram na mão de tais camaradas esquerdistas. Esperemos que o mesmo não aconteça a Londres e Nova Iorque que também já entraram em processo de degeneração socialista extremada à esquerda.

Felizmente para o mundo e para os investidores, na America o futuro líder é fantástico. Chama-se Marco Rubio, talvez venha a ser o líder perfeito.  Rubio é de centro-direita pois os pais, fugidos de cuba para os EUA onde ele nasceu, explicaram-lhe a miséria resultante dos contos de fadas comunistas esquerdistas.  Se Trump é um martelo pneumático, Rubio é uma luva de veludo. Rubio diz as mesmas verdades necessárias de os europeus ouvirem, mas com a sofisticação de quem compreende a geopolítica e diplomacia. A mensagem de Rubio para a Europa é simples e de “amor duro”:

Invistam na vossa própria defesa em vez de passarem a fatura aos contribuintes dos EUA.

Adotem uma política energética que sirva a economia e as pessoas e não só a ideologia.

Desçam os impostos e a regulação para permitir que a inovação tecnológica floresça.

Protejam as fronteiras para preservar a cultura ocidental e a sustentabilidade do Estado Social.

Rubio, com background hispânico, tem o potencial único de unir o eixo EUA-Europa-América do Sul sob uma liderança forte e orgulhosa da nossa tradição comum judaico-cristã e iluminista. Se Rubio conseguir reensinar a Europa a ser ambiciosa, mercantilista e livre de complexos woke, o Ocidente poderá voltar a caminhar unido, voltando a ser um excelente exemplo de liderança para o mundo.

Um dia podemos ouvir Rubio discursar na Alemanha contra os socialistas globalistas, como Reagan discursou contra os socialistas comunistas, a dizer a Friedrich Merz ou a Ursula von der Leyen (com o poucochinho Costa que escancarou as fronteiras e economia portuguesas a ter de ouvir):   “Deitem abaixo o muro que ergueram entre a Europa e os EUA. Acabem com o Abismo tecnológico e de poder de compra entre a Europa e os EUA. Parem com o suicídio económico e cultural.Trump pode ter sido o disruptor desagradável, mas necessário para travar a deriva despesista esquerdista europeia, mas Rubio pode vir a ser o arquiteto do Ocidente revigorado. Até lá, continuaremos a aproveitar os “saldos” em ações que as picardias e profecias europeias de desastre americanos nos proporcionam. Enquanto a Europa delira, nós lucramos. Ou seja, continuaremos a fazer o que os factos nos indicam: ignorar o ruído europeu e português e reforçar as posições bolsistas no país do mundo ocidental que ainda sabe o que é prosperar: EUA.


YOUTUBE - Deus, vaidade e morte: conversa de Karnal com uma IA (Leandro Karnal)

 A caminho do muro... (LBC)



Deus, vaidade e morte: conversa de Karnal com uma IA


quarta-feira, 3 de junho de 2026

Observador - A grande substituição (João Pedro Marques)

 


(sublinhados pessoais)

A grande substituição

Esta é a substituição da verdade histórica por uma narrativa pseudo-histórica que legitima as aspirações e metas políticas dos povos de outros continentes, em particular os de África.

Sim, eu sei que a expressão “grande substituição” se aplica usualmente à ideia de ultrapassagem demográfica das populações brancas, as tradicionais ocupantes da Europa, por vagas de pessoas vindas de outros continentes, gente que por via da imigração descontrolada e da subsequente alta taxa de reprodução biológica, poderá, segundo a antevisão, vir a sobrepor-se às populações que cá estão e a dominá-las. Mas eu aqui uso a expressão com outro significado, o da substituição da verdade histórica por uma narrativa pseudo-histórica que legitima as aspirações e metas políticas dos povos de outros continentes, em particular os de África.

Quando, no passado dia 25 de Março, a Assembleia Geral da ONU aprovou a aberrante proposta do Gana que caracterizou o tráfico transatlântico de escravos e a escravidão de africanos nas cidades, minas e plantações nas Américas como “o mais grave crime contra a humanidade”, e exigiu aos países ocidentais que nele se envolveram o pagamento de reparações, muita gente na Europa veio dar conta da sua oposição a essa aprovação e tentou demonstrar o mal fundado, tanto histórica como jurídica e logicamente falando, da referida proposta. Também em Portugal isso se verificou. Miguel Morgado, por exemplo, apontou com grande clareza a hipocrisia de tudo aquilo e criticou duramente a cobardia, ignorância e desorientação de uma Europa — Portugal incluído — que se absteve perante tão aberrante proposta. Eu também o fiz, primeiro preventivamente, antes da votação da proposta, e depois após a sua aprovação. Poderia ter escrito um terceiro artigo para apontar o dedo à desfaçatez da Rússia e dos países árabes, grandes traficantes e/ou utilizadores de trabalho escravo, que agora votaram a favor da exclusiva penalização da Europa, ou para apontá-lo com ainda maior veemência à hipocrisia do Gana, o patrocinador ou porta-voz desta aberração, e de outros países africanos que foram grandes actores do tráfico transatlântico de escravos, com o qual lucraram, e que agora vieram exigir ser ressarcidos, como se tivessem um passado angélico e impoluto nessa matéria. Mais. Poderia apontá-lo igualmente à falsidade ou duplicidade do governo de Angola, que após ter prometido, pela voz do seu Presidente da República, que nunca exigiria a Portugal o pagamento de reparações, apareceu agora, como membro da União Africana, a exigi-las. E não me esqueceria certamente de apontar também o meu dedo aos embaixadores europeus na ONU que em vez de se sentirem orgulhosos por representarem países que se tinham empenhado em pôr fim ao tráfico transatlântico de escravos, surgiam agora cabisbaixos, compungidos e encolhidos. De facto, como é possível que os países europeus — nomeadamente o Reino Unido —, não obstante reconhecerem e reafirmarem a impossibilidade e o erro de estabelecer uma hierarquia entre atrocidades históricas, e sublinharem que não há qualquer dever de reparação por acções de agentes históricos que não eram ilegais na época em que aconteceram, ainda assim se tenham abstido em vez de votarem frontalmente contra?

Porém, tudo isso seria inútil, um trabalho baldado, porque nada nesta tendência culpabilizadora e reparacionista é permeável à luz dos factos e dos argumentos. O que está aqui em jogo não é a lógica nem a verdade, mas sim a vontade política de mais uma vez relançar a esperança e ajudar os países de África a vencer os seus problemas internos como a pobreza, a saúde pública, a corrupção das elites, o atraso no desenvolvimento, etc. Houve, no final do século XVIII e primeira metade do século XIX, a convicção de que, terminado o tráfico transatlântico de escravos, a África se desenvolveria rapidamente e os europeus, com destaque para os britânicos, empenharam-se fortemente nisso, mas o desenvolvimento não arrancou como imaginado. Houve, depois, um reavivar dessa esperança com o fim do colonialismo e o movimento das independências, mas muitos dos novos países ficaram na mão de elites parasitárias e corruptas. Há agora, patrocinado pela ONU, um terceiro renascer da esperança e o desejo de canalizar, por intermédio das ditas reparações, mais fundos para os países africanos e caribenhos.

O problema é que a África e as Caraíbas não querem aparecer como entidades ajudadas, mas sim compensadas ou ressarcidas. Não querem actos de auxílio, de boa vontade ou beneficência, mas sim de reparação ou indemnização. Querem algo a que teriam supostamente direito, e para isso, para o justificar, precisam de forjar uma história em que surjam como indiscutíveis vítimas de um indiscutível algoz: a Europa colonial. Os dirigentes e ideólogos dos países africanos e caribenhos criaram esse bode expiatório para arcar com os males e culpas de todos os outros, e o que mais indigna é que ele caminhe voluntariamente para a imolação. Pior. Esse bode expiatório — a França, o Reino Unido, Portugal, etc. — produz ele mesmo, ou apoia paternalmente, os historiadores que operam uma sistemática cirurgia plástica dessa realidade a que chamamos passado, e forjam a narrativa que o vai condenar. Essas pessoas estão a falsificar a História, a substituir uma narrativa equilibrada — em História o equilíbrio é absolutamente fundamental —, alicerçada em documentos, por outra estribada em fantasias, mitos, omissões e apagamentos, e estão a fazê-lo com a anuência ou complacência dos poderes políticos ocidentais, que depois se encarregam de transpor essa narrativa falsificada, martelada, mutilada, para o ensino básico e secundário.

O processo de falsificação é relativamente simples. Há desde logo uma falsificação involuntária que radica na ignorância e nas confusões de alguns dos historiadores, assunto a que voltarei num próximo artigo. O processo passa também, mais frequente e astuciosamente, pelo apagamento propositado. Enquanto a historiografia séria e imparcial procura alargar o leque e a visão das coisas, para estudar e compreender a escravatura como fenómeno de quase todas as épocas e de quase todas as regiões terrestres — vejam-se, por exemplo, os vários volumes de The Cambridge World History of Slavery —, os historiadores revisionistas e reparacionistas restringem a escravatura ao tráfico transatlântico de escravos e às colónias criadas pelos europeus nas Américas no período que vai de meados do século XV a finais do século XIX. Apagam ou ignoram tudo o resto, mesmo o que diz respeito a África, como sejam a escravatura intra-africana e o comércio negreiro levado a cabo por árabes e outros muçulmanos, que, como é bem sabido, remonta ao século VII e que terá sido responsável pela captura, venda e transporte de 5,6 milhões de pessoas negras ainda antes de os navegadores portugueses terem chegado ao Golfo da Guiné.

Outro método de falsificação é o da imaginação criativa com vista a diminuir a dimensão humanitária e moral positiva do Ocidente. Vou dar um exemplo. Sabemos que a escravatura — toda ela, não apenas a que fluía através do Atlântico — terminou em consequência do grande movimento abolicionista surgido no último terço do século XVIII e que foi liderado pelos povos ocidentais, nomeadamente pelos britânicos. A importância desse movimento e dos seus principais impulsionadores (Wilberforce, Clarkson, etc.) não oferece contestação, nem mesmo por parte daqueles antigos historiadores de origem africana — como Eric Williams, por exemplo — que queriam minorar o peso da ideologia para fazer sobressair o do interesse económico. Mas os actuais historiadores revisionistas que defendem a ideia de reparação contam-nos outra história. Um deles, José Lingna Nafafé, sobre o qual já escrevi e voltarei certamente a escrever, quer fazer-nos crer que houve um movimento abolicionista africano (sic) anterior ao dos séculos XVIII-XIX. Nessa visão revisionista da História o abolicionismo teria, portanto, nascido em África. Outros, mais numerosos, tentaram e tentam vender a ideia de que a escravatura acabou não por iniciativa e esforço dos abolicionistas ocidentais, mas por acção dos próprios escravos que se revoltaram e lhe teriam posto fim. Ainda há dias pudemos ler, no Público, uma historiadora brasileira a difundir essa tese.

Trata-se de uma tese com pouco ou nenhum fundamento, que combato há 20 anos, tanto aqui como no estrangeiro. Mas estou a remar contra a maré porque muitas pessoas não querem ouvir nem pensar. Sim, é verdade que os melhores historiadores (David B. Davis, Seymour Drescher, etc.) concordam comigo, mas são pessoas nascidas nas décadas de 1920-40, alguns deles já cá não estão, outros estão retirados, e infelizmente há agora um batalhão de novos historiadores ao serviço desse revisionismo e apostados em alcançar e promover a meta das reparações. São eles, e os poderes académicos e políticos que lhes dão cobertura e acolhimento, que têm vindo a forjar uma História falsa, porque descaradamente amputada ou desequilibrada, e a fabricar a grande substituição da narrativa — e de um suposto saber — na qual as futuras gerações irão acreditar, e as desejadas e já tacitamente aceites reparações monetárias e outras se irão estribar.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Livros - Le nouvel ordre post - occidental (Alexandre Del Valle)

What a book! 















Observador - As Forças Armadas continuam à espera de que a Política preste Serviço! (Fernando Figueiredo)

 

(sublinhados pessoais)

As Forças Armadas continuam à espera de que a Política preste Serviço!

No fim, todas as tecnologias militares convergem para uma verdade antiga: nenhum sistema combate sozinho.

Durante décadas, a Europa habituou-se à confortável ideia de que a guerra era um problema distante, resolvido pela NATO, pela dissuasão americana e por uma espécie de “paz automática” garantida pela globalização.

O resultado dessa ilusão estratégica está hoje à vista: exércitos tecnologicamente sofisticados, mas com crescentes dificuldades em recrutar, reter e regenerar efectivos. A guerra na Ucrânia destruiu definitivamente essa fantasia do “fim da História” e obriga os países europeus a confrontarem-se com uma pergunta incómoda: se necessário, quem combate, quem mobiliza e quem sustenta uma guerra prolongada?

É verdade que os carros de combate se compram, as munições se fabricam, mas o capital humano militar demora anos a construir.

A guerra na Ucrânia já dura há quatro anos, mas só agora parte dos nossos deputados parece ter despertado para o estado real das nossas Forças Armadas (FFAA). E despertaram não por iniciativa própria ou visão estratégica, mas porque a tutela da Defesa expôs publicamente os efeitos das medidas tomadas pelo Governo AD que, não curando a doença estrutural, pelo menos conseguiram estancar a hemorragia.

Perante isso, assistimos a mais um episódio de ejaculação legislativa destinada sobretudo ao aplauso das respetivas bancadas parlamentares.

Muito ruido, pouca substância.

O problema é que conhecem mal a realidade que agora fingem descobrir e, pior ainda, não se deram ao trabalho de estudar o problema na profundidade necessária para perceber que não existe uma solução única para os três Ramos. A Marinha enfrenta desafios de recrutamento e retenção muito diferentes dos da Força Aérea. A Força Aérea compete com mercados altamente qualificados e tecnicamente agressivos. O Exército, pela sua dimensão e natureza operacional, sofre necessidades humanas incomparavelmente maiores. Misturar tudo no mesmo pacote de propostas é demonstrar desconhecimento absoluto da especificidade de cada Ramo. E, que tipo de FFAA vamos precisar em 2030? Já pensaram nisso?

Mais grave ainda: produziram essa legislação sem ouvir devidamente quem conhece a realidade operacional, os Chefes dos Ramos.

Numa instituição assente em cadeia de comando, experiência e conhecimento técnico, ignorar quem lidera diariamente as Forças Armadas é não apenas arrogante, mas profundamente irresponsável.

Tinham prestado melhor serviço ao país se tivessem optado pelo silêncio e pelo estudo sério do problema. Porque aquilo a que assistimos foi, em linguagem militar simples e direta, uma monumental bostada.

E convém recordar algo essencial: o drama dos efectivos não é exclusivo de Portugal.

Estende-se por toda a Europa. Espanha, Alemanha, Itália, Grécia ou França enfrentam dificuldades crescentes de recrutamento, retenção e ligação entre sociedade e defesa.

A diferença é que alguns países já perceberam que isto não se resolve com anúncios, slogans ou voluntarismo legislativo. Resolve-se com estratégia, cultura de defesa, valorização da condição militar e políticas diferenciadas para cada realidade operacional.

Vejamos alguns exemplos:

Na vizinha Espanha, as Forças Armadas espanholas mantêm cerca de 120 mil militares activos, mas enfrentam problemas crescentes de envelhecimento, dificuldade de retenção, salários pouco competitivos e forte dependência de contratos temporários. Madrid aboliu o serviço militar obrigatório em 2001, apostando totalmente num modelo profissional. O problema é estrutural: o sistema produz forças relativamente qualificadas, mas sem grande profundidade mobilizável. Ou seja: há capacidade para operações expedicionárias limitadas, mas não necessariamente para sustentação prolongada de conflito de alta intensidade.

A França continua a ser provavelmente o único país da Europa Ocidental com verdadeira cultura estratégica autónoma. Com cerca de 200 mil militares activos, força nuclear própria e tradição expedicionária permanente, Paris preservou a cadeia industrial militar e a capacidade de mobilização relativamente séria, mas também enfrenta dificuldades de desgaste operacional, recrutamento, competição do sector privado e erosão demográfica. Curiosamente, Macron reintroduziu o “Service National Universel”, embora em formato cívico e não militar clássico.

A mensagem política é clara: a França percebeu que a ligação entre sociedade e defesa estava perigosamente enfraquecida.

A Itália possui números aparentemente robustos, cerca de 170 mil efetivos, mas enfrenta forte envelhecimento, estruturas pesadas, baixa disponibilidade operacional e dificuldades de modernização.

O modelo italiano continua fortemente profissionalizado, mas muito dependente de carreiras longas e estruturas administrativas extensas.

Na prática, Roma possui dimensão institucional militar superior à sua capacidade real de projecção sustentada.

A Grécia é um caso muito diferente. Ao contrário de grande parte da Europa, Atenas nunca acreditou verdadeiramente no “fim das ameaças” até porque as tinha à porta.

A tensão permanente com a Turquia obrigou o país a preservar o serviço militar obrigatório, uma cultura de mobilização, uma reserva relativamente ampla e uma forte consciência estratégica nacional.

O efectivo activo ronda 140 mil militares, mas o mais relevante é a capacidade de mobilização reservista.

Num continente que desaprendeu a pensar guerra convencional, a Grécia continua a estruturar-se como país potencialmente mobilizável.

Talvez nenhum país simbolize melhor a crise militar europeia do que a Alemanha

A Bundeswehr com mais de 190 mil militares sofre há anos de subfinanciamento histórico, burocracia extrema, dificuldades graves de recrutamento, baixa prontidão operacional e problemas de equipamento.

Berlim aboliu o serviço militar obrigatório em 2011, precisamente no auge da ilusão pós-Guerra Fria. Hoje tenta desesperadamente reconstruir capacidade humana e industrial, mas existe um problema profundo: a cultura estratégica alemã pós-1945 tornou extremamente difícil a relação da sociedade com o poder militar.

A Alemanha percebe agora algo desconfortável: dinheiro sozinho não produz forças armadas funcionais.

No entretanto, a Europa acordou finalmente para os drones,

A, caças de sexta geração, sistemas autónomos e toda a parafernália tecnológica que alimenta conferências, powerpoints e brochuras institucionais. E tudo isso é importante, sem dúvida, mas o problema é que a Ucrânia demonstrou algo brutalmente simples: a guerra continua a consumir soldados a uma velocidade industrial.

E isso expôs a maior fragilidade europeia: a ausência de profundidade humana militar.

Os conflitos modernos exigem simultaneamente tecnologia, indústria, logística e… massa humana. A robótica ajuda. A IA ajuda. Os drones ajudam, mas continua a não existir algoritmo que ocupe terreno, segure uma linha ou substitua completamente vontade humana sob fogo.

A verdadeira questão, aquela cuja resposta se esperava dos deputados era outra:

como criar uma sociedade capaz de gerar resiliência militar nacional num contexto europeu de crescente instabilidade?

O debate dos deputados rapidamente degenerou em mais um exercício de vacuidade. E eis que surge um deputado do PS, num artigo de opinião no Expresso, iluminado pela habitual certeza sobre tudo o que mexe nas FFAA, a escrever uma mão cheia de nada embrulhada em linguagem de politiques

O mesmo PS que mais desinvestiu nas FFAA nas últimas décadas descobre agora, com espanto quase antropológico, que existem problemas de planeamento, retenção, previsibilidade, carreiras e capacidade operacional.

É sempre comovente ver incendiários regressarem ao local do fogo na qualidade de especialistas em combate a incêndios.

O “especialista da defesa” faz aquilo que a burocracia faz melhor: transformar obviedades em estratégia e diagnósticos em acção política. Fala de “celeridade”, mas a solução apresentada resume-se ao clássico receituário administrativo de mais estruturas, mais mecanismos, mais coordenação, mais plataformas, mais grupos de trabalho e mais camadas burocráticas.

Não existe uma ideia concreta e pragmática sobre efectivos, serviço militar, indústria de defesa, rearmamento, soberania estratégica, cultura de defesa ou mobilização nacional.

Nada.

Apenas linguagem de gestão cuidadosamente desenhada para agradar aos lambe-cus da militância partidária e produzir a ilusão de pensamento estratégico. E não satisfeito com a verborreia tecnocrática, ainda encontra tempo para criticar quem está, bem ou mal, a tentar resolver a herança desastrosa que deixaram para trás.

A certa altura quase se espera a criação de um grupo de trabalho para estudar a constituição de uma comissão de acompanhamento do observatório da previsibilidade operacional sustentável. E nada melhor para resolver os problemas estruturais das FFAA do que acrescentar mais três deputados ao já muito povoado Conselho Superior de Defesa Nacional, espaço onde, convenhamos, escasseiam sobretudo cadeiras. Oxalá a escolha parlamentar esteja à altura do momento histórico.

Seria particularmente enriquecedor ter:

um deputado do PCP a explicar, em plena discussão sobre ameaças russas, que a verdadeira solução estratégica continua a passar pela saída da NATO;

um representante do BE ou do Livre a propor transformar a Base das Lajes num hub eco feminista de observação climática e meditação transatlântica;

e a deputada “única” do PAN profundamente preocupada com o impacto emocional dos saltos operacionais nos cães dos paraquedistas.
Seria absolutamente extraordinário.

A este ritmo, qualquer dia o Conselho Superior de Defesa terá mais conselheiros do que militares disponíveis para mobilização, mas pelo menos ficará muito diverso, inclusivo e climaticamente resiliente.

Quem deixou as FFAA chegar ao estado actual devia apresentar-se primeiro com um pedido de desculpas antes de tentar posar como arquitecto da solução. O colapso dos efectivos, a degradação das carreiras, o envelhecimento das forças, a perda de atractividade e a erosão operacional não aconteceram por geração espontânea. Foram decisões políticas, tal como estas que agora propõem e que querem resolver com semântica, powerpoints e mais entropia no sistema. Infelizmente, a guerra real continua pouco impressionada com artigos de opinião.

Querem realmente ajudar?

Então sejam pragmáticos e aprovem rapidamente a melhoria das condições salariais nas FFAA.

Querem soldados?

Querem discutir seriamente um novo modelo de prestação do serviço militar?

É uma contradição quase caricatural no actual debate sobre defesa. Anuncia-se fundos e milhares de milhões para rearmamento, drones, caças, fragatas, etc mas evitam frequentemente discutir a questão mais básica de todas, quanto ganha afinal um soldado português?

E um europeu?

A realidade é desconfortável, e em muitos países da Europa, um militar no início de carreira ganha pouco mais, ou até menos, do que funções civis de baixa qualificação.

Um soldado espanhol em início de carreira recebe, em média cerca de 1.400€ líquidos mensais, a França paga melhor, na ordem dos 1919€ mas o ritmo operacional francês é muito mais intenso, na Itália, um militar em início de carreira ronda 1.300€ mas o sector privado começa a competir agressivamente por jovens tecnicamente qualificados, a Alemanha aumentou bastante os salários militares na última década, e hoje, um soldado alemão pode começar acima de 2.500€ líquidos e mesmo assim, a Bundeswehr continua com dificuldades de recrutamento. A Grécia paga relativamente pouco, 1039€, mas a sociedade grega mantém uma cultura de defesa nacional.

Portugal com os 961€ de entrada é talvez o caso mais crítico da Europa Ocidental e continua numa situação particularmente delicada. Mesmo com recentes atualizações, muitos soldados portugueses continuam a ganhar significativamente menos do que profissões industriais, a enfrentar progressão limitada e a suportar custos elevados de deslocação e alojamento. Claro que os suplementos salariais melhoram o panorama e não estamos tão mal como já estivemos no passado.

E o problema é só soldados? E a tabela salarial está ajustada para o que serão as FFAA do futuro? Um Pandur hoje precisa de um sargento, mas e um Boxer não precisará de mais? Um F35 precisa de quantos oficiais pilotos? E o novo navio multifunções não precisa de mais quadros do que praças? Os concursos para oficiais e sargentos contratados têm ficado com vagas com preencher porquê?

Durante décadas, a carreira militar foi apresentada como residual, temporária, pouco atrativa e até politicamente desconfortável.

Ao mesmo tempo, o sector privado aumentou salários e a tecnologia abriu oportunidades.

Hoje, os exércitos competem no mesmo mercado de trabalho e muitas vezes perdem. A Europa quer rearmar-se, mas começa lentamente a descobrir algo desconfortável, não existe defesa europeia sem pessoas dispostas a vestir a farda. E essas pessoas vivem no mesmo mercado imobiliário, no mesmo custo de vida, na mesma pressão económica e nas mesmas expectativas sociais que qualquer outro cidadão.

No fim, nenhuma estratégia de defesa resiste se um país estiver disposto a gastar milhões em drones… mas não em quem os opera.

Portanto, senhores deputados, talvez fosse prudente começarem pelo princípio: estudar seriamente como corrigir e ajustar a tabela salarial dos militares das Forças Armadas.

E isso significa que a discussão já não passa apenas pelo Ministério da Defesa. Passa e muito pelas Finanças.

Ou, se não têm pernas para resolver tudo, no mínimo resolvam o problema da legislação dos efectivos que continua por actualizar.

De que adianta o ministro da Defesa vir anunciar metas e ambições que ainda faltam 7.500 militares para atingir o efectivo legal de 32 mil, mas depois o próprio Estado cria bloqueios absurdos?

O Exército, por exemplo, tem cerca de 1.000 candidatos e, por falta de despacho legislativo nem as 150 vagas são preenchidas?

Pior: cerca de 400 candidatos reuniam condições para ser admitidos e não podem ser integrados porque a legislação parada numa gaveta não prevê essa excepcionalidade. E carreiras paradas ajudam? Se não há dinheiro sejam verdadeiros e não enganem os jovens, os militares e nem o País!

Há jovens que apostaram em seguir uma carreira militar e viram a expectativa gorada.

Naturalmente, isso cria um efeito negativo junto de outros potenciais candidatos. E a falta de planeamento agrava tudo: muitos estão empregados, precisam de respeitar a legislação laboral e dar aviso prévio de um mês antes de se despedirem, mas não sabem sequer se vão ser incorporados.

Não aprovam a revisão laboral, nem removem os bloqueios já identificados e depois admiram-se com as dificuldades de recrutamento. Percebem agora porque Nuno Melo saudou a inversão da queda como “notável”, mas pediu cautela “sem euforias”?

Porque há deputados na Assembleia da República e um ministro das Finanças que parecem viver num mundo completamente diferente da realidade das FFAA.

E um primeiro-ministro responsável por dar o murro na mesa ,,, tarda!

Acordem para a vida!

O mundo mudou, mas no fim, o país que preservar a ligação entre sociedade e defesa entram nesta nova era estratégica em posição muito mais sólida do que aqueles que acreditaram que a guerra tinha desaparecido da História.

Porque no fim, todas as tecnologias militares convergem para uma verdade antiga:
nenhum sistema combate sozinho.


Observador - O fim do mundo em calções de banho (Alberto Gonçalves)


 

(sublinhados pessoais)

O fim do mundo em calções de banho

Não são os “negacionistas” das alterações climáticas que colocam a Terra em risco: os alarmistas são um risco imensamente maior.

Há dias, li algures que a onda de calor matara sete pessoas em França, cinco delas por afogamento. Atribuí o absurdo a descuido do redactor da notícia e segui em frente. Sucede que em frente a notícia e o absurdo repetiam-se em todos os sites informativos: sete mortos em França por causa do calor, dos quais cinco afogados. De site em site, acabei por distracção no tenebroso “The Guardian”, que ao menos citava directamente o autor da frase, um porta-voz do governo francês em declarações à estação televisiva TF1. Lembrei-me da época da Covid, quando as preposições “de” e “com” se tornaram intermutáveis. Para efeitos de divulgação pública, era indiferente se uma pessoa morria “de”, por causa da Covid, ou “com”, porque casualmente tinha Covid no momento em que fora apunhalada pelo cunhado. O que importava era esticar os números para estimular o respectivo impacto junto das audiências. E para melhor “legitimar” a gravidade da maleita.

No caso dos afogados no calor, a maleita são as alterações climáticas, que logo inúmeros especialistas incluíram na certidão de óbito dos tais cinco franceses que, se removermos a histeria, aparentemente não sabiam nadar. Dado o precedente, em época de chuva será fácil culpar as alterações climáticas pelo atropelamento do sujeito que fugia dos pingos – e não o condutor distraído a trocar mensagens no telemóvel. Fácil e até recomendável, já que o único objectivo de todo o exercício é o de alimentar o pânico face ao carácter potencialmente destrutivo do clima, às mudanças registadas no clima, e à influência do homem no clima. Não é por acaso que as entidades públicas lançam avisos apocalípticos ante a proximidade de uma reles trovoada, ou que os gráficos das previsões meteorológicas passaram a ser de um vermelho satânico sempre que anunciam temperaturas acima de uns agradáveis 29 graus, numa evocação dos anúncios de medicamentos contra a azia que mostram o esófago em chamas. Também não é por acaso que o medonho planeamento urbano da maioria das nossas cidades é habitualmente esquecido na hora de identificar a responsabilidade pelas cheias. E de certeza não é por acaso que, nos intervalos dos serviços prestados ao Hamas, o secretário-geral da ONU se entretém a inventar termos apatetados (“ebulição global”, “inferno climático”, “bomba-relógio”, “carnificina”, etc.) para definir uma situação que se pretende séria. A finalidade é vender um produto.

Isto não significa que o produto seja fraudulento. À semelhança da Rennie, que julgo ser bastante eficaz, não é preciso questionar o peso da actividade humana nas alterações climáticas para questionar os métodos usados na respectiva divulgação. Pelo contrário: recorrer a truques de feira para exacerbar um fenómeno é que sem dúvida afecta a credibilidade do mesmo. Se o famoso “consenso científico” já demonstrou o essencial sobre as alterações climáticas, os seus fundamentos e as suas consequências, não me parece que mentir e distorcer as evidências ajude a que estas sejam mais evidentes. Insinuar, como fez o sr. Al Gore, a subida iminente de seis metros do nível médio do mar – e a submersão de Manhattan – apenas provoca o desprezo geral pelo facto de que os oceanos têm subido cerca de 3 mm por ano. E Manhattan, ou o que escapar ao sr. Mamdani, vai manter-se acima da superfície por uns milénios. Não são os “negacionistas” das alterações climáticas que colocam a Terra em risco: os alarmistas são um risco imensamente maior.

Os alarmistas, aliás, deviam fazer duas coisas. A primeira é parar de torturar a realidade de maneira a encaixá-la nas suas pretensões: por definição e feitio, a realidade não cede a torturas. A segunda coisa é dirigir o alarmismo para a China. O Ocidente pérfido e capitalista cada vez contribui menos para as emissões de CO2. Sozinha, a progressista China, com 6% da área terrestre e 17% da população, representa actualmente um terço da poluição carbónica. E os valores tendem a subir. Se fosse sincero o frenesim com o clima, os frenéticos passariam a vida a denunciar os abusos chineses, a exigir bloqueios à produção chinesa, a publicitar as calamidades que decorrem do consumo de tralhas chinesas. E não passam. Além disso, a sede da Climáximo seria deslocada para Pequim, e naquelas paragens os “activistas” cometeriam crimes com à-vontade, o à-vontade de quem se vê enfiado num calabouço após a transgressão inaugural.

A mim, que não nego as alterações climáticas nem perco o sono com as suas sequelas, tanto faz. A verdade é que o assunto importa-me muito menos que o circo montado em seu redor, um espectáculo de burlesco digno de atenção antropológica. No fundo, como me aborrece o frio, gostaria que as temperaturas subissem a ponto de poder desfrutar de noites caribenhas no meu jardim, com mojitos e tudo. Infelizmente, não terei tamanha sorte. Se por milagre eu chegar a octogenário, na perspectiva catastrófica as temperaturas terão subido meio grauzinho, ainda longe do Caribe. Quanto ao planeta, é garantido que um dia acaba. E, com ou sem alterações climáticas, acabará num tempo tão distante do meu que, salvo talvez umas paisagens bonitas, entretanto não restará sombra da memória de ninguém nem de nada que hoje me seja familiar. O nosso mundo está sempre a prazo, curto prazo. Por isso, sigam o conselho britânico da II Guerra, relaxem e aproveitem o sol de Maio. Mas antes aprendam a nadar.


domingo, 31 de maio de 2026

Musica - Death Don't Have No Mercy (Remastered - February 1988)


 






https://www.youtube.com/watch?v=0LHRTgngzfo&list=RD0LHRTgngzfo&start_radio=1

The Spectator - Politics has robbed Eurovision of its silliness

 

(personal underlines)

Politics has robbed Eurovision of its silliness

Harmless, autotuned fun has turned into something sinister

Yuval Raphael performing for Israel last year. (Picture: Fabrice Coffin / AFP)

Here we go again. Every year, with the inevitability of death, taxes and political regicide, the BBC’s Eurovision coverage reminds viewers that most pop music produced in European countries is of a terrible standard, and that our country’s banal offering is never going to inspire any patriotic fervour. This year, British hopes are pinned on an electropop act called Look Mum No Computer, with a truly terrible sub-Depeche Mode song called ‘Eins Zwei Drei’ that contains the lyrics ‘Counting in English doesn’t cut the mustard / So sick of munching roly-poly with custard.’ Don’t call me Cassandra, but I suspect that Look Mum No Computer (real name: Sam Battle) will be receiving rather fewer than drei punkte from many of the international judges.  

However, Eurovision is what it is. Since it began in 1956, it has produced the odd brilliant song (most notably ‘Waterloo’ and Sandie Shaw’s ‘Puppet On A String’), along with a huge amount of dross, much of which is forgotten immediately after it is performed. And every year, there are the usual political and nationalistic shenanigans, more pronounced than ever this time round, as several countries including Ireland, Spain and the Netherlands are refusing to participate in the contest in protest at Israel’s inclusion in the event. Similar uproar arose last year and ultimately resulted in the Israeli singer Yuval Raphael – a survivor of the October 7 attacks – having protesters attempt to storm the stage as she performed her song ‘Brand New Day’.  

In the event, Raphael came second and won the public vote. Some have suggested that the reason why she didn’t win was because of anti-Israeli bloc voting by juries; others surmised that the reason why she came top in the public poll was because of Israeli government social media pressure for their citizens and sympathisers to vote for her. In either case, it was clear proof that, for all Graham Norton’s arch eye-rolling and sarcastic one-liners when he presents the BBC’s coverage, the event is far from a bit of harmless fun, and that there is a real sense of aggression lurking beneath the kitsch and autotuned pop songs.  

This aggression is increasingly channelled by many of the most fervent viewers of Eurovision, who spend every year preparing for their very own slice of organised fun. If you can be bothered to check social media, you will see a certain kind of person assembling with like-minded friends in large groups to watch Eurovision, dressed up in costumes and armed with brightly coloured drinks and snacks, and determined to laugh along as to how CRAZY! and ZANY! and MAD! it all is. That many of these people are the kind of characters who will use hashtags like #PrayForGaza and think that Zack Polanski is the answer to all our prayers will give you a fairly good idea of their politics. It is a fair bet that some of the most fervent will themselves be ostentatiously boycotting this year’s event – or, perhaps, taking a leaf from the Irish national broadcaster RTÉ’s book and instead watching the famous Father Ted Eurovision episode, ‘A Song For Europe’.  

That episode, incidentally, featured two Neil Hannon-penned songs, ‘The Miracle Is Mine’ and, of course, ‘My Lovely Horse’, which are infinitely better than virtually anything that you will hear this year. They are supposed to be funny, and they are, but they’re also superbly crafted songs: unsurprising, really, given that Hannon is one of the greatest living songwriters, who also, casually, produced another Eurovision send-up, ‘Trafalgar’, that skilfully parodied all of the silliness and excess of the novelty pop on display. (‘Oh-oh-oh Trafalgar, I’m looking through the wrong eye at ya’, etc.)  

In a sense, Eurovision is far beyond parody. So ridiculous and so absurd are many of the acts who come forth to do their patriotic duty, only to hear the predictable clang of ‘nul points’, that they bring shame on their families and their names. But it is the spectacle of the braying Eurovision fanatics, who live for this Saturday night absurdity, that transforms the whole affair from being simply an inconsequential piece of silliness into something more unsettling.  

At best, you want to say to these people that they should find a more worthwhile means of channelling their desire to have a good time. But as their increasingly anti-Semitic and anti-Israeli chants drown out the plasticised choruses, it is not hard to feel that Eurovision’s most committed supporters are no longer the kind of people who you would want to sing from the same songbook as, even if the lyrics are as banal as our entry’s: ‘I’ve always been a fan of aviation / I’m jumpin’ on a plane to another nation.’ Not to Israel, probably.   

The Spectator - Spare me the adolescent mush of Dear England

 

(personal underlines.

LBC - there in UK,...as here...)

Spare me the adolescent mush of Dear England

Joseph Fiennes as Gareth Southgate in Dear England (Image: BBC)

The football season lurches into its final week, with Arsenal, the newly-crowned champions of England, trying to win their first Champions League trophy. But there will be no summer-long reprieve from the round ball game. A World Cup begins next month in North America, and dozy folk who fail to pay attention may hear a knock on the door at midnight. Only 48 teams this time. What fun.

If there’s a World Cup you can bet your last farthing there will be a ‘conversation’ about ‘national identity’. The BBC have already cleared their throats, with a four-hour adaptation of James Graham’s stage play, Dear England. That’s three hours too many.

Meanwhile David Baddiel, the comedian-philosopher, has launched a six-parter on Radio 4 called Sixty Years of Hurt – 60 years, that is, since England won their only World Cup. Baddiel co-wrote a song for the 1996 European Championship which measured ‘30 years of hurt’, so only one word requires revision.

Fingers on the buzzers, therefore, to spot the jargon and self-congratulatory twaddle favoured by the faux-patriots of television. In the realm of replica shirts and twirling scarves the game is always ‘beautiful’, and ‘Ingerland’ always ‘we’.

The zealotry occasionally bolsters spirits. In 2010, when Germany caned England’s ‘golden generation’ 4-1 in Bloemfontein, the BBC commentator Guy Mowbray sounded close to tears. ‘How many Germans’, he wailed, bottom lip a-quiver, ‘would get in the England team?’ The answer, flung back from thousands of living rooms, was brutal. ‘All 11, matey’.

Graham’s bloated drama, quarried from his 2023 play at the National Theatre, is unconvincing. The writer, as ever, tries to cram a quart of sentimentality into a pint pot in his search for ‘significance’, with predictable consequences. Viewers learn a lot about him, and nothing worth knowing about England.

In a drama about identity, personal and national, it might be a good idea to get the small details right, but Graham’s grasp of football is loose. In another TV drama, Sherwood, one of his characters refers to ‘Notts’ Forest. Oh dear. In Nottingham, the city closest to Graham’s hometown, that error is unpardonable.

He presents Gareth Southgate, England’s manager, as a secular saint, and the players as urban warriors with hearts of gold. The real Southgate is indeed impressive, and some of his players did come from rough streets, but the dialogue, with its ‘caring and sharing’, is adolescent mush.

Graham’s heart may be in the right place, even if his pen is not. Clever-clogs Baddiel, who gets a nosebleed every time he steps north of Dollis Hill, has never yet met a cliché that did him harm. So our national anthem is ‘a hymn to power’, our country ‘fractured and disparate’, and our suspicion of non-conformists as English as Dandelion and Burdock.

Even Association Football, drawn up in 1863, represents ‘another form of imperialism’. A fairly benign form, he must admit, because the world has not withheld its gratitude.

Roping in a few tame ‘historians’, he rolled out that old favourite, ‘class barriers’. One of those historians pronounced Bobby Moore, the victorious captain in 1966, guilty of ‘deference’ for wiping his hands before he accepted the trophy from the Queen. To most people it was good manners.

To borrow a phrase from Karl Kraus, Baddiel has nothing to say and is determined to say it. He knows little of England, and even less of football. Anybody who believes that Rodney Marsh, a Seventies boulevardier, should have been the first name on the team-sheet has an imperfect understanding of what constitutes a team. Mavericks don’t win tournaments.

Despite that glorious July day in 1966 England has always been a middle-ranking football nation. The game this country helped to create has been defined in its highest moments in continental Europe and South America.

If we’re being truthful England has produced two outstanding teams (1966 and 1970), and six great players: Tom Finney, Stanley Matthews, Gordon Banks, Bobby Charlton, Jimmy Greaves and Moore. There can be no comparison with Germany, Italy, Argentina and Brazil.

But the chest-beating is about to begin, and don’t be surprised if our Prime Minister pulls on a beautifully laundered replica shirt to send the valiant lads into battle. There will be talk of ‘pride’ and ‘passion’. There always is, in other lands, and other sports. Football is one game among many.

England has given so much of value to the world, and sport is part of that bequest. The great team games, and most of the individual ones, are English in origin. But football should never speak for England, no matter how fiercely metropolitan comedians press the case.