sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Reflexão - Miguel Morgado sobre a novela Ronaldo /Jesus (LBC)

Miguel Morgado define, no programa "Linhas Direitas", com muita precisão, o que se passa hoje em dia com o desporto profissional mas, sobretudo, com o futebol.




https://www.youtube.com/watch?v=4ytvvnY0Ocw&t=24s



Observador - Uma geração infantilizada? (Rodrigues do Carmo)

 


(sublinhados pessoais)

Uma geração infantilizada?

Ser-se adulto começa quando cada um percebe que pode pedir, protestar e discordar, mas isso implica também propor, escolher, trabalhar, perder e pagar.

Em França, a pretexto de problemas nos liceus, adolescentes, jovens e adultos de várias etiologias, muitos com bandeiras da Palestina, keffyehs e estandartes com foices e martelos amalgamaram-se num frenesim de violência que ganhou momentum e se transformou num protesto contra já não se sabe bem o quê. Pelo caminho, escolas são bloqueadas, equipamentos destruídos, carros incendiados, e pessoas agredidas.

A questão que me interessa neste artigo é em que momento se passa de uma da reivindicação concreta para a convicção de que reclamar, exigir, incendiar, destruir e agredir é uma estratégia eficaz para resolver um problema de mobiliário escolar, falta de pessoal para arrumar as cadeiras, ou sequer exorcizar frustrações.

Conhecemos todos a típica cena de supermercado.

Uma criança birrenta vê um chocolate e reclama-o. Os pais explicam que não pode ser. O infante berra, bate com os pés, atira com o brinquedo ao chão,  e os pais fazem um esforço e cedem, para salvar a tarde, a reputação e os tímpanos. A criança, vitoriosa, aprende a magnífica lição de que berrar compensa e a intensidade do grito é um argumento vencedor. Repetido durante anos, o método produz adolescentes, jovens e adultos que já não chamam “mãe” à entidade encarregada de satisfazer os seus desejos, mas sim “eles” ou “Estado”.  E, quando o Estado não lhe dá o que eles exigem, os adultos infantilizados berram, fazem birra e usam o contentor em chamas como estratégia de conseguimento.

Convém distinguir um direito, de uma vontade a que se juntou um megafone. Ter professores,  segurança e certas condições são exigências inteligíveis, razoáveis, e os impostos servem para isso. Querer tudo imediatamente, sol na eira e chuva no nabal, sem escolher prioridades ou pensar em custos, é outra coisa.

A educação, em certos meios confortáveis do Ocidente tem procurado eliminar a frustração da infância. A derrota agride a autoestima e causa ansiedade, uma nota má é culpa do professor, um obstáculo é violência estrutural e a palavra “não” necessita de acompanhamento emocional e “espaços seguros”. Chegados à universidade, alguns destes “snowflakes” dominam já completamente a linguagem dos direitos e mostram-se pouco preparados para ouvir falar de deveres, dificuldades, escassez ou concorrência.

A psicologia conhece a sobreprotecção parental, ou educação “helicóptero”, feita por pais que removem todas as dificuldades aos filhos, levando-os à incapacidade de aprender a decidir, falhar e corrigir o rumo. Não é uma doença nem explica uma geração inteira, mas ajuda  a compreender o hábito de berrar e fazer birra, a pedir a atenção de uma figura paternal providencial, sempre que surge um obstáculo.

Em Portugal, em 2023, grupos climáticos ocuparam escolas e instituições públicas para exigir o fim dos combustíveis fósseis até 2030 e electricidade totalmente renovável a prazo ainda mais curto. O tema merece ser discutido, mas bloquear a porta de um ministério, ou sujar com tinta o fato de um político, dispensa essa parte maçadora que exige menos esbracejar e mais folha de cálculo.

Nos acampamentos universitários palestinianistas, exigiu-se o corte de ligações a instituições israelitas. No Instituto Superior Técnico chegou a propor-se o fim de um mestrado conjunto em Neurociências e Ciência de Dados. A ideia de sinalizar virtude exigindo a supressão da cooperação científica tem tanta lógica e eficácia como  apagar um incêndio destruindo a biblioteca. Mas para certos manifestantes, a reitoria devia obrigatoriamente produzir uma solução para o Médio Oriente até à hora de fecho da secretaria e o mestrado que se cancelasse, quanto menos neurociências, menos dores de cabeça.

A febre dos pronomes oferece outra variante. Tratar uma pessoa pelo termo que ela acha ser-lhe devido é uma cortesia a decidir por cada um. Já a exigência de transformar cada preferência individual numa obrigação universal, administrada por circulares, formações e vigilantes da linguagem, é outra conversa. Há um problema quando a delicadeza voluntária se converte numa exigência de submissão do outro. O respeito deixa então de ser recíproco, porque se exige ao outro que se adapte sem reservas, enquanto se declara ofensiva qualquer pergunta.

A exigência do “façam alguma coisa”, já saiu da universidade e entrou até no futebol.

A Irlanda, um caso patológico de antissemitismo, jogou há dias contra Israel, mas a sua selecção de futebol decidiu acompanhar os jogos com gestos de protesto, braçadeiras negras, cabeças baixas durante o hino adversário e ausência de apertos de mão. O seleccionador Hallgrímsson, cheio de si, encheu a boca com a patacoada de dizer que a equipa jogava “contra o genocídio”. Seguiram-se críticas, conferências de imprensa incómodas e dois encontros tensos. No fim, incapaz de aguentar a frustração de não ser universalmente amado e aclamado por aquilo que acreditava ser uma manifestação de virtude, pediu que a UEFA evitasse novos emparelhamentos entre Irlanda e Israel, invocando o bem-estar dos jogadores.

O princípio é delicioso: sinalizamos virtude, fazemos birra, somos grosseiros, transformamos um jogo numa declaração política e exigimos à UEFA que nos poupe às consequências, à crítica, e que actue como um Serviço de Apoio ao Desconforto Autoproduzido.

Há ainda a política do “alguém que pague”.

Na sua versão infantil, o socialismo é a crença de que o Estado possui um cofre inesgotável, escondido atrás do retrato do Presidente da República, e só não distribui casas baratas, bons salários e serviços perfeitos, por maldade ou distracção. Para o adulto essencialmente reclamador, “eles” têm dinheiro que não nos querem dar, e existe uma abstracção inesgotável chamada “os ricos”, categoria apta a financiar todas as promessas. O programa tem a simplicidade do chocolate no supermercado, é só preciso exigir e reclamar, de preferência com a cara coberta por um lenço da moda intifada-chic e a  pergunta “quem paga?”, é uma intolerável provocação reaccionária e fascista.

Manifestar-se é um direito importante, claro, mas uma multidão não substitui uma demonstração, e um cartaz não é um plano. Agir em manada faz muitos destes adultos infantilizados sentirem-se corajosos, sem assumirem qualquer responsabilidade individual. Cada um grita e exige tudo, mas poucos dizem quais das suas exigências sacrificariam para tornar possível a primeira.

Seria injusto, reconheço,  transformar esta caricatura no retrato de toda uma geração. Há jovens que estudam a sério, trabalham, criam empresas, cuidam de familiares, fazem investigação ou servem os outros sem pose no Instagram. Talvez sejam poucos os que escapam à armadilha da facilidade, mas são estes que resolvem problemas, pensam soluções e melhoram realmente a vida de todos. São muito capazes, embora menos visíveis porque, em vez de fazer birras em manada, estão ocupados a construir coisas.

A verdadeira infantilização não consiste em ter vinte anos e fazer disparates, porque isso sempre aconteceu, inclusive aos velhos de hoje. Consiste em ensinar alguém, durante vinte anos, que o mundo existe centrado em volta do seu umbigo, com o único propósito de lhe evitar contrariedades.

Ora ser-se adulto começa quando cada um percebe que pode pedir, protestar e discordar, mas isso implica também propor, escolher, trabalhar, perder e pagar. Sem essa descoberta, será toda a vida um “activista empoderado” e fará carreira como deputado do BE ou do Livre, se tiver sorte.

Ou como uma criança com cartão de eleitor, a servir de figurante nos rebanhos habituais, a chamar injustiça à distância entre o que deseja e o que está disposto a fazer para o conseguir.

Observador - A intifada em França (Rui Ramos)

 


(sublinhados pessoais)

A intifada em França

A associação com o radicalismo islâmico, em regiões de grande migração muçulmana, deu à extrema-esquerda uma força como nunca teve desde os anos 1970

Os noticiários dizem que os estudantes franceses saíram à rua para exigir mais despesa em educação. Mas estes estudantes, que querem mais meios para o ensino, incendeiam as escolas. Queixam-se da falta de professores, mas agridem e regam com gasolina aqueles que apanham. São franceses, mas marcham sob as bandeiras da Palestina e da Argélia. Nos seus ajuntamentos, escutam e aplaudem os deputados e vereadores da extrema-esquerda. Entretanto, já atacaram esquadras e feriram mais de 700 polícias.

Não estou a dizer que não haja problemas na educação em França. Deve haver, porque sempre houve, apesar de a despesa com o ensino público ser a mais elevada de todos os tempos. Também não estou a dizer que não haja gente na rua inspirada apenas por essa causa. Deve haver, tal como deve haver simples curiosos. Mas como os serviços de informação já concluíram, o motor da campanha de violência é o partido da extrema-esquerda La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon. Podemos perguntar onde quer chegar Mélenchon. Mas antes, convém perceber onde já chegou.

A extrema-esquerda no Ocidente assenta agora numa parceria entre activistas estudantis intoxicados pelo professorado esquerdista, e fundamentalistas islâmicos. O islamismo radical aproveitou a incapacidade de integração do Ocidente, tolhido pela auto-abjecção wokista, para transformar os migrantes muçulmanos num bloco de votos de cabresto à antiga. Por enquanto, os jihadistas preferem usar a extrema-esquerda como barriga de aluguer política. Eis como Die Linke na Alemanha, o Green Party na Inglaterra, ou La France Insoumise elegem deputados e vereadores. Foi para consolidar essa aliança que a extrema-esquerda fez de Gaza a sua grande causa, e do anti-semitismo a sua filosofia.

Em França, Mélenchon parece ter concluído que o jihadismo, ao pôr à sua disposição os jovens da imigração dos subúrbios para juntar nas ruas aos estudantes e aos “casseurs” esquerdistas, lhe deu mais um recurso: a “intifada”. Para quê? Nas presidenciais de 2027, Mélenchon gostaria de ir a uma segunda volta com Marine Le Pen. Perdesse ou ganhasse, submeteria toda a esquerda à sua liderança. Não poderá então o actual ensaio de violência emprestar-lhe fama de desordeiro e prejudicá-lo? Não necessariamente. Dá-lhe apenas outra opção. Imaginemos, por exemplo, que Le Pen é eleita. Mélenchon lança a intifada, e das duas, uma: ou uma presidente Le Pen recorre à força para conter a insurreição, e Mélenchon denuncia o “fascismo” e exige às elites francesas que provem ser “democratas” juntando-se à sua “luta”; ou Le Pen cede, exibe a mesma fraqueza de todos os governos franceses dos últimos 30 anos, e desacredita-se junto dos seus eleitores, que esperam ordem, e dos investidores e credores do Estado, que esperam reformas. Sem o consentimento de Mélenchon, dono da rua, ninguém poderia governar em França.

Se é esse o plano, não é mal pensado. A associação com o radicalismo islâmico, em regiões de grande migração muçulmana, deu à extrema-esquerda uma força como nunca teve desde os anos 1970. Podia servir-lhe só para eleger presidentes de câmara, como em Berlim ou Nova Iorque. Mas para estes revolucionários, a violência foi sempre a maneira mais coerente de fazer política, e a Mélenchon, talvez a insurreição pareça a melhor jogada. A questão é saber se a restante esquerda e as elites bem-pensantes em geral se deixarão liderar por gente como Mélenchon a pretexto do “antifascismo”. Há anos que à oligarquia europeia só interessa ver perigos à direita, entre aqueles que contestam as suas políticas de estagnação económica, caos migratório e desmantelamento da cultura nacional. Por isso, nem deu pela emergência desta extrema-esquerda com motor jihadista. Vai perceber agora? E, percebendo, vai resistir?

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Reflexão - Tempos difíceis (LBC)

Rough times


in France 


Brasil


Everywhere!







The Spectator - Do France’s pupil protestors have a point?

 


(personal highlights)

Do France’s pupil protestors have a point?

On 21 September, pupils at the Lycée Saint-Exupéry in Créteil, south-east of Paris, staged a protest. They had a list of grievances. Classes were overcrowded and there was a shortage of teachers. They were also dismayed at the decaying state of some of the school buildings and the automated university admissions platform they feel deprives them of autonomy.

Pupils filmed the protest and uploaded the footage onto social media. It went viral. Across France, children in other secondary schools joined the protest. They aired the same complaints as their peers in Créteil – and more.

Some pupils described seeing rats in classrooms, others of enduring leaking ceilings and mouldy walls. For many, memories of the summer heatwave were still painfully fresh. They remembered how they sat their exams in June in classrooms where the temperature topped 38°C. At one high school in Versailles pupils took their exams in an underground car park because it was the only cool place in town.

As the protests spread, so they became violent. At Saint-Exupéry school, pupils had demonstrated peacefully behind a barricade of wheelie bins. In other schools the bins were set ablaze and fireworks used as missiles. These acts of vandalism attracted the police and there were confrontations. They also attracted young men wearing hoodies and masks; young men who looked too big to be at school.

Last week the violence exploded. The statistics bear witness. More than 1,000 injured: 715 police officers, 215 pupils and 85 teaching staff.

Much of the savagery was uploaded, and it has horrified France. A policewoman chased along a Paris street and hurled to the ground; a policeman kicked unconscious by a gang of howling youths in Belfort; a woman in Marseille set on fire by a 15-year-old with an aerosol can as she told him to stop vandalising a bus stop. On Monday, a 15-year-old boy had his hand blown off by a police stun grenade outside his school in Lens.

Schools have been firebombed, shops have been pillaged, a fire engine has been attacked and buses have been vandalised. It is anarchy, and it is ongoing. After a weekend of calm, more than 400 schools experienced protests of some form or another on Monday.

The following day, higher education students and some unions joined the school protestors on their picket lines. The numbers on the streets were estimated to be somewhere around 200,000.

They were encouraged by La France Insoumise (LFI), the political party fronted by Jean-Luc Mélenchon, often described as the French Jeremy Corbyn. On its website LFI listed the main demonstration sites and the times of the protests. The party praised the students for the action, declaring: ‘Unjustly repressed by the government and its law enforcement agencies last week, they have sparked a widespread mobilisation.’

This is Mélenchon’s ambition – a repetition of May 1968 when a minor student protest at Nanterre University over access to the women’s dormitory quickly turned into a nationwide uprising. There were ten million people on the streets by the end of that month: students, workers and trade unionists united against the government and the police.

On Monday, Mélenchon proclaimed that the Republic ‘is witnessing the most powerful movement of high school and college students it has seen since May 1968’.

In recent weeks fishermen, police officers, health workers and teachers have staged protests about their working conditions. For several weeks social media has been awash with rumours that the gilets jaunes (yellow vests) will re-emerge on 17 October.

They were first seen eight years ago in what began as a protest against a green fuel tax and spread rapidly and ferociously. Demonstrators focused their fury on Paris and the perceived arrogance of Emmanuel Macron. On one Saturday in December 2018, a helicopter was reportedly prepared in the grounds of the Élysée Palace in the event that the president was forced to flee the capital.

A similar fury to that which led to the gilets jaunes in the winter of 2018-19 has been simmering for years. It is now bubbling because of rising fuels costs, energy bills and supermarket prices. The people in the provinces – the Praetorian Guard of the gilet jaune movement – are struggling to put petrol in their cars and food on their tables.

When their original protest erupted eight years ago, the gilets jaunes had the support of three-quarters of the country; a recent poll revealed that 62 per cent of the French support the high school demonstrators. It is hard not to sympathise. The average day for a French high school pupil starts at 8 a.m. and ends at 6 p.m. My daughter went through the French education system and it was demanding. Compared with the British system there is little outlet for self-expression, and opportunities for sport, music and the arts are very limited.

My wife has taught in the state sector for a decade. First, she was in Seine-Saint-Denis in the north of Paris, which has been the epicentre of the violence in recent days. Now she teaches in a large secondary school in Burgundy.

Within a week of the new school year, she was telling me about staff shortages and overcrowded classrooms. The protest movement has not surprised her or her colleagues. It’s been coming for years. I spoke to some of her pupils this week. Agathe told me about her lack of maths teaching this year, a subject she’s desperate to improve. She also mentioned classrooms barely fit for habitation. Thomas told me of a chaotic school timetable in which some subjects are overloaded and others neglected.

The protests at their school have not degenerated into violence. The atmosphere at Tuesday’s demonstration was one of cheerful determination. ‘The National Education system: more toxic than my ex,’ was one of the many placards brandished by pupils. Around 20 police officers were present, some accepting patisseries offered by the protestors.

But among some of the pupils there is an undercurrent of anxiety. Laetitia explained that she is scared of ‘outsiders’ coming to cause trouble – but she’s also wary of the police, who are under extreme pressure during the protests but occasionally overreact. Last week one officer was filmed holding a distressed 14-year-old girl in a headlock for more than a minute. The police don’t want the general public to turn against them as they did in 1968.

Most teachers across France support the protest movement. My wife does and so does her colleague Constance, a teacher for 20 years. ‘We need to change the curriculum,’ she said. ‘It’s too intense, too tiring and completely inefficient for the pupils.’

Gaspard, who’s been teaching at my wife’s school for 25 years, said constant cost-cutting had made life unbearable for staff and pupils. ‘It’s a mess,’ he said. ‘Teachers are suffering from burnout because of their workload.’ There are too many pupils and not enough teachers. He pointed a finger at Paris, accusing the government of ‘neglecting’ provincial schools like his. Certainly, it’s hard to have much clarity and vision when there have been seven education ministers since 2022.

Last Friday I was in Paris, observing a protest at a high school in the trendy 15th arrondissement, not far from Montparnasse. There were 100 or so pupils gathered outside the entrance in mid-morning. It was rather jolly. The only flash of hostility I saw was when a police car drove by and the boys and girls hissed and hollered.

The pupils sang a chant about Macron resigning and I saw one or two signs denouncing Marine Le Pen. There was no overt support for Mélenchon and the left. I spoke to a couple of 16-year-olds who said they didn’t want the movement to become political; they just wanted to be listened to.

Constance sees something more profound than a protest about class sizes and leaky roofs. ‘This is a generation a little lost, left behind,’ she says. ‘They have worries about the environment, about society and its inequality. It’s a broader revolt. There is an immense anger.’ But this anger is cross-generational. Different reasons, same rage.

Desporto - Telenovelas

o que se ouve 


o que se devia pensar...



terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cartoon - Larson

Há cartoons e cartoons...





 

Reflexão - O Túnel "Algés - Trafaria"... (LBC)

PARA MAIS TARDE RECORDAR...


1 - Um pequeno exercício no ChatGPT: calcular os pontos de saída do "túnel rodoviário Algés - Trafaria" com um critério optimista do fixe a 100m (...). 

2 - O critério mais optimista (inclinação de 5%) no que ao comprimento diz respeito, é de 7000m, ou seja, não é entre Algés e Trafaria mas mais entre Carnaxide e Funchalinho. Parece-me...

3 - O critério mais pessimista (3%) é de 9,7Km de comprimento, ou seja, aproximadamente entre Linda-a-Velha e Sobreda.

4 - Então, a designação correcta não deverá ser Algés - Trafaria! De que estarão "eles" a falar? E porquê?...

5 - a não ser que o túnel não seja túnel, antes um tubo "suspenso" no meio do rio...:), modernices!

Enfim, "cãojecturas" pessoais (...) para um futuro longínquo...






Fazer um perfil completo de um túnel de 3 km sob o rio, a 100 m de profundidade, incluindo a distância das rampas, ponto mais baixo e comprimento total, usando uma inclinação máxima de 3%, 4% ou 5%.

Sim. Vou assumir que:

  • 3,0 km = extensão horizontal do trecho sob o rio, no nível mais baixo;
  • 100 m = desnível vertical entre a cota dos portais e a cota do ponto mais baixo do túnel;
  • há duas rampas simétricas, uma de cada lado do rio;
  • a inclinação indicada é a máxima longitudinal;
  • para este cálculo preliminar, desconsidero curvas verticais de concordância.

A relação é:

Lrampa=100i

onde i é a inclinação em valor decimal.

Comparação dos três cenários

Inclinação máximaDescida de cada ladoTrecho sob o rioSubidaComprimento total
3%3.333 m3.000 m3.333 m9.667 m (9,67 km)
4%2.500 m3.000 m2.500 m8.000 m (8,00 km)
5%2.000 m3.000 m2.000 m7.000 m (7,00 km)

m=1003333.33

Perfil longitudinal

Opção A — 3%

Perfil simplificado:

Cota 0 m ──┐                                      ┌── Cota 0 m
           │\                                    /│
           │ \                                  / │
           │  \                                /  │
           │   \______________________________/   │
           │          3.000 m sob o rio           │
           │                                      │
Cota -100m └────────── ponto mais baixo ──────────┘
              3.333 m          3.333 m
  • Portal esquerdo: 0 m
  • Início da zona de fundo: 3.333 m
  • Ponto mais baixo: 6.333 m
  • Fim da zona de fundo: 9.333 m
  • Portal direito: 12.667 m?

Correção importante: o comprimento total calculado acima é 9.667 m, portanto a representação deve ser interpretada como:

  • rampa: 3.333 m
  • fundo: 3.000 m
  • rampa: 3.333 m
  • total = 9.666 m

A estação do ponto mais baixo é, portanto, 3.333 m, e ele permanece na zona baixa durante os 3 km, até à estação 6.333 m.

Opção B — 4%

Cota 0 m ──┐                                ┌── Cota 0 m
           │\                              /│
           │ \                            / │
           │  \__________________________/  │
           │       3.000 m sob o rio        │
Cota -100m └──────── ponto mais baixo ───────┘
             2.500 m       2.500 m
  • Rampa de entrada: 2.500 m
  • Trecho a -100 m: 3.000 m
  • Rampa de saída: 2.500 m
  • Comprimento total: 8.000 m
  • Início do trecho mais baixo: km 2+500
  • Fim do trecho mais baixo: km 5+500

Opção C — 5%

Cota 0 m ──┐                          ┌── Cota 0 m
           │\                        /│
           │ \______________________/ │
           │      3.000 m            │
Cota -100m └──── ponto mais baixo ────┘
              2.000 m    2.000 m
  • Rampa de entrada: 2.000 m
  • Trecho a -100 m: 3.000 m
  • Rampa de saída: 2.000 m
  • Comprimento total: 7.000 m
  • Início do trecho mais baixo: km 2+000
  • Fim do trecho mais baixo: km 5+000

Resumo do perfil

3%4%5%
Profundidade máxima100 m100 m100 m
Rampa de entrada3,333 km2,500 km2,000 km
Trecho sob o rio3,000 km3,000 km3,000 km
Rampa de saída3,333 km2,500 km2,000 km
Comprimento total9,667 km8,000 km7,000 km
Estação início fundokm 3,333km 2,500km 2,000
Estação fim fundokm 6,333km 5,500km 5,000

Em termos geométricos, 5% é a solução mais curta, mas exige uma inclinação significativamente maior. Para um túnel rodoviário, a escolha entre 3%, 4% e 5% não deve ser feita apenas pelo comprimento: entram também segurança, drenagem, ventilação, veículos pesados, evacuação e critérios normativos.

Se quiser, posso fazer a seguir um perfil longitudinal completo em escala, com cotas a cada 500 m, quilometragem, rampas, ponto mais baixo e comprimento total, para as três alternativas.

Observador - A grande surpresa no lar socialista: faltam casas (Tiago Dores)

 


(sublinhados pessoais)

A grande surpresa no lar socialista: faltam casas

Quem podia prever que penalizar o investimento com burocracia e impostos, ao mesmo tempo que se escancarava a porta a mais de um milhão de imigrantes em meia dúzia de anos, criaria escassez de casas?

Há coisas surpreendentes. Por acaso, de momento e por azar, só me ocorre a coisa menos surpreendente do mundo, logo a seguir a “em que direcção segue uma maçã quando se desprende da árvore: para a estratosfera ou para o chão?”. A segunda coisa menos surpreendente do mundo foi o último discurso de António Guterres enquanto secretário-geral da ONU: anti-Israel e aldrabão, como manda a tradição. O que, sejamos justos, acabou por ser óptimo. Num mundo em permanente convulsão, é reconfortante saber que há coisas que nunca mudam.

É mais ou menos como as ilhas Tuvalu. Há uns anos, Guterres apareceu por lá de calças arregaçadas, com ar de quem chega a casa após a pescaria e descobre que a amêijoa está toda podre, a garantir o desaparecimento do arquipélago anteontem. Passados estes anos todos, Tuvalu parece querer fazer pirraça ao “melhor de todos nós” (nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, o melhor reencaminhador de cunhas de todos nós): as ilhas mantêm-se bem acima da linha de água, enquanto a ONU de Guterres se afundou em corrupção, qual Manchester City das organizações internacionais. E a concorrência é forte.

Agora, o próprio Guterres devia ter percebido que vaticinar subidas de marés era péssima ideia. Afinal, ele é um dos mais reputados especialistas em parar subidas. Ou não tivesse sido o grande timoneiro do governo que, sucedendo a uma série de anos de convergência da economia portuguesa, se tornou o grande precursor da estagnação de que Portugal ainda hoje padece.

Quem também padece, mas de paixões súbitas à la Guterres, é o mais recente de uma linhagem de brilhantíssimos líderes do PS, José Luís Carneiro. Desculpem o aparte, mas como não recordar a sequência Guterres–Ferro Rodrigues–Sócrates–Seguro–Costa–Pedro Nuno Santos–José Luís Carneiro? Isto é um verdadeiro royal flush. Mas mais no sentido em que dá uma vontade real de puxar o autoclismo.

Dizia eu que, há dias, o Glorifica-Maduros e Venera-Sánchez revelou ter uma “paixão pela habitação”. Pareceu-me estranho: pensava que, em termos de líderes do PS, a “paixão pela habitação” era o pelouro de José Sócrates, a julgar pelo empenho que o “engenheiro” demonstrava nas escutas quanto às escolhas do soalho, ou lá o que era, da casa (que não é sua!) em Paris.

Uma coisa é certa: Carneiro não partilha da “paixão pela educação” dos anos 90 de Guterres. Talvez também porque, passados estes anos, se tenha tornado óbvio que a paixão era muito especificamente pelas escolas financiadas pela UNRWA, onde os meninos de Gaza, ainda antes de se aguentarem sentados, já têm seis horas por dia da cadeira “Odiar Judeus I”.

Bom, de volta a Carneiro e aos governos socialistas de Costa. Afinal, quem podia prever que penalizar o investimento com burocracias e impostos, ao mesmo tempo que se escancarava a porta a mais de um milhão de imigrantes em meia dúzia de anos, criaria escassez de casas? Dirão vocês: “Qualquer pessoa que tivesse tirado cinco minutos para estudar Economia.” Sim, mas calma. Que economia? A da Escola Austríaca, por exemplo, ou a do programa de doutoramento do ISCTE dirigido por Mariana Mortágua? Ah, pois é.

Cheira-me que José Luís Carneiro tem uma queda quase tão grande pela segunda opção quanto a sua “paixão pela imigração” que inspirou a extinção do SEF. Uma coisa é certa: ter de contar com Carneiro à frente da economia portuguesa seria mais ou menos como contar carneiros — a única diferença é que a economia pareceria estar a dormir quando, na verdade, já teria falecido. É mais certo do que a maçã, ao soltar-se da árvore, cair no chão.


Desporto - Sumo (Torneio de Setembro)

 

Mais um para Onosato


o último de Mitakeumi?

o último de Tamawashi?
Faltou
Faltaram

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Livros - Bidding

 


Reflexão - Tempos difíceis...(LBC)

 Estranho! Muito estranho!...




The Spectator - The Church of England is destroying itself

 

(personal highlights)

The Church of England is destroying itself

Hafiz Tahir Ashrafi, his wife and Dame Sarah Mullally, Archbishop of Canterbury (Image: Lambeth Palace)

Many of Britain’s institutions are being destroyed from within by leaders who do not seem to understand what they are for. But even by those standards, the Church of England is a special case, as shown by its decision to spend the 25th anniversary of 9/11 giving a supporter of Osama bin Laden a prize for ‘reconciliation and interfaith cooperation.’

The tragedy of the Church of England – and it is a tragedy – is that we have seldom been in greater need of spiritual and moral leadership. As Matthew Arnold’s famous Dover Beach, lamenting the Sea of Faith’s ‘melancholy, long, withdrawing roar,’ puts it: ‘We are here as on a darkling plain/ Swept with confused alarms of struggle and fight/ Where ignorant armies clash by night.’ If that was so in Arnold’s 1850s, how much more true it is now.

Yet the award of the Hubert Walter prize to the Pakistani cleric Hafiz Tahir Ashrafi is the latest evidence that the Church is not capable of providing that leadership, because it does not know what it is for. Ashrafi, as a three-minute Google search would have found, gave bin Laden the honorific title of Saifullah, or Sword of God, in 2007, in response to the knighting of Salman Rushdie. As the renowned champion of reconciliation and peace explained: ‘If a blasphemer can be given the title ‘Sir’ by the West… then a mujahid who has been fighting for Islam against the Russians, Americans and British must be given the lofty title of Islam, Saifullah.’

More recently, he exulted in the 7 October massacre, saying that ‘Allah crushed the pride of Israel through the Palestinian freedom fighters;’ shared a conspiracy theory that the US and Israeli missile strikes on Iran were a plot to control his own country (‘Under the cover of Iran, the target of the Jews and Christians is nuclear-armed Pakistan’) and chaired a meeting which condemned the Charlie Hebdo cartoons as an act of terrorism, two weeks after an actual act of terrorism in which 12 of the magazine’s staff and others were murdered.

The Ashrafi affront comes in the same week we learned that St Paul’s Cathedral had signed a four-year deal with the Fabric nightclub to hold ‘contemporary music events’ in the main body of the cathedral, described by the mayor of London, Sadiq Khan, ‘pairing world-class music with one of our most special landmarks.’ But St Paul’s is more than ‘special landmark,’ Sadiq. It is, or was, a sacred place.

Six years ago, this country faced the Covid pandemic, which shut tens of millions in their homes, threw millions out of work, upended all the normal routines of life – and killed 200,000 people. I cannot remember hearing a single word of spiritual encouragement or comfort from the official spiritual leader of the English people, the then Archbishop of Canterbury, Justin Welby.

A search turns up some low-key statements, but the Church was almost invisible during the greatest crisis in Britain’s recent history; Welby was always happier talking about asylum seekers or Tory cuts. Churches were closed, even for solo prayer. Sarah Mulally, Welby’s successor who gave and then subsequently retracted the prize from Ashrafi, has been described as playing ‘a key role leading the Church of England’s response to the Covid pandemic,’ a response which even Welby later admitted was excessive.

It’s unfair to say that Mulally and the leaders of the modern Church don’t believe in anything. They just don’t seem to believe in moral and spiritual leadership, and they don’t believe in the same things as most of their flock. They do believe deeply in ‘inclusion,’ which means opening up their cathedrals to nightclubs or subjecting Pakistani clerics to a lower level of scrutiny and investigation than they would apply to, say, a British politician under consideration for the same award. But a part of moral and spiritual leadership is exclusion – or at least toughness, making it clear when something falls below standard, as I think supporting mass murder might. Moral clarity was also, perhaps, a little lacking in addressing the Church’s abuse scandals.

The fruits of this are seen in the catastrophic trajectory of church attendance – down a third since 2010 alone, with little more than half a million people now attending a C of E service on a Sunday. Another part of what the Church should be about is promoting the institutions which cement society, such as marriage. That’s even quite ‘inclusive,’ albeit in a different way from LGBT interfaith friendship circles. Lots of people who don’t do organised religion still want to get married. But since 2010 marriages in Anglican churches have crashed even more than attendances – by around two-thirds, in fact.

Both the big Christian churches are under pressure. Mass attendance in the Catholic Church, an institution less affected by soft-headedness and woolly-mindedness, is also well down, though not by quite as much as the C of E’s. But if Anglicanism carries on like this, in about thirty years’ time it will literally have disappeared. Maybe some will see that as a good thing. I think it would be a shame.

Teatro - O que nós queremos é Revista

 No âmbito da Plateias D'Arte, em 30.09.2026, no Teatro Azul, "O que nós queremos é revista".

Foto com João Camões e Cátia Garcia.





Observador - Pântanos, genocídios e 74 chibatadas (Rodrigues do Carmo)

 


(sublinhados pessoais)

(LBC - entre o muito bom e o brilhante)

Pântanos, genocídios e 74 chibatadas

Há três anos que assistimos à interpretação tortuosa de supostos especialistas em Direito Internacional Humanitário, provavelmente formados nos intervalos vínicos da Queima das Fitas

Daqui a poucos dias passam três anos sobre o 7 de Outubro.

Em Gaza há ruínas, e uma população que, naquele dia, rejubilou e participou na invasão de Israel e hoje enfrenta as dramáticas consequências.

E por cá há uma verborreia de dislates acerca disso, de um tal grau de indigência que nenhuma pessoa normal consegue ler e ouvir em silêncio.

A primeira tragédia é humana, a segunda é intelectual e moral.

Há três anos que assistimos à interpretação tortuosa de supostos especialistas em Direito Internacional Humanitário, provavelmente formados nos intervalos vínicos da Queima das Fitas, e de peritos que acham que combate urbano é uma acesa discussão com o empregado a propósito da temperatura do cappuccino.

Todos falam de proporcionalidade, todos identificam um crime de guerra pelo cheiro e todos, naturalmente, sabem instantaneamente distinguir um genocídio de uma guerra, sobretudo quando há judeus envolvidos.

Em tempos mais dados à parcimónia e ao senso comum, estes conceitos eram jurídicos e filosóficos. Hoje são palpites, interjeições e insultos.

Mariana Mortágua, nos auges da febre das flotilhas, acusou o Governo português de transformar Portugal em “cúmplice directo” do genocídio, Alexandra Leitão votou resoluções pelo “fim do genocídio” e, de um modo geral, a fauna palestinianista debita a palavra com a autoritas de quem chama gatuno ao arbitro, ou “fassista” ao vizinho.

Azeredo Lopes, especialista em paióis e em DI, vem debitando publicamente a acusação, primeiro como insinuação manhosa e ultimamente como imputação desbragada.  Toda esta gente sabe muito bem que não há genocídio nenhum, mas algo tenebroso e antigo leva-os, neste assunto, a desleixar as mais elementares regras de prudência jurídica e a descartar por completo a honestidade intelectual.

Todos eles deviam saber que a  Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio exige, além de certos actos, uma intenção. Esta palavra é crucial. Não é “morreram muitos” ou “ as fotografias são horríveis”, ou “vi uma criança nos escombros”.

É “intenção”!

Sim, pode-se acusar Israel dessa intenção, da mesma maneira que é possível acusar o Papa de tencionar assaltar ourivesarias em Fátima. O que não é sério é apresentar palpites como factos, instalados entre a astrologia e as profecias do Bruxo de Fafe.

António Guterres, “O Pantanoso”, é mais melífluo.

Uns dias depois da carnificina, declarou que os ataques do Hamas “não aconteceram num vácuo”, forma viscosa de insinuar que alguma coisa os judeus devem ter feito para aquilo lhes acontecer.

Desde então, a escorregadia criatura apurou a linguagem canalha sobre Israel. Falou em punição colectiva e, há poucos dias, no crepúsculo de uma carreira lodosa, descreveu o exercício da legítima defesa israelita como uma ofensiva contra os palestinianos, com uma escala de morte e destruição sem paralelo durante o seu mandato. No mesmo dia em que proferia esta mentira desbragada, confraternizava, sorridente com o representante de um regime que, ainda no ano passado, matou dezenas de milhares de cidadãos iranianos em 3 ou 4 dias sangrentos.

Quando lhe perguntaram directamente se aquilo era genocídio, Guterres respondeu, gelatinoso, que não lhe competia determinar juridicamente a existência de genocídio.

Por que motivo esta contorção jurídica convive com uma retórica que deixa a acusação montada, mobilada e com a luz acesa, faltando apenas pendurar a placa “genocídio” na porta, é algo que Guterres tem de explicar a si mesmo, quando se olha ao espelho.

Paulo Rangel, o nosso MNE, navega numa maionese mais light.

Há um ano, o Governo português reconheceu o Estado da Palestina, premiando de facto o morticínio desencadeado pelo  “Eixo da Resistência”. A hipocrisia é que tal Estado não existe, e algumas das condições anunciadas para o reconhecimento (desarmamento efectivo do Hamas, a libertação de todos os reféns, eleições, o controlo de Gaza por uma autoridade palestiniana distinta do Hamas, etc.) eram apenas promessas e a maioria continua a ser.

Há dias apresentava-se sorridente, em amena cavaqueira com o MNE iraniano, no dia em que uma cantora iraniana foi condenada a 74 chibatadas por andar sem um pano na cabeça, e não podendo deixar de saber que, se fosse iraniano, estaria há muito pendurado num guindaste.

Mas por que razão a acusação de genocídio, que já andava a burilar na Conferência de Durban há 25 anos, encontra uma receptividade tão entusiasta quando o acusado é o judeu? Porque não a Rússia, a China, o Irão, a Turquia, o Hamas, o Sudão, e inúmeros outros corações das trevas do planeta?

Israel, como todos os países democráticos, tem governos que acertam e erram,  ministros bons e maus, políticos responsáveis e irresponsáveis, e militares capazes do melhor e do pior. Os israelitas não são uma espécie moral diferente do resto da humanidade. Mas então, o que justifica a sua omnipresença nos radares do ódio, nas comissões da ONU e em certas ONG? Por que razão é julgado segundo regras especiais?

A resposta é cristalina: Antissemitismo!

É disso que se trata, porque é manifestamente antissemita a aplicação a Israel de critérios que não são exigidos a outros países, a negação do direito de autodeterminação dos judeus, a negação do direito de legítima defesa, e a responsabilização colectiva dos judeus pelos actos de um estado.

Há dias a equipa de futebol da Irlanda, fez uma coreografia ignóbil num jogo da Liga das Nações com Israel, recusando-se mesmo a cumprimentar os jogadores israelitas. No mês passado, a sua selecção de cricket jogou 5 vezes com o Afeganistão e, apesar de o regime talibã ser terrorista, e tratar as mulheres como animais, proibidas até de praticar desporto, não houve qualquer coreografia do género.


Isto é antissemitismo da velha cepa.

O truque moderno é que o judeu deixou, em certos ambientes “educados”, de poder ser odiado explicitamente, porque fica mal. Já os “sionistas” podem ser odiados à vontade, e qualquer pretexto serve para libertar o velho ódio.

A variante lexical é engenhosa. Troca-se o rótulo, conserva-se o conteúdo e ainda se acrescenta a extraordinária vantagem de o antissemita poder explicar que combate pelo “bem” pela “justiça” e pela “causa”, enquanto liberta o mesmo fel de sempre.

Voltando ao aniversário que se aproxima, o Hamas invadiu Israel a 7 de Outubro de 2023. Cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 levadas como reféns.  Não havia “ocupação” nenhuma, há 20 anos que não havia judeus em Gaza.

Israel respondeu legitimamente (legítima defesa, segundo o Artº 51º da Carta das Nações Unidas) mas, de súbito, brotou a exótica teoria segundo a qual a proporcionalidade é uma espécie de contabilidade funerária: morreram 1.200 israelitas pelo que, atingido esse número de palestinianos, o árbitro apita e termina o jogo.

Por sorte o Direito Internacional não foi escrito pelo Dr. Azeredo Lopes.

Proporcionalidade significa que um ataque concreto não é legítimo quando se prevê que cause perdas civis excessivas relativamente à vantagem militar concreta e directa antecipada. Quem ataca avalia o alvo, a vantagem militar, o dano previsível e as precauções possíveis. Não se trata de contar cadáveres de ambos os lados no fim da guerra, caso contrário descobriríamos retrospectivamente que numerosas guerras justas foram “desproporcionais” porque o lado derrotado sofreu mais mortos, o que seria uma contribuição revolucionária para a estratégia militar.

É verdade que a legítima defesa não permite tudo. Os civis não podem ser deliberadamente atacados, os ataques indiscriminados são proibidos, as precauções são obrigatórias e o facto de o Hamas violar alegremente todas estas as regras, não dá às IDF licença para fazerem o mesmo.

Tudo isto é elementar, mas também é elementar que Gaza é uma guerra urbana travada num território densamente povoado, contra uma organização terrorista que combate deliberadamente por detrás da população, com o objectivo de se proteger das respostas israelitas, pelo tabu do dano a civis.

Isto não torna legais todos os ataques israelitas, mas muito menos transforma em crime de guerra cada edifício civil atingido. Um hospital é um alvo militar legítimo se estiver a ser utilizado, fora da sua função médica, para actos de guerra, e a sua neutralização oferecer uma vantagem militar concreta e directa.

Depois há factos curiosos para quem pretende fingir que a guerra é um “genocídio”.

Em Setembro de 2024, em plena guerra, 558.963 crianças de Gaza foram vacinadas contra a poliomielite, com pausas humanitárias diárias de nove horas, concedidas por Israel.

Numa discussão em que a intenção de genocídio é o elemento fundamental, talvez não seja despropositado incluir na análise o facto de a força acusada dessa intenção suspender operações para permitir que mais de meio milhão de crianças do grupo supostamente a genocidar, sejam vacinadas.

Também a questão da comida, da água e da electricidade é pouco adequada a slogans. Israel deixou entrar, pelas suas fronteiras, milhões de toneladas de comida, e forneceu água e electricidade. Faz-se isso a um grupo que se quer eliminar? Algo semelhante ocorreu nos genocídios que a História documenta?

A Espanha é, a par da Irlanda, um dos países europeus onde o antissemitismo mais medra. Que faria Madrid se, num destes dias, homens armados entrassem em Ceuta e Melilla, assassinassem centenas de pessoas, sequestrassem famílias inteiras e anunciassem que repetiriam a operação? Guterres viria dizer que as coisas não aconteceram num vácuo? Durante quanto tempo teria a Espanha o direito de legítima defesa? Quantos soldados Espanha aceitaria perder para diminuir o risco imposto aos civis marroquinos? Onde colocaria o Governo espanhol a fronteira entre precaução razoável e suicídio táctico?

Não sei, mas admiro quem sabe, sobretudo porque costuma descobrir a resposta a três mil quilómetros do inimigo, sentado numa esplanada, com a chávena numa mão, o keffieh ao pescoço e uma melancia a pingar sobre o Direito Internacional.

Os militares, israelitas ou de qualquer outro país, não são santos. São pessoas.

Alguns heroicos, outros medíocres. Alguns cumprirão escrupulosamente as regras, outros poderão violá-las. Os segundos devem ser investigados e, existindo provas, punidos.

É assim que funciona uma democracia.

Mas há uma diferença gigantesca entre investigar um soldado, uma unidade ou uma decisão e transformar milhões de israelitas numa personagem colectiva chamada “o genocida”.

A desculpa das críticas “às políticas” de Israel, fede a coisa antiga e rançosa.

Durante séculos, cada judeu era um recipiente de culpa colectiva. Após milhões de judeus exterminados, a Europa declarou que esse hábito era inaceitável.

Depois apareceu Israel e alguns descobriram logo o truque para ressuscitar o velho ódio sem pronunciar a palavra “judeu”. Basta chamar-lhe “sionista”, “colono”, “genocida” e, naturalmente, jurar que não há absolutamente nada contra judeus. A máscara é tão fina que se desfaz à primeira exsudação de ódio.

Israel pode ser criticado, nem mais, nem menos do que qualquer outro dos quase duzentos países do mundo. Nenhum deles está acima do escrutínio, mas também não deve estar abaixo das garantias intelectuais que se concedem aos restantes países.

O Hamas deve ser aniquilado pela intenção declarada de genocídio, pelo massacre de 7 de Outubro, pela tomada de reféns, pelos ataques deliberados a civis e pela forma terrorista como combate.

Israel deve ser julgado pelas suas próprias acções, mas os judeus não devem voltar a ser julgados colectivamente apenas porque alguns antissemitas descobriram palavras novas para vocalizar um ódio velho.

A Europa já experimentou isso e, na última vez, também havia criaturas a explicar que era por uma boa causa.

A coisa não acabou bem!