sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Observador - Os idiotas tomarão conta do mundo pela força do número (Gonçalo José Santos)


 

(sublinhados pessoais)


Os idiotas tomarão conta do mundo pela força do número

Imaginamos figuras autoritárias a conquistar instituições ou dirigentes irresponsáveis a acumular poder. Mas há uma possibilidade mais desconfortável: a mediocridade pode instalar-se democraticamente.

Por vezes, é necessário provocar, incomodar e até ser desagradável para despertar consciências e  obrigar a olhar para aquilo que preferimos ignorar. Não se trata de provocar por provocar, mas de  questionar o percurso que, há muitos anos, enquanto sociedade, temos vindo a seguir, muitas vezes  sem perceber, ou sem querer reconhecer, para onde nos está a conduzir. Um caminho marcado pelo  crescente afastamento dos cidadãos da vida pública, pelo enfraquecimento do sentido de pertença à  nação, pela desvalorização do Estado e pela indiferença perante questões fundamentais de soberania,  identidade e responsabilidade coletiva.

Até que ponto a qualidade de uma sociedade depende também da exigência, do conhecimento e da  responsabilidade dos seus próprios cidadãos?

Talvez o maior problema do mundo não seja a falta de conhecimento, competência ou sentido crítico,  mas o facto de estarmos progressivamente a entregar o poder, a influência e o reconhecimento público  a quem menos demonstra possuir estas qualidades. Pior ainda, começámos a aceitar a  mediocridade como uma condição normal da vida em sociedade, a confundir ignorância com  autenticidade e a tratar a competência como um defeito. Quem sabe é acusado de arrogância,  quem pensa é visto como complicado e quem grita, insulta e apresenta soluções absurdamente  simples encontra frequentemente uma multidão disposta a aplaudir. Chegámos a um ponto em que  ser popular parece valer mais do que ter razão, e a capacidade de provocar reações passou a contar  mais do que a capacidade de construir alguma coisa.

Basta olhar para o mundo que temos diante de nós. Assistimos a guerras, ameaças militares, disputas  territoriais, crises económicas, desigualdades profundas e ao enfraquecimento de instituições que  demoraram gerações a construir. Enquanto estas questões exigem prudência, conhecimento e  responsabilidade, parte da discussão política internacional transformou-se numa sucessão de  provocações, insultos, ameaças e demonstrações de força. Há dirigentes que comunicam como se  estivessem numa discussão de café, figuras públicas que confundem popularidade com autoridade e  responsáveis políticos que parecem medir o sucesso pela capacidade de humilhar adversários. O  espetáculo ocupa cada vez mais espaço, enquanto a discussão sobre as consequências das decisões  se torna secundária.

Seria fácil responsabilizar apenas os governantes, os partidos políticos ou as elites económicas. Mas  existe uma verdade muito menos confortável: os dirigentes não aparecem do nada e a mediocridade  não se mantém no poder sem encontrar quem a aceite, desculpe ou recompense. Uma sociedade  que aplaude a mentira quando esta favorece os seus interesses, que tolera a incompetência quando esta veste as cores da sua preferência política e que confunde agressividade com coragem acaba por  criar as condições para ser governada precisamente por aquilo que alimenta.

A democracia reconhece aos cidadãos o direito de escolher os seus representantes, mas nunca  garantiu que essas escolhas seriam acertadas. O voto tem o mesmo valor independentemente do  conhecimento de quem o exerce, e assim deve continuar. O problema não está na igualdade política,  mas na crescente facilidade com que a opinião desinformada se transforma em certeza absoluta e a  convicção substitui qualquer necessidade de compreender os factos. Quando milhões de pessoas  passam a admirar mais a insolência do que a competência, a qualidade da governação deixa de  depender apenas dos candidatos disponíveis e passa também a refletir aquilo que a sociedade está  disposta a valorizar.

Uma sociedade entretida com a própria decadência 

Na Roma antiga, o poeta Décimo Júnio Juvenal criticava uma população que parecia satisfeita com  pão e espetáculos, progressivamente afastada das preocupações da vida pública. Dois mil anos  depois, o mecanismo não desapareceu, apenas se tornou mais sofisticado. Aos anfiteatros da Roma  antiga sucederam-se novas arenas de entretenimento, dos estádios de futebol às redes sociais, onde  o espetáculo se prolonga muito para além das bancadas, porque cada pessoa transporta no bolso um  mundo de entretenimento permanente, disponível a qualquer hora e concebido para disputar cada  segundo da sua atenção.

Enquanto o mundo enfrenta guerras, disputas pela soberania dos Estados, instabilidade económica e  problemas que ameaçam o futuro dos serviços públicos, uma parte considerável da sociedade  consegue mobilizar uma indignação extraordinária por uma polémica futebolística, uma celebridade  ou uma publicação nas redes sociais. Há quem conheça todos os pormenores da vida privada de  pessoas que nunca encontrou, mas desconheça quem governa o seu município, como funciona a  Assembleia da República ou quais são as competências do Presidente da República. Acompanha os  resultados desportivos, comenta cada escândalo mediático e discute durante horas acontecimentos  sem grande relevância coletiva, enquanto demonstra um desinteresse quase absoluto pelas decisões  políticas e económicas que condicionam os seus direitos, os seus rendimentos e o futuro dos seus  filhos.

O problema não está no futebol, no entretenimento ou na legítima necessidade de procurar  momentos de distração. Está na inversão das prioridades, quando assuntos secundários despertam  paixões desmedidas e questões fundamentais para a sociedade são recebidas com indiferença. Uma  população pode divertir-se sem abdicar da capacidade de pensar, questionar e participar na vida pública. O que dificilmente pode é transformar o entretenimento na sua principal relação com a  realidade e continuar a lamentar a qualidade das decisões tomadas em seu nome, quando nem sequer  demonstra interesse em compreendê-las.

Esta realidade não resulta exclusivamente da distração ou do desinteresse dos cidadãos. Existe uma  indústria que aprendeu a transformar a atenção em lucro, a polémica em audiência e a indignação em  instrumento de influência. Políticos, comentadores, influenciadores e plataformas digitais beneficiam  de um ambiente em que a provocação alcança maior visibilidade do que a reflexão e a mensagem mais  agressiva circula mais depressa do que uma explicação fundamentada. O conhecimento exige tempo,  leitura e capacidade de análise, enquanto a estupidez pode tornar-se viral em segundos. Quando o  número de seguidores passa a funcionar como certificado de credibilidade, deixa de interessar aquilo  que alguém sabe ou a consistência do que afirma. O que conta é a dimensão da multidão que  consegue reunir, mesmo que nada tenha de substancial para lhe dizer.

Gerações com direitos, mas cada vez mais distantes dos deveres 

Existe outra questão que merece uma reflexão particularmente exigente: a relação das gerações mais  novas com a sociedade, o Estado e a própria ideia de nação. Seria intelectualmente desonesto afirmar  que toda a juventude se tornou indiferente à vida coletiva. Existem jovens empenhados, qualificados,  solidários e politicamente ativos. Mas também é legítimo questionar até que ponto determinados  comportamentos sociais revelam um afastamento dos valores de responsabilidade, participação e  pertença que sustentam uma comunidade política.

Crescemos a ouvir que a educação deveria preparar cidadãos livres, informados e capazes de  participar na construção do futuro coletivo. Hoje, perante a centralidade das redes sociais, da  exposição pessoal e da gratificação imediata, vale a pena perguntar que lugar ocupam a história, a  cultura, a cidadania e o sentido de responsabilidade nessa formação. Que relação pode estabelecer  com a nação alguém que desconhece a sua história, não compreende o funcionamento das  instituições e nunca foi levado a refletir sobre os direitos e deveres que acompanham a vida em  sociedade?

Uma nação não é apenas um território delimitado por fronteiras, nem se reduz aos símbolos que  exibimos em competições desportivas. Representa uma comunidade histórica e política, construída  através de experiências partilhadas, instituições, património cultural, memória coletiva e projetos de  futuro. O Estado não é uma entidade abstrata destinada apenas a cobrar impostos ou distribuir apoios.  É a organização institucional através da qual uma comunidade estabelece regras, assegura direitos,  presta serviços públicos e procura responder a necessidades coletivas. Quando estes conceitos

deixam de fazer parte da formação cívica dos cidadãos, a ligação entre o indivíduo e a comunidade  política corre o risco de ficar reduzida a uma relação de conveniência.

É precisamente aqui que surge uma contradição difícil de ignorar. Exigem-se direitos, oportunidades,  proteção social, educação, saúde, habitação e condições de vida dignas, exigências perfeitamente  legítimas numa sociedade democrática. Mas nem sempre encontramos a mesma disponibilidade para  compreender os deveres, os custos coletivos, a necessidade de participação cívica ou a  responsabilidade individual perante o funcionamento das instituições. O Estado é frequentemente  apresentado como responsável por resolver todos os problemas, enquanto a obrigação de contribuir  para a sua sustentabilidade parece pertencer sempre a alguém diferente.

Também não podemos ignorar a responsabilidade das gerações anteriores. Foram os adultos que  construíram os sistemas educativos, definiram prioridades políticas, normalizaram determinados  comportamentos e entregaram aos mais novos um ambiente digital onde a atenção é constantemente  disputada. Seria demasiado conveniente criticar os jovens pela superficialidade de uma cultura que  não foram eles a criar. Se pretendemos cidadãos conscientes da história, comprometidos com a  democracia e capazes de compreender o valor das instituições, precisamos de perguntar que  formação lhes proporcionámos e que exemplos encontram naqueles que exercem responsabilidades  públicas.

O verdadeiro problema não é uma geração ser diferente da anterior. Todas o foram. O problema está  em considerar dispensáveis a memória histórica, a responsabilidade coletiva e o conhecimento das  instituições, como se uma comunidade política pudesse sobreviver indefinidamente sustentada  apenas por interesses individuais. Não se exige nacionalismo acrítico, obediência ou uniformidade de  pensamento. Exige-se algo bastante mais elementar: compreender que pertencer a uma sociedade  implica direitos, responsabilidades e um compromisso mínimo com aquilo que permite a sua  continuidade.

A ignorância deixou de provocar vergonha 

Talvez uma das transformações mais preocupantes seja a facilidade com que o desconhecimento  passou a apresentar-se publicamente como autoridade. Nunca foi tão simples consultar informação,  mas também nunca pareceu tão fácil formar opiniões definitivas sobre assuntos que não  compreendemos. A política internacional explica-se em trinta segundos, a economia resolve-se com  uma frase, a ciência é contestada com um vídeo e qualquer pessoa que tenha acesso a uma rede social  parece sentir-se habilitada a contrariar décadas de investigação.

Naturalmente, ninguém tem obrigação de dominar todas as matérias. O problema não é desconhecer,  mas recusar aprender e transformar essa recusa numa demonstração de superioridade. Há uma  diferença enorme entre questionar especialistas e acreditar que uma opinião improvisada possui o  mesmo valor que conhecimento sujeito a investigação e escrutínio. A liberdade de expressão garante  o direito de falar, não a obrigação de considerar inteligente tudo o que é dito.

O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, ajuda a compreender esta transformação: as redes  sociais e as plataformas de vídeo passaram a ser, no conjunto dos mercados estudados, a via mais  utilizada para aceder a notícias digitais. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, mais de metade identifica  as redes sociais, as plataformas de vídeo ou os sistemas de inteligência artificial como principal meio  de acesso à informação. Estes dados não demonstram falta de inteligência ou de interesse cívico, mas  revelam uma alteração profunda dos intermediários através dos quais se forma a perceção da  realidade.

E talvez seja essa uma das maiores fragilidades do nosso tempo. Estamos a formar opiniões políticas,  económicas e sociais num ambiente em que a visibilidade depende frequentemente da capacidade  de provocar emoções e não da qualidade dos argumentos. A verdade continua a existir, mas precisa  de competir com versões mais simples, mais convenientes e, muitas vezes, muito mais apelativas.  Para quem procura apenas confirmar as próprias convicções, uma mentira confortável pode tornar-se  mais aceitável do que um facto desagradável.

O país que exigimos e o país que ajudamos a construir 

Portugal não está imune a estas contradições. Criticamos o funcionamento do Estado, a burocracia, a  lentidão da justiça, as dificuldades dos serviços públicos e a qualidade das decisões políticas. Muitas  dessas críticas são justificadas, mas raramente aplicamos ao nosso comportamento a mesma  exigência que dirigimos às instituições.

Queremos serviços públicos eficientes, mas toleramos a falta de responsabilidade quando ela nos  favorece. Exigimos transparência aos governantes, mas relativizamos comportamentos eticamente  questionáveis quando são praticados por pessoas próximas das nossas preferências políticas.  Defendemos o mérito, mas continuamos a aceitar que relações pessoais, influência e conveniência  ocupem espaços que deveriam pertencer à competência. Reclamamos contra a corrupção, mas nem  sempre demonstramos igual indignação perante as pequenas práticas quotidianas que alimentam  uma cultura de favorecimento e desrespeito pelas regras.

Existe também uma facilidade preocupante em confundir o Estado com o governo do momento e a  nação com determinada orientação partidária. O Estado deve servir a comunidade política  independentemente de quem exerce temporariamente o poder, enquanto a Nação representa uma  continuidade histórica que ultrapassa governos, partidos e ciclos eleitorais. A incapacidade de  distinguir estas realidades empobrece a discussão pública e transforma questões fundamentais de  interesse coletivo em instrumentos de confrontação partidária.

A recente votação nas Nações Unidas sobre a escravatura transatlântica e as reparações históricas é  um exemplo da necessidade de defender a história nacional com conhecimento, rigor e independência  política. Reconhecer os abusos e as injustiças do passado, à luz dos valores e princípios morais  contemporâneos, não significa aceitar que acontecimentos de há vários séculos possam ser utilizados  para atribuir responsabilidades às gerações atuais ou exigir indemnizações financeiras ao Estado  português.

A história deve ser compreendida no enquadramento de cada época, considerando as circunstâncias,  os protagonistas e as realidades políticas, económicas e sociais que marcaram os acontecimentos,  sem os subordinar a interpretações orientadas por agendas políticas.

Portugal optou pela abstenção, acompanhando a posição europeia, quando poderia ter afirmado de  forma mais autónoma a sua posição histórica. Não se trata de negar ou justificar os acontecimentos  do passado, mas de recusar que a história de uma nação com quase nove séculos de existência seja  reduzida aos episódios que hoje merecem maior condenação, ignorando a sua contribuição para a  ciência, a cultura, a navegação e as relações entre povos. Uma nação que não conhece, não  compreende e não sabe defender a sua história abre espaço para que outros a interpretem e utilizem  segundo os seus próprios interesses.

Uma sociedade politicamente madura deveria conseguir criticar um governo sem hostilizar o Estado,  reconhecer problemas nacionais sem desprezar o país e defender a sua identidade sem transformar a  diferença numa ameaça. Quando estas distinções desaparecem, o debate degrada-se numa sucessão  de acusações em que quase todos reclamam direitos, poucos aceitam responsabilidades e a  construção de soluções acaba subordinada à necessidade permanente de encontrar culpados.

A vitória dos idiotas não precisa de um golpe de Estado 

Quando se fala na possibilidade de os idiotas tomarem conta do mundo, imaginamos frequentemente  figuras autoritárias a conquistar instituições ou dirigentes irresponsáveis a acumular poder. Mas existe  uma possibilidade bastante mais desconfortável: a mediocridade pode instalar-se democraticamente,

com eleições, aplausos, maiorias e uma população perfeitamente convencida de que está a fazer as  escolhas certas.

Não é necessário acabar com a liberdade de expressão quando a própria discussão pública se  transforma numa competição de insultos. Não é necessário proibir livros quando uma sociedade perde  o interesse pela leitura. Não é necessário destruir a educação quando o conhecimento deixa de ser  valorizado. E não é necessário impedir os cidadãos de participar na vida política quando estes se  afastam voluntariamente dela, convencidos de que nada merece o seu tempo, exceto aquilo que lhes  proporciona satisfação imediata.

A decadência de uma sociedade raramente se anuncia como decadência. Pode apresentar-se como  modernidade, liberdade individual, entretenimento permanente ou rejeição das autoridades  tradicionais e nenhuma destas realidades é necessariamente negativa. O problema surge quando a  liberdade se confunde com ausência de responsabilidade, a modernidade com desprezo pela  memória e o pensamento crítico com rejeição indiscriminada de todo o conhecimento.

Também seria perigoso acreditar que apenas os menos instruídos contribuem para esta situação. A  mediocridade atravessa classes sociais, níveis de escolaridade, profissões e instituições. Existem pessoas altamente qualificadas que utilizam o conhecimento para manipular, dirigentes  experientes que colocam interesses pessoais acima do interesse público e cidadãos instruídos que  abandonam qualquer espírito crítico quando estão em causa as suas preferências ideológicas. A  estupidez não possui classe social, certificado académico ou filiação partidária.

Quando deixamos de pedir competência a quem governa, rigor a quem informa, responsabilidade  a quem exerce influência e consciência cívica a quem participa na vida coletiva, criamos um  ambiente onde a mediocridade deixa de encontrar resistência. Quanto maior for o número de  pessoas que aceita estas condições, menor será o esforço necessário para as perpetuar.

Talvez a frase que dá título a este texto seja mais séria do que parece. Os idiotas não precisarão de  demonstrar mérito, conquistar respeito ou apresentar soluções. Bastará que sejam suficientemente  numerosos, suficientemente ruidosos e suficientemente persistentes para transformar a  superficialidade numa referência coletiva. O problema não está apenas nos políticos que temos, nos  dirigentes que observamos ou nas gerações que criticamos. Está também naquilo que toleramos, nos  comportamentos que premiamos e nas responsabilidades que recusamos.

Uma sociedade que perde a ligação à sua história, deixa de compreender o valor das suas instituições  e transforma os deveres coletivos numa preocupação secundária não precisa de ser conquistada por  ninguém. Vai entregando gradualmente a capacidade de decidir o seu próprio futuro, enquanto  permanece convencida de que a liberdade consiste apenas em poder fazer aquilo que lhe apetece.

E talvez a maior tragédia não seja o dia em que os idiotas tomarem conta do mundo, mas o facto de  podermos chegar a esse momento sem sequer perceber o que aconteceu. Estaremos demasiado  ocupados a discutir a última polémica, a defender o nosso político preferido ou a acompanhar  mais um espetáculo irrelevante. Quando finalmente olharmos à nossa volta, talvez já não reste  muito para defender.

O pão continuará a ser distribuído, o circo continuará cheio e os aplausos continuarão a ouvir-se. A  única diferença é que, desta vez, não poderemos dizer que ninguém nos avisou.


Arte e Política

Arte e política

 



Céus

 


The Spectator - Beware the private school con

 

(personal highlights)

Beware the private school con

How public schools became luxury hotels

(Getty images)

Harry Potter, the poor little orphan, can’t afford Hogwarts these days, now he has to pay VAT. James Bond, another orphan, can’t manage Eton’s £65,000 school fees. And he won’t join MI6, either – no civil servant, licensed to kill or not, can afford to live in central London any more. Now only the super-rich can afford them, private schools have become little more than gilt-edged finishing schools, with parents determined for their children to become their mini-clones as hedge-funders and private-equity tycoons.  

In the last 30 years, as school fees have rocketed, so the nature of private schools and their pupils has changed for good. In the days of cheap school fees – that lasted into the early 1990s – those schools turned out selfless, decent, unflashy figures: lieutenant colonels, doctors, local solicitors and magistrates, the reliable, ancient infrastructure of local life. 

Ancient schools – like Eton (founded 1440) and Westminster (1560) – were expressly set up to educate poor scholars. Winchester was partly founded in 1382 to train priests after so many died in the Black Death. The Royal School, Wolverhampton, was set up for orphans. Eric Idle of Monty Python – whose father, serving in the RAF, was killed in a car accident in 1945 – was a pupil. He says in his new book, Idle in Provence, ‘It was half an orphanage, because I was half an orphan.’ 

Plenty of these private schools still have scholarships and bursaries – but there are fewer of them since last year’s imposition of VAT. So it’s out with the poor scholars, and in with a tiny elite of gazillionaires. Not only do the poor scholars suffer by their ejection from these intellectual hothouses. But the schools themselves suffer by becoming a money-obsessed monoculture. 

When I was at Westminster School 40 years ago, a far broader range of parents could afford it. In 1988, the year I left, the fees were £5,000 a year – that’s £15,000 now, adjusting for inflation. Today, the fees are £49,000 a year for day pupils and £69,000 for boarders. 

The vast majority of 1980s parents couldn’t now afford to pay more than three times what they paid then. Yes, there were exceptions – particularly on the fabled ‘Golden Corridor’ of one house, where the sons of two retail kings boarded next door to the son of a Coca-Cola executive, said to be one of the four people who knew the real formula of the drink. 

But, otherwise, the parents were dons, teachers, engineers – comfortably off, yes, but not mega-rich. And they in turn produced bright children determined to do something other than make huge amounts of money. Old Westminster Antonia Romeo, now Cabinet Secretary, who I briefly tutored, is the daughter of a physics professor father and a biochemistry professor mother. 

There was a self-replicating writing clan at Westminster. Boys in the years above me included Louis Theroux, son of writer Paul Theroux, and Giles Coren, son of journalist Alan Coren. Another boy, Tom Hodgkinson, editor of The Idler, is the son of two journalists. How many writers can afford to send their children to private school today? 

Once these schools lose this idiosyncratic, bohemian mix of parents and children, paradoxically they lose their attraction to plutocrats, too. They like the idea their mini-hedge-funder offspring are mixing with Harry Potters and James Bonds. But they aren’t there any more. 

20 years ago, a university friend of mine looked round his old Cambridgeshire prep school as a possible place for his infant son. His old English teacher, still there, said to him, ‘Sam, do send your son here.’  My friend said, ‘We are thinking of it but we’re not sure.’ ‘You really must,’ said his old teacher, desperately. ‘Super-rich parents from around the world want to send their children here for the full English experience. But there are hardly any English boys for them to see in the flesh.’ 

Meanwhile, the pupils become increasingly money-obsessed, as emerges in London Falling, Patrick Radden Keefe’s new bestseller (full disclosure – it’s edited by my sister). In 2019, the tragic protagonist, Zac Brettler, 19, fell to his death from a luxury block by the Thames. In his last months, he’d been so desperate to move among London’s gilded rich that he pretended to be Zac Ismailov, a Russian oligarch’s son. His money obsession began at Mill Hill School, where oligarchs’ children were also educated. Hooked on The Wolf of Wall Street, he watched his schoolmates order Ubers from one school building to another – and once hired a chauffeured limo to take him home from school. 

Gone are the days when showing off about money was non-U. Gone, too, the austerity of boarding schools – whose prisoner-of-war alumni would declare Stalag Luft III was much more comfortable than Eton. As great British private schools have become luxury hotels catering to a tiny, self-perpetuating elite, they’ve lost their Hogwarts magic, too. 

LBC - John Smedley polos

 Não há duas sem três. Mantêm-se a qualidade de há anos, quando foi interrompida a caminhada da loja "Charlot".




terça-feira, 13 de outubro de 2026

Livros - Il n'y a pas d'apocalypse climatique

De leitura obrigatória, sobretudo, para quem está afectado de cretinização compulsiva obsessiva pelas energias "verdes", ou seja, eólicas e foto voltaicas













The Spectator - Reading is the ultimate life hack

 


(personal highlights)

LBC - Great Douglas!! One of the last...

Reading is the ultimate life hack

The London Underground used to be a happy place for authors. We would get into a carriage and see rows of people, studiously ignoring their neighbours – unless their neighbour was a dog – and reading a newspaper or an actual, physical book. The same went for the New York subway and, to a lesser extent, all train networks.

Today you get into a carriage and everyone is staring into the same phone screens that they stare into most of the rest of the day.

I try not to be judgmental about this, since I always try to see the best in people, however disgusting they might look. So I tell myself that perhaps some portion of the passengers are reading Thucydides or the latest highbrow novel. But I doubt it. The phone today is such a distracting device that during a 30-minute train journey in which someone might once have got through a chapter of a novel, today they have seen 100 videos of cats being attacked by a boa constrictor or Piers Morgan being attacked by a fact. And it’s not just a problem for other people. It’s a problem for all of us. I suspect most people reading this will have noticed that we read fewer books than we used to and spend ever more time on our devices. People present this as a problem for the kids, but it’s a problem for the adults too.

A slew of recent books and articles have lamented the provable decline in book-reading. But it’s a slightly fruitless genre. After all, none of these works is ever going to be picked up by someone who doesn’t read books and wants a good spanking over the fact. It would be like a normal, well-adjusted person voluntarily attending a party conference.

The trouble is that not reading books is now not only lamented – it is celebrated. I read an article the other day about an online influencer called Alix Earle, 25, who is said to be worth $20 million. Asked to name the last book she had read she replied, without hesitation: ‘I’ve never read a book… maybe Dr Seuss.’ It reminded me of an evening in New York earlier this year when another online influencer called Clavicular came into a club I was having a drink in. The walls of said club were decorously furnished with someone’s library. Another guest asked the live-streamer whether he was into books at all. Young Clav explained that he didn’t really think reading books was worthwhile to him in a ‘time-maxxing’ way. He explained that reading through a really long book didn’t seem likely to enhance his ascent in the way that various other activities might do. Such as hammering his jaw, taking meth or shooting dead alligators. But I digress.

The point is that whereas there was a time when confessing to being utterly incurious about the world of books was something to be embarrassed about, today there seems to be little shame in it. Those of us who do care about books and ideas are slightly stumped by how to respond to this. After all, at some point all authors and readers have to contend with one unassailable fact. Which is that we have all known very good people in our lives who do not read books: people who contribute a great deal to the people around them, who are loving and decent and everything else that is noble and good. Likewise we have all met people who seem to have read every book in the world and are total shits. In other words, reading does not make us good.

Yet there is something that books give us that is surely measurable to some extent. What is it? I would say it is among much else some greater sense of perspective on the world. I suspect that at some point even Alix Earle or Clavicular might ask themselves what their life is for and whether they are using their time on this Earth entirely well. It is hard to shrug off the thought that they would be better off in many ways if they could spend a few days with Marcus Aurelius or Dostoyevsky. Not least because it is unlikely that any of us in a normal year are going to meet someone with a comparable amount of insight into the world or people.

Books also give us some ability to see through, as well as put in perspective, the troubles of our own time. Of immediate practical use is the fact that they give us some clarity about how language can be used for good and ill. This week I saw a headline which read ‘Iranian small boat migrants charged over Yom Kippur terror plot’. My immediate thought was how sweet ‘small boat migrants’ sounds. An image was conjured up of really quite diminutive people leaving their dinky little boat to do something naughty. That is a trick that language can play, and it is being played on us all the time. Remember the discussion of ‘family voting’ after the Gorton and Denton by-election earlier this year? What a lovely, healthy activity that sounds: ‘Come on kids, get in the car, we’re off for a bit of family voting.’

If you know language you know how you can be manipulated by it. In the same way that if you know history you know how you can be either led or led astray by it. If you have a mind filled with real and fictional stories from the past you can better decide whether it is time to hide under a rock or weigh up the cries and alarms of our time and suffer through them.

I suppose that the main thing that reading gives us (apart from pleasure and some wisdom) is an ability not to be subject only to ‘present-ism’. It gives us a sense – like a painting on a French cave-wall – that someone has been here before, felt what we have felt and managed to navigate this mysterious thing called life. It is a sad person who gets to the end of their life no wiser or more informed than when they started it. To put it in terms that Gen Z might understand, reading is one of the best ‘hacks’ we have. But then again, most readers don’t have $20 million in their pockets.

domingo, 11 de outubro de 2026

Tempos difíceis... (LBC)

 Jura? Sem comentários...

Sem comentários...


Mas o Carnaval não é em Fevereiro ou Março?



Cartoon - Larson

 Há cartoons e cartoons...



Observador - França: uma sociedade em fragmentação (Jérémy Silvares Jerónimo)

 


(sublinhados pessoais)

França: uma sociedade em fragmentação

Contrariamente à palavra utilizada pela Lusa em Portugal, não se trata de “protestos", mas sim de violência urbana.

Há muito que o colapso social em França é claro à vista de todos. A não ser aqueles que, de maneira voluntária ou por cegueira ideológica, pretendem não ver, qualquer pessoa com o mínimo de coragem intelectual tem a oportunidade de constatar que o país está em franca queda, como, de resto, grande parte dos países ocidentais. Mas, em França, tal como no Reino Unido, esta queda é acompanhada por níveis de violência social que apenas vão crescendo a cada ano que passa… A sociedade está mergulhada numa espiral de violência. Quer seja por causa do terrorismo islamista, da violência cometida por antifas (que este ano mataram um jovem, o Quentin Deranque), da violência ligada ao tráfico de droga, ou dos motins nos bairros islamizados no dia de Ano Novo ou no feriado francês de 14 de Julho. As elites francesas têm-se mostrado incapazes de solucionar esta situação, por cobardia e cegueira ideológica. Desta vez, a violência veio pela mão dos estudantes…

Há uma semana, vários sindicatos de estudantes – da esquerda à extrema-esquerda – apelaram a uma greve contra as alegadas difíceis condições no ensino secundário: falta de professores e horários sobrecarregados. Logo no primeiro dia, terça-feira, dia 29/09, eclodiram os primeiros episódios de violência. No terceiro dia da greve geral, a violência atingiu um nível tal que o Governo francês afirmou considerar os acontecimentos como sendo “graves violências urbanas”. No momento em que este texto é redigido (domingo, 04/10), as autoridades tornaram públicos os números relativos aos quatro primeiros dias da greve. Em muitos casos, os polícias afirmaram ter falta de meios perante o número de pessoas que participavam nos motins e a violência das exacções. Houve destruição de mobiliário urbano, escolas e igrejas, bem como violência contra pessoas. Alunos que se opunham à greve, agentes das forças de segurança e membros do corpo docente foram agredidos. Ou seja, contrariamente à palavra utilizada pela Lusa em Portugal, não se trata de “protestos”, mas sim de violência urbana.

Vejamos… No que toca à destruição de estabelecimentos e de mobiliário urbano, o custo já ronda as dezenas de milhões de euros. Desde liceus fortemente danificados por incêndios criminosos como em Nantes ou Metz — alguns dos quais tinham sido renovados no ano passado, renovações que tinham custado milhões de euros —, a jovens vindos dos bairros “norte” de Marselha (bairros sociais fortemente islamizados) que atacaram autocarros com pedras e destruíram um veículo de bombeiros, passando pela Igreja de Sainte-Madeleine em Estrasburgo, contra a qual um grupo de arruaceiros atirou caixotes do lixo em chamas, as destruições materiais foram importantes. Mas, mais do que as destruições, foram os ataques contra pessoas que chocaram muitos franceses. Vários polícias foram atacados, sendo os dois casos mais chocantes o de um agente da polícia de Belfort, espancado com pontapés na cabeça por vários jovens — tendo perdido a consciência — depois de ter ficado isolado, só devendo a sua salvação aos colegas que conseguiram intervir a tempo; e o de uma agente da polícia estagiária em Paris, perseguida, empurrada e espancada sob gritos de “Wallah, tue-la” (“Wallah, matem-na”).

E se os polícias passaram quatro dias complicados, o mesmo se aplica aos membros do corpo docente, aos funcionários e directores das escolas, bem como a simples cidadãos que tentavam pôr termo às violências. Um professor foi agredido com um pontapé nas costas por jovens com a cara coberta e perseguido na rua, em Lille, ao som de gritos de “Wesh, Wallah, niquez-le” (demasiado vulgar para ser traduzido). Outro professor, em Angers, levou com uma barra de ferro na cabeça, tendo ficado ferido com alguma gravidade. Em Toulouse, um membro da direcção de um liceu da cidade foi espancado por dezenas de jovens depois de tentar apagar um fogo. Em Marselha, um jornalista do canal M6 foi agredido, e uma senhora que tentava proteger o abrigo de uma paragem de autocarro foi atacada por um jovem de 15 anos, que lhe incendiou o rosto e parte dos cabelos utilizando um spray e um isqueiro. Em La Rochelle, um estudante que se opunha às violências foi espancado por vários jovens em frente a um liceu. Na cidade de La Ciotat, um professor que tentava apagar um fogo foi agredido e salpicado com gasolina, tendo os polícias conseguido evitar o pior ao deter o agressor. Além das destruições e da violência contra pessoas, também houve roubos em lojas, bem como caixotes do lixo atirados contra carros.

Sim, uma parte importante dos detidos por violência contra pessoas ou por actos de vandalismo são estudantes. Tal como disse, a maioria não quis participar nas violências. Mas uma minoria importante participou de bom grado. Contudo… virá dos estudantes a ideia destas violências? Pelos vistos, a resposta não é assim tão simples. O que interessa saber é quem se esconde por detrás do apelo à greve e quem agitou os alunos e os convenceu a recorrer à violência. Quem levou os petardos? Quem levou os líquidos inflamáveis? Quem preparou os cocktails Molotov? E aí, a resposta é, segundo os próprios Renseignements Territoriaux (DNRT) — um serviço especial da polícia cujo papel é observar, analisar e antecipar ameaças à segurança pública — e os serviços secretos internos (DGSI), apenas uma: a extrema-esquerda. Os sindicatos de estudantes que convocaram a greve foram influenciados, quando não completamente dominados, por grupos e partidos de extrema-esquerda: grupos antifas, o partido Révolution Permanente e, sobretudo, o partido La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon.

De facto, o governo francês acusa o partido de extrema-esquerda LFI (La France Insoumise), de Jean-Luc Mélenchon, de utilizar os seus “proxies”, ou seja, grupos antifas, para tornar a situação ainda mais violenta. Entre os detidos encontram-se adultos pertencentes a grupos de extrema-esquerda. A LFI e o partido Révolution Permanente estiveram presentes nas manifestações desde o primeiro dia. Levaram consigo militantes “habituados” aos bloqueios, às greves e às manifestações mais “movimentadas” (os grevistas profissionais), para incentivar os alunos a cometer actos de violência. Além dos seus proxies, vários deputados e presidentes de câmara da LFI foram apoiar os estudantes. Por exemplo, Bally Bagayoko, membro do partido LFI e presidente da Câmara Municipal de Saint-Denis, decidiu apoiar os estudantes em greve, tendo sido filmado a dançar com alunos que tinham acabado de queimar um caixote do lixo. Tentou ainda retirar o microfone a um jornalista do média Frontières, acusando-o de estar a “provocar” os jovens. O deputado Thomas Portes foi visto a tentar impedir polícias de intervir contra jovens violentos; o deputado Louis Boyard foi visto a festejar com alunos grevistas; o deputado Aurélien Le Coq também impediu a polícia de realizar detenções, entre muitos outros.

Há um outro grupo que se juntou aos estudantes: jovens adultos e adultos vindos dos bairros problemáticos das grandes cidades. Jovens e menos jovens de origem extra-europeia que nutrem, explicava o jornalista vedeta Ivan Rioufol, um profundo ódio pela França — e que utilizam todo o tipo de acontecimentos sociais para o demonstrar. Assim, muitos estudantes afirmam que apareceram grupos vindos de bairros problemáticos ou mesmo de outras cidades, apenas para causar danos materiais e confrontar-se com a polícia. É aí que a situação se torna ainda mais complexa e, sobretudo, mais perigosa. Como afirmou, e bem, o colunista Guillaume Tabard, no Le Figaro, a aposta da LFI em agravar a violência para depois se apresentar como salvadora dos jovens e dos oprimidos pode acabar mal. Utilizar grupos antifas e jovens dos bairros problemáticos, muitas vezes islamizados, como tem feito a extrema-esquerda, pode, a prazo, revelar-se uma estratégia muito perigosa. A criatura pode acabar por escapar ao criador. Os próprios serviços secretos franceses, as forças de segurança e o governo estarão extremamente preocupados com uma situação que poderá, ou não, explodir a qualquer momento:

Em círculos restritos, as fontes ligadas à segurança consideram que o movimento, “instrumentalizado pela esquerda e pelos desordeiros”, chegou a um “ponto de viragem”. A mais pequena faísca poderá conduzir ao caos. Enquanto os liceus estão em convulsão há 48 horas, as autoridades vêem-se confrontadas com o cenário de uma onda de agitação generalizada em todo o país. Em círculos restritos, uma fonte ligada à segurança confidenciou esta quinta-feira que o conflito em torno dos bloqueios chegou a um “ponto de viragem”, com acontecimentos que se assemelham cada vez mais a fenómenos de violência urbana. «Até aqui confinados às imediações dos estabelecimentos de ensino, os incidentes parecem estar cada vez mais a desligar-se da questão dos estudantes do ensino secundário, para se transformarem em fenómenos de motins nos centros das cidades, com desordeiros que atacam agora outros representantes do Estado ou agentes da vida económica», afirma a mesma fonte, em tom confidencial. Em termos claros, já não é possível afastar verdadeiramente o cenário de um caos generalizado, como aconteceu no caso de Nahel Merzouk, morto durante uma tentativa de fuga a uma operação de fiscalização rodoviária, a 27 de junho de 2023, em Nanterre.

Um ensaio geral antes da explosão?

A conclusão que podemos retirar deste acontecimento é a de que, tal como uma boneca russa, ele esconde várias camadas. À primeira vista, temos uma simples greve estudantil, motivada por alegadas dificuldades no ensino secundário. Mas, à medida que retiramos cada uma dessas camadas, encontramos realidades muito diferentes. A primeira camada é, portanto, a da própria greve dos estudantes, que acaba por se revelar bastante superficial quando comparada com aquilo que se encontra por detrás dela. A segunda é a da extrema-esquerda, que mobiliza os seus militantes e as suas milícias — os grupos antifas, como a Jeune Garde, cujos membros foram acusados de envolvimento na morte de Quentin Deranque este ano — para participar nos confrontos e, segundo os serviços de segurança, contribuir para o caos. A terceira camada é a de uma parte da juventude extra-europeia, estrangeira ou de nacionalidade francesa, nascida em França, mas que, ao que parece, nutre um profundo e visceral ressentimento em relação ao país. Esta realidade revela uma fractura cada vez mais profunda na sociedade francesa: de um lado, uma juventude que acolheu pacificamente o Papa Leão XIV, com cânticos, alegria, bandeiras francesas e cruzes ao peito — uma juventude que não era exclusivamente nativa, já que muitos dos que foram ver o Papa eram eles próprios de origem extra-europeia, e entre a multidão havia até judeus e ateus que quiseram saudar a sua chegada. Do outro lado, uma juventude marcada pelo ressentimento contra a França, o Cristianismo, a Civilização Ocidental e tudo aquilo que estes representam. E há ainda uma quarta camada, mais escondida, mas que não terá passado despercebida aos serviços de segurança: a dos islamistas. Desde o primeiro dia da greve, e mesmo antes, surgiram sindicatos próximos de sectores ligados à Irmandade Muçulmana, como o sindicato Étudiants musulmans de France (EMF), cujas reivindicações, segundo as informações disponíveis, não se centram apenas nas questões das condições de ensino, mas também em questões como a criação de horários que permitam aos alunos muçulmanos rezar, a autorização do véu e do hijab nas escolas ou a disponibilização de comida halal. Ou seja, por detrás da reivindicação de melhores condições existe uma realidade bem mais profunda: a vontade por parte dos islamistas de infiltrar e dominar a escola republicana e laica, e propor um outro modelo, o modelo de ensino islâmico.

Diria que há forças que se estão a preparar para algo mais em 2027. Há linhas de separação que se estão a desenhar entre estas forças. A extrema-esquerda, os antifas e o partido LFI querem o caos. Sempre viveram do caos, e este dá-lhes força. Nas palavras do intelectual Matthieu Bock-Côté, estas violências urbanas são uma espécie de “grande ensaio geral antes das eleições presidenciais de 2027”. Os jovens de origem extra-europeia (uma minoria é verdade, mas uma minoria importante), vindos dos bairros problemáticos, que participaram nas violências querem apenas mostrar o seu ódio à França, bem como a sua força, tal como fizeram nos motins de 2023 ou de 2005. Não se trata de “luta pela justiça”; trata-se de mostrar que são eles que mandam em certos territórios. Daí as bandeiras palestinas, argelinas, sírias e marroquinas que levaram nas manifestações, ou as palavras de ordem contra Israel e os sionistas. Nada disto tem algo a ver com a greve dos estudantes. Quanto aos islamistas, são pacientes e perigosos. Pouco a pouco, através dos seus aliados da extrema-esquerda, tratam de ganhar espaço e força nas escolas, nos clubes de desporto, nos jornais de esquerda e nas associações culturais para, um dia, nem que seja daqui a 70 anos, conquistar o poder.

Que acontecerá em 2027 quando Marine Le Pen vencer as eleições? É dada como vencedora em todas as sondagens, sem excepção. Contra Jean-Luc Mélenchon, venceria por 67.5% contra 32.5%. Como irá reagir a extrema-esquerda? E os jovens dos bairros problemáticos que causaram actos de violência durante a greve dos estudantes, como irão reagir? E os islamistas? Como não ficar preocupado com a possibilidade de haver motins que, perante uma violência cada vez maior, possam dar origem a algo diferente, algo da ordem de uma guerra civil? É o que pensa o antigo jurista especializado em terrorismo Thibault de Montbrial. Para o antigo jurista, a extrema-esquerda, aliada aos movimentos islamistas, prepara algo terrível para 2027, já que o próprio partido afirmou que não iria aceitar a vitória do RN, como ele bem relembra: “Logo após a sua eleição, Bally Bagayoko, o presidente da Câmara de Saint-Denis, afirmou por várias vezes que, em caso de vitória da direita em 2027, essa vitória seria ilegítima. (…) Portanto, afirmo-o diante de vocês: a LFI está a preparar-se para tomar o poder, pelas urnas… ou pelas armas”. Preocupante, de facto…

Por fim, acabaria por dizer que existe ainda uma camada mais profunda nestes acontecimentos — a mais profunda de todas. Todos estes eventos — a violência de certos estudantes; a violência de uma parte dos jovens vindos dos bairros islamizados; a violência da extrema-esquerda; e a tentativa dos islamistas de fazer da França um emirado — têm, no fundo, a mesma origem: o Declínio do Ocidente. Porque um país forte, com uma sociedade forte, segura de si mesma, inserida numa Civilização forte, que olha para o passado com orgulho e para o futuro com sonhos e esperança — como é o caso da China — dificilmente teria sucumbido a este tipo de acontecimentos. Só as nações que se encontram numa fase avançada de colapso social se deixam destruir por dentro por grupos antagónicos, sem sequer encontrar forças para lhes dar luta. Quanto à juventude ocidental, é preciso, mais do que nunca, salvá-la de si mesma, do marxismo cultural e do declínio mental em que se encontra. E, quando relemos o intelectual francês Louis Pauwels a propósito da greve estudantil de 1986, apercebemo-nos de que o declínio mental da juventude vem de longe.

São os filhos do rock idiota, os alunos da vulgaridade pedagógica, os deslumbrados alimentados com uma sopa infra-ideológica cozinhada pelo show-biz (…). Receberam uma impregnação moral que os leva a tomar o “baixo” pelo “alto”. Nada lhes parece melhor do que não ser nada, mas todos juntos, sem chegar a lado nenhum. O seu sonho é um mundo indiferenciado onde vegetar morosamente. Estão embriagados de uma generosidade reduzida ao grau zero, que se assemelha ao amor, mas que se vira contra qualquer exemplo ou projecto de ordem. Todas as medidas que a sociedade toma para não acabar por se dissolver — selecção, valorização do esforço pessoal e da responsabilidade individual, código da nacionalidade, luta contra a droga, etc. — revoltam-nos. Este regresso à realidade é, para eles, um escândalo. (…) Eis todo o seu sentimento revolucionário. É uma juventude atingida por uma espécie de SIDA mental. Perdeu as suas imunidades naturais; todos os vírus da decomposição a atingem. Perguntamo-nos o que se passa dentro das suas cabeças. Nada. Mas esse nada devora-os. Bastaram cinco anos para fabricar uma geração assim. Será toda a juventude? Certamente que não. Ousemos dizer que é a escória com que o socialismo faz o seu vinagre.

(Louis PAUWELS, Le Monome des Zombies, Éditorial do Figaro Magazine sobre a greve estudantil de 1986)


The Spectator - Don’t take Britain’s cathedrals for granted

 

(personal highlights)


Don’t take Britain’s cathedrals for granted

Everywhere I hear voices complaining about charges being imposed on those who wish to visit our great cathedrals. Everywhere, I reply to them: ‘Stop moaning and pay up!’ In fact, you should give more than you are asked. Who else is going to provide the money to save these astounding, irreplaceable buildings for a future in which they may one day be full of worshippers again? Wouldn’t you spend more on a good meal or a good bottle of wine, or a trip to the cinema?

Yes, of course, there should be concessions and exemptions if you are a child or disabled or have no job or are living on a tiny pension. If you have an especial desire to pray in a very large church, then there should be a chapel, near the entrance, where you can do so without charge. But it’s dishonest to pretend piety for a free ticket. You shouldn’t do it. As the great ghost-story writer and lover of cathedrals, M.R. James, might have asked of such people: ‘Do you know what forces you may be toying with, when you lie to get into a church?’ Of course James’s cathedrals contained slobbering demons hiding in the tombs, and sinister carved cats that turn on you and bite you in the middle of the psalm, and strange laughter, high up in the triforium, at dusk. Having attended the cathedral choir school at Chichester, and spent many a late afternoon amid its pillars as the shadows thickened and the noise of the busy world faded away, I wouldn’t be a bit surprised by such things.

But if you want to see an alternative arrangement, slip across to France, which I reluctantly admit, has cathedrals as good as ours – well, as buildings, anyway. But they have been owned and maintained by the secular state (with a few exceptions and anomalies) since 1905, and it shows. I remember hurrying one evening from Chartres station to the cathedral, in the hope of seeing it in the sunset light, before it closed. And I did. The blaze of majesty from the west window is something I shall never forget.

But the place was otherwise asleep. No vergers patrolled, no smiley volunteer ladies offered guidebooks. In any English cathedral of the same size and importance, Evensong would have been just beginning, perhaps the first verses of the Magnificat curling up into the vaults. The combination would have been almost too powerful.

But it did not happen. I have often tried to hunt down Vespers in French cathedrals, and only once succeeded. While the Roman Catholic Church is still free to celebrate its services in these state-owned places, is it possible that the heart has gone out of them now that they are controlled and maintained by a room full of fonctionnaires somewhere in the Ministry for Culture? Doubtless, they will swiftly repair a crumbling crocketed finial, or a blocked gargoyle, once informed of the problem. But it will be an act of efficiency, not one of love and concern.

This is a pity. The cathedral in Strasbourg is one of the greatest buildings in the world, fit to rank alongside our best. At High Mass on Sunday, the procession to the altar is escorted by men in plumed tricorn hats, one of them rhythmically whacking the stone floor with his halberd. Did I imagine the other one carrying a sword? There was a lot of incense. Yet the place seemed far from full. I was there, Protestant as I am, to show gratitude for the great church’s decision to ring its mightiest bell, audible well across the Rhine in Germany, to mark the death of our Queen – one great reverberating stroke for each of her 96 years.

You learn so much from the difference between French cathedrals and ours. Their bells sing a different song, and don’t ring the glorious changes we are used to. Instead they sometimes express another older purpose. I thought James had made up the decayed town of Saint-Bertrand-de-Comminges, in which the story of ‘Canon Alberic’s Scrap-book’ unfolds. But it really exists, and I am determined to go there one day, remote as it is, to see and hear the moment he describes:

It was time to ring the Angelus. A few pulls at the reluctant rope, and the great bell Bertrande, high in the tower, began to speak, and swung her voice up among the pines and down to the valleys, loud with mountain-streams, calling the dwellers on those lonely hills to remember and repeat the salutation of the angel to her whom he called Blessed among women. With that a profound quiet seemed to fall for the first time that day.

Maybe someone will offer me an interesting volume, when I go. I shan’t buy it, if so, and nor should you.

But we all really ought to marvel more at these buildings. Laon with its carved stone oxen standing in its high white towers is not really any stranger than Lichfield with its three spires and rich red stones, or Wells with its scissor arches and moated palace. Le Puy, with its ferociously grim exterior and its forbidding stairs, stands in the middle of that rather crazy volcanic town (where we fetched up by accident after getting lost on the French railway system, long years ago). But it is in fact no stranger and no fiercer than Durham, if your mind is open.

These places are too good to miss. All sensible people should devote their lives at least partly to seeing all of them. And in Britain, unless you want them to fade away in the unfeeling arms of the state, you should be more than willing to pay. As so often, you don’t know how lucky you are, and will not know what you have got till it has gone.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Reflexão - Miguel Morgado sobre a novela Ronaldo /Jesus (LBC)

Miguel Morgado define, no programa "Linhas Direitas", com muita precisão, o que se passa hoje em dia com o desporto profissional mas, sobretudo, com o futebol.




https://www.youtube.com/watch?v=4ytvvnY0Ocw&t=24s



Observador - Uma geração infantilizada? (Rodrigues do Carmo)

 


(sublinhados pessoais)

Uma geração infantilizada?

Ser-se adulto começa quando cada um percebe que pode pedir, protestar e discordar, mas isso implica também propor, escolher, trabalhar, perder e pagar.

Em França, a pretexto de problemas nos liceus, adolescentes, jovens e adultos de várias etiologias, muitos com bandeiras da Palestina, keffyehs e estandartes com foices e martelos amalgamaram-se num frenesim de violência que ganhou momentum e se transformou num protesto contra já não se sabe bem o quê. Pelo caminho, escolas são bloqueadas, equipamentos destruídos, carros incendiados, e pessoas agredidas.

A questão que me interessa neste artigo é em que momento se passa de uma da reivindicação concreta para a convicção de que reclamar, exigir, incendiar, destruir e agredir é uma estratégia eficaz para resolver um problema de mobiliário escolar, falta de pessoal para arrumar as cadeiras, ou sequer exorcizar frustrações.

Conhecemos todos a típica cena de supermercado.

Uma criança birrenta vê um chocolate e reclama-o. Os pais explicam que não pode ser. O infante berra, bate com os pés, atira com o brinquedo ao chão,  e os pais fazem um esforço e cedem, para salvar a tarde, a reputação e os tímpanos. A criança, vitoriosa, aprende a magnífica lição de que berrar compensa e a intensidade do grito é um argumento vencedor. Repetido durante anos, o método produz adolescentes, jovens e adultos que já não chamam “mãe” à entidade encarregada de satisfazer os seus desejos, mas sim “eles” ou “Estado”.  E, quando o Estado não lhe dá o que eles exigem, os adultos infantilizados berram, fazem birra e usam o contentor em chamas como estratégia de conseguimento.

Convém distinguir um direito, de uma vontade a que se juntou um megafone. Ter professores,  segurança e certas condições são exigências inteligíveis, razoáveis, e os impostos servem para isso. Querer tudo imediatamente, sol na eira e chuva no nabal, sem escolher prioridades ou pensar em custos, é outra coisa.

A educação, em certos meios confortáveis do Ocidente tem procurado eliminar a frustração da infância. A derrota agride a autoestima e causa ansiedade, uma nota má é culpa do professor, um obstáculo é violência estrutural e a palavra “não” necessita de acompanhamento emocional e “espaços seguros”. Chegados à universidade, alguns destes “snowflakes” dominam já completamente a linguagem dos direitos e mostram-se pouco preparados para ouvir falar de deveres, dificuldades, escassez ou concorrência.

A psicologia conhece a sobreprotecção parental, ou educação “helicóptero”, feita por pais que removem todas as dificuldades aos filhos, levando-os à incapacidade de aprender a decidir, falhar e corrigir o rumo. Não é uma doença nem explica uma geração inteira, mas ajuda  a compreender o hábito de berrar e fazer birra, a pedir a atenção de uma figura paternal providencial, sempre que surge um obstáculo.

Em Portugal, em 2023, grupos climáticos ocuparam escolas e instituições públicas para exigir o fim dos combustíveis fósseis até 2030 e electricidade totalmente renovável a prazo ainda mais curto. O tema merece ser discutido, mas bloquear a porta de um ministério, ou sujar com tinta o fato de um político, dispensa essa parte maçadora que exige menos esbracejar e mais folha de cálculo.

Nos acampamentos universitários palestinianistas, exigiu-se o corte de ligações a instituições israelitas. No Instituto Superior Técnico chegou a propor-se o fim de um mestrado conjunto em Neurociências e Ciência de Dados. A ideia de sinalizar virtude exigindo a supressão da cooperação científica tem tanta lógica e eficácia como  apagar um incêndio destruindo a biblioteca. Mas para certos manifestantes, a reitoria devia obrigatoriamente produzir uma solução para o Médio Oriente até à hora de fecho da secretaria e o mestrado que se cancelasse, quanto menos neurociências, menos dores de cabeça.

A febre dos pronomes oferece outra variante. Tratar uma pessoa pelo termo que ela acha ser-lhe devido é uma cortesia a decidir por cada um. Já a exigência de transformar cada preferência individual numa obrigação universal, administrada por circulares, formações e vigilantes da linguagem, é outra conversa. Há um problema quando a delicadeza voluntária se converte numa exigência de submissão do outro. O respeito deixa então de ser recíproco, porque se exige ao outro que se adapte sem reservas, enquanto se declara ofensiva qualquer pergunta.

A exigência do “façam alguma coisa”, já saiu da universidade e entrou até no futebol.

A Irlanda, um caso patológico de antissemitismo, jogou há dias contra Israel, mas a sua selecção de futebol decidiu acompanhar os jogos com gestos de protesto, braçadeiras negras, cabeças baixas durante o hino adversário e ausência de apertos de mão. O seleccionador Hallgrímsson, cheio de si, encheu a boca com a patacoada de dizer que a equipa jogava “contra o genocídio”. Seguiram-se críticas, conferências de imprensa incómodas e dois encontros tensos. No fim, incapaz de aguentar a frustração de não ser universalmente amado e aclamado por aquilo que acreditava ser uma manifestação de virtude, pediu que a UEFA evitasse novos emparelhamentos entre Irlanda e Israel, invocando o bem-estar dos jogadores.

O princípio é delicioso: sinalizamos virtude, fazemos birra, somos grosseiros, transformamos um jogo numa declaração política e exigimos à UEFA que nos poupe às consequências, à crítica, e que actue como um Serviço de Apoio ao Desconforto Autoproduzido.

Há ainda a política do “alguém que pague”.

Na sua versão infantil, o socialismo é a crença de que o Estado possui um cofre inesgotável, escondido atrás do retrato do Presidente da República, e só não distribui casas baratas, bons salários e serviços perfeitos, por maldade ou distracção. Para o adulto essencialmente reclamador, “eles” têm dinheiro que não nos querem dar, e existe uma abstracção inesgotável chamada “os ricos”, categoria apta a financiar todas as promessas. O programa tem a simplicidade do chocolate no supermercado, é só preciso exigir e reclamar, de preferência com a cara coberta por um lenço da moda intifada-chic e a  pergunta “quem paga?”, é uma intolerável provocação reaccionária e fascista.

Manifestar-se é um direito importante, claro, mas uma multidão não substitui uma demonstração, e um cartaz não é um plano. Agir em manada faz muitos destes adultos infantilizados sentirem-se corajosos, sem assumirem qualquer responsabilidade individual. Cada um grita e exige tudo, mas poucos dizem quais das suas exigências sacrificariam para tornar possível a primeira.

Seria injusto, reconheço,  transformar esta caricatura no retrato de toda uma geração. Há jovens que estudam a sério, trabalham, criam empresas, cuidam de familiares, fazem investigação ou servem os outros sem pose no Instagram. Talvez sejam poucos os que escapam à armadilha da facilidade, mas são estes que resolvem problemas, pensam soluções e melhoram realmente a vida de todos. São muito capazes, embora menos visíveis porque, em vez de fazer birras em manada, estão ocupados a construir coisas.

A verdadeira infantilização não consiste em ter vinte anos e fazer disparates, porque isso sempre aconteceu, inclusive aos velhos de hoje. Consiste em ensinar alguém, durante vinte anos, que o mundo existe centrado em volta do seu umbigo, com o único propósito de lhe evitar contrariedades.

Ora ser-se adulto começa quando cada um percebe que pode pedir, protestar e discordar, mas isso implica também propor, escolher, trabalhar, perder e pagar. Sem essa descoberta, será toda a vida um “activista empoderado” e fará carreira como deputado do BE ou do Livre, se tiver sorte.

Ou como uma criança com cartão de eleitor, a servir de figurante nos rebanhos habituais, a chamar injustiça à distância entre o que deseja e o que está disposto a fazer para o conseguir.