sábado, 13 de junho de 2026

The Spectator - Wind power’s dirty secret

 (personal underlines) LBC - there...as here


Wind power’s dirty secret

A wind turbine in Somerset (Credit: Getty images)

We have just about made it out of the doldrums. I’m not talking about Britain’s economic fortune. Nor am I talking about the NHS waiting list. (Both remain dire.) In true British form, I’m talking about the weather.

Long our favourite subject of chit-chat, the weather has in recent years become the master of our power supply. At the turn of the new millennium, Britain had essentially no wind power in the grid. But over the past quarter-century, we’ve added 31 gigawatts of  capacity. That sounds impressive when you consider our average power demand is something like 37 gigawatts. It sounds less impressive when you remember those wind turbines only generate power when the weather allows. Which, of course, it sometimes doesn’t.

You see, when the renewable lobby trumpets on about how much wind we’ve added to the grid, they sail past an important detail: ‘capacity’ is how much power would be produced under ‘specific conditions’. Those specific conditions for a wind turbine are winds that blow strongly and perpetually. Capacity, therefore, is an unattainable maximum. What really matters is generation – which is how much power is actually produced. The ratio between the two is called the ‘capacity factor’, and it’s here where renewables start to fall flat.

The capacity factor for Britain’s wind power – averaged over a year – is about 30 per cent. (For solar, it’s a dim 10 per cent.) So, the next time you hear a renewable advocate breezing on about how many gigawatts of wind capacity we’ve added to the grid recently, divide the number by three and you’ll get a number more meaningful. (For solar, divide it by ten.) But even then, those annual averages paper over the dreaded spells of calm weather, during which wind generation plummets.

Between Thursday and Sunday just gone, wind’s capacity factor averaged 13 per cent. The corresponding loss in generation compared to the same period a week previously (12.1 gigawatts) was the same as switching off all of Britain’s nuclear power stations (4.7 gigawatts) and cutting the undersea interconnectors to the Netherlands, Belgium, Norway, and France (7.4 gigawatts in total).

The weather did this. Not Putin, corrupt petrostates, or greedy gas companies. Not the closing of the Strait of Hormuz, either. Calm winds can befall us any time because the atmosphere is indifferent to geopolitics. Relying on wind turbines to power a modern economy is self-imposed energy insecurity.

In the meantime, our power demand didn’t budge. And therein lies wind power’s dirty secret: when the wind drops, we rev up the gas-fired power stations to make up the shortfall. Wind’s jagged profile swings in an almost-perfect reverse lockstep with that of gas. We’re in a ludicrous situation where the weather dictates how much gas we burn and, by extension, our carbon emissions.

Twenty-five years ago, we drew almost all our power from weather-independent sources such as nuclear, coal, and gas. We’ve since cut nuclear generation by more than half as our aging fleet partially retired; only one reactor – Sizewell B – will remain by the early 2030s. We eliminated coal completely in 2024. Meanwhile, we’re at risk of losing a third of our gas fleet by the early 2030s, too, as the remaining power stations age towards retirement. It’s hard to see how we’ll get through future doldrums without severe power shortages. This means blackouts, ‘demand side flexibility’ (a euphemism for ‘energy rationing’), or more imports from our European neighbours. Probably a mixture of all three.

The much-vaunted grid-scale storage won’t help, either. Britain currently has about 40 gigawatt-hours of it, enough to keep the lights on for an hour and five minutes. Storage measured on fleeting timescales cannot carry a system through doldrums that stretch on for days or even weeks at a time.

Building wind turbines isn’t a bad thing per se. But without building weather-independent power sources alongside them, it leaves our grid exposed to the elements. We have two realistic choices: build more gas-fired power stations, thereby scrapping our net zero targets or – and this is the far more sensible option – expand our nuclear fleet rapidly, which would give us the reliable power we need without the carbon cost.

The wind has picked up and is generating 20 gigawatts today. Who knows what it will be doing in a fortnight’s time. In the meantime, we’re chasing rainbows instead of the secure grid our society needs.

Observador - O Mundial comanda o sonho (Alberto Gonçalves)

 


(sublinhados pessoais)   


O Mundial comanda o sonho

Os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.

Primeira parte: política

Vejo muita gente preocupada com a circunstância de o Mundial se realizar sobretudo nos EUA. Trata-se de um receio pertinente. É sabido que na América actual as autoridades fascistas começam por deter e deportar metade dos visitantes logo no aeroporto. Depois perseguem a outra metade pelas ruas, na maioria das vezes a tiro. E se por acaso no processo sobrar um turista incauto, os agentes do ICE são meninos para segui-lo até o restaurante, sentarem-se na mesa ao lado e passarem a refeição a comer com a boca aberta só para suscitar irritação. Não são as condições ideais para a realização da prova-rainha do desporto-rei. Principalmente numa altura em que a FIFA nos habituara a designar anfitriões com provas dadas de hospitalidade e decência democrática. Houve a África do Sul do sr. Zuma em 2010. Houve o Brasil da dona Dilma em 2014. Houve a Rússia do sr. Putin em 2018. E houve o Qatar dos senhores que mandam no Qatar em 2022. Descer destes regimes exemplares para a autocracia do sr. Trump é um risco escusado e um sinal de que, contra todas as expectativas, as altas instâncias do futebol afinal não são absolutamente impolutas. O que é uma surpresa e um desgosto.

Intervalo capilar

Apesar da natural apreensão sobre as condições políticas, o fundamental é concentrarmo-nos durante 39 dias no que conta: os penteados dos jogadores. Parece impossível, mas na pré-história do futebol os futebolistas possuíam um aspecto similar ao dos restantes mortais. Depois vieram as guedelhas dos anos 1970, as permanentes dos anos 1980 e o estilo mopa/esfregão celebrizado por Figo nos anos 1990. E hoje os jogadores voltaram a ter um aspecto similar ao dos restantes mortais: os mortais que habitam as favelas de Recife, os “barrios” de Ciudad Juarez e as escolas secundárias de Portugal em peso. Embora as tatuagens, a bijuteria e o vestuário sejam importantes, o penteado é determinante. O dito consiste em rapar o cabelo oito centímetros acima da orelha, de maneira a que não se insinue sequer o vestígio de uma patilha. À frente, procede-se a uma risca desenhada a betume ou, preferencialmente, uns caracóis pendurados na testa. Atrás, é aconselhável aparar os pelos da nuca em forma de triângulo, a fim de completar o visual de quem teve alta hospitalar após severa lobotomia. Lavrar traços alegóricos no meio dos folículos é facultativo, enquanto o bigodinho e um arremedo de barbicha na ponta do queixo são acrescento de categoria. Para os autênticos estetas, a cereja no topo do bolo é a tinta amarela no topo da cabeça, adereço que torna o Brasil a selecção com mais loiros em actividade e consagra a expressão “escrete canarinho”.

Segunda parte: inclusão

Óbvia é a ironia de um país com profundas lacunas democráticas acolher o Mundial mais democrático de sempre. Antigamente, a tradição mandava que após apuramento prévio apenas uma ou duas dúzias das melhores selecções se apurassem para a fase final. Felizmente a tradição faleceu. Agora há um apuramento prévio em que, como no ensino inclusivo, quase nenhuma equipa reprova. Por mim, estou ansioso por ver os 104 (cento e quatro) desafios, mas mentiria se não confessasse particular expectativa face aos jogos Alemanha vs. Curaçau, Áustria vs. Jordânia, Uzbequistão vs. Colômbia, Iraque vs. Noruega e Papua-Nova Guiné vs. Turquemenistão. E quero ver com atenção redobrada o desempenho das selecções de Tuvalu, do Panamá e da Eritreia, nações cujos torneios internos não tenho acompanhado regular e devidamente. Em contrapartida, lamento a desqualificação precoce e injusta da Ilha da Páscoa.

Prolongamento: táctica

Nos maus tempos, o futebol permitia a distinção de futebolistas com talento para aquilo. Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona jogavam muito bem, ou o que os leigos achavam que era jogar muito bem. Porém, como nos esclarecem 682 comentadores e especialistas na modalidade, o objectivo da modalidade não é entreter o pagode com jogadas “bonitas”. O objectivo é vencer as partidas através da aplicação de tácticas complexas e que o leigo tende a confundir com uma correria desenfreada e sem tino. Fintar o adversário é rigorosamente proibido. Jogar “bem”, idem. No futebol “moderno” e cientificamente entediante, graças a Deus, a única finalidade é fazer com que 11 sujeitos dotados de excelente preparação física e criatividade reduzida enfiem colectivamente a bola na baliza e, após esperarem 15 minutos de modo a que as “novas tecnologias” (o registo de imagens, divulgado pelos Lumière em 1895) confirmem o golo, com que o golo se festeje com pantomimas ensaiadas e o ar misteriosamente furioso do seu autor. Sem falha, sob pena de despedimento, o relatador de serviço vai proclamar com os gritos de um possesso: “É isto a magia do futebol!” Mas a essa hora o espectador, leigo e bruto, já adormeceu no sofá.

Penáltis: patriotismo

E a selecção portuguesa? Está bem lançada. O presidente Seguro visitou-a e esgotou os clichés disponíveis: “O país acredita em vós. Façam-nos sonhar e tragam para Portugal a taça que nos falta. Vamos todos torcer por vocês. Acredito que, com o vosso entusiasmo, força, fibra, talento e trabalho, isso é possível. (…) Num torneio desta dimensão, também se passa por muitas dificuldades e muitas exigências, mas é aí que se mostra a fibra e a alma de ser português. Nessa altura, estarão milhões de pessoas em todos os cantos do mundo a torcer por vós e a dar-vos o máximo apoio.” O primeiro-ministro manteve os clichés e reforçou o delírio: “Assumimos, sem rodeios, que somos candidatos a poder ganhar o Campeonato do Mundo. Temos muitos desportistas que são os melhores do mundo. Este é um alento à nossa capacidade enquanto país, de podermos pensar que, em todas as áreas de atividade, com espírito de equipa, superação e vitória, conseguimos fazer coisas que os outros ainda não fizeram.” Somos, portanto, espectaculares. Temos força, fibra, talento, trabalho, mais fibra, alma, espírito de equipa, superação e vitória. Com tudo isto é um enigma que entremos no Mundial com um pib per capita inferior ao de 54 países sem dúvida com menos fibra e alma e etc. E é garantido que sairemos do Mundial na mesma. Entre ambos os momentos, o bom povo debaterá as competências de “Rónaldo” e louvará os méritos da “transição ofensiva” e protestará as arbitragens e pendurará bandeirinhas e insultará os presunçosos que teimam em recordar que o futebol era só um divertimento e hoje aborrece um santo. Em suma, os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.


The Spectator - Why so many drivers jump red lights

 

(personal underlines)

Why so many drivers jump red lights

Credit: iStock

The signs that civic society in this country is disintegrating grow more apparent by the week. In a year which has witnessed the arrival in earnest of a shoplifting epidemic, the continued normalisation of fare-dodging on London’s train and tube network, and a surge in fuel theft at garage forecourts, it now transpires that drivers are increasingly ignoring traffic lights.

According to a report in the Sunday Times, between 2022 and the end of last year, there was a 61 per cent increase in the number of drivers caught going through red lights. Across the 29 police forces that supplied figures to a freedom of information request, this figure rose from over 85,000 to more than 137,000. As with shoplifting, the problem is likely to be worse than figures suggest, because many police forces did not provide data and less than 2 per cent of this country’s traffic lights are monitored by cameras able to issue penalties.

Road users flouting red lights have long been a problem when it comes to cyclists. Many of their numbers have for decades behaved this way in the knowledge that they will mostly go unchallenged, let alone be prosecuted. So it’s hardly surprising that drivers are following suite. Why, they are now asking themselves, should they do the right thing if their fellow road-users refuse to obey the rules?

That trend is alarming because it’s contagious. It’s the same one which has been replicated at supermarkets by ostensibly respectable middle-class types, who now see nothing wrong with the odd bit of pilfering, seeing that everyone else is also doing it. It’s been repeated on public transport, where there is now less stigma or dread attached to not paying for your ticket, by those who, in a different age, would feel ashamed of themselves for such behaviour or fear punishment for it.

The more this trend spreads throughout society, the more it snowballs. Drivers might well have taken their cue from cyclists who have acted with disregard for the law or their fellow citizens, but these motorists will also have seen what’s been happening at their local garage, supermarket or railway station. Once people see rules broken in one area of life, they have less compunction to break it themselves in another.

It’s not only the fear of the ultimate consequences that should deter law-breakers in a functioning society, but also the fear of getting caught in the first place, combined with its actual likelihood. But a new batch of motorists are not scared because they correctly perceive that their chances of any repercussions have lessened. Of the figure of 137,585 drivers who were actually collared for failing to comply with traffic light signals last year, less than a fifth – 24,955 – received a conviction. As it stands, similar to shoplifting and petty theft in general, many drivers neither fear getting caught nor what happens if they do.

The collapse in respect for the law on the railways was highlighted in a film which went viral last week, showing five fare dodgers pushing through the barriers at Romford station in east London within two minutes. As the man responsible for the footage, David Taylor, a councillor for the London Borough of Havering, said:

Like a pound-shop Bobby Jenrick, I filmed ticket gate jumpers whilst waiting at Romford station for a friend. Everyone obvious as anything and not bothering to hide their faces.

That all-too-familiar ugly bravado, underlined last year by Robert Jenrick, then a Conservative MP, when he challenged fare-dodgers on the Tube, continues to spread because society has let it do so. While police, station staff and security guards seem increasingly less willing or able to enforce the law or apprehend wrongdoers, members of the public are likewise reluctant to intervene for fear of adverse consequences for themselves. A series of recent stories about supermarket staff getting sacked for confronting thieves has only intensified a feeling of lawlessness that is enveloping this country. This feeling that results in a general apathetic drift into libertinage. People are more frequently asking themselves: why should I be the only mug doing the right thing?

The social contract emerges and is maintained by two means. One is through custom and the other is through force. In various sliding proportions, societies rely on moral codes which are obeyed by its members for fear of breaking a taboo and losing face, and they rely on laws, which carry the threat of punishment for transgressors.

We can no longer realistically seek to make amends through the first avenue, because a nihilist and multicultural society such as ours has shed its taboos and has no shared, unifying sense of community. The only option left is to increase and enforce punishment and increase the fear and likelihood of it happening.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

The Spectator - The unstoppable rise of stupidity

 



(personal underlines) - Que título! Brilhante! Rod é o máximo!

The unstoppable rise of stupidity

Hold the front page: I’ve found a very good contemporary novel to occupy my time. Such things have become vanishingly rare, even if one is grateful for David Mitchell’s metafiction, the occasional blast from Michel Houllebecq and Ben Marcus’s engaging lunacy. By and large, modern novels lack depth, originality of form and language, political unorthodoxy (i.e. freethinking) and a vaulting fictional imagination. Where, today, would you find the J.G. Ballards, the David Storeys, the Anthony Burgesses? In the sensitivity reader’s rejected pile, I suspect.

Most modern novels seem to be written by bloody nice people who agree with each other about everything and are wondering if they should go on one of those ‘We hate the working class’ marches they have in London every month or so. They are literally bien-pensant – and hence, I would suggest, stupid. Trouble is the ‘bad’ people have been banished from fiction: we’re lucky that Henry Miller, Céline, Genet and indeed that gay-bashing, vegetarian-hating George Orwell lived before our twitchy, censorious time.

Anyway, I digress. The novel in question is You Are The Führer’s Unrequited Love by the French author Jean-Nöel Orengo. It has been described in reviews as ‘unconventional’, which I think means that it isn’t about climate change. Instead, it documents the relationship between Adolf Hitler and his pet architect, Albert Speer, a relationship characterised by almost unconditional love on the Führer’s part, as well as a quasi-sexual infatuation. But the real point of it is to demarcate between hard truth and convenient lies – and wonder, with awe, at how we so much prefer the latter these days.

As Orengo says, it’s almost impossible to believe that, both at Nuremberg and once Speer had been released from prison 20 years later, we didn’t know ‘deep down’ that Speer himself knew everything – everything – about the extermination of the Jews. Given that as the minister of armaments he was in charge of Jewish slave labour, as well as being Hitler’s closest confidante, how could he not? But Speer’s absolutist and brilliant re-imagining of himself as a penitent Nazi who knew nothing about the really horrible stuff allowed him not merely to escape the noose but also to become fabulously rich from memoirs that weren’t simply unreliable, but were works of ‘radical’ (as Orengo puts it) fiction.

Speer, it should be added, did not hate Jews like his knuckle-dragging dullard colleagues. He just didn’t care and looked the other way. And we all (Gitta Sereny partially excepted) bought into the fiction of the good Nazi. Hell, even Simon Wiesenthal became Speer’s friend after his release and the publication of his bestselling Inside the Third Reich (which is also worth reading as an example of autofiction). How we all yearned to believe that clever self-absolution written with confected candour and delicacy in Spandau prison upon, fittingly, toilet paper.

I was wondering about this when deciding what to talk about to a group of British Jews in Leeds next month. The comparatively easy thing to do would be to document the rise of British anti-Semitism and tie it to the pro-Islamic far left, with its roots in old Cold War divisions and the deeply anti-Semitic history of communism. All of this would be true, of course, but it wouldn’t really get us to the heart of the matter. Instead, it would be a kind of glib evasion.

The real point resides somewhere at the heart of Orengo’s story: the propensity of perfectly decent people – the kind of people who might write an angry novel about climate change, or maybe not write anything at all but just have an obsessive quasi–sexual relationship with the word ‘Gaza’ and engagingly patterned Arabic headscarves – to believe what accords in an agreeable manner with their already formed opinions, rather than with what they know, deep down, to be true.

A whole bunch of studies have shown that an awful lot of people who spend their time online have a marked preference for fabrications and fictions. This has been noted even – I say even but, God help us, that qualifier is entirely redundant – among academics, who while they might recognise findings that contradict their idiotic assumptions, will shelve those findings because they’re not ‘useful’ politically.

Down below those debauched shitgibbons are the millions tapping away on Facebook and Instagram, and in the BBC and Sky studios. Coerced by modernity and stupidity into refusing to countenance an opinion which might possibly conflict with their own, these people are pushed further and further by technology and its insistence upon a Manichean divide between my side and your side. A divide where your side is never right about anything. And not just wrong, but wicked, consisting of opinions that can only be held by the sort of people who aren’t committed to justice and who might occasionally enjoy a novel which isn’t about climate change.

Dig beneath that and you’ll find a society that considers the acquisition of knowledge not merely less important than the espousal of a political viewpoint, but an intellectual cul de sac. There is nothing to be gained by knowledge – regrettably it has in the past been fetishised as a desirable concept and often used to prevent progress. In our education system – and percolating way beyond, into the viscera of the public – the notion of actually knowing stuff from which one can then advance an argument is of no matter; in fact, it’s reactionary. The facts don’t matter You have your truth and I have mine. And mine is not only right, but unchallengeable.




Cartoon - Jim Unger

 







Livro - Fausses Pandémies vrais mensonges (Corinne Lalo)

 Mais um livro sobre Teoria da conspiração, mas bem documentado e com algumas evidências estranhas
















quinta-feira, 11 de junho de 2026

Observador - Não perguntem quem perdeu se a guerra no Irão acabar mal (Rui Ramos)

 


(sublinhados pessoais)

Não perguntem quem perdeu se a guerra no Irão acabar mal

Deixemo-nos de ilusões. Se a guerra acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os generais americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam.

A guerra contra a ditadura iraniana pode não acabar bem. Não acabar bem significa a tirania dos Khamenei sobreviver, e os EUA enredarem-se outra vez no xadrez das negociações e sanções, onde os ayatollahs os têm toureado nas últimas décadas. Mas se a guerra acabar mal, há duas conclusões erradas que, por mais consoladoras que sejam, convém evitar.

A primeira é esta: a guerra acabou mal por ser uma guerra desnecessária. Errado. As guerras são sempre uma opção tremenda e arriscada. Se os EUA recorreram às armas, foi porque os outros meios falharam. Em 1979, a teocracia iraniana declarou-se inimiga do Ocidente e do que o Ocidente representava. Fundou e financiou organizações terroristas, tentou desenvolver armas nucleares, adquiriu mísseis capazes de atingir a Europa. Durante anos, americanos e europeus usaram negociações e sanções para dissuadir os teocratas de Teerão. Sem resultado. Da parte dos EUA, a operação militar foi um último recurso. Se a guerra acabar mal, não quer dizer que não devesse ter sido tentada.

A segunda é esta: a guerra acabou mal porque Trump não tinha um plano ou o seu plano era mau. Errado outra vez. Os EUA têm os meios militares para vencer um conflito armado, incluindo generais aptos para os usar da maneira mais eficiente. O problema não está nas armas, ou nos planos. Está em sistemas políticos e em economias que não parecem suportar uma campanha militar prolongada: governos que temem perder eleições, e economias minadas pelo endividamento, por impostos altos e pela inflação, e por isso impedidas de qualquer esforço mais espartano. Bastou aos mullahs fecharem Ormuz. Se a guerra acabar mal, não correrá melhor da próxima vez.

Dizer que a guerra foi apenas um capricho de Trump ou que um eventual insucesso se deveu somente à sua má planificação é muito confortável. Permite que acreditemos novamente que as valsas diplomáticas são a melhor solução para conter a ditadura iraniana, embora nunca tenham funcionado antes, ou que, sem Trump, venceremos da próxima vez, apesar de não se constatar, no Ocidente, qualquer movimento para ultrapassar as debilidades que agora espartilharam a sua força militar.

Deixemo-nos de ilusões. Se a guerra acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os generais americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam. Será por duas razões muito menos convenientes: porque a teocracia iraniana, fanática e sanguinária, é resiliente, e porque o Ocidente, dividido e endividado, não tem força para a derrubar. E isso justificará alguma inquietação, na medida em que a ditadura iraniana não é um problema local do Médio Oriente. O Irão, com 12% do petróleo mundial, quase 100 milhões de habitantes, e aliados como a Rússia e a China, dispõe do que é necessário para ser um problema global. Mais: o Irão dos Khamenei não é um Estado normal, susceptível de compromisso e moderação. É um projecto apocalíptico, que se alimenta de vertigem e ousadia. Funciona, desde 1979, como o principal foco do islamismo político, uma ideologia que subverteu o Médio Oriente, e que agora apela às comunidades muçulmanas que o caos migratório deixou instalarem-se na Europa. Derrotar a teocracia iraniana é a maneira de desacreditar o radicalismo político associado ao Islão, e prevenir que os muçulmanos na Europa se convertam em massa de manobra dos movimentos inspirados pela revolução islâmica iraniana.

É preciso que esta guerra não acabe mal. Mas se acabar, não perguntem quem perdeu. Não será Trump:  seremos nós todos. Porque se esta guerra acabar mal, isso apenas significará que a guerra continua.


Observador - Os EUA à mercê dos fígados do Aiatola (Rodrigues do Carmo)


 (sublinhados pessoais)

Os EUA à mercê dos fígados do Aiatola

quando Washington confunde prudência com súplica e diplomacia com rendição embrulhada em papel timbrado, Israel deve agradecer os conselhos e fazer aquilo que os Estados dignos fazem: defender-se.

Em certos casos a política internacional é bastante simples.

Continua a ser perigosa, naturalmente. Continua a ter mapas, interesses, alianças, petróleo, sondagens, diplomatas de linguagem criativa e generais que falam por eufemismos, mas deixa de ser complexa. Reduz-se até  a uma pergunta simples: quando uma civilização é atacada por quem a quer destruir, defende-se ou negoceia as condições da próxima humilhação?

A crise entre os EUA, Israel e o Irão chegou precisamente a esse ponto. Cem dias depois de Washington e Jerusalém terem entrado numa campanha destinada a travar o programa nuclear iraniano, degradar a indústria de mísseis balísticos da República Islâmica, cortar os braços terroristas de Teerão e, talvez, criar as condições para a queda do regime, a aliança entre os EUA e Israel atingiu o seu momento mais baixo. Não por falta de meios. Não por falta de diagnóstico. Não por falta de inimigo. Mas por falta de vontade o que, na guerra é apenas uma forma sofisticada de convite à agressão.

Com o norte de Israel fustigado pelo Hezbollah, Israel atacou simbolicamente Dahiyeh, o reduto terrorista nos subúrbios de Beirute. O Irão, fazendo aquilo que as ditaduras fazem quando interpretam  a prudência alheia como medo, disparou mísseis contra o norte de Israel. Israel preparou-se para responder.

E então surgiu Donald Trump, não como líder do mundo livre, mas como moderador de recreio numa escola problemática: já chega, cada um teve a sua diversão, Israel bateu, o Irão bateu, agora portem-se todos bem.
É difícil encontrar melhor resumo da decadência estratégica ocidental. Uma democracia atacada e uma teocracia agressora são colocadas no mesmo plano, como se Israel e a República Islâmica fossem dois vizinhos barulhentos a discutir lugares de estacionamento. A palavra “diversão”, aplicada a mísseis lançados por um regime que há décadas financia terrorismo, persegue dissidentes, arma proxies e procura chegar à bomba nuclear, é quase perfeita. Não por ser verdadeira, mas por ser reveladora. Mostra até que ponto uma parte da política americana já não consegue distinguir contenção de abdicação.

Trump quer um acordo. Não há nada de errado em querer um acordo. O problema começa quando o acordo passa a ser mais importante do que o objectivo que devia servir. A prioridade deixou de ser impedir o Irão de obter armas nucleares, neutralizar a sua rede regional ou restaurar a dissuasão. A prioridade passou a ser reabrir o Estreito de Ormuz, acalmar os mercados energéticos, anunciar que a guerra acabou e vender ao eleitorado americano uma fotografia de estadista vitorioso. O Médio Oriente pode continuar inflamável; o Irão pode continuar pérfido; o Hezbollah pode continuar armado até aos dentes; os aiatolas podem continuar a aproximar-se da bomba com a habitual paciência oriental. Desde que haja uma assinatura, um comunicado e uma conferência de imprensa, tudo se arranja.

Excepto a realidade, que tem a desagradável tendência de não obedecer a comunicados.

A guerra que devia ter acabado não acabou porque nenhuma das suas causas foi removida. O cessar-fogo não passa de uma pausa administrativa entre explosões. O Hezbollah continua a ser o exército avançado do Irão no Líbano. O Hamas continua a ser o laboratório palestiniano da violência iraniana. Os Houthis continuam a ameaçar rotas marítimas. As milícias xiitas continuam a compor o império informal de Teerão. E o programa nuclear iraniano continua a ser o centro gravitacional de toda esta arquitectura. Chamar a isto “fim da guerra” exige uma imaginação generosa. Ou uma necessidade eleitoral urgente.

O Irão percebeu. E percebeu depressa. Teerão está a testar limites. Está a fazer aquilo que os regimes revolucionários fazem quando encontram uma potência ansiosa por negociar: provoca, mede, observa, recua meio passo, avança dois, finge indignação e aguarda a próxima concessão. A cada hesitação americana, aprende. A cada telefonema para travar Israel, aprende. A cada ameaça não cumprida, aprende. A cada memorando sem dentes, aprende. A cada “estamos muito perto de um acordo”, aprende que a Casa Branca precisa mais da assinatura do que os aiatolas precisam da paz.
É uma pedagogia suicida que ensina o inimigo a ousar.

Samuel Huntington lembrava que as civilizações se organizam em torno de Estados-núcleo. No caso do Ocidente, trata-se dos EUA. São eles que garantem a arquitectura de segurança do Ocidente, sustentam alianças, projectam poder, asseguram rotas, dissuadem rivais e, quando ainda se lembram da sua função histórica, protegem a ordem internacional que herdámos do pós-guerra. Se o Estado-núcleo vacila, os aliados fazem contas. Se o Estado-núcleo confunde liderança com gestão de danos mediáticos, os inimigos fazem mais contas.

E é isso que está a acontecer. Riade observa. Abu Dhabi observa. Varsóvia observa. Kiev observa. Taipei observa. O Cairo observa. Todos observam. E todos perguntam o que vale uma aliança com Washington se, no momento decisivo, Washington pressiona mais o aliado do que o inimigo? Que vale uma garantia americana se ela depende do preço da gasolina, da irritação presidencial ou da necessidade de anunciar uma vitória diplomática antes do jantar? Que vale pertencer ao campo ocidental se o seu núcleo actua como mediador equidistante entre quem defende a fronteira e quem a incendeia?

A resposta é desagradável. Mas os Estados sérios vivem de respostas desagradáveis.

Israel sabe que a relação com os EUA é vital. Seria absurdo fingir o contrário. A superioridade tecnológica, a cooperação militar, a cobertura diplomática, o abastecimento de munições, a integração estratégica: tudo isto conta. Mas há uma diferença entre depender de um aliado e entregar-lhe a soberania sobre a própria sobrevivência. Israel pode ouvir Washington. Deve coordenar com Washington. Deve evitar rupturas desnecessárias com Washington. Mas não pode permitir que Washington transforme a sua segurança numa variável da política interna americana.

Para os EUA um mau acordo com o Irão pode ser vendido, revisto, renegociado, explicado na televisão e enterrado por outra administração.  Foi o que disse Vance. Para Israel, um mau acordo pode significar um inimigo nuclear, o Hezbollah reconstituído, o norte evacuado, cidades sob fogo, reféns esquecidos, fronteiras corroídas e a próxima guerra travada em condições piores. A América pode sobreviver a uma ilusão diplomática. Israel talvez não.

É por isso que a atitude americana é mais do que um erro circunstancial. É uma falha civilizacional. O núcleo do Ocidente está a comportar-se como se a sua missão fosse impedir Israel de vencer depressa, não impedir o Irão de continuar a ameaçar todos. Como se a estabilidade consistisse em evitar que a democracia atacada responda ao agressor. Como se o verdadeiro perigo fosse a firmeza israelita, não a expansão imperial de uma teocracia que usa milícias como instrumentos de política externa e o nuclear como seguro de vida.

A “desescalada” tornou-se a palavra preferida dos que não querem pronunciar a palavra “vitória”. Desescalar pode ser sensato quando os dois lados procuram equilíbrio. Mas o Irão não procura equilíbrio. Procura imunidade. Procura conservar o programa nuclear, proteger os proxies, manter a chantagem energética, controlar parte do Líbano, ameaçar Israel de várias frentes e, no fim, ser reconhecido como potência inevitável. Se a desescalada permite isto, então não é paz. É colaboração involuntária com a estratégia do inimigo.

Há aqui uma ironia amarga. Durante anos, os realistas ensinaram-nos que os Estados não têm amigos permanentes, têm interesses permanentes. Pois bem, Israel tem de aprender essa lição. Os seus interesses permanentes são sobreviver, impedir o nuclear iraniano, neutralizar ameaças imediatas e preservar liberdade de acção contra quem o quer destruir. Se os EUA partilham estes objectivos, óptimo. Se hesitam, pior. Se se opõem, Israel terá de escolher entre a gratidão devida ao aliado e a responsabilidade devida aos seus cidadãos.

Nenhum primeiro-ministro israelita tem o direito moral de escolher mal nesta matéria.

A República Islâmica não é um interlocutor difícil. É um inimigo declarado. O Hezbollah não é um partido libanês com uma ala militar. É uma ala militar com uma decoração parlamentar. Os Houthis não são uma curiosidade tribal do Iémen. São uma ferramenta de bloqueio e chantagem. O Hamas não é uma expressão desesperada de resistência. É a prova sangrenta de que o fanatismo, quando financiado e desculpado, não produz justiça mas sim massacres.

E perante isto, o Ocidente parece muitas vezes mais incomodado com a reacção israelita do que com a agressão iraniana. É uma velha doença europeia que agora ameaça contaminar Washington, a crença de que o problema não é o bárbaro à porta, mas o guarda que insiste em não largar a espada.

Em suma, a guerra não acabou porque o Irão não foi derrotado, o Hezbollah não foi desarmado, o Hamas não foi erradicado, os Houthis não foram neutralizados, o programa nuclear não foi encerrado e a dissuasão não foi restaurada. Acabou apenas na imaginação de quem precisa de dizer que acabou.

Israel não tem esse luxo. Não vive entre oceanos. Não está protegido por duas fronteiras pacíficas e milhares de quilómetros de distância. Vive no bairro real, com vizinhos reais, mísseis reais e inimigos reais. Por isso, quando Washington confunde prudência com súplica e diplomacia com rendição embrulhada em papel timbrado, Israel deve agradecer os conselhos, pesar os custos e fazer aquilo que os Estados dignos fazem quando os seus interesses vitais estão em causa:  Defender-se.

Porque uma civilização que pede licença ao aiatola já desistiu de liderar. E uma nação que espera autorização para sobreviver já começou a morrer.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

The Spectator - Why Greta is so angry about Swedish immigration

 

(personal underlines)

Why Greta is so angry about Swedish immigration

(Photo: Getty)

Greta Thunberg is 23 years old. Six years have passed since her emotional address to the UN Climate Action Summit about the end of the world. She has since shifted her attention from climate activism to one fashionable left-wing cause after another, but her tone is as shrill as ever. The other day, she denounced Sweden’s migration policy as inhumane. Her conclusions, as usual, wrong. But she is at least right about one thing: Sweden has adopted an entirely new migration policy.

For years, Sweden took more asylum seekers per capita than any other country in Europe. Now asylum numbers have fallen to their lowest level since 1985, even as pressure across the rest of the continent remains immense.

Last year, only 6,700 people applied for asylum in Sweden – a drop over 95 per cent compared to 2015. This is no coincidence. Since taking office in 2022, the conservative government has pursued an active policy to bring this about.

We are living through a new age of migration. The world is more populous than ever, and more people now have the means to move across continents. In 1900, Europe had roughly 300 million inhabitants and Africa around 140 million. Today the EU has about 450 million people, while Africa has well over 1.5 billion. Surveys show that almost half of Africans aged 18 to 24 want to emigrate. In the Middle East, it is more than half. The most common motive is simple enough: a better life.

Few people move to Sweden for the weather. It is not the richest country in the world and the tax burden is high. Swedes are generally introverted and the culture is not easily accessible. The landscape may be beautiful, but it is hardly the deep forests and mushroom-picking that have attracted Africans and Arabs in their hundreds of thousands. Instead they are fleeing joblessness, bad governance and – simply – the prospect of a materially better life.

Had I been in my twenties and living in Senegal or Syria, I would probably have wanted to move to Europe too. For a young man, money is enough of a motivation. Once inside a European country, it is relatively easy for someone without much of a conscience to claim that he comes from a country that qualifies for refugee status. It is not much harder than it would be for me, as a Swede, to convince an Englishman that I am Norwegian.

That asylum seekers may lie when it suits them should surprise nobody. It is no more surprising than the welfare fraud and tax evasion seen in the wider population, in both Sweden and Britain. The more generous the system and the weaker the controls, the more abuse there will be.

In Sweden, the system has until now often penalised the honest and rewarded the dishonest. Even after a claim had been rejected, many have remained by appealing, exploiting delays and otherwise spinning the process out. In effect, ‘no, please leave’ was a rule only for the compliant.

Today, 20 per cent of Sweden’s population is foreign-born. Immigration from North Africa and the Middle East has had catastrophic consequences: serious organised crime, gang violence, widespread sexual offending, Islamism and terror threats, honour-based oppression and unemployment.

The current conservative government was elected on a promise to stop immigration — and it has succeeded to a remarkable degree. The Swedish government has established special return centres, where rejected asylum seekers are to live until they leave Sweden, in most cases no later than four weeks after the expulsion decision takes effect. Any new asylum or work permit application can no longer be made from within Sweden, but must instead be made from the country of origin.

Those who do not leave voluntarily are more often deported. Those who go into hiding are more often found by the police, who have been instructed to prioritise checks and the enforcement of deportation orders.

Tougher citizenship requirements, stricter benefit conditions, and other tougher rules mean that fortune-seekers now choose not to move to Sweden. At the same time, Sweden has made it easier for high-skilled migration that actually benefits the country.

Unfortunately, falsehoods are now being spread about what the new Swedish policy actually entails, and in this Greta seems to be doing her utmost to blacken the reputation of her own country. No one is deported where grounds for protection exist. Those entitled to asylum are granted it. The process is legally sound, with the right to have one’s case heard by the courts. Fortunately, Greta no longer seems to have the influence she once did as a child-prophet.

Sweden has nevertheless shown that migration can be brought down. For a British government with the same ambition, this should be possible as well. After all, it may have been a sunny bank holiday weekend, but people are not generally crossing the Channel for the British weather either.

Música - Saving Dookoosliid (Jay Begaye)

 



https://www.youtube.com/watch?v=TcIcGWx7NQQ&list=RDTcIcGWx7NQQ&start_radio=1

Observador - O iminente momento da extinção? (Miguel Morgado)




 (sublinhados pessoais)

Isto é que é ver para a frente! - LBC


O iminente momento da extinção?

O que temos diante de nós com a IA mostra todos os dias, não o nosso aperfeiçoamento, ou fortalecimento, mas a nossa obsolescência. Para ser mais rigoroso, mostra a nossa superfluidade.

Nos últimos meses têm-se multiplicado as reflexões sérias sobre a natureza e consequências da revolução da Inteligência Artificial. Na semana passada comentei no Observador as meditações do Papa Leão XIV sobre o tema. Não aborda todos os aspectos de forma satisfatória, mas não deixou de ser importante. O Papa imitou os outros. Em todo o mundo tanto as expectativas, como as preocupações, crescem a cada dia. A enxurrada justifica-se por inteiro. Mais, o tema adquiriu uma inequívoca urgência.

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Deixando de parte as importantes questões da concentração do poder das grandes empresas que dominam estas tecnologias, ou os usos sinistros e cruéis das novas possibilidades, temas que abordei na SIC Notícias, há um outro aspecto desta revolução que começa a enraizar-se precisamente pela sua urgência. É, de resto, um problema recorrente nas grandes revoluções tecnológicas e “industriais”. À medida que os modelos LLM vão, por um lado, melhorando, e, por outro, generalizando-se na sua utilização, vamos descobrindo as profissões e competências humanas em risco de substituição. Profissões até há muito pouco tempo consideradas insubstituíveis, como a de tradutor ou aquela que se dedicava ao coding, vão-se obliterando na linha de tiro da Inteligência Artificial. Uma após outra vão engrossando um desfile de relíquias do passado até ao infinito.

A tentação é pôr os óculos de historiador e dar a resposta que, noutras ocasiões, seria certeira e passaria por sofisticada.  Seria a resposta que reafirma todos os precedentes históricos para dizer que uma revolução tecnológica não cria desemprego – apenas reconfigura, por vezes de modo radical, imprevisível e irreconhecível, o mercado de trabalho e o elenco de funções. Foi assim no passado, será assim no presente.

O defeito clássico da sabedoria do historiador é profetizar eternas recorrências e repetições sem dar espaço para o que não tem precedentes, para o absolutamente inédito. Com efeito, no caso da revolução tecnológica que estamos a viver existe muita coisa que é nova. A começar pelo essencial: as revoluções tecnológicas do passado, incluindo as mais recentes, seguiram o alinhamento de estender, ou aumentar, as capacidades humanas. Tornavam as máquinas ferramentas dos humanos, fazendo deles, e ao seu comando, seres mais fortes, mais longevos, mais rápidos, mais memoriados. Sucede que o que temos diante de nós mostra todos os dias, não o nosso aperfeiçoamento, ou fortalecimento, mas a nossa obsolescência. Para ser mais rigoroso, mostra a nossa superfluidade.

Não há talento, competência, função profissional ou ociosa, que não esteja ameaçada pelo superior desempenho da máquina. Como devemos associar a revolução da inteligência artificial com a revolução na robótica, porque ambas estão associadas e sobretudo porque o potencial de alinhamento entre ambas é astronómico, mesmo as funções e desempenhos de carácter físico-atlético começarão a revelar a sua obsolescência. As grandes instituições sociais que edificámos para glória do mundo estão também em risco de cair na insignificância, como as universidades, os tribunais ou a escolha pública-política. Assim como estão as posições de mais elevado prestígio social, como a do advogado ou a do professor universitário, que têm os dias contados.

Daí que a discussão sobre se vai haver mais desemprego ou menos desemprego, acaba por ser surpreendentemente fútil. Se antes se propunha um rendimento de existência relativamente elevado para todos, obtido a partir dos novos ganhos de produtividade, e distribuído para compensar o desaparecimento de empregos, agora temos de finalmente confrontar a ameaça da total superfluidade. Ao contrário do que sugerem os suspiros estéreis da esquerda, não há rendimentos básicos universais que nos devolvam a substancial insubstituibilidade do ser humano, se esta for irremediavelmente perdida.

As razões desta escalada são muitas, desde a compreensão de que tanto no sentido da existência e na formação da identidade pessoal resulta do trabalho que fazemos, até à subversão dos usos do nosso prestes a ser adquirido lazer. Mas se, na consciência que temos de nós próprios, a máquina e o seu glorioso desenvolvimento nos devolverem uma incomensurável e profunda impressão de superfluidade, então o mundo humano morrerá. Não há outra maneira de dizê-lo.

Seria irónico que o momento histórico em que a Humanidade alcança o que durante séculos e milénios sonhou – não ter de trabalhar para viver e ter o seu corpo resistente contra a grande maioria dos males que o destruíam – coincidisse com uma espécie de gigantesca eutanásia. O momento de inauditas conquistas coincidiria com a derradeira extinção. Quanto mais depressa começarmos a confrontar este grande ponto de interrogação, melhor. Esta urgência não vai esperar, e, ao contrário do SNS, não há planos de emergência que sirvam de remendos.