sábado, 7 de novembro de 2026

Livro - Eu, Giorgia

 












Observador - A tenda, a juíza e a relatividade geral

 


(sublinhados pessoais)

A tenda, a juíza e a relatividade geral

Pode-se perfeitamente concluir que um diploma é constitucionalmente inadequado mas, nesse caso, existe um Parlamento, cuja ocupação habitual, além das indignações retóricas semanais, inclui fazer leis

Einstein demonstrou, em 31 páginas,  que o tempo é relativo. A juíza Ana Campos precisou de 78 para demonstrar que 00h30 é a hora exacta a que isso acontece.

Nunca me ocorreu que a Teoria da Relatividade viesse a ter aplicação prática ao Decreto-Lei 406/74, mas a Justiça portuguesa, reserva-nos sempre grandes surpresas.

O artigo 11.º desse diploma é inconstitucionalmente simples, segundo a juíza. Diz que reuniões e outros ajuntamentos é só até às 00h30. Não diz aproximadamente 00h30, nem salvo se a causa for progressista, a tenda for Quechua ou o ocupante tiver suficiente consciência revolucionária. Também não revê excepções em anos bissextos, noites de luar ou manifestações contra o capitalismo.

Diz 00h30 e pronto!

Sucede que a juíza Ana Campos demonstrou, em 78 doutas páginas que 00h30 não significa  00h30. A sra. Cambra poderá, assim armar barraca no Rossio, até 24 de Novembro.

A campista em questão, não é uma pessoa vulgar que calhou sair do Pingo Doce, tropeçou numa tenda  e acordou com vontade de dormir no Rossio. Foi militante do Bloco de Esquerda e é dirigente dos Trabalhadores Unidos, um grupo marxista e /ou trotskysta  que ninguém sabia que existia, mas que declara pretender por cá uma sociedade socialista, presumo que à semelhança de Cuba ou da Coreia do Norte. Nada contra. Cada um escolhe as velharias que prefere coleccionar.

A senhora juíza estabeleceu, porém, regras rigorosas. A autorização refere-se só à estouvada Renata. O protesto deve ser pacífico, ou seja, nada de atirar garrafas aos polícias, fazer intifadas e proibir jornalistas porque os jovens, pá, estão em intimidades no bairro Quechua. Não poderá haver ruído entre a meia-noite e as 6h30, ou seja, a Renata não poderá sequer berrar “abaixo a burguesia”, num megafone, e a  revolução deverá conviver com o Mercado de Natal, senão o Dr. Moedas deve desenrascar um espaço para a Renata armar barraca talvez atrás de uma moita na Rua do Benformoso.

Já a PSP fica impedida de interromper a manifestação só porque o relógio marca 00h30. Durante semanas a polícia aplicou uma lei que diz 00h30 e agora a Dra. Ana ralha e explica que a leitura estava demasiado agarrada ao texto.

Para completar o quadro, apareceram entretanto no Rossio alguns polícias de serviço com cravos vermelhos enfiados na farda. Segundo a explicação atribuída à Direcção da PSP, os arranjos florais terão a ver com os valores de Abril. Ficamos assim a saber que a farda da polícia pode funcionar como calendário floral dos valores nacionais. O cravo serve para Abril. Em Maio poderá usar-se um malmequer, em Junho um gladíolo, em Julho um girassol, em Setembro uma dália e, chegando Novembro, talvez uma papoila afegã, para combinar com  o ambiente. Aguarda-se entretanto que a PSP esclareça se os valores são permanentes ou sazonais.

Atenção que a juíza não revogou a lei (porque não podia).  Recusou apenas a aplicação à fogosa Renata, e o resultado é que a lei das 00h30 continua em vigor para Portugal inteiro, mas às 00h31 deixa de ser aplicável à Cambra do Rossio. Todos somos iguais, mas a Sra. Cambra é mais igual que os outros.

O recurso oferece também uma grande oportunidade de entretenimento.

Como houve recusa de aplicação de uma norma legislativa por alegação de inconstitucionalidade, entra em cena o Ministério Público e o recurso para o Tribunal Constitucional, que pode ter efeitos suspensivos sobre a tenda da Renata, mas só se o juiz de turno no TC, achar bem. Se achar mal, nada feito. O Direito Português repousa numa sólida base de achismos pessoais.

Podemos, portanto, assistir ao Rossio em quatro ou cinco estados jurídicos em superposição:  proibido depois das 00h30, permitido depois das 00h30, suspenso ou não por recurso e, finalmente, constitucional ou inconstitucional quando o Palácio Ratton botar faladura.

Schrödinger teria adorado o Direito Administrativo português. A tenda está simultaneamente montada e desmontada até alguém abrir a caixa.

Há depois o milagre cósmico da velocidade.

A acção foi apresentada em 20 de Outubro. Dois dias depois o tribunal já tinha ouvido o MAI e a Câmara de Lisboa, e no dia 1 de Novembro já havia uma sentença de 78 páginas. Doze dias.

O Estado português consegue receber uma acção, ouvir as partes, apreciar argumentos constitucionais, consultar jurisprudência nacional e europeia e produzir 78 páginas numa dúzia de dias quando uma activista marxista quer dormir numa tenda no Rossio.

Já o cidadão vulgar, um parolo desinteressante que não tem megafone nem usa keffyeh,  espera mais de dois anos por uma dívida, uma herança, um despejo, um contrato, uma indemnização, uma qualquer banalidade burguesa que não envolva tendas, Palestina, capitalismo ou jornalistas em directo. Talvez devesse também instalar uma Quechua na linha férrea e berrar contra o “genocídio”.

A juíza Ana Campos tem antecedentes interessantes nesta concepção expedita da tutela judicial. Em Fevereiro ordenou ao IRN tratamento urgente do processo de nacionalidade de uma desportista brasileira, sob a ameaça de uma sanção de 30 mil euros.

Havia milhares de pessoas à espera, mas o caso da brasileira constituía, segundo o douto critério da juíza, uma circunstância merecedora de tratamento VIP.

O IRN decidiu rapidamente, claro. A arraia míuda que espere, quieta, calada e virada para a frente,  e que se dedique à esgrima, à montagem de tendas, ou espete um arganel na orelheira.

Não tenho dados para fazer uma psicobiografia da juíza, mas o que percepciono é uma concepção judicial particularmente interventiva segundo a qual, quando uma regra geral colide com circunstâncias individuais que a magistrada considera relevantes, a regra adquire uma surpreendente elasticidade.

Chegamos finalmente à logística.

Cambra poderá dormir no Rossio, mas não pode ressonar, tugir ou mugir a partir das 00h30. Arrotar deverá ser desencorajado. Quanto à flatulência, aguarda-se jurisprudência. Além disso, uma pessoa que permanece vários dias numa praça, mesmo que seja marxista, acaba por necessitar de instalações que nem a Constituição consegue abolir. Ficamos assim sem saber se Carlos Moedas irá disponibilizar um sanitário portátil, se haverá um penico revolucionário com a efígie de Estaline ou se a questão será entregue a uma comissão interministerial.

De resto, se a tenda é parte integrante da mensagem política porque simboliza a casa que falta (?) à Sra. Cambra, amanhã uma febra no Martim Moniz poderá simbolizar liberdade de expressão e, se a polícia interromper o assado, algo que, como se sabe, nunca aconteceu, lá teremos nova intimação urgentíssima, com 80 páginas, para decidir se a bifana é uma refeição ou uma forma constitucionalmente protegida de participação cívica.

Nesse momento atingiremos finalmente a maturidade jurídica e o Tribunal Constitucional reunirá em plenário para estabelecer a diferença material entre a febra e a bifana.

A questão para já, é que, num Estado de Direito, a polícia obedece aos tribunais, mas tem de saber que lei deve fazer cumprir.

Se o poder legislativo lhe entrega uma norma que diz expressamente 00h30 e, quando a aplica, uma douta juíza lhe explica que o tempo de Cronos depende de circunstâncias etéreas, não estamos apenas perante o caso da fogosa Cambra e da sua tenda, mas perante uma questão de previsibilidade da lei.

Pode-se perfeitamente concluir que um diploma é constitucionalmente inadequado mas, nesse caso, existe um Parlamento, cuja ocupação habitual, além das indignações retóricas semanais, inclui fazer e alterar leis.

O que não é saudável é manter no cardápio legal uma norma que diz uma coisa clara como a água e esperar que cada polícia, cada manifestante e cada juiz descubram, no momento que lhe convém, aquilo que ela afinal quer dizer.

Dura lex sed lex, mas convinha, antes disso, saber que lei se aplica depois das 00h30.


The Spectator - The great storm: What the ‘Godzilla’ El Niño means for Britain

 

(personal heighlights)

The great storm: What the ‘Godzilla’ El Niño means for Britain

Waves crash over Newhaven Lighthouse (Getty images)

By and large, the British Isles are a decent place to choose to live. While it is true that one reason for this is the quality of the institutions in the UK, the rule of law, the outstanding universities (and more), the more basic starting point is that the ecological lottery has been kind to this part of the North Atlantic: nice, long temperate summers and winters that do not give too much to complain about, other than short daylight hours. Most of the time, we live in a “Goldilocks zone” – not too hot, not too cold, not too dry, not too wet.

That balance has started to change in recent years. One reason comes from the natural rhythms of the planetary cycle; another, though, stems from the way we live and in particular from the way we generate energy. Last year, the oceans absorbed an estimated 23 zettajoules of additional heat – the equivalent of roughly twelve Hiroshima detonations every second throughout the year. This is in addition to greenhouse gases, including those released by burning hydrocarbons, which trap heat in the atmosphere. The result is a rapidly warming planet.

Over the last few months, scientists have been tracking sea surface temperatures in the Pacific – as they usually do – in order to make better predictions about the El Niño–Southern Oscillation (ENSO), which describes the relationship between the atmospheric and oceanic conditions in the equatorial Pacific – including the direction and strength of trade winds, surface water temperature and air pressure. The ENSO cycle of alternating warm El Niño and cold La Niña events is the dominant year-to-year climate signal on Earth.

El Niño occurs every two to seven years, when sea surface temperatures across the central and eastern tropical Pacific Ocean become unusually warm. Typically lasting between nine and 12 months, El Niño disrupts prevailing trade winds and alters atmospheric circulation, influencing weather patterns across much of the world. It often brings lower than average rainfall in Australia, Indonesia and parts of Southeast Asia, as well as weaker summer monsoons and an increased risk of drought in India. Although difficult to predict, it can also result in flooding along the Pacific coast of South America, while in China it increases rainfall in some locations while dramatically reducing it in others. The consequences can extend thousands of miles beyond the Pacific, including the British Isles because of the disruptive effects El Niño can have on the Atlantic jet stream – meaning stronger winds, worse storms and more rain.

Because of the way we teach (and sometimes write) history, the natural world is often put to one side when we think about the past: most can name the greatest – or most evil – leaders in history, or the most vibrant and successful cities or the great empires of the past; climate and the environment, on the other hand, are usually passed over in silence. This is a shame, as climatic anomalies have played important parts in topics as diverse as the fall of Queen Cleopatra to the writing of The Tempest and Macbeth, from the rise of the Vikings to the spread of disease not only in the Middle Ages but more recently too.

That is one reason why writing more expansive and inclusive books is important – and why this month sees the publication of a new illustrated version of my book The Earth Transformed, which is aimed not only at younger readers but also at those wanting to understand the way that the natural world fits both into the grand sweep of history and into specific episodes too.

That matters at the moment, because the coming year will be a difficult one. Sea surface temperatures in recent months in the central and eastern Pacific are not just high, but in ranges scientists have never seen before. So powerful is the developing El Niño, that it is not being referred to as a mega-Niño, but a “Godzilla Niño”.

It comes at a particularly bad time for the UK, which is struggling with sluggish growth, high national debt, inflationary pressures and the fallout from war in Ukraine and conflict in the Gulf. The first warning signs of the coming storm have already arrived. Over the weeks ahead, El Niño will increase the likelihood of wetter, windier conditions as Atlantic storms sweep across the country, bringing heavy rainfall and an increased risk of flooding, particularly in western Britain. For farmers already struggling with the consequences of an exceptionally dry summer, the prospect of waterlogged fields presents another challenge, while homes, businesses and transport infrastructure face the risk of costly damage and disruption.

Predictions can be tricky, since no two El Niños behave in precisely the same way. Nevertheless, strong episodes can increase the risks of colder conditions later in the winter as changes in atmospheric circulation interrupt the usual flow of relatively mild Atlantic air and allowing freezing conditions to spread southwards from the Arctic or westwards from continental Europe and Siberia. It scarcely needs saying that this will come at a difficult time given high energy prices and the pressures already facing household budgets. Emergency response planning should therefore be high on the government’s agenda, alongside measures to mitigate the impact on the most vulnerable.

The effects may not end with the arrival of spring. El Niño tends to raise global temperatures, often with a delay of several months, as heat accumulated in the Pacific is released into the atmosphere. That means 2027 could challenge existing global temperature records which have been broken repeatedly in recent years  – although precisely which parts of the world will be most affected and how remains uncertain. What seems more predictable, however, is the pressures on global food supplies and prices, compounded by fertiliser shortages resulting from disruption to shipping through the Strait of Hormuz.

It is little consolation that others might have it worse. But this is the moment to be fastening seatbelts and preparing for Mother Nature to remind us that for all our ingenuity, scientific breakthroughs and exciting new technologies, it is the natural world that has shaped human history – and will continue to shape our future.

Peter Frankopan is Professor of Global History at the University of Oxford. The Earth Transformed – Illustrated Edition: How Natural Forces Shaped Our History and the World was published by Bloomsbury on 22 October, with illustrations by Rômolo D’Hipólito

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Reflexão - O elevador da glória e a "Fidelidade" (LBC)

Que gente é esta? Mas, que mundo é este?

Tempos difíceis...






a) ..."totalmente imprevisível..."
NOTA: já a Companhia de Seguros É previsível...

b) ..."altamente confiável"
NOTA: já a companhia de seguros parece NÃO ser...






Thought (Reflexão) - LBC (Karl Bushby)

So many imbeciles and so much imbecility in this land—and then, along comes a serious guy who, in all seriousness, does something like this.

But no, what’s deemed more important are *Big Brother* shows, "encampments," nonsensical debates, and contests featuring people who don’t have a pot to piss in.

What a world...


Tantos imbecis e tanta imbecilidade nesta terra, e depois aparece um tipo sério e, a sério, e faz isto. 

Mas são mais importantes os Big brother, as "acampadas", os debates da treta, os concursos de quem não tem onde cair morto. 

Que mundo!

Cartoon - Larson (Reflexão - LBC)

Não sei porquê, este cartoon fez-me lembrar as potenciais consequências das últimas manifestações e "acampadas" no Porto e em Lisboa. 




Observador - Sangue, suor e lágrimas

 


(sublinhados pessoais)

Sangue, suor e lágrimas

A Europa está a descobrir que o seu modelo de vida exige condições que deixou de saber assegurar. A cavalgar esse facto estão radicais vários.

Lisboa, Porto, Berlim, Munique, Estugarda, Frankfurt, Nice, Marselha, Paris, Dublin, Zurique, Milão, Bilbao, Barcelona, Madrid. Eu ia começar por dizer que por todo o lado há um ponto em comum, que é o facto de a extrema-esquerda saber perfeitamente como identificar um ou vários problemas concretos para os manter suficientemente inflamados até que tudo arda à sua volta, mas talvez tenha de fazer uma ressalva: é evidente que quem não consegue mesmo pagar uma casa tem um problema real (que, já agora, é um problema bem mais grave do que quem consegue pagar uma casa queixando-se apenas de que a mesma é cara). Como é evidente que quem estuda em escolas a cair aos bocados tem razões para exigir melhor (eu andei em várias, dispenso as lições de moral de gente que não tem lugar de fala, como se diz por aí), e por aí adiante. Mas sucede que nenhuma reivindicação, por mais justa que seja, confere mandatos para destruir, agredir, incendiar ou substituir as instituições democráticas pela soberania dos que conseguem ocupar uma praça.

Por toda a Europa, Portugal incluído, porque a surpreendente coincidência desta vaga de protestos também nos arrastou para lá, coexistiram protestos pacíficos e episódios de violência grave, como os que vimos em França ou na Alemanha. Naturalmente, confundir todos os que se manifestam, por mais erradas que sejam as suas ideias ou propostas, com os opositores do Estado de Direito, da democracia liberal ou do mundo ocidental, seria um disparate. Mas também é verdade que a justiça de uma causa não torna legítimo tudo o que se faça em seu nome para lá das instituições, não é a bondade de um protesto que concede a todos os radicais a imunidade legal ou mesmo moral. E o que tem estado em causa desde o início é o carácter indefinido no tempo em que os acampamentos se anunciavam, a forma como o espaço público foi apropriado por privados e o conflito de interpretações jurídicas dirimível por tribunais. Pensava que isto era uma daquelas coisas que não seria necessário dizer, mas pelo que tenho visto estava errado.

(A decisão judicial entretanto proferida tem o mérito de ter sido proferida, lá está, por um tribunal, mas não deixa de conter nela, no juridiquês habitual, a origem de interpretações diversas, que só poderão ser dirimidas por um tribunal superior, quando podiam ter ficado cabalmente resolvidas por este. Isso, porém, não invalida o facto de que o MAI e o Governo deviam ter assumido a sentença como uma derrota e ficar a esperar para ver o que sai dos acampamentos. Ninguém sai vitorioso disto: nem os grupos das acampadas, nem o Governo, nem os tribunais. Mas deixemos isso para outro dia.)

O que me interessa é discutir o terreno onde esta contestação cresce. Mais do que os protestos, e este Big Brother das tendas ou dos saques a que temos assistido ao minuto por essa Europa inteira, ou mesmo mais do que os problemas que lhes estão na base, interessa-me mesmo muito cavar um pouco mais e tentar ir à raiz do problema. E o que temos bem lá no fundo de tudo é algo que me parece incontestável: a Europa está a descobrir que o seu modelo de vida exige condições que deixou de saber assegurar. A cavalgar esse facto estão radicais vários, mas tudo isso é mais consequência do que causa.

Aquilo a que nos habituámos colectivamente foi à distribuição de resultados de uma prosperidade tratada como eterna, mas cuja produção foi sendo tratada como tema secundário. E agora, sem líderes à altura, ninguém sabe explicar às pessoas de onde vem o dinheiro, a energia, o trabalho, a segurança, a liberdade, e muito menos explicar que só pode vir de nós próprios.

Andámos entretidos, ao longo das últimas décadas, a funcionar como se tudo tivesse terminado num compromisso absolutamente confortável: aquele em que a Rússia fornecia energia, a China fabricava, os Estados Unidos nos protegiam, e em que nós nos limitávamos a aperfeiçoar as regras e as virtudes pelas quais gostaríamos que o mundo inteiro se regesse. Acreditámos que o comércio era conciliador, que a interdependência domesticava ambições, que a prosperidade europeia acabaria a convencer todos os outros da nossa superioridade moral. Tudo isto ruiu como um baralho de cartas, em particular com a invasão da Ucrânia e com a mudança de perspectiva das várias lideranças norte-americanas (porque Trump pode ter menos jeito retórico para nos enganar do que Obama, mas no fundo já ninguém nos EUA quer saber de nós para nada há bastante tempo)

É verdade que continuamos a ter indústria, ciência, empresas e quadros altamente qualificados. Claro. O problema não é esse. A questão é a distância que vai da nossa capacidade ao que as nossas decisões colectivas nos permitem fazer. A desindustrialização, a energia cara, as dificuldades de investimento, a falta de capital, a lentidão administrativa, o peso da burocracia são o resultado de políticas acumuladas, não são fatalidades como tantas vezes parecem ser. E o que temos feito nós para contrariar tudo isso?

Achámos que ser um museu a céu aberto, virado de portas ao mundo, era uma solução, ou que o capital só cá podia entrar pela via da valorização do património. Este era, de resto, o maior consenso que tínhamos, a única via de captação de capital legítima e inquestionável. Foi com isso que reabilitámos cidades, que atraímos turistas, consumidores, enquanto vendíamos apenas localização, clima e segurança, três características que achávamos que não nos custavam nada, embora agora se veja que a última delas tem um preço que também deixámos de querer suportar. Sucede que viver assim é muito diferente de aumentar a capacidade produtiva de uma sociedade. E é por isso que as casas multiplicam o seu preço sem que os salários acompanhem essa valorização. É por isso que hoje o maior património dos portugueses é o seu activo imobiliário e não outra coisa – e é também por isso, já agora, que vamos acabar, se não quiserem destruir tudo como se prevê, com a primeira grande geração de herdeiros da História, gente que sem fazer nada por isso herdará activos imobiliários que valem fortunas.

A incapacidade produtiva numa sociedade altamente extractiva só podia resultar em conflito. Mas nós, quando devíamos estar a falar de recuperar produtividade e capital, estamos a entregar o debate a quem acredita que tudo se resolve como sempre nos foi prometido, isto é, com facilidade: perseguindo proprietários, colocando tectos administrativos aos preços, expulsando investidores. O Estado tinha um papel fundamental na preparação das respostas difíceis, mas que Estado é capaz seja do que for quando vive de economias em recessão, burocráticas, improdutivas, e perante eleitorados avessos a reformas? Que Estado endividado e mais assente no bem-estar do que na produção da sua economia seria capaz de responder fosse ao que fosse?

O conflito vem, também, da demografia. Envelhecemos, temos poucos filhos, organizámos todas as instituições como se houvesse sempre uma geração seguinte numerosa o suficiente para pagar a anterior, e resolveu-se o problema de outra forma: chegou-nos a imigração em massa como fórmula mágica para suprir faltas de trabalhadores e contribuintes. Mas, uma vez mais, o que fizeram as lideranças políticas? E nós? Não nos falta capacidade de reconhecer o contributo de quem chega, quer trabalhar e participar na vida activa de um país (curiosamente, nunca ninguém se lembra de colocar o foco do problema das migrações nos países de origem, de onde tanta gente foge da miséria, mas adiante), mas as cantigas de amigo feitas aos imigrantes não foram mais do que uma política utilitária (e, arrisco, com o seu quê de racista) que viu em tantos seres humanos meras unidades de substituição. Uma política migratória exige regras, habitação, escolas, cuidados de saúde, serviços, integração e, sim, cultura, capacidade de cumprir e fazer cumprir regras e valores comuns. Como é que isto se faz num continente onde tantos chegaram a apregoar que não existem coisas como a cultura de um país ou que todas as culturas merecem o seu espaço excepto a própria, mesmo quando as primeiras a ofendem? Portanto, o que fizemos foi, resumidamente, recrutar mão-de-obra barata para pagar o nosso conforto, sem olhar a mais necessidades e carências, transferindo mesmo os custos da presença dos imigrantes para eles próprios e para as comunidades que os recebem.

Chegámos, pois, a esta contradição permanente, gerida sem norte por lideranças políticas falidas, explorada por radicais e sentida angustiosamente por tanta gente: nós queremos prestações e um estilo de vida que só sociedades altamente produtivas podem oferecer, mas preservando os obstáculos à produção; queremos autonomia estratégica, mas rejeitamos custos de defesa militar; queremos trabalhadores, mas não queremos pagar infraestrutura para os receber; queremos casas baratas, mas não as queremos constriur; queremos capital, mas não queremos qualquer medida que o faça chegar ou criar. E há sempre bons motivos para tudo e mais alguma coisa. A indústria polui, o nuclear assusta, o turismo descaracteriza, a construção incomoda, o investimento especula, o comércio explora, o lucro chateia, os ricos ai-que-horror, até acabarmos a viver numa sociedade que é absolutamente incapaz de responder às necessidades que reclama ter.

Esta cultura não nasceu hoje, e encontrou terreno fértil num individualismo que foi perdendo a noção de reciprocidade. Lembram-se de como o século começou com o Big Brother, o verdadeiro e não o das tendas, em que ficava demonstrado que qualquer imbecil, sem fazer nada por isso, passava a ter um valor próprio e o reconhecimento dos outros? Todos, individual e colectivamente, fizemos esse percurso, todos nos tornámos esferas soberanas de identidade, de desejo, de valor, ao passo que aos outros caberia apenas validar ou aceitar o nosso brilhantismo e às instituições restaria acomodar a vontade individual de cada alminha. E acabámos incapazes de perguntar o que devemos uns aos outros, enquanto comunidade histórica e cultural, até nos reencontrarmos na forçosa necessidade do grupo que conheceu o apogeu do ridículo com o wokismo, quando nos tornámos uma sociedade de indivíduos que era, ao mesmo tempo, um confronto permanente entre identidades várias. Tudo isto é uma loucura, uma insanidade, mas não há aqui inocentes. As gerações anteriores construíram sistemas aptos a proteger quem já estava dentro deles (no arrendamento, no mercado de trabalho, nos mecanismos de pensões e reformas) e adiaram, como continuam a adiar, reformas cujo custo político preferiram deixar aos filhos e aos netos, a quem vão pagando a casa, as férias ou o colégio dos mais pequenos; e as novas gerações, ou pelo menos as radicalizadas que proliferam pelas ruas europeias, não parecem também particularmente disponíveis para algo que não seja a destruição de tudo.

O mais dramático em tudo isto é que parece não haver futuro. Da esquerda vêm sempre os amanhãs que cantam, quando não a promessa do caos. Das lideranças políticas incumbentes não chega coisa nenhuma. E da direita parece vir apenas a promessa de que o mundo sereno e tranquilo do passado irá voltar. Não volta. Não volta se não voltarmos também a produzir, construir, investir, ter filhos, integrar, defender, robustecer instituições capazes de decidir e a educar os filhos para um mundo em que fazer sacrifícios é normal e em que as vidas fáceis não existem, e que se quiserem viver melhor terão de fazer por elas próprias muitas escolhas com custos e que as deixarão insatisfeitas noutros segmentos das suas vidas, que não é possível ter tudo e muito menos agora, que há limites ao que o Estado pode oferecer e que tudo isso tem um preço a pagar. Se não descobrirem agora, descobrirão tudo isso mais tarde, mas a única coisa que uma liderança política pode prometer neste momento é sangue, suor e lágrimas, muito sacrifício e capacidade para fazer escolhas.

P.S.: Os canais de notícias ao minuto não têm feito outra coisa que não incendiar ânimos porque precisam de manter o mundo num estado de emergência permanente. Garante-lhes audiências, sim. Mas o que têm feito ao longo de muitos anos em prol da democracia, da serenidade, da não radicalização, ronda o zero. Estão de parabéns.


Observador - Gato escondido com rabo de fora?


 

(sublinhados pessoais)

LBC - NADA tenho de pagar!...

Gato escondido com rabo de fora?

Um eventual pedido de desculpa é não só um patético erro pelas razões que já detalhei, mas pode também ser o primeiro passo para vir a pagar reparações

Nos últimos meses a movimentação política de Paulo Rangel à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros face à questão das reparações pedidas pelos países das Caraíbas e de África tem sido de molde a deixar no ar muitas dúvidas e ambiguidades. Sobretudo depois de, no passado dia 25 de Março, Portugal se ter abstido na votação da moção apresentada pelo Gana na Assembleia-Geral das Nações Unidas considerando o tráfico transatlântico de escravos o mais grave de todos os crimes contra a humanidade (sic) e reivindicando reparações como remédio para “injustiças históricas”. Essa ambiguidade ou falta de clareza foi agravada tempos depois, em Setembro, quando Rangel se encontrou com o seu homólogo do Gana em conversações que permitiram a este último vir garantir que Portugal manifestara vontade de atender às exigências dos  países africanos, incluindo um pedido de desculpa formal e o pagamento de reparações pela antiga escravatura transatlântica. O MNE negou que assim fosse, mas fê-lo em termos pouco convincentes.

Ora, no passado dia 29 de Outubro, Paulo Rangel teve, na Assembleia da República, a oportunidade de esclarecer tudo isso e de se explicar aos deputados. Segundo o jornal Público, o ministro garantiu que o governo “continua a recusar o pagamento de reparações a territórios cujas populações tenha escravizado no passado”, mas que tal não significa que deixe de “reconhecer que houve erros ou de apostar na reconciliação”.E, perante esta fraseologia, a minha primeira questão é a seguinte: o que é que, neste contexto, a palavra “reconciliação” quer dizer? Não estou a par de que exista qualquer zanga ou contencioso entre Portugal e os países que, tendo sido suas possessões aficanas, são hoje independentes. Julgo que tudo isso foi sanado em 1975 e nos anos seguintes. Seria importante que o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros pudesse esclarecer que questões terão ficado pendentes e, havendo-as, o que será preciso oferecer para fazer a boca doce aos governos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Sem esse esclarecimento continuará a ficar no ar a suspeita de que “reconciliação” é gato escondido com rabo de fora, isto é, de que é apenas uma outra palavra para designar “reparação”.

Quanto ao encontro de Setembro com o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Gana, Paulo Rangel confirmou-o, mas assegurou que as declarações do seu homólogo ganês tinham sido truncadas de forma enganadora pela comunicação social, o que a mim, que as vi e ouvi em vídeo, não me convence. Irei ficar muito atento às cenas dos próximos capítulos.


Mas Paulo Rangel explicou, também, por que razão Portugal se absteve na votação de 25 de Março, a tal que classificou a escravatura transatlântica como o mais grave crime contra a humanidade e que reivindicou reparações como remédio para “injustiças históricas”. Disse o ministro que o nosso país não podia votar a favor da moção apresentada pelo Gana, por não acreditar que as reparações sejam o remédio para a escravatura, nem podia votar contra porque uma parte da dita moção era “aceitável”, já que se tratava de uma condenação da escravatura. Ora este último argumento é hiper-redundante e pueril. Será que Paulo Rangel acha que, em 2026, ainda precisamos de condenar a escravatura transatlântica? Essa escravatura foi condenada sem apelo nem agravo nos séculos XVIII e XIX. Tudo está condenado e mil vezes recondenado há muito, muito tempo. Foram os povos ocidentais que aboliram o tráfico de escravos e a escravidão, foram os marinheiros e soldados ocidentais que andaram a morrer de febres ou em escaramuças com os traficantes e alguns reinos negros para pôr fim a esse flagelo. Não foram os povos de África que o fizeram. Os povos ocidentais devem orgulhar-se do seu papel histórico de condenação e supressão da escravatura e não precisam de estar diariamente a condená-la, nem a lavar compulsivamente, doentiamente, a mancha e o mau odor de uma velha sujidade, como quem põe desodorizante à falta do banho matinal. Esse banho já foi tomado pelos nossos antepassados há 150 ou 200 anos, algo que deve ser lembrado e relembrado aos representantes diplomáticos do Gana e de outros países africanos cujos antepassados venderam milhões de escravos aos negreiros portugueses — os antepassados dos ganeses, aliás, não só os venderam como também compraram cerca de 30 mil escravos a esses negreiros, um comércio que cessou, por decisão portuguesa, em meados do século XVI, algo que raramente é referido.

Ou seja, nesta matéria, sobretudo quando temos como interlocutores os países africanos — e o Gana, em particular —, não precisamos de mais palavras condenatórias por parte do nosso MNE. Precisamos, isso sim, que se deixe de conversas redondas e pouco convincentes e que ponha os olhos em Kemi Badenoch, uma senhora negra, nascida na Nigéria, que é a actual líder dos Conservadores britânicos e que não se cansa de sublinhar que é preciso ser-se honesto a respeito da História na sua globalidade, em vez de se escolher apenas as partes dela que nos são hoje em dia politicamente convenientes. Uma vez que a escravatura foi um mal no qual participaram gentes de todos os continentes e regiões, por que razão, pergunta Kemi Badenoch, os que actualmente exigem pedidos de desculpa e reparações aos povos ocidentais não o exigem também aos descendentes dos africanos que capturaram os escravos, os venderam e lucaram com esse tráfico?

Político que fala assim não é gago e eu tenho pena que haja tantos gagos no meu país e tão poucos líderes como Kemi Badenoch. De qualquer forma é importante continuarmos a olhar para o que, nesta área, se passa em Inglaterra pois é a vários títulos esclarecedor e pode ser um espelho do que irá passar-se aqui. Ponhamos os olhos em Andy Burnham, o PM britânico, que em Setembro ainda parecia firme como uma rocha a assegurar que o Reino Unido nunca iria pagar reparações pela escravatura, mas que parece menos firme agora. É verdade que continua a afirmar que não pagará reparações, mas mostra-se disponível para pedir formalmente desculpa pelo envolvimento dos britânicos no tráfico transatlântico de escravos. Ora, esse eventual pedido de desculpa é não só um patético erro pelas razões que já detalhei em 2017, mas pode também ser o primeiro passo para vir a pagar reparações, ainda que, de futuro, não se lhes chame assim. Aliás, dois dias depois de se mostrar disponível para pedir desculpa, Andy Burnham acrescentou que também estava disponível para custear as enormes despesas em saúde e educação dos países caribenhos da Commonwealth como compensação ou indemnização pelo papel do Reino Unido no tráfico transatlântico de escravos. Será uma coisa desse género que Paulo Rangel tem em mente quando nos fala, neste contexto, em “reconciliação” com as antigas possessões de Portugal em África?

Livro - Crítica XXI (16)

 






Livros - Julien Rochédy

 Acabadinhos de chegar...




segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Observador - A democracia na tenda (Rodrigues do Carmo)

 


(sublinhados pessoais)

A democracia na tenda

O que ficará de todo este momento de alucinação e folclore é justamente a falta de casas e o regresso da perigosa ideia de que uma minoria se transforma no “povo” assim que compra um megafone

Um dos defeitos das eleições é a maçadora possibilidade de ganharem os outros. Uma pessoa passa anos no Tik Tok a ver vídeos sobre o capitalismo, o patriarcado, o colonialismo, o heteronormativismo, o cis qualquer coisa, a Palestina, o clima e a compostagem, e depois aparece um electricista de Famalicão que mete uma cruz no quadradinho errado e eis-nos com 230 deputados, regimento, comissões, maiorias, oposições, debates, eleições burguesas, uma maçada.

Felizmente brotou a Assembleia Popular, recuperada do vasto catálogo de êxitos democráticos do  PREC e pronto, resolve-se o problema.

Na Assembleia Popular não são precisos votos, deputados ou, Deus nos livre, eleitores. Bastam umas dezenas de criaturas exóticas, um megafone, três palavras acabadas em “fobia” ou “ismo”, uma relação difícil com o sabão, um concerto solidário de artistas da bolha e a convicção inabalável de que montar uma tenda numa praça confere imediatamente mandato popular.

A partir daí, tudo é simples. Quem arma a Quechua, representa o povo. Quem foi eleito por milhões de portugueses representa “o sistema”.

Para salvar a Humanidade, os campistas anunciam então a intenção de levar o “poder popular” a São Bento e explicar aos deputados como funciona a democracia do povo. O pormenor de os deputados terem sido escolhidos pelo povo não os perturba. A democracia verdadeiramente democrática começa precisamente quando não gostamos do resultado das eleições.

Durante quase cinquenta anos andámos equivocados, a pensar que democracia passava por votar, eleger representantes, aprovar leis e substituir governos.

Afinal passa por uma criatura com um arganel no nariz e ar esgrouviado, com um megafone a informar  a nação de que ela e vinte e sete amigues parecides, decidiram outra coisa.

Isso significa que, se tudo correr de forma revolucionária e expedita, poderemos brevemente fechar São Bento e governar o País a partir da Assembleia Popular da Rua da Betesga. A Constituição será substituída por  uma bandeira da Palestina, o Diário da República por uma conta do Tik Tok e o Tribunal Constitucional por um brasileiro de roupa sebosa e cara tapada, a ameaçar atirar tijolos contra o primeiro-ministro.

À frente de tudo, os direitos. A esquerda folclórica, agora reciclada pelo Tik Tok e Instagram, descobriu que para transformar um desejo numa obrigação de terceiros, basta chamar-lhe “direito”.

Berra-se “direito à habitação” e desaparecem por encanto o preço do terreno, o cimento, o ferro, os salários, os arquitectos, as licenças, os juros, os impostos, as obras, a manutenção, etc.

As casas deverão nascer espontaneamente de palavras de ordem como, na  velha ciência medieval, se acreditava que os ratos nasciam espontaneamente da palha.

A palavra “direito” tornou-se assim uma espécie de cartão de crédito ideológico sem limite, muito agradável porque a factura chega sempre à morada de outra pessoa.

Já o conceito de “povo” ganhou nuances.

Quando as pessoas votam “mal”, são um eleitorado desinformado, reaccionário, ou vítima da extrema-direita.

Quando os representantes eleitos por esses deploráveis, aprovam uma lei, ou a polícia executa uma ordem legítima, trata-se de violência institucional, força desproporcionada, e repressão fascista.

Quando cinquenta figurantes dos filmes do Mad Max levantam o braço numa praça, e decidem não cumprir a lei, temos “povo”,  resistência e uma criatura embrulhada num lenço fedayn a explicar que o povo está a lutar contra o “fássismo, pá”.

Para estas luminárias, uma manifestação só é democrática enquanto ninguém lhes diz que não podem fazer aquilo que lhes apetece. Assim que aparece uma autoridade a dizer “isto não pode ser”, instala-se imediatamente a ditadura.

Não sou jurista, mas desconfio de que o direito à manifestação ainda não inclui o direito de adquirir uma praça por usucapião, transformar o espaço público em parque de campismo e chamar fascista a qualquer pessoa que pergunte a que horas pensam levantar a tenda.

A imprensa, claro, tratou estes movimentos como se tivessem germinado espontaneamente depois de uma chuvada de Outubro, acarinhando-os, entusiasmando-se com as suas verbalizações, amplificando os seus vagidos, enfim, uma festa.

A verdade é que, olhando com alguma atenção, encontramos por lá os flautistas de Hamelin do PCP, BE, Livre, colectivos marxistas, grupelhos de lunáticos,  organizações “antifascistas”, movimentos climáticos, associações “antirracistas” (a novilíngua é uma maravilha), colectivos LGBT, e activismo pró-Palestina (antissemitismo, em português).

Nem me passa pela cabeça que isto seja algo mais do que coincidência, Deus me livre. Até porque quando qualquer pessoa normal fala de habitação, vem-lhe logo à cabeça, de sopetão, o capitalismo extractivo, o colonialismo, o palestinianismo, o género, a polícia, o clima e, acaba inevitavelmente a acusar o supermercado de ser uma estrutura de violência sistémica contra o grão-de-bico.

Já agora, de onde vem o dinheiro para as tendas, as multas, os megafones, os jambés, a paparoca, os telemóveis, os arganéis, os cartazes, o tabaco e a liamba?

Podemos fingir que não sabemos de nada, mas há organizações internacionais a financiar o activismo  “das causas”, redes transnacionais a apoiar organizações e projectos anti-ocidentais, e o dinheiro escorre por uma enorme cornucópia de fundações, ONG, colectivos e associações, que torna uma matrioska num modelo de transparência empresarial.

A Guerrilla Foundation, por exemplo apoia grupos como a Climáximo, e “Casa para Viver”, para superar o “capitalismo extractivo”,  salvar o planeta e isso.

No plano internacional, o milionário Neville Singham, que vive na China, financia uma complexa rede de organizações e projectos radicais, incluindo  Code Pink, The People’s Forum, BreakThrough News, Tricontinental, etc. entidades associadas a campanhas anti Ocidente, antissemitas e outras dezenas de “istas” da moda,  que muito convém ao Sr. Xi Jin Ping.

O mesmo vale para a Irmandade Muçulmana que ajuda a distribuir fartos dinheiros do Qatar e outros, por instituições, flotilhas e grupos esquerdistas e islamistas do Ocidente..

Existe uma notória convergência de causas entre extrema-esquerda, anticapitalismo, activismo identitário, movimentos “antissionistas” e redes islamistas que, apesar de terem ideias aparentemente  diferentes sobre mulheres, homossexuais, religião e liberdades individuais, se juntam na mesma tenda, contra o inimigo comum. É pois óbvio que  não estamos perante uns “jovens” vítimas do “sistema”, que  se encontraram casualmente no Rossio para comparar piercings, descobriram que todos tinham uma tenda e decidiram salvar o proletariado.

Apesar de tudo isto ser muito cómico, há aqui uma questão que não tem graça nenhuma.

A democracia liberal repousa na disposição para aceitar a derrota. Ser-se democrata significa aceitar que milhões de concidadãos possam escolher políticas que se considerem erradas, governos que se desprezem e partidos que não se suportem. E reconhecer que a única alternativa é voltar a votar, não substituí-los por cinquenta alucinados com cartazes, seguidos por algumas centenas de simplórios e calhaus com olhos que, na sua máxima expressão nacional, são menos do que os espectadores de um jogo de futebol da segunda liga.

Este frenesim importado de Paris acabará por desaparecer e algumas das criaturas mais folclóricas regressarão aos obscuros ecossistemas de onde vieram.

A crise da habitação, infelizmente, perdurará.

Durante anos os governos da “justiça social” aumentaram a procura promovendo intensos fluxos migratórios, baixaram a oferta amarrando-a a uma teia de licenças, custos, regras “sociais”,  impostos, travões administrativos e hostilidade à construção e ao lucro, e incentivaram os baixos salários pela importação descontrolada de mão de obra barata. Agora os autores e apoiantes do descalabro, descobrem, indignados, que há mais gente a procurar casas do que casas disponíveis.

O que ficará de todo este momento de alucinação e folclore é justamente a falta de casas e o regresso da perigosa ideia de que uma minoria se transforma instantaneamente  no “povo” assim que compra um megafone e regurgita umas larachas antediluvianas, exumadas da vala comum do marxismo

No fundo, o espectáculo destes dias resume bem a infantilização da política. Monta-se uma tenda, grita-se “revolução” e espera-se que os amanhãs cantem. Enquanto o alucinogénio ajuda, tudo parece épico. Depois passa o efeito. Fica a barraca, a ressaca, a descoberta de que o capitalismo abriu outra vez às nove, e que o poder popular, a assembleia popular, e a resistência anticapitalista consistiam em vinte criaturas ignorantes e patéticas, embrulhadas em lenços terroristas fabricados no Vietname, a telefonar de um iPhone produzido por uma multinacional americana para pedir a uma plataforma capitalista que lhes traga uma pizza que os pais pagam pelo Mbway.

Observador - A inferioridade moral da esquerda espanhola

 


(sublinhados pessoais)

A inferioridade moral da esquerda espanhola

É este rasto indecoroso de crimes, corrupção, atentados ao Estado de Direito democrático, danificação das instituições, incompetências, obscenidades e abusos que o PS em Portugal tanto aplaude.

Poucos minutos depois de receber a notícia da catastrófica colisão de dois comboios de alta velocidade, Óscar Puente, o Ministro do PSOE para os transportes, preparava mais um dos seus infames tweets. A prioridade sobre o terrível acidente, e ainda mais terríveis consequências humanas, vinha sob a forma habitual: a hostilidade e o ódio permanente aos adversários políticos. Desta vez era ainda a respeito da vitória de Lula no Brasil. A extraordinária prosa de Puente dizia apenas isto: “A superioridade moral da esquerda”. Um tweet que resume, no tempo e no conteúdo, todo o cadastro de um político e todo um rasto de um governo.

Já nem vou perder tempo com a mediocridade política de um dirigente nacional, pertencente ao núcleo duro de Sánchez, cuidar mais de um rixa política num país longínquo do que de uma calamidade nacional que cai no centro das sua funções. Agora, é preciso sublinhar a marca de água desta inefável criatura: a política do ódio, da desqualificação dos adversários, sejam eles quais forem, e a encarnação de uma missão política que tem como alfa e ómega a protecção do poder incompetente e corrupto do PSOE. São estas evidentes virtudes o que tanto o recomendam para pertencer ao núcleo duro do padrinho desta convenção de podres políticos, Pedro Sánchez.

Tudo converge em Puentes, como nos seus pares, para o retrato mais sinistro de um político em democracia. As clientelas partidárias com que encheu a operadora da rede ferroviária em Espanha, à semelhança do que o PSOE fez nas restantes instituições. A incompetência no uso e execução de fundos europeus. O recurso soviético à propaganda até ao ponto da mais profunda náusea. O cinismo na acção política, na subversão da democracia, nas alianças escolhidas e na violência verbal permanente. E, neste trágico episódio, a obsessão pelo “controlo da narrativa” independentemente de qualquer consideração pela verdade, justiça ou simples decência.


Antes de os factos terem sido apurados – que, de resto, seriam impossíveis de apurar sob a batuta de Sánchez, como demonstram a obstrução sistemática ao apuramento da verdade no apagão de 2025, no desastre de Adamuz, na invasão de Ceuta, entre dezenas de outros casos -, esta triste criatura enviou para os órgãos de comunicação social amigos um registo áudio das comunicações entre a sede de controlo e os maquinistas mesmo antes da colisão. E seguiu com a mensagem previamente encomendada: o erro fora “humano” e o humano era evidentemente o maquinista morto que tudo fez para evitar a morte dos seus passageiros. Poucos minutos passaram até que esta “narrativa” fosse destruída pela verdade elementar dos factos e pelas próprias admissões do governo que se seguiram, incluindo a ponderação de interromper a actividade de outras linhas de comboio para reforço de segurança do sistema.

Sendo Puente quem é, o problema não se resume a ele. Com Sánchez, tudo é possível. Incluindo esta maravilhosa coincidência. Foi a irmã de Puente quem Sánchez pôs a instruir a maior fraude eleitoral das últimas décadas na Europa da democracia e dos valores do Estado de Direito. Foi ela quem respondeu às dúvidas dos consulados espanhóis na América Latina sobre a concessão de nacionalidade aos beneficiários da Lei dos Netos – que, na lei, abrangeriam apenas os descendentes dos que foram forçados a exilar-se durante e após a Guerra Civil – no sentido de violar a lei, desvirtuando-a, de modo a encher o universo eleitoral das próximas eleições com gente cujos antepassados tinham abandonado Espanha ainda no século XIX. Os números falam por si: dos quase 164 mil processos validados, o governo espanhol só consegue comprovar o exílio político de 901. Só 0,55% dos beneficiados poderiam comprovadamente gozar da cidadania, e consequente direito de voto, de acordo com a lei. Não fosse a suspensão desta vigarice descomunal pelo Supremo Tribunal e teria sido perpetrado um golpe fatal à democracia espanhola.

Como se isto não bastasse, estas e outras patifarias foram devidamente escoltadas por metade da comunicação social espanhola, cujo repugnante exército de funcionários ainda tem o atrevimento de se chamar a si mesmo “jornalistas”. Porquanto, já se sabe, o primeiro e último soluço desta denegeração política é aparecer atrás da proclamação cínica e mentirosa do anti-fascismo. Trata-se de uma mentira hoje, tal como já era uma mentira ontem, e na qual acreditam os que não são menos dados ao cinismo, nem menos propensos à mentira.

Finalmente, é este rasto indecoroso de crimes, corrupção, atentados ao Estado de Direito democrático, danificação das instituições, incompetências, obscenidades e abusos de poder que o Partido Socialista em Portugal tanto aplaude. Mais, escolhe-o conscientemente como referência: de António Costa a José Luís Carneiro, do comentador mais dependente que se arrasta pelas televisões e jornais até ao artista “politicamente consciente”. É este o exemplo e a esperança do socialismo nacional, o que tem ao menos a vantagem de deixar claro para todos o que é, para este admirável grupelho, o bom governo e a defesa da democracia.


Observador - A acampada venceu o Big Brother. O activista ofuscou o trabalhador

 


(sublinhados pessoais)

A acampada venceu o Big Brother. O activista ofuscou o trabalhador

Quem quer saber duma mulher que morreu presa num tear quando estão assegurados directos 24h por dia das acampadas no centro de Lisboa e Porto? A tenda no Rossio é a versão ISCTE da casa do Big Brother

Tinha 52 anos. Era operária de uma fábrica têxtil de Braga dedicada à produção de tela para tendas. O dia de trabalho devia estar no início para esta mãe de dois filhos pois passavam poucos minutos das 9h da manhã quando o desastre aconteceu. A dado momento a mulher aproxima-se de um tear para introduzir uma bobine de fio. Uma peça da roupa que vestia fica presa no tear. Este, ou não tinha sistema de travagem ou se o tinha ele não funcionou. Como a máquina não trava Maria José Silva acaba trucidada. O óbito foi declarado no local, dizem as poucas notícias dedicadas ao caso. Sim, este acidente de trabalho, apesar dos seus contornos chocantes,  não foi muito além da transcrição da notícia do Correio da Manhã e das reportagens nos meios locais.

Por esses dias — este acidente aconteceu a 21 de Outubro — assistia-se ao vivo e em directo ao triunfo do activista e ao ofuscamento do trabalhador. O activista não só é um produto do nosso tempo como existe pelos meios do nosso tempo: sem os directos a anunciar “a carga policial” que está para começar, que afinal não avançou ainda mas vai avançar daqui a pouco; sem o acompanhamento das deliberações das assembleias populares, seja isso o que for, o activismo era um Big Brother sem televisão, ou seja um flop. O activismo vive das audiências e gera audiências.

As notícias sobre a operária da fábrica esmagada pelo tear remetem para coisas técnicas como os teares, os sistemas de travagem, os fios e as bobines, os seguros ou a falta deles, já o activismo permite dar largas às performances dos revolucionários de tik tok.

A operária da fábrica de tendas não interessa mediaticamente falando. O activista que anuncia que vai dormir dentro de uma tenda numa praça central de Lisboa ou do Porto tornou-se o foco das notícias e das atenções desse cortejo de figuras típicas obrigatórias em qualquer protesto em que se ouça a palavra Revolução. Temos os inevitáveis artistas que interrompem a sucessão de concertos “gratuitos” pagos pelo contribuinte para virem lembrar a esses mesmos contribuintes que devem contribuir ainda mais, agora pela habitação (ou por aquilo que eles entendem que deve ser a habitação pública) e amanhã, tal como antes, pela causa do momento. Temos os advogados que em todo o agente de autoridade português vislumbram um algoz. E, claro, não podemos esquecer as maravilhosas pessoas solidárias, sempre com total disponibiidade de meios e de tempo para o exercício da sua solidariedade. Agora as maravilhosas pessoas solidárias fazem em parte incerta refeições para os manifestantes, com produtos certamente caídos do céu e  transportados por anjos. A estas e outras figuras junta-se ainda o estudante ou activista de sotaque estrangeiro que, com alguma condescendência, explica aos locais que eles têm de empatar menos e tratar de fazer a revolução. Enfim, a  tenda no Rossio é a versão ISCTE da casa do Big Brother.