sábado, 18 de julho de 2026

Observador - E se ela ganhar?

 


(sublinhados pessoais)

E se ela ganhar?

A eventualidade da eleição de Marine Le Pen começa a fazer soar alarmes entre os que, da extrema-esquerda ao centro-direita, temem o peso e o significado de uma vitória da direita radical em França.

E bruscamente, neste Verão, o tribunal da Relação de Paris tornou pública a sentença, algo ambígua, que reabriu a porta à candidatura de Marine Le Pen à eleição presidencial da próxima Primavera.

A acção judicial contra Le Pen por “desvio de dinheiros públicos” tinha vindo a ser profusamente anunciada e comentada com catónico escândalo e severidade na comunicação social. Dir-se-ia que a fundadora e ex-líder do Rassemblement National, que tem como uma das suas bandeiras a luta contra corrupção, se teria locupletado pessoalmente com dinheiros públicos.

Ora o crime em que Marine efectivamente incorreu – a atribuição a funcionários do partido de um falso estatuto de assistentes parlamentares dos eurodeputados para efeitos de pagamento de salários –, sendo uma prática ilegal, não deixa de ser comum a vários partidos franceses e europeus. Tanto que pelo menos dois outros partidos franceses, o MoDem, do centrista François Bayrou, e o La France Insoumise, do esquerdista radical Jean-Luc Mélenchon, são réus da mesma falta; embora, diz o Le Point, a justiça francesa tenha feito vista grossa à prevaricação de Mélenchon.

Mas é assim mesmo: juízes bons são os que decidem contra Trump, invalidam eleições em que a extrema-direita está à frente, como na Roménia, ou dificultam a vida a Marine Le Pen; juízes maus são os que, não o fazendo, se revelam cúmplices da “cabala montada pela extrema-direita” para “pôr em perigo a democracia”.

Adiante.

Como solução alternativa ao seu possível banimento da campanha, Marine Le Pen e o Rassemblement tinham posto de pé a solução Jordan Bardella, o jovem líder do partido, também com boas sondagens.

Poderá a História repetir-se?

Agora, com a teimosia e a tenacidade de sempre, Marine retoma em força a candidatura presidencial pela quarta vez consecutiva, avançando com Bardella como futuro primeiro-ministro. À falta de melhor, o previsível Le Monde, na sua edição de 9 de Julho, a par de mais um punhado de eruditas dilucidações jurídicas sobre a responsabilidade penal de Le Pen, dedica uma longa peça ao “ressentimento de Bardella” com a inesperada passagem, ou o inesperado regresso, a número dois.

Entretanto, numa primeira amostragem, as sondagens favorecem Marine que, à semelhança de eleições anteriores e como representante do primeiro partido de França em percentagem de votos, ficará certamente à frente na primeira volta, com larga diferença sobre o segundo. Assim, na sondagem Opinion Way de 8-9 de Julho, imediatamente a seguir ao anúncio da candidatura, na primeira volta Le Pen aparece no topo, com 35-37% dos votos; logo a seguir, vem o ex-primeiro-ministro de Macron e autoproclamado “candidato da direita” Édouard Philippe, com 17-18%; depois, vêm o também ex-primeiro-ministro e líder do partido macronista Renaissance, Gabriel Attal, com 15-16%, e o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, com igual percentagem.

A esquerda, além de Mélenchon, tem outros candidatos, como a socialista Nathalie Arthaud, o comunista Fabien Roussel ou a verde Marine Tondelier, todos abaixo dos 3-4%. Já o social-democrata Raphaël Glucksmann anda pelos 9% e, à direita de Marine, Éric Zémour, pelos 4%. Bruno Retailleau, ex-ministro do Interior, vê o seu esforço de colagem às políticas duras anti-imigração recompensado com uns simpáticos 11%.

Assim, tal como nas campanhas de 2022 e 2017, Marine terá assegurado o primeiro lugar na primeira volta e, logo, a passagem à segunda volta. Mas irá a História repetir-se também na segunda volta?  Era sabido que quem passasse com Le Pen à segunda volta tinha garantida a presidência, dada a taxa de rejeição da “extrema-direita” e a frente que logo se formava para “defender a democracia”. Foi assim que Macron foi eleito em 2017, com 66% contra os 34% de Marine, e em 2022, com 58,5% contra 41,5%.

Mas voltará a ser assim? É que, entretanto, o custo de vida, a insegurança e a incerteza das reformas e pensões agravaram-se. E quer à direita, quer à esquerda, há uma crescente preocupação com a deriva militarista e a febre armamentista de algumas elites, e com a possível escalada dos conflitos na Europa e no Médio Oriente. Também, os perigos da imigração descontrolada, cuja denúncia, há uns anos, vinha apenas do Rassemblement e que lhe merecia, e à sua dirigente, os epítetos de “racismo” e “xenofobia”, são agora partilhados pelos candidatos do centro-direita Édouard Philippe e Bruno Retailleau; e até, com alguma moderação, pelo macronista Gabriel Attal.

Sondagens e cenários

De acordo com as previsões, numa segunda volta contra Mélenchon, haveria uma vitória clara de Marine, com 70% dos votos, contra 30% para o esquerdista radical; já contra Édouard Philippe, Marine ganharia, mas mais tangencialmente, por 54% contra 46%; e contra Attal seria um 55% versus  45%.

Na sondagem da Elabe para La Tribune Dimanche de 12 de Julho, Marine bateria Mélenchon com 67,5% contra 32,5%, Attal com 54% contra 46% e Philippe com 52% contra 48%. Ora, em Março, Édouard Philippe era dado como ficando à frente de Marine, mas o estado da economia e da segurança (com a acção ou inacção da justiça no “caso Lyhanna”, a menina de 11 anos que desapareceu à saída da escola e foi encontrada morta seis dias depois) tendem a beneficiar o Rassemblement.

Além disso, a figura de Marine tem vindo a impôr-se.  Le Pen passou, dolorosamente, de herdeira a protagonista e, de caminho, transformou o Front National em Rassemblement National, numa luta difícil entre sentimentos filiais e razões políticas.

Mas sondagens são sondagens, e mesmo quando correctas, só valem para o momento em que se efectuam. Bardella é, no plano económico, mais liberal e menos social que Marine, já que Le Pen herda, não só o sentido solidarista da direita nacional, crítica dos excessos da “mão invisível”, mas também uma transferência quase directa dos votos dos muitos que, no princípio deste século, trocaram o Partido Comunista Francês pelo Front National.

Bardella ganhou alguma confiança do patronato e o seu romance com Maria Carolina de Bourbon Duas Sicílias levou o actual líder comunista francês, Fabian Roussel (3% de intenções de voto), a proclamar:

“Bardella nunca esteve ao lado dos trabalhadores; prefere beber champanhe no Mónaco, com a sua princesa”.

Porém, com Marine, as coisas mudam. Teoricamente, o pior adversário para a candidata nacional-populista seria aquele que, à direita, não se confundisse com o Rassemblement. Mas conseguirá um liberal conservador ou um conservador liberal como Édouard Philippe, mesmo correndo contra Le Pen, atrair os votos de um eleitor de La France Insoumise ou de um comunista?

Falta muito para as eleições francesas e até Maio de 2027 ainda tudo, ou quase tudo, é possível. Só não restam dúvidas de que a eventual eleição de Le Pen em França seria uma revolução no sistema europeu. Tanto que o alarme soou entre os que, da esquerda-radical ao centro-direita, já começam a sofrer por antecipação.

Observador - Killing me softly

 


(sublinhados pessoais)

Killing me softly

Um ataque limitado, como o dedo espetado no peito à porta da discoteca, é, no caso dos aiatolas, interpretado não como prudência, mas como medo.

As guerras não são conceptualmente muito diferentes das zaragatas à porta de uma discoteca. Primeiro, um dos cavalheiros lança ao outro um olhar turvo e demorado. Depois pergunta se há algum problema. O interpelado arregaça as mangas da camisa, insulta a mãe do outro e responde que problema nenhum, num volume que informa o bairro inteiro de que existe um problema considerável.

Segue-se o dedo espetado no peito, o empurrão para  assustar, o safanão em resposta e, cinco minutos depois, estão ambos engalfinhados no passeio, com as camisas rasgadas, um incisivo a menos e a secreta esperança de que apareça alguém para os separar. Não porque tenham descoberto subitamente as virtudes da paz, mas porque desejam abandonar a contenda conservando alguma dignidade e um número de dentes que permita mastigar.

A presente escalada entre o Irão e os EUA obedece a esta ciência exacta. É espantoso como certos dirigentes, embora rodeados de conselheiros, generais, serviços de informações e especialistas com diplomas de universidades caríssimas, ignoram não apenas os grandes tratados de estratégia, mas também a elementar psicologia das lutas. Aquela que muitos de nós aprendemos no recreio, num tempo em que as crianças andavam à pancada, estabeleciam hierarquias, faziam as pazes e voltavam para casa para tratar dos joelhos, em vez de passarem a tarde a olhar para o telemóvel.

Convém recordar que esta ronda de mimos começou com ataques iranianos contra navios comerciais que atravessavam o Estreito de Ormuz  e não com Donald Trump a acordar maldisposto e a decidir bombardear o Irão para melhorar as audiências. Os EUA responderam à violação do cessar-fogo, atingindo a arquitectura de interdição que o Irão instalou na região.

Importa esclarecer isto porque andam para aí alguns “especialistas” a retratar o regime islâmico como uma donzela inocente, surpreendida pelos bombardeamentos americanos enquanto regava os gerânios.

Teerão atacou a navegação comercial porque concluiu que podia fazê-lo.

E chegou a essa conclusão porque, há uns tempos, quando o regime estava militarmente atordoado, com as defesas degradadas, a estrutura de comando atingida e a iniciativa perdida, as operações foram suspensas. Teerão cambaleava mas, em vez de lhe aplicar mais um golpe, os EUA deram-lhe uma cadeira, um copo de água e tempo para recuperar o fôlego e voltar ao ringue.

Há quem explique esta estratégia  remetendo para a Guerra Civil Americana e o Plano Anaconda. Que consistia na progressiva asfixia económica e militar do Sul. A União envolvia a Confederação e apertava-a lentamente até esta deixar de respirar. No caso do Irão, até o regime concluir que o preço da resistência excedia o da capitulação.

A ideia possui racionalidade. Evita a perigosa tarefa de fazer a guerra num país vasto, montanhoso e populoso. Explora a superioridade naval, aérea, tecnológica e financeira dos EUA. Permite gerir a pressão conforme o comportamento iraniano. E situa Trump na agradável imagem de um homem que estrangula o adversário sem sujar excessivamente os sapatos.

O problema é que isto só funciona bem quando a presa deseja, acima de tudo, continuar viva.

Mas a Guarda Revolucionária, como sistema, opera num universo ideológico que não mede o êxito em pontos percentuais do PIB, sondagens e prémios de produtividade. A sua matriz contém uma componente milenarista, assente no martírio, na resistência, no regresso do Imã oculto e na ideia de que o sofrimento suportado em defesa da revolução possui um sentido transcendente. A morte não refuta a estratégia, a destruição apenas prova que se está a enfrentar as forças do mal, e o sacrifício da população pode ser convertido em legitimidade.

Não é que os dirigentes iranianos se levantem todas as manhãs ansiosos por alcançar o paraíso antes do almoço. Mas os custos que fariam recuar um governo normal podem, naquele ambiente, ser absorvidos, transferidos para a população e reinterpretados como prova de fidelidade.

Não é pois seguro que a estratégia Anaconda consiga obrigar a Guarda Revolucionária a capitular, especialmente quando se alivia a meio. Na verdade o regime tenderá a responder ao aperto  com uma escalada horizontal tentando aumentar o preço económico e político suportado pelos EUA, os países do Golfo e a economia mundial.

Esta estratégia de aplicação gradual da força tem os seus “quês”. Falhou no Vietname, por exemplo.

A Operação Rolling Thunder, foi uma escalada gradual, cuidadosamente administrada, pela qual Washington esperava aumentar progressivamente a pressão até Hanói considerar demasiado caro o apoio à guerra no Sul.

Mas os comunistas de Hanói perceberam que os americanos receavam ir longe demais, que os alvos eram escolhidos de acordo com restrições políticas e que havia tempo para reparar, adaptar e continuar.

O caso da Rússia é ainda mais elucidativo. No início de 2022, Putin invadiu a Ucrânia com forças mínimas, supondo que Kiev cairia rapidamente, Zelensky fugiria assustado e a resistência seria simbólica. Não resultou e o Kremlin  ficou então prisioneiro da própria aposta. Não podia retirar sem admitir uma derrota humilhante, mas também não conseguia alcançar os objectivos iniciais com a força empregue. A solução foi aumentar sucessivamente o compromisso, com mais soldados, mais mobilização, mais ataques, mais destruição, mais dependência da China, mais ameaças tremendas e mais mortos destinados a justificar os mortos anteriores.

É a psicologia da escalada em todo o seu esplendor.

Após a resposta em espécie, a decisão deixa de depender apenas do cálculo estratégico. O líder teme parecer fraco. Os generais querem provar que o plano é bom.  A população, depois de sofrer baixas, exige que o sacrifício tenha servido para alguma coisa. Cada custo suportado torna politicamente mais difícil abandonar o conflito, e a guerra passa a alimentar-se a si própria.

A alternativa à escalada gradual é a força decisiva, súbita, concentrada, dirigida às capacidades essenciais do inimigo e subordinada a uma finalidade política alcançável.

Em Junho de 1967, Israel, em vez de levar a cabo meia dúzia de ataques simbólicos para informar os inimigos de que estava ligeiramente incomodado com os seus movimentos militares, atacou de surpresa  todas as bases aéreas egípcias, destruindo  centenas de aviões. O golpe inicial decidiu militarmente a guerra antes que esta se transformasse numa longa sucessão de punições proporcionais, comunicados indignados e funerais nacionais.

Na Guerra do Golfo, em 1991, a coligação não enviou avisos mensais a Saddam Hussein, esperando que ele adquirisse bom senso por exposição prolongada a apelos e resoluções internacionais. Concentrou uma força esmagadora, definiu um objectivo político limitado (expulsar o Iraque do Kuwait) e conduziu uma extensa campanha aérea antes da ofensiva terrestre, a qual se resolveu em quatro dias.

Não se trata de bombardear tudo. Trata-se de destruir aquilo que permite ao adversário continuar a combater, antes que ele possa adaptar-se. Não se combate para castigar, atemorizar ou transmitir mensagens. Combate-se para o reduzir à inacção, se houver poder para isso.  Quando o inimigo possui capacidade para responder e causar danos sérios, um ataque que apenas o irrite é  um erro monumental.

O Krav Maga assenta precisamente  nesta realidade desagradável. Não se trata de lutar de forma  elegante, equilibrada e desportiva. Trata-se de  neutralizar rapidamente a ameaça e sair vivo e funcional. Não se fica a trocar golpes para determinar quem tem o currículo marcial mais impressionante. Muito menos se interrompe a acção quando o agressor cambaleia, oferecendo-lhe tempo para recuperar e procurar uma arma.

Mas foi isto, no essencial, que  sucedeu no caso iraniano. A suspensão das operações em 07 de Abril transmitiu uma mensagem oposta à que Washington julgava  enviar. O regime, que estava militarmente abalado, compreendeu que sobrevivera e passou até a  acreditar que vencera. Recuperou meios, reorganizou unidades e concluiu que os EUA preferiam gerir o conflito a terminá-lo.

Ao voltar a atacar navios mercantes no Estreito de Ormuz, está a agir segundo a sua natureza e a  testar a memória, a determinação e os limites americanos.

Recebeu agora uma resposta mais pesada mas o problema é que ela é gradual e ocorre depois de o regime ter recuperado parte do equilíbrio.  Os danos serão, por isso, superiores aos que teriam resultado de uma operação decisiva quando o regime ainda cambaleava.

É esse o paradoxo da aplicação gradual da força. Pretende evitar uma guerra grande e acaba por desaguar numa guerra maior em prestações crescentes. Cada gesto parece responsável e consequencial quando observado isoladamente. Somados, produzem resultados muito mais gravosos, com  todos a explicarem que ninguém deseja escalar.

Naturalmente que ninguém deseja.

Também os dois homens confiantes, à porta da discoteca, não desejavam acabar no hospital. Queriam apenas que o outro se assustasse e recuasse. Faltou-lhes antever que, depois do primeiro soco, já ninguém está a ouvir. A partir daí entram em cena a raiva, o medo, o ego e, no caso iraniano, uma ideologia que consegue transformar a derrota em martírio e o martírio em vitória.

A Estratégia Anaconda pode enfraquecer, empobrecer e destruir os instrumentos de agressão do Irão. Mas não há garantia de que o obrigue a render-se. Sobretudo quando a serpente tenta sufocar homens convencidos de que morrer estrangulados é uma forma particularmente honrosa de vencer

Um ataque limitado, como o dedo espetado no peito à porta da discoteca, é, no caso dos aiatolas, interpretado não como prudência, mas como medo. Uma pausa é  tempo para reparar radares, dispersar mísseis, escavar abrigos, reorganizar unidades e preparar a batalha seguinte e não uma oportunidade para negociar. A sobrevivência transforma-se em vitória, e cada vitória proclamada exige um gesto ligeiramente mais agressivo para demonstrar que não se tratou apenas de propaganda.

É isto, em síntese, o que se está a passar no Golfo Pérsico e torna-se óbvio que as coisas só mudarão com uma alteração da natureza do regime instalado em Teerão.

Com uma anaconda, uma  marreta ou, provavelmente, com as duas.

A alternativa é intragável: um regime islâmico dotado de armas nucleares, o domínio da região, a aniquilação de Israel e o controlo do fluxo do petróleo.


Observador - Que gente é esta?

 


(sublinhados pessoais)

Que gente é esta?

O caso do ministro Luís Neves revela, no mínimo, uma falta de noção que deveria inibir quem quer que fosse para o exercício de cargos públicos de responsabilidade.

O que se tem dito sobre o caso de Luís Neves é tão óbvio, que é difícil não achar o caso um pouco inexplicável. Como pôde um director da PJ achar boa ideia empregar numa obra particular um empresário com contratos de milhões com a PJ e fazer-se “amigo” dele? Nunca lhe ocorreu que esse tipo de relação entre o dirigente de uma instituição pública e um dos seus fornecedores pudesse suscitar suspeitas de troca de favores? Como pôde um ministro da Administração Interna passear pelos ecrãs a contar histórias que a imprensa pouca dificuldade teve em desmantelar, ao mesmo tempo que se negava majestaticamente a partilhar os únicos documentos capazes de limpar um pouco as nuvens de desconfiança que se acumulavam sobre a sua cabeça? Não percebe que, nestas situações, é fatal parecer que se está a contar mal as coisas ou que se tem algo a esconder?

Ninguém alegou que o ex-director da PJ e agora ministro tivesse cometido alguma ilegalidade ou prejudicado o interesse público. Mas tudo o que já sabemos autoriza a que se discuta, pelo menos, o que o comentário nacional classificou como “informalidade” e “imprudência”. Ora, esta aparente informalidade e esta notória imprudência não são, de um ponto de vista político, menos graves. Porque revelam uma falta de noção que deveria inibir quem quer que fosse para o exercício de cargos públicos de responsabilidade.

A política democrática não tem de ser uma penitência, nem os políticos monges triturados pela consciência pesada de infinitas obrigações. Mas de um político, em democracia, é legítimo esperar algumas coisas. Primeiro, que esteja ciente das limitações que o exercício de cargos públicos impõe à sua vida pessoal, e que seja capaz de compreender o sentido dessas limitações em termos de confiança pública. Segundo, que perceba que não é o único juiz dos seus próprios comportamentos, e que aceite o debate e o escrutínio, e até a curiosidade e alguma desconfiança, como parte da sua carreira política.

Ninguém é obrigado a entrar na vida pública. Quem o faz, deve-o fazer com consciência dos deveres e dos percalços. Tem de estar preparado para toda a atenção, vistoria e discussão. O mínimo que podemos dizer sobre Luís Neves é que não estava preparado. Já muita gente estranhou essa situação. É de facto extremamente bizarro. Luís Neves foi director da PJ durante vários anos. Deve ter visto, ouvido e lido tudo o que há para ver, ouvir e ler neste país. Um homem que passou por isso não pode permanecer inexperiente ou ingénuo. Como é que se dispôs a entrar na política com uns rabos de palha tão crassos, tão básicos, tão inexplicáveis? Reparem: não é a sua honestidade que agora está em causa. Mas é algo igualmente sério para um político: o seu bom senso, ou até, se preferirem, o seu instinto de sobrevivência.

O caso, de tão estranho, obriga-nos a deixar a pessoa de Luís Neves, e a passar a questionar o meio em que isto foi possível. Que se passa com o que poderemos chamar a “classe dirigente” portuguesa, isto é, com os políticos e os altos funcionários do Estado, entre os quais os governantes são frequentemente recrutados em Portugal, como no caso de Luís Neves? Haverá por ali demasiada gente com o sentimento de impunidade de uma casta superior, e por isso desleixada em relação a regras e a cuidados elementares? Ou certos aproveitamentos pessoais tornaram-se tão comuns, tão banais, e por isso tão insignificantes para quem os pratica, que já não passa pela cabeça de ninguém, mesmo dos mais probos e cautelosos, coibir-se ou precaver-se? Tudo é possível, quando vemos que Luís Neves é possível.

Obrigam-nos, como noutros casos, a fazer uma pergunta inquietante: que políticos são estes, como Luís Neves, que caem nestas embrulhadas?

Donde vem essa falta de noção? Quem é esta gente? É gente que vive na ilusão de que é a única juíza dos seus próprios comportamentos, e que qualquer dúvida a seu respeito é inaceitável? Teríamos assim uma espécie de casta superior, indisponível para atender aos murmúrios da plebe.

É gente indisponível para admitir que o poder implica sacrifícios e limitações pessoais, e a quem, pelo contrário, só motivam os benefícios e as vantagens? Teríamos uma espécie de Ou, finalmente, é

Mas uma democracia não funciona bem sem um certo tipo de políticos: políticos para quem o escrutínio e o debate são naturais, e não um insulto a suas altezas; políticos e sobretudo políticos que procuram na vida pública o tipo certo de satisfação, que não é a dos 15 minutos de fama ou o das mordomias, mas a de ser decisivo e útil no momento certo. Já todos percebemos que Luís Neves não é um destes políticos.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Observador - Uma manada de elefantes

 


(sublinhados - e lamentos - pessoais)

Uma manada de elefantes

Tudo parece uma ode ao absurdo onde uma chusma de loucos canta, dança, cabriola em alegre fanfarra, mas, lá está, sempre ao largo de qualquer coisa remotamente importante para a vida das pessoas

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Uma coisa que não deixa de ser extraordinária nestes dias de grande “informação” é a capacidade do espaço público e mediático, enquanto obceca com o pormenor, deixar passar incólume os diversos elefantes que se passeiam tranquila e diariamente pelo meio desse mesmo espaço mediático, sem que alguém repare neles. Estranhamente, o “espaço público” consiste em milhares de jornalistas, centenas de programas de “informação”, infinitos analistas, ainda mais comentadores, e todos aos gritos e urros 24 horas por dia, 7 dias por semana, sempre sem parar, em constante repetição, tudo alegadamente escalpelizando ao seu mais ínfimo pormenor: desde as viagens do Primeiro-Ministro, passando pelo tanque-piscina do Ministro, a indumentária da filha do Sr. Presidente, o peso e a dieta dos atletas da Selecção, a que horas toda essa gente adormeceu e acordou, o que comem, o que lêem nas férias, etc., etc., etc.. Já dos elefantes, nicles, zero, bola. São, para todos os efeitos, invisíveis, inodoros, inaudíveis.

Depois, claro está, domina a moda do momento. Por estes dias, está em voga a patética emergência climática que anuncia, desde há anos, secas e vagas de calor, ou enxurradas e comboios de frio, isto consoante a estação do ano. Vai daí e todas as parangonas anunciam agora dezenas de afogados em França barbaramente assassinados pela vaga de calor, ou infinitos recordes estatísticos desde o século XVIII que, contando com a subjectividade dos algoritmos e dos modelos cibernéticos, juntando-lhe a boa-vontade de quem mais aprecia afinar o coro mediático num uníssono proveitoso, são ininterruptamente reorganizados, reinterpretados e republicados numa infindável pilha de “mortos pelo clima” — que é como quem diz mortos por nós, os terríveis agentes disruptores do milenariamente tranquilo, ameno e imutável clima terrestre.

No final, nem é o pormenor que cansa, é o ridículo ao qual tanta gente — ainda para mais uma caterva de auto-proclamados “profissionais da informação” supostamente dotados de neurónios e capacidade cognitiva individualizada — se dedica a repetir com o afã próprio dos histéricos, maníacos e fanáticos. Veja-se, por exemplo, como o Primeiro-Ministro, aparentemente um deles, correndo atrás porque tem que “surfar” cada onda de agitação social, promete no X “salas climatizadas” — o quer que seja que isso signifique —, isto enquanto, noutro post, se vangloria por ter as melhores vírgulas económicas da Europa — como se melhor exemplo do distanciamento entre a estatística e a realidade não houvesse — que farão, diz ele sem se rir, a “inveja” de todos. Junta-se, portanto, o ridículo da moda climática com o ridículo de quem não faz noção de como o povoléu que, em curtíssima minoria, o elegeu vive no país por si governado. Tudo parece, portanto, uma ode ao absurdo onde uma chusma de loucos canta, dança, cabriola em alegre fanfarra, mas, lá está, sempre ao largo de qualquer coisa remotamente importante para a vida das pessoas.

É ridículo, sem dúvida, visto de fora e sem os pejos próprios da tristeza decorrente da constatação do “estado a que isto chegou” — mais vale rir que chorar, diz o sábio povo —, mas também é, como tudo no espaço público português, comezinho e pequenino. Nesse campo, as declarações do Primeiro-Ministro acertam o passo na perfeição com o coro generalizado onde a grande discussão e análise política se centra precisamente aí — na ridícula moda do dia e nas vírgulas e respectivas casas decimais dos diversos documentos que a cada dia circulam entre mãos políticas e jornalísticas.

Quantas décimas de “crescimento”, quantas de “despesa”, quantas de “dívida”, e consoante a quinzena, se “os mais recentes dados apontam para” menores ou piores décimas nos meses seguintes, eis a suprema preocupação nacional, ainda maior que o esturricanço global que enche noticiário atrás de noticiário, mas não preocupa verdadeiramente ninguém porque não há alma que nele acredite. Já as vírgulas, essas são outra história, ou melhor, novela, a célebre e infindável novela das décimas: aí, há a oposição que se enxofra com a “vergonha” das vírgulas e das décimas, não falta “a comissão” que aprova ou reprova as décimas, ou o Governo que se orgulha das ditas décimas, bem como, fundamental, os comentadores que vaticinam a “morte” ou a “viabilidade” das diversas equipas partidárias nas próximas, hipotéticas, corridas eleitorais em função dessas mesmas ”décimas” que perfazem os delírios de orgulho, ou as acusações ao opróbrio, de cada um dos participantes. Andamos, portanto, sempre assim: entre a moda histérica do momento, normalmente importada, e, depois, o regresso à normalidade das décimasjá dos elefantes, nada.

Vivemos, portanto, no esplendor do pormenor, da grande economia ora tornada doméstica, assim perfeitamente entronizada no Zeitgeist e no inconsciente de cada bom cidadão que nos assegura a todos que é desse modo que deve mesmo ser: um gigantesco electrodoméstico onde cabe ao Estado o papel central de motor centrifugador, garante máximo na equidade da distribuição pela população de modernidade consubstanciada em maquinetas diversas, cupões de subsídio, ou aparelhos de informática e TV. Valentim Loureiro, reconheçamos, compreendeu muito bem, e muito antes de todos os outros, aquilo que a populaça verdadeiramente pretende e exige aos seus representantes políticos — o electrodoméstico, que é como quem diz, a ilusão da “modernidade”.

No fim de tudo, como se não bastasse essa obsessão constante com o pormenor e a moda, com o “jornalismo” de lupa grossa que esquadrinha, sempre aos gritos, sob os alertas encarnados que anunciam permanentemente a hora que se vive como sendo a “última hora”, do outro lado da cortina de fumo que a comunicação social erige em redor de quem ainda lhe preste atenção, acaba escapando o essencial — a tal manada de elefantes que, passeando pelo meio dos ecrãs, bem à vista de todos, acaba fazendo-o sem que alguém neles repare.

Que elefantes são esses, então?

Bom, desde logo, um, bem grande e que por isso deveria ser motivo de grande discussão já há muitos anos, anuncia o facto do modelo de desenvolvimento económico da Europa estar, para ser simpático, falido. Assente num estado-social que se construiu em modelo Ponzi, ou seja, pagando os lucros dos que saem com as transferências daqueloutros que entram, este tradicional esquema de pirâmide colapsou a partir do momento em que, por diversas razões, os Europeus deixaram de ter filhos.

Depois, e este é o segundo elefante, não por acaso filho do primeiro, eis a razão verdadeira pela qual toda uma chusma de governantes europeus entendeu que a solução para os seus predicamentos político-económicos assentaria na imigração: onde não há filhos para pagar as contas do estado-social virão os imigrantes salvar o sistema. Só que não, exclama o terceiro elefante, a imigração do terceiro-mundo que inundou a Europa acabou causando mais despesa social do que rendas futuras, motivo peço qual todo o projecto, evidentemente, falhou. Aliás, não apenas falhou como afectou e causou extremo dano no tecido social da sociedade europeia.

Eis, então, o momento onde aparece o quarto elefante, um pequenino e que passa bem despercebido, mas que explica o essencial: todo este esforço para salvar o estado-social não passa de uma gigantesca falácia, pois não é o estado-social que está em causa, é apenas a sua dimensão — se o estado-social fosse proporcional à sociedade que o paga, e que dele usufrui, ele cresceria quando a população cresce, por necessidade logística, mas também diminuiria, ou deveria diminuir, quando a população diminui, por necessidade financeira. Ou seja, o discurso está completamente virado ao contrário: estão os políticos a destruir a sociedade para salvar o Estado quando deveriam estar a reformar o Estado para proteger a sociedade.

Depois, vem o quinto elefante. Grande, pesado, imenso, anuncia com voz grossa que se o caminho que vem sendo seguido for para manter, então o destino será a falência, a miséria, a violência social. Pior, diz-nos ele, tudo o que na Europa se tem feito tem sido o contrário do que se deveria fazer: centralizou-se onde se deveria ter aplicado a subsidariedade, planificou-se onde se deveria ter acreditado na iniciativa privada, politizou-se tudo o que deveria ser neutro, uniformizou-se ideologicamente, seja através da regulação ou da propaganda, todo um continente que, por todas estas razões, em apenas 20 anos, perdeu todas as batalhas económicas, tornando-se absoluta e tristemente irrelevante económica, geo-estratégica e militarmente — não é coisa pouca, admita-se.

Eis senão quando, com trombetas, aparece o sexto elefante, de cabelo loiro despenteado e gravata encarnada, com maus modos, de seu nome Donald Trump, explicando com enfado que toda essa história de estafar no estado-social — falido — o que deveria a Europa gastar em defesa porque está habituada a que os EUA paguem, e façam, por si, isso, repete e repete e repete o elefante Trump, acabou. Curiosamente, o elefante Trump faz as delícias do “jornalismo”, mas nunca para ouvir o que o homem diz, sempre para gozar, fazer pouco, vilipendiar, sempre sem perceber o mundo novo que, com ele, aí vem: a partir de agora há que pagar, seja aos EUA para continuar a ter a NATO, seja por si próprios para construir mísseis e submarinos porque os EUA não estão mais para bancar a festarola europeia, capisce?

“Ó meu Deus”, exclama então o sétimo elefante, “quer isso dizer que para além de termos um estado-social falido e termos um modelo económico que não funciona ainda vamos todos ter que gastar mais dinheiro — e 5% do orçamento de cada país não é pechincha — para assegurar a defesa básica do nosso território?” Em coro, respondem o oitavo, nono e décimo elefantes: “mas não era evidente?”. Sobra, então, na manada de elefantes a perplexidade generalizada, todos abanando tristemente a cabeça: como é possível que tantas evidências pululem por aí sem que que haja políticos sérios, jornalistas credíveis e clamores públicos prontos a discutir, ou pelo menos ponderar, a forma como nos podemos safar de tamanho predicamento. Eis, então, que aparece o décimo-primeiro elefante explicando o óbvio: são milhões, meus filhos, milhões, que vivem desse estado-social, e em democracia cortar benefícios, salários e empregos públicos não é coisa “eleitoralmente sustentável”.

Que se lixem as eleições”, gritou em tempos o décimo-segundo, e último, elefante, um que por aqui já ciranda há muito. Este, careca, um habitué, apesar de elefante chamado Coelho, Passos Coelho, passa a vida a alertar, avisar, explicar o óbvio — e o óbvio é o que os elefantes todos anteriores nos gritam às orelhas todos os dias. Mas, lá está, o homem fala e o espaço público, zurrando, logo se esquece dos alertas que foram falados, das explicações que foram oferecidas, dos avisos e murros na mesa que foram dados, tudo o que interessa à “informação de excelência” é saber se vai o homem a votos, e quando, e com quem, ou contra quem, que acha ele das eleições internas do PSD, ou dos comentários do Hugo Soares, essa sumidade, tudo sempre por baixo de um substracto de incapacidade para ver, ouvir, cheirar, o que esse particular elefante nos anda a tentar dizer.

Assim vamos, portanto, cantando e rindo, com as melhores vírgulas económicas do mundo. Entretanto, o Primeiro-Ministro teve 95% nas tais eleições no PSD, no Congresso ninguém viu ou falou de quaisquer elefantes, era o que faltava, haja união, solidariedade e amizade e, no final, vai ficar tudo bem. Continuemos, portanto, a discutir as vírgulas, excitados com o tempo, seguindo as narrativas mediáticas do momento. Uma coisa, no entanto, é garantida: se o povoléu mediático se agita, grita e ofende por causa de tal assunto, então não tal assunto não é importante — e quem alerta para tanto elefante ainda acaba gozado como louco, radical, extremista ou “conspiracionista”. É o que há.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Livro - A religião woke

 Ao que a nossa "civilização" chegou...













Música - Diogo e Nancy Vieira na Gulbenkian

 Diogo na Gulbenkian com Nancy Vieira






Reflexão - LBC (comentários no Observador)

(Comentário colocado no site do Observador sobre o Rui Seabra, ex-seleccionador nacional).



 Luiz Carvalho

1 - Felicito-o pela forma de estar e pela presença de espírito; 2 - ...que estão naturalmente em extinção, como facilmente se depreende não só pelo que se assiste no nosso futebol - inenarrável e indescritível! -, como da significativa maioria de "comentários" que aqui se apresentam; 3 - finalmente, é sempre bom regressar à história, mesmo que - dada a sempre parcialidade da apreciação -, ela desagrade a alguns. 



(Comentário colocado no Observador à história do José Torres da Costa)


Felicito-o pela simplicidade desta história. Em extinção, esta capacidade de nos contar e aprisionar num mundo que cada vez mais nos passa ao lado. Continue! Há quem o continue a ler pelo que escreve mas, sobretudo, por aquilo que se adivinha para lá do que se lê.



(Comentário colocado no Observador a João André costa)

Felicito-o, Sr. João André. Pela oportunidade do texto, pelo texto ("de" e não "da", define bem o mensageiro) e pela opção sensata de ter saído daqui, deste sítio...
Mesmo que lhe tenha custado muito, como tive ocasião de ler no seu anterior artigo que desconhecia. 
O tempo é bom conselheiro...
Felicidades.

Reflexão - Relíquias dos anos 80

enviado ao Jorge Coelho nos anos oitenta, quando ainda escrevia...  

























Observador - Neves a derreter e falta a água em Almada

 


(sublinhados pessoais)

Neves a derreter e falta a água em Almada

Enquanto cresce a percepção de insegurança em torno de Luís Neves como MAI, à Presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, só faltou mesmo dizer: “Não têm água? Tomem banho com Moët & Chandon!”

Querem começar o dia com boa disposição? Então vamos lá. O Supermercado Público de Bens Essenciais é uma proposta do Livre, apresentada no congresso do partido, que prevê a criação de uma rede de supermercados estatais, sem fins lucrativos, para vender bens essenciais a preços controlados. Hã? Gostaram da ideia? A Justiça está ótima, não mexe. A Saúde? Perfeita! A Educação? Tudo resolvido! Portanto, segundo o Livre e Rui Tavares — passe a redundância — o Estado já não tem mais nada para fazer. Está finalmente pronto para nos dar a papinha à boca.

Sei que às vezes não parece, mas o meu intuito é que estas crónicas tenham um cariz humorístico — juro. Acontece que, chegados a este ponto, nomeadamente vindos directo do século XX, só me restam duas hipóteses para justificar não só esta proposta, como a própria existência do Livre (e do resto da cangalhada socialisto-comunista). E nenhuma delas é especialmente engraçada. A primeira é que as pessoas do Livre — ou seja, Rui Tavares — sejam estúpidas. A segunda é que as pessoas do Livre — ou seja, Rui Tavares — achem que nós é que somos estúpidos.

Por mera precaução, caso se confirme esta segunda hipótese, a minha única exigência para o Supermercado Público de Bens Essenciais é que tenha sempre o bem mais essencial de todos: que esta malta do Livre (e restante cangalhada socialisto-comunista) jamais volte a ter qualquer espécie de poder neste país. Mas espera… Se estou a exigir que o Supermercado Público de Bens Essenciais tenha um determinado produto, é porque o Livre (e restante cangalhada socialisto-comunista) já voltou a ter poder neste país: o suficiente para criar o próprio Supermercado Público de Bens Essenciais.

Além de que, se já existisse o Supermercado Público de Bens Essenciais, é certo que não só nunca teria stock do bem mais essencial de todos, como não teria stock de chicha, nem de peixe, nem de pãozinho. Afinal, é isso que define qualquer Supermercado Público de Bens Essenciais. O Continente tem “A vida passa a comer”; o Supermercado Público de Bens Essenciais teria “A vida passa muito mais depressa sem o comer”.

A propósito de enclaves soviéticos, Almada continua com falhas no fornecimento de água. Mas também só passaram, quê, duas semanas? Calma, pessoal. De certeza que a administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada, onde pontifica a Presidente da Câmara-actriz, está a tratar do assunto. Afinal, estamos a falar de um trio de especialistas em questões de águas. Nomeadamente do ponto de vista do bebedor de água e do tomador de duches e banhos de imersão, também eles com água. Portanto, é fazer as contas: lá para outubro, novembro a situação deve estar regularizada, logo que comece a chover e os munícipes ponham uns alguidares à janela.

Agora, se é verdade que a irmã da Presidente da Câmara de Almada, Maria de Medeiros, foi estrela do mega-sucesso de Quentin Tarantino, Pulp Fiction, não é menos verdade que a líder camarária, Inês de Medeiros, não lhe fica nada atrás enquanto protagonista desta Poop Reality que é a de Almada por estas semanas. Parece que a estou a ver, a embarcar para Paris, à porta do avião, a entregar a sua fala: “Não têm água? Tomem banho com Moët & Chandon!”

É por isto que, nesta fase, a sul do Tejo o sítio mais certo para encontrar água é a piscina — ou melhor, o tanque — do monte do Ministro da Administração Interna, em Odemira. Receio que o aumento das dúvidas sobre as obras que o empreiteiro da Polícia Judiciária está a executar em dois montes de Luís Neves acabe por reforçar a percepção de insegurança quanto à sua continuidade no MAI. Acaba por ser um bocadinho irónico: Neves a derreter e, mesmo assim, falta a água em Almada.


Observador - O que fará um Putin derrotado?


 

(sublinhados pessoais)

O que fará um Putin derrotado?

A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente?

Como sempre, para a maioria dos analistas europeus, a Cimeira da NATO foi sobre Trump. O que diz Trump? As gaffes de Trump? O que faz Trump? Como vai tratar os europeus? O que vai fazer na Gronelândia e no Irão? Mas, há mundo para lá de Trump. Muito mesmo, e convém dar-lhe atenção.

Para quem acha que a política mundial vai para além de Trump, era óbvio que a questão central da Cimeira da NATO seria sempre a Ucrânia. A NATO é uma aliança de defesa para defender os países europeus. A Rússia é a maior ameaça à segurança europeia. Está em guerra, há mais de quatro anos, com outro país europeu. O que raio deveria a NATO discutir? Os humores de Trump? É impressionante como tanta gente só consegue ver Trump e não presta atenção ao que é importante.

A Ucrânia foi a grande vencedora da Cimeira da NATO. Por uma razão muito simples. Zelensky queria produzir misseis Patriot na Ucrânia. Conseguiu que o presidente americano desse autorização para o fabrico dos Patriot em território ucraniano. A Lockheed Martin ainda terá que confirmar, o que é o mais provável, e até poderá abrir uma fábrica na Ucrânia, ou num país vizinho. É uma vitória política indiscutível para Zelensky. O Presidente americano não autorizou o fabrico dos Patriot porque de repente começou a gostar do presidente ucraniano. Trump percebeu que a Ucrânia está a ganhar a guerra; e gosta de vencedores. Mas, sobretudo, vê que a Rússia está a perder. E Trump não gosta de derrotados.

Foi isso que a Cimeira da NATO reconheceu: Putin está a perder a guerra. A Rússia nunca conseguirá conquistar a Ucrânia, o objectivo inicial da guerra. As tropas russas deixaram de avançar no terreno. Mas, pior do que tudo, a guerra deixou de se limitar ao território da Ucrânia. Chegou à Rússia. Os drones ucranianos atacam as maiores cidades russas, incluindo Moscovo, matam militares russos e estão a destruir lentamente a produção de petróleo, agravando a situação económica e social na Rússia.

A população russa deixou de acreditar na propaganda do regime e hoje não entende a razão desta guerra. As mães e as mulheres russas sofrem com a morte dos seus filhos e maridos na frente de guerra. Os homens russos temem uma recruta forçada. E a emigração de russos voltou a aumentar. A “operação militar especial” de Putin transformou-se numa guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Nada mudará o curso da guerra, a não ser que os russos consigam assassinar Zelensky.

Mas uma Rússia derrotada poderá ser mais perigosa do que uma Rússia vencedora. Putin sabe que o reconhecimento da derrota será o seu fim político. Por isso, nunca aceitará a derrota, nem assinará um acordo de paz com Zelensky. A melhor solução seria o afastamento de Putin do poder. Mas não é nada fácil, e não se sabe quem ficaria no seu lugar.

A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente? Se assim for, o que poderá Putin fazer? Tem duas opções. O uso de armas nucleares tácticas contra a Ucrânia, ou um ataque militar contra outro país europeu. Ambos seriam dramáticos para a Europa.

Não podemos ignorar estes riscos. Uma Rússia derrotada e fraca é muito mais perigosa do que uma Rússia vencedora e forte.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Observador - São os políticos ou somos nós?

 


(sublinhados pessoais)

São os políticos ou somos nós?

O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado. Quem tem interesse em alterar seja o que for?

Há tempos, em conversa com um grupo de amigos, perguntávamo-nos o que raio sucederia a um político que, por alguma razão inexplicável, decidisse tratar os portugueses como adultos responsáveis e livres. E se alguém se submetesse a eleições com um plano de mudanças estruturais, de fortalecimento da sociedade? A conclusão foi unânime: não duraria mais do que um mandato, se o conseguisse concluir, e se chegasse sequer a ganhar a eleição.

Há uma explicação sempre dada para os problemas nacionais: não temos bons governantes. Não discordo da ideia, confesso. Mas essa também é a resposta mais confortável de todas vinda de uma sociedade que não se sente responsável por nada. Mas que incentivos pode ter alguém que decide colocar-se ao dispor do escrutínio público e mediático pugnando por um Estado eficaz e uma sociedade dona do seu próprio destino? O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; mais de um milhão e meio de menores, sem direito de voto; mais de três centenas de milhar de desempregados; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado, dos seus procedimentos e da sua inércia. Quem em Portugal tem efectivo interesse em alterar seja o que for?

Durante décadas, entre regimes de naturezas diferentes, habituámo-nos a exigir do Estado praticamente tudo. Francisco Lucas Pires afirmou, em tempos, que um Estado que promete tudo a todos provavelmente acabará não tendo nada para dar a ninguém. Teve o sucesso eleitoral que se conhece. Queremos melhores escolas, melhores hospitais, melhores estradas, mais cultura, mais segurança, menos impostos, melhores pensões, salários mais elevados, mais apoios sociais, uma Administração Pública que funcione, políticas de entretenimento patrocinadas pelas autarquias, queremos apoiar fundações, institutos, senhorios, inquilinos, bancos, empresas, jornais, televisões, sem que exista um mínimo de debate público sobre prioridades, custos, renúncias. O país pede mudanças, mas nunca sobre a vida de cada um. Queremos eficiência, sem que ninguém perca direitos. Queremos menos despesa, sem que se reduza nenhuma despesa que nos beneficia. Vivemos, por isso, numa teia jurídica complexa, imperceptível, toda feita de excepções e alçapões, de interpretações e mais concreta do que geral e abstracta. O poder político, entre o legislativo e o executivo, convenceu-se mesmo de que tem como missão essencial promover a felicidade de todos, como já tantos responsáveis políticos afirmaram, da esquerda à direita, sem que se pondere sequer que ao Estado compete assegurar os serviços públicos essenciais e que às pessoas compete decidir o que querem que a sua vida seja. Inevitavelmente, com tamanha obsessão com a vida de cada um, o elevador social estagnou: quando se promete tudo a todos, acaba-se, de facto, com nada para ninguém.

Não há dia em que, entre cafés e mesas de comentário televisivo, não se acusem políticos de incompetência ou de falta de coragem, sem que se pondere por uma vez que a coragem política também se mede pelo ambiente em que ela pode ser exercida. Um país que penaliza eleitoralmente quem cria conflitos, quando esses conflitos são necessários, acaba por premiar quem administra a realidade sem a transformar, e talvez seja mesmo por isso que se premeia tantas vezes com o selo de boa governação aquele que acena apenas com a tranquilidade. Por que raio, por exemplo, haveria alguém de afrontar a poderosa máquina dos serviços públicos, onde todos são pagos para não decidir, onde ninguém é responsabilizado por nada, porque, no fim do dia, há sempre um eleito à disposição dos pedidos de demissão? E quando se refere, como se se tratasse de uma inevitabilidade, que há opções políticas que não são tomadas, optando-se por outras menos profícuas mas mais compensadoras do ponto de vista eleitoral, isso diz mais dos eleitos que escolhem esse caminho ou dos eleitores que o validam, caucionam e reforçam?

Os partidos procuram controlar tudo, é certo, mas o que disputam, na verdade, é o direito de ocupar temporariamente o topo de uma máquina que nenhum deles quer, consegue ou se atreve verdadeiramente a transformar, procurando agradar a todos. O país funciona numa espécie de escada circular, em que os eleitos possuem legitimidade formal, mas não têm domínio total da máquina, e os que dominam a máquina, que os partidos querem continuadamente controlar, não respondem perante os cidadãos, ao passo que os cidadãos exigem tudo dos eleitos formais e nada de si próprios. Daqui à política única da comunicação vai o salto de uma pulga. Trata-se, afinal, não de cobardia dos dirigentes partidários ou dos eleitos, mas de mera racionalidade eleitoral. Tal como uma reforma estrutural produz custos imediatos e benefícios tardios, uma política zelosa do que existe de mais básico enquanto serviço prestado pelo Estado produz custos eleitorais imediatos e benefícios nunca sentidos. Como é que se pode falar de futuro num país assim?