sexta-feira, 17 de julho de 2026

Observador - Uma manada de elefantes

 


(sublinhados - e lamentos - pessoais)

Uma manada de elefantes

Tudo parece uma ode ao absurdo onde uma chusma de loucos canta, dança, cabriola em alegre fanfarra, mas, lá está, sempre ao largo de qualquer coisa remotamente importante para a vida das pessoas

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Uma coisa que não deixa de ser extraordinária nestes dias de grande “informação” é a capacidade do espaço público e mediático, enquanto obceca com o pormenor, deixar passar incólume os diversos elefantes que se passeiam tranquila e diariamente pelo meio desse mesmo espaço mediático, sem que alguém repare neles. Estranhamente, o “espaço público” consiste em milhares de jornalistas, centenas de programas de “informação”, infinitos analistas, ainda mais comentadores, e todos aos gritos e urros 24 horas por dia, 7 dias por semana, sempre sem parar, em constante repetição, tudo alegadamente escalpelizando ao seu mais ínfimo pormenor: desde as viagens do Primeiro-Ministro, passando pelo tanque-piscina do Ministro, a indumentária da filha do Sr. Presidente, o peso e a dieta dos atletas da Selecção, a que horas toda essa gente adormeceu e acordou, o que comem, o que lêem nas férias, etc., etc., etc.. Já dos elefantes, nicles, zero, bola. São, para todos os efeitos, invisíveis, inodoros, inaudíveis.

Depois, claro está, domina a moda do momento. Por estes dias, está em voga a patética emergência climática que anuncia, desde há anos, secas e vagas de calor, ou enxurradas e comboios de frio, isto consoante a estação do ano. Vai daí e todas as parangonas anunciam agora dezenas de afogados em França barbaramente assassinados pela vaga de calor, ou infinitos recordes estatísticos desde o século XVIII que, contando com a subjectividade dos algoritmos e dos modelos cibernéticos, juntando-lhe a boa-vontade de quem mais aprecia afinar o coro mediático num uníssono proveitoso, são ininterruptamente reorganizados, reinterpretados e republicados numa infindável pilha de “mortos pelo clima” — que é como quem diz mortos por nós, os terríveis agentes disruptores do milenariamente tranquilo, ameno e imutável clima terrestre.

No final, nem é o pormenor que cansa, é o ridículo ao qual tanta gente — ainda para mais uma caterva de auto-proclamados “profissionais da informação” supostamente dotados de neurónios e capacidade cognitiva individualizada — se dedica a repetir com o afã próprio dos histéricos, maníacos e fanáticos. Veja-se, por exemplo, como o Primeiro-Ministro, aparentemente um deles, correndo atrás porque tem que “surfar” cada onda de agitação social, promete no X “salas climatizadas” — o quer que seja que isso signifique —, isto enquanto, noutro post, se vangloria por ter as melhores vírgulas económicas da Europa — como se melhor exemplo do distanciamento entre a estatística e a realidade não houvesse — que farão, diz ele sem se rir, a “inveja” de todos. Junta-se, portanto, o ridículo da moda climática com o ridículo de quem não faz noção de como o povoléu que, em curtíssima minoria, o elegeu vive no país por si governado. Tudo parece, portanto, uma ode ao absurdo onde uma chusma de loucos canta, dança, cabriola em alegre fanfarra, mas, lá está, sempre ao largo de qualquer coisa remotamente importante para a vida das pessoas.

É ridículo, sem dúvida, visto de fora e sem os pejos próprios da tristeza decorrente da constatação do “estado a que isto chegou” — mais vale rir que chorar, diz o sábio povo —, mas também é, como tudo no espaço público português, comezinho e pequenino. Nesse campo, as declarações do Primeiro-Ministro acertam o passo na perfeição com o coro generalizado onde a grande discussão e análise política se centra precisamente aí — na ridícula moda do dia e nas vírgulas e respectivas casas decimais dos diversos documentos que a cada dia circulam entre mãos políticas e jornalísticas.

Quantas décimas de “crescimento”, quantas de “despesa”, quantas de “dívida”, e consoante a quinzena, se “os mais recentes dados apontam para” menores ou piores décimas nos meses seguintes, eis a suprema preocupação nacional, ainda maior que o esturricanço global que enche noticiário atrás de noticiário, mas não preocupa verdadeiramente ninguém porque não há alma que nele acredite. Já as vírgulas, essas são outra história, ou melhor, novela, a célebre e infindável novela das décimas: aí, há a oposição que se enxofra com a “vergonha” das vírgulas e das décimas, não falta “a comissão” que aprova ou reprova as décimas, ou o Governo que se orgulha das ditas décimas, bem como, fundamental, os comentadores que vaticinam a “morte” ou a “viabilidade” das diversas equipas partidárias nas próximas, hipotéticas, corridas eleitorais em função dessas mesmas ”décimas” que perfazem os delírios de orgulho, ou as acusações ao opróbrio, de cada um dos participantes. Andamos, portanto, sempre assim: entre a moda histérica do momento, normalmente importada, e, depois, o regresso à normalidade das décimasjá dos elefantes, nada.

Vivemos, portanto, no esplendor do pormenor, da grande economia ora tornada doméstica, assim perfeitamente entronizada no Zeitgeist e no inconsciente de cada bom cidadão que nos assegura a todos que é desse modo que deve mesmo ser: um gigantesco electrodoméstico onde cabe ao Estado o papel central de motor centrifugador, garante máximo na equidade da distribuição pela população de modernidade consubstanciada em maquinetas diversas, cupões de subsídio, ou aparelhos de informática e TV. Valentim Loureiro, reconheçamos, compreendeu muito bem, e muito antes de todos os outros, aquilo que a populaça verdadeiramente pretende e exige aos seus representantes políticos — o electrodoméstico, que é como quem diz, a ilusão da “modernidade”.

No fim de tudo, como se não bastasse essa obsessão constante com o pormenor e a moda, com o “jornalismo” de lupa grossa que esquadrinha, sempre aos gritos, sob os alertas encarnados que anunciam permanentemente a hora que se vive como sendo a “última hora”, do outro lado da cortina de fumo que a comunicação social erige em redor de quem ainda lhe preste atenção, acaba escapando o essencial — a tal manada de elefantes que, passeando pelo meio dos ecrãs, bem à vista de todos, acaba fazendo-o sem que alguém neles repare.

Que elefantes são esses, então?

Bom, desde logo, um, bem grande e que por isso deveria ser motivo de grande discussão já há muitos anos, anuncia o facto do modelo de desenvolvimento económico da Europa estar, para ser simpático, falido. Assente num estado-social que se construiu em modelo Ponzi, ou seja, pagando os lucros dos que saem com as transferências daqueloutros que entram, este tradicional esquema de pirâmide colapsou a partir do momento em que, por diversas razões, os Europeus deixaram de ter filhos.

Depois, e este é o segundo elefante, não por acaso filho do primeiro, eis a razão verdadeira pela qual toda uma chusma de governantes europeus entendeu que a solução para os seus predicamentos político-económicos assentaria na imigração: onde não há filhos para pagar as contas do estado-social virão os imigrantes salvar o sistema. Só que não, exclama o terceiro elefante, a imigração do terceiro-mundo que inundou a Europa acabou causando mais despesa social do que rendas futuras, motivo peço qual todo o projecto, evidentemente, falhou. Aliás, não apenas falhou como afectou e causou extremo dano no tecido social da sociedade europeia.

Eis, então, o momento onde aparece o quarto elefante, um pequenino e que passa bem despercebido, mas que explica o essencial: todo este esforço para salvar o estado-social não passa de uma gigantesca falácia, pois não é o estado-social que está em causa, é apenas a sua dimensão — se o estado-social fosse proporcional à sociedade que o paga, e que dele usufrui, ele cresceria quando a população cresce, por necessidade logística, mas também diminuiria, ou deveria diminuir, quando a população diminui, por necessidade financeira. Ou seja, o discurso está completamente virado ao contrário: estão os políticos a destruir a sociedade para salvar o Estado quando deveriam estar a reformar o Estado para proteger a sociedade.

Depois, vem o quinto elefante. Grande, pesado, imenso, anuncia com voz grossa que se o caminho que vem sendo seguido for para manter, então o destino será a falência, a miséria, a violência social. Pior, diz-nos ele, tudo o que na Europa se tem feito tem sido o contrário do que se deveria fazer: centralizou-se onde se deveria ter aplicado a subsidariedade, planificou-se onde se deveria ter acreditado na iniciativa privada, politizou-se tudo o que deveria ser neutro, uniformizou-se ideologicamente, seja através da regulação ou da propaganda, todo um continente que, por todas estas razões, em apenas 20 anos, perdeu todas as batalhas económicas, tornando-se absoluta e tristemente irrelevante económica, geo-estratégica e militarmente — não é coisa pouca, admita-se.

Eis senão quando, com trombetas, aparece o sexto elefante, de cabelo loiro despenteado e gravata encarnada, com maus modos, de seu nome Donald Trump, explicando com enfado que toda essa história de estafar no estado-social — falido — o que deveria a Europa gastar em defesa porque está habituada a que os EUA paguem, e façam, por si, isso, repete e repete e repete o elefante Trump, acabou. Curiosamente, o elefante Trump faz as delícias do “jornalismo”, mas nunca para ouvir o que o homem diz, sempre para gozar, fazer pouco, vilipendiar, sempre sem perceber o mundo novo que, com ele, aí vem: a partir de agora há que pagar, seja aos EUA para continuar a ter a NATO, seja por si próprios para construir mísseis e submarinos porque os EUA não estão mais para bancar a festarola europeia, capisce?

“Ó meu Deus”, exclama então o sétimo elefante, “quer isso dizer que para além de termos um estado-social falido e termos um modelo económico que não funciona ainda vamos todos ter que gastar mais dinheiro — e 5% do orçamento de cada país não é pechincha — para assegurar a defesa básica do nosso território?” Em coro, respondem o oitavo, nono e décimo elefantes: “mas não era evidente?”. Sobra, então, na manada de elefantes a perplexidade generalizada, todos abanando tristemente a cabeça: como é possível que tantas evidências pululem por aí sem que que haja políticos sérios, jornalistas credíveis e clamores públicos prontos a discutir, ou pelo menos ponderar, a forma como nos podemos safar de tamanho predicamento. Eis, então, que aparece o décimo-primeiro elefante explicando o óbvio: são milhões, meus filhos, milhões, que vivem desse estado-social, e em democracia cortar benefícios, salários e empregos públicos não é coisa “eleitoralmente sustentável”.

Que se lixem as eleições”, gritou em tempos o décimo-segundo, e último, elefante, um que por aqui já ciranda há muito. Este, careca, um habitué, apesar de elefante chamado Coelho, Passos Coelho, passa a vida a alertar, avisar, explicar o óbvio — e o óbvio é o que os elefantes todos anteriores nos gritam às orelhas todos os dias. Mas, lá está, o homem fala e o espaço público, zurrando, logo se esquece dos alertas que foram falados, das explicações que foram oferecidas, dos avisos e murros na mesa que foram dados, tudo o que interessa à “informação de excelência” é saber se vai o homem a votos, e quando, e com quem, ou contra quem, que acha ele das eleições internas do PSD, ou dos comentários do Hugo Soares, essa sumidade, tudo sempre por baixo de um substracto de incapacidade para ver, ouvir, cheirar, o que esse particular elefante nos anda a tentar dizer.

Assim vamos, portanto, cantando e rindo, com as melhores vírgulas económicas do mundo. Entretanto, o Primeiro-Ministro teve 95% nas tais eleições no PSD, no Congresso ninguém viu ou falou de quaisquer elefantes, era o que faltava, haja união, solidariedade e amizade e, no final, vai ficar tudo bem. Continuemos, portanto, a discutir as vírgulas, excitados com o tempo, seguindo as narrativas mediáticas do momento. Uma coisa, no entanto, é garantida: se o povoléu mediático se agita, grita e ofende por causa de tal assunto, então não tal assunto não é importante — e quem alerta para tanto elefante ainda acaba gozado como louco, radical, extremista ou “conspiracionista”. É o que há.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Livro - A religião woke

 Ao que a nossa "civilização" chegou...













Música - Diogo e Nancy Vieira na Gulbenkian

 Diogo na Gulbenkian com Nancy Vieira






Reflexão - LBC (comentários no Observador)

(Comentário colocado no site do Observador sobre o Rui Seabra, ex-seleccionador nacional).



 Luiz Carvalho

1 - Felicito-o pela forma de estar e pela presença de espírito; 2 - ...que estão naturalmente em extinção, como facilmente se depreende não só pelo que se assiste no nosso futebol - inenarrável e indescritível! -, como da significativa maioria de "comentários" que aqui se apresentam; 3 - finalmente, é sempre bom regressar à história, mesmo que - dada a sempre parcialidade da apreciação -, ela desagrade a alguns. 



(Comentário colocado no Observador à história do José Torres da Costa)


Felicito-o pela simplicidade desta história. Em extinção, esta capacidade de nos contar e aprisionar num mundo que cada vez mais nos passa ao lado. Continue! Há quem o continue a ler pelo que escreve mas, sobretudo, por aquilo que se adivinha para lá do que se lê.



(Comentário colocado no Observador a João André costa)

Felicito-o, Sr. João André. Pela oportunidade do texto, pelo texto ("de" e não "da", define bem o mensageiro) e pela opção sensata de ter saído daqui, deste sítio...
Mesmo que lhe tenha custado muito, como tive ocasião de ler no seu anterior artigo que desconhecia. 
O tempo é bom conselheiro...
Felicidades.

Reflexão - Relíquias dos anos 80

enviado ao Jorge Coelho nos anos oitenta, quando ainda escrevia...  

























Observador - Neves a derreter e falta a água em Almada

 


(sublinhados pessoais)

Neves a derreter e falta a água em Almada

Enquanto cresce a percepção de insegurança em torno de Luís Neves como MAI, à Presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, só faltou mesmo dizer: “Não têm água? Tomem banho com Moët & Chandon!”

Querem começar o dia com boa disposição? Então vamos lá. O Supermercado Público de Bens Essenciais é uma proposta do Livre, apresentada no congresso do partido, que prevê a criação de uma rede de supermercados estatais, sem fins lucrativos, para vender bens essenciais a preços controlados. Hã? Gostaram da ideia? A Justiça está ótima, não mexe. A Saúde? Perfeita! A Educação? Tudo resolvido! Portanto, segundo o Livre e Rui Tavares — passe a redundância — o Estado já não tem mais nada para fazer. Está finalmente pronto para nos dar a papinha à boca.

Sei que às vezes não parece, mas o meu intuito é que estas crónicas tenham um cariz humorístico — juro. Acontece que, chegados a este ponto, nomeadamente vindos directo do século XX, só me restam duas hipóteses para justificar não só esta proposta, como a própria existência do Livre (e do resto da cangalhada socialisto-comunista). E nenhuma delas é especialmente engraçada. A primeira é que as pessoas do Livre — ou seja, Rui Tavares — sejam estúpidas. A segunda é que as pessoas do Livre — ou seja, Rui Tavares — achem que nós é que somos estúpidos.

Por mera precaução, caso se confirme esta segunda hipótese, a minha única exigência para o Supermercado Público de Bens Essenciais é que tenha sempre o bem mais essencial de todos: que esta malta do Livre (e restante cangalhada socialisto-comunista) jamais volte a ter qualquer espécie de poder neste país. Mas espera… Se estou a exigir que o Supermercado Público de Bens Essenciais tenha um determinado produto, é porque o Livre (e restante cangalhada socialisto-comunista) já voltou a ter poder neste país: o suficiente para criar o próprio Supermercado Público de Bens Essenciais.

Além de que, se já existisse o Supermercado Público de Bens Essenciais, é certo que não só nunca teria stock do bem mais essencial de todos, como não teria stock de chicha, nem de peixe, nem de pãozinho. Afinal, é isso que define qualquer Supermercado Público de Bens Essenciais. O Continente tem “A vida passa a comer”; o Supermercado Público de Bens Essenciais teria “A vida passa muito mais depressa sem o comer”.

A propósito de enclaves soviéticos, Almada continua com falhas no fornecimento de água. Mas também só passaram, quê, duas semanas? Calma, pessoal. De certeza que a administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada, onde pontifica a Presidente da Câmara-actriz, está a tratar do assunto. Afinal, estamos a falar de um trio de especialistas em questões de águas. Nomeadamente do ponto de vista do bebedor de água e do tomador de duches e banhos de imersão, também eles com água. Portanto, é fazer as contas: lá para outubro, novembro a situação deve estar regularizada, logo que comece a chover e os munícipes ponham uns alguidares à janela.

Agora, se é verdade que a irmã da Presidente da Câmara de Almada, Maria de Medeiros, foi estrela do mega-sucesso de Quentin Tarantino, Pulp Fiction, não é menos verdade que a líder camarária, Inês de Medeiros, não lhe fica nada atrás enquanto protagonista desta Poop Reality que é a de Almada por estas semanas. Parece que a estou a ver, a embarcar para Paris, à porta do avião, a entregar a sua fala: “Não têm água? Tomem banho com Moët & Chandon!”

É por isto que, nesta fase, a sul do Tejo o sítio mais certo para encontrar água é a piscina — ou melhor, o tanque — do monte do Ministro da Administração Interna, em Odemira. Receio que o aumento das dúvidas sobre as obras que o empreiteiro da Polícia Judiciária está a executar em dois montes de Luís Neves acabe por reforçar a percepção de insegurança quanto à sua continuidade no MAI. Acaba por ser um bocadinho irónico: Neves a derreter e, mesmo assim, falta a água em Almada.


Observador - O que fará um Putin derrotado?


 

(sublinhados pessoais)

O que fará um Putin derrotado?

A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente?

Como sempre, para a maioria dos analistas europeus, a Cimeira da NATO foi sobre Trump. O que diz Trump? As gaffes de Trump? O que faz Trump? Como vai tratar os europeus? O que vai fazer na Gronelândia e no Irão? Mas, há mundo para lá de Trump. Muito mesmo, e convém dar-lhe atenção.

Para quem acha que a política mundial vai para além de Trump, era óbvio que a questão central da Cimeira da NATO seria sempre a Ucrânia. A NATO é uma aliança de defesa para defender os países europeus. A Rússia é a maior ameaça à segurança europeia. Está em guerra, há mais de quatro anos, com outro país europeu. O que raio deveria a NATO discutir? Os humores de Trump? É impressionante como tanta gente só consegue ver Trump e não presta atenção ao que é importante.

A Ucrânia foi a grande vencedora da Cimeira da NATO. Por uma razão muito simples. Zelensky queria produzir misseis Patriot na Ucrânia. Conseguiu que o presidente americano desse autorização para o fabrico dos Patriot em território ucraniano. A Lockheed Martin ainda terá que confirmar, o que é o mais provável, e até poderá abrir uma fábrica na Ucrânia, ou num país vizinho. É uma vitória política indiscutível para Zelensky. O Presidente americano não autorizou o fabrico dos Patriot porque de repente começou a gostar do presidente ucraniano. Trump percebeu que a Ucrânia está a ganhar a guerra; e gosta de vencedores. Mas, sobretudo, vê que a Rússia está a perder. E Trump não gosta de derrotados.

Foi isso que a Cimeira da NATO reconheceu: Putin está a perder a guerra. A Rússia nunca conseguirá conquistar a Ucrânia, o objectivo inicial da guerra. As tropas russas deixaram de avançar no terreno. Mas, pior do que tudo, a guerra deixou de se limitar ao território da Ucrânia. Chegou à Rússia. Os drones ucranianos atacam as maiores cidades russas, incluindo Moscovo, matam militares russos e estão a destruir lentamente a produção de petróleo, agravando a situação económica e social na Rússia.

A população russa deixou de acreditar na propaganda do regime e hoje não entende a razão desta guerra. As mães e as mulheres russas sofrem com a morte dos seus filhos e maridos na frente de guerra. Os homens russos temem uma recruta forçada. E a emigração de russos voltou a aumentar. A “operação militar especial” de Putin transformou-se numa guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Nada mudará o curso da guerra, a não ser que os russos consigam assassinar Zelensky.

Mas uma Rússia derrotada poderá ser mais perigosa do que uma Rússia vencedora. Putin sabe que o reconhecimento da derrota será o seu fim político. Por isso, nunca aceitará a derrota, nem assinará um acordo de paz com Zelensky. A melhor solução seria o afastamento de Putin do poder. Mas não é nada fácil, e não se sabe quem ficaria no seu lugar.

A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente? Se assim for, o que poderá Putin fazer? Tem duas opções. O uso de armas nucleares tácticas contra a Ucrânia, ou um ataque militar contra outro país europeu. Ambos seriam dramáticos para a Europa.

Não podemos ignorar estes riscos. Uma Rússia derrotada e fraca é muito mais perigosa do que uma Rússia vencedora e forte.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Observador - São os políticos ou somos nós?

 


(sublinhados pessoais)

São os políticos ou somos nós?

O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado. Quem tem interesse em alterar seja o que for?

Há tempos, em conversa com um grupo de amigos, perguntávamo-nos o que raio sucederia a um político que, por alguma razão inexplicável, decidisse tratar os portugueses como adultos responsáveis e livres. E se alguém se submetesse a eleições com um plano de mudanças estruturais, de fortalecimento da sociedade? A conclusão foi unânime: não duraria mais do que um mandato, se o conseguisse concluir, e se chegasse sequer a ganhar a eleição.

Há uma explicação sempre dada para os problemas nacionais: não temos bons governantes. Não discordo da ideia, confesso. Mas essa também é a resposta mais confortável de todas vinda de uma sociedade que não se sente responsável por nada. Mas que incentivos pode ter alguém que decide colocar-se ao dispor do escrutínio público e mediático pugnando por um Estado eficaz e uma sociedade dona do seu próprio destino? O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; mais de um milhão e meio de menores, sem direito de voto; mais de três centenas de milhar de desempregados; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado, dos seus procedimentos e da sua inércia. Quem em Portugal tem efectivo interesse em alterar seja o que for?

Durante décadas, entre regimes de naturezas diferentes, habituámo-nos a exigir do Estado praticamente tudo. Francisco Lucas Pires afirmou, em tempos, que um Estado que promete tudo a todos provavelmente acabará não tendo nada para dar a ninguém. Teve o sucesso eleitoral que se conhece. Queremos melhores escolas, melhores hospitais, melhores estradas, mais cultura, mais segurança, menos impostos, melhores pensões, salários mais elevados, mais apoios sociais, uma Administração Pública que funcione, políticas de entretenimento patrocinadas pelas autarquias, queremos apoiar fundações, institutos, senhorios, inquilinos, bancos, empresas, jornais, televisões, sem que exista um mínimo de debate público sobre prioridades, custos, renúncias. O país pede mudanças, mas nunca sobre a vida de cada um. Queremos eficiência, sem que ninguém perca direitos. Queremos menos despesa, sem que se reduza nenhuma despesa que nos beneficia. Vivemos, por isso, numa teia jurídica complexa, imperceptível, toda feita de excepções e alçapões, de interpretações e mais concreta do que geral e abstracta. O poder político, entre o legislativo e o executivo, convenceu-se mesmo de que tem como missão essencial promover a felicidade de todos, como já tantos responsáveis políticos afirmaram, da esquerda à direita, sem que se pondere sequer que ao Estado compete assegurar os serviços públicos essenciais e que às pessoas compete decidir o que querem que a sua vida seja. Inevitavelmente, com tamanha obsessão com a vida de cada um, o elevador social estagnou: quando se promete tudo a todos, acaba-se, de facto, com nada para ninguém.

Não há dia em que, entre cafés e mesas de comentário televisivo, não se acusem políticos de incompetência ou de falta de coragem, sem que se pondere por uma vez que a coragem política também se mede pelo ambiente em que ela pode ser exercida. Um país que penaliza eleitoralmente quem cria conflitos, quando esses conflitos são necessários, acaba por premiar quem administra a realidade sem a transformar, e talvez seja mesmo por isso que se premeia tantas vezes com o selo de boa governação aquele que acena apenas com a tranquilidade. Por que raio, por exemplo, haveria alguém de afrontar a poderosa máquina dos serviços públicos, onde todos são pagos para não decidir, onde ninguém é responsabilizado por nada, porque, no fim do dia, há sempre um eleito à disposição dos pedidos de demissão? E quando se refere, como se se tratasse de uma inevitabilidade, que há opções políticas que não são tomadas, optando-se por outras menos profícuas mas mais compensadoras do ponto de vista eleitoral, isso diz mais dos eleitos que escolhem esse caminho ou dos eleitores que o validam, caucionam e reforçam?

Os partidos procuram controlar tudo, é certo, mas o que disputam, na verdade, é o direito de ocupar temporariamente o topo de uma máquina que nenhum deles quer, consegue ou se atreve verdadeiramente a transformar, procurando agradar a todos. O país funciona numa espécie de escada circular, em que os eleitos possuem legitimidade formal, mas não têm domínio total da máquina, e os que dominam a máquina, que os partidos querem continuadamente controlar, não respondem perante os cidadãos, ao passo que os cidadãos exigem tudo dos eleitos formais e nada de si próprios. Daqui à política única da comunicação vai o salto de uma pulga. Trata-se, afinal, não de cobardia dos dirigentes partidários ou dos eleitos, mas de mera racionalidade eleitoral. Tal como uma reforma estrutural produz custos imediatos e benefícios tardios, uma política zelosa do que existe de mais básico enquanto serviço prestado pelo Estado produz custos eleitorais imediatos e benefícios nunca sentidos. Como é que se pode falar de futuro num país assim?


segunda-feira, 13 de julho de 2026

The spectator - Why can’t Elon Musk leave Britain alone?

 


Why can’t Elon Musk leave Britain alone?

Elon Musk (Credit: Getty images)

Why is Elon Musk so obsessed with what’s going on in Britain? The billionaire owner of Tesla and X has been busy posting on his social media platform about the murder of Henry Nowak and what it says about the state of British policing. What does Musk actually know about policing in this country? 

What the tech mogul definitely does know about is how to stir the pot. According to a report in the Financial Times, Musk has written more than 110 posts, retweets and replies about British politics since last Wednesday on X. This is almost three times the share devoted to his company Space X, which is valued at $1.8 trillion (£1.3 trillion) ahead of its highly anticipated IPO next week.

Musk is all fired up about the murder of 18-year-old Henry, which has led to accusations of ‘two-tier policing’ after it emerged police had arrested him for alleged racial abuse as he lay dying. There were violent clashes with police in Southampton this week near to where he was killed by Vickrum Digwa, who was given a life sentence on Monday. Musk criticised how ‘heinously’ Nowak was treated by the police in a series of posts: 

The West has created an utterly evil state religion where an accusation of ‘racism’ is the gravest offence that can be committed, even worse than rape or murder! 

The billionaire vowed to fund a wrongful death lawsuit against the police officers who arrested Nowak. Why? No one, least of all the dead student’s family, is asking for his help. 

Footage released this week showed one of the police officers refusing to believe Nowak when he said he had been stabbed. The video caused universal outrage and condemnation. There are plenty of questions that need answering over the police response to the murder, and an investigation is underway by the Independent Office for Police Conduct. 

Anyone who really cares about justice and the truth will let the investigators go about their work. Musk has no role to play in any of this, so why stick his oar in? He might be better employed turning his attentions to his own businesses. 

Grok, the Musk-owned AI platform, was among the sites that falsely identified a former police officer as being involved in Nowak’s arrest. Christi Hill, who left Hampshire Police in April 2024 (long before the murder of Nowak in December last year) said in an interview that she had been forced into hiding because of the ‘onslaught’ of threats after being wrongly identified. That’s an injustice right there, Elon. Deal with it.

Keir Starmer is right to accuse Musk of trying to ‘whip up division’ over Nowak’s murder. It is a significant toughening of language from the Prime Minister about the X owner, and not before time. Speaking during a visit to York, Starmer accused Musk of ‘interfering’ in British politics:

We need also to assert who we are as a country, because Musk, again, has been interfering in our politics in the last few days, trying to whip up division – that is not who we are in Britain. 

In Britain, we are reasonable, tolerant people. When we have a terrible case, like Henry’s case, Henry Nowak, we react calmly, as his family have done.

This is a welcome reminder that there is a family at the heart of this tragedy, who Downing Street said that Starmer would have private talks with. In a meeting with the Conservative leader Kemi Badenoch, the murdered teenager’s parents urged all political parties and religions to help rebuild trust in the police. The Tory leader deserves praise for her measured response to this tragedy, including outlining her thoughts on how equality should be dealt with under the law. After the meeting, she said:  

Henry’s family do not want anger to tear communities apart. They are a family who have friends across faith and race, and so did Henry. His family want his memory to help bring our society together.

Powerful words indeed. Such sentiments are a million miles removed from the interventions of Musk and his egregious social media platforms, much more focused on creating division. Musk claims to care about the Henry Nowaks of this world but he really doesn’t. Those cheering him on from the sidelines as some sort of Messiah – a man with a deep understanding of Britain’s political and social ills – need a reality check. The tech billionaire is no friend to Britain or ordinary Britons. He has no one’s interests at heart but his own. Give it a rest, Elon, and leave this country alone.

Observador - Fiz 50 anos de jornalismo. Adoro o que faço, não o que fazem


 


(sublinhados pessoais) 

Fiz 50 anos de jornalismo. Adoro o que faço, não o que fazem

Comecei em Julho de 1976, vi muito e assisti a transformações radicais, mas quero seguir inquieto e não conformista, até por não querer que o jornalismo se suicide como às vezes parece tentado a fazer

1 Fez agora 50 anos que comecei a trabalhar nos jornais: o primeiro em que escrevi foi publicado no princípio de Julho de 1976. Tinha chegado à sua redação uns dias antes procurando uma forma de ganhar a vida – com 19 anos já era pai, a militância política estudantil não me punha comer na mesa da família. Recordo-me que o meu primeiro ordenado era diminuto, o equivalente ao salário mínimo da altura, quatro contos, algo que, com correcção monetária, hoje equivaleria a 569 euros. Não daria para viver sem o apoio familiar que tinha, mas foi um começo.

O jornal em que me estreei tinha um nome que era todo um programa: chamava-se “25 de Abril do Povo”, nascera como semanário com a ambição de se tornar diário mas morreria pouco depois, publicando apenas 11 números. O projecto – fazer reviver a campanha eleitoral de Otelo nas Presidenciais de 1976 – revelar-se-ia um enorme fiasco, o que significa que poucas semanas depois desta minha estreia já estava de novo desempregado. Felizmente a política proporcionava outras oportunidades, pelo que fui andando por várias publicações militantes até à sua bancarrota final e ao momento em que fui bater à porta da imprensa profissional (quem quiser mais detalhes sobre estes meus anos de militância adolescente e juvenil pode sempre encontrá-los em “Era uma Vez a Revolução”).

Quando bati à porta do Expresso no início da década de 1980, num tempo de sérios apuros financeiros, não só os tempos da revolução e da imprensa mais militante estavam a ficar para trás, como eu próprio já me tinha afastado dos meus desvarios juvenis ao perceber o imenso logro que era a utopia comunista – uma trágica e mortal ilusão, uma catástrofe onde só por deliberada cegueira se podia continuar a acreditar.

Tenho boa memória do primeiro artigo que propus para publicação: era sobre alterações climáticas – chamava-se “Secas e inundações, frio e calor: quem tem mão no tempo?” e saiu a 16 de Maio de 1981, ou seja, há mais de 45 anos – e o tema era tão novo que o texto esteve algumas semanas à espera de ter luz verde para ser publicado, para meu desespero.

Sei também que nessa altura ainda não tinha a certeza de querer ser jornalista toda a vida. Tinha voltado a estudar pouco tempo antes – depois de ter entrado em Medicina optei pelo meu tema de paixão, a Biologia – e estava convencido que um dia me cansaria deste mundo da informação, pelo que necessitaria de outra profissão. O mínimo que posso dizer é que não foi isso que aconteceu, pelo contrário: como a Coca-Cola na famosa frase de Pessoa, isto foi qualquer coisa que ao princípio estranhei, e depois se me entranhou.

2 Ao longo destes 50 anos fiz de quase tudo, de todos os géneros, em todos os suportes, passando por todas as secções e nos diferentes registos. Assisti não apenas à radical transformação tecnológica deste sector como a profundas transformações tanto na forma de fazer jornalismo – transformações que não creio que estejam a ser bem interiorizadas pela profissão – como na relação entre jornalistas, órgãos de informação, política e espaço público.

Depois de um período de enorme politização e mesmo partidarização e de enorme condicionamento por a maior parte dos órgãos de informação pertencerem ao Estado e seguirem as orientações dos governos de turno, a viragem para a normalidade dá-se no final dos anos 1980, inícios dos anos 1990, graças à privatização de jornais e rádios, à abertura dos canais privados de televisão, a uma conjuntura económica favorável, com um crescimento rápido do mercado publicitário, e ainda ao aparecimento de projectos editoriais inovadores e modernos.

Mas o clima de euforia não duraria muito, pois a chegada primeiro da Internet e depois das redes sociais viria a transformar radicalmente a forma como as pessoas se informam e desafiar a centralidade do jornalismo como guardião e polícia sinaleiro do espaço público.

3 Historicamente o jornalista era quem levava e trazia as notícias, quem seleccionava o que valia ou não valia a pena relatar, quem testemunhava os acontecimentos para depois os contar ao grande público. As transmissões em directo, primeiro na rádio e depois na televisão, mudaram um pouco essa realidade, criando a ilusão de que todos podiam assistir a tudo, mas não mudaram o essencial, um essencial definido pela forma como se hierarquizavam as notícias numa primeira página ou estas eram arrumadas no alinhamento de um telejornal. Tudo com hora mais ou menos marcada, fosse na rotina de comprar o jornal da manhã ou no hábito de jantar com a família à hora dos noticiários.

O cidadão comum tinha de esperar pelo jornalista para saber o que se passava na sua cidade ou no mundo, estava condicionado pelas escolhas dos profissionais, e parecia que estes hábitos ordeiros (e pouco variados) durariam para sempre. Não duraram.

À partida a nova realidade só traria vantagens, pois seria mais fácil ler vários jornais e não apenas aquele para que se tinha dinheiro, ver vários canais de televisão a qualquer hora, consultar directamente as fontes, acompanhar as recomendações dos amigos, no fundo estar-se melhor informado.

Aconteceu algo diferente: a natureza tribal do ser humano veio ao de cima. Mais fontes de informação, mesmo fontes de informação profissionais, não corresponderam, como se esperava, a mais pluralismo, antes levaram a uma pulverização do espaço público e, depois, ao entrincheiramento das diferentes facções. A explicação é simples: quando procura informar-se, a maioria das pessoas não procura conhecer as realidades que desafiam as suas convicções, antes prefere o conforto das histórias que reforçam o seu ponto de vista.

4 Foi algures neste processo que, com frequência, o jornalismo perdeu o norte. Pior: foi ao perceber que estava a perder centralidade que muito jornalismo preferiu entrincheirar-se e fazer coro com os que explicam os males do mundo culpando as “fake news” e as redes sociais.

Na verdade o que as redes sociais fizeram foi dar a todos a possibilidade de produzirem notícias e comentários não apenas à mesa do café mas num espaço público agora muito menos hierarquizado, já sem jornalistas a determinarem o que valia ou não valia a pena ser noticiado, já sem profissionais da comunicação a determinarem rigidamente o “agenda setting”.

Esta nova realidade teve consequências para o funcionamento dos sistemas democráticos, facilitando tanto a extrema polarização dos debates (uma consequência de se viver na “bolha” dos que pensam igual) como a fragmentação da representação política (num espaço público pulverizado e cruzado por inúmeros microtemas é mais difícil manter a hegemonia dos grandes partidos de antigamente).

A perda de crédito do jornalismo, uma tendência a que assistimos na generalidade das nossas democracias, não decorreu apenas de os cidadãos começarem a procurar outras fontes de informação e terem-nas encontrado nas redes sociais – decorreu também de muito jornalismo se ter fechado na sua bolha. Esse mal foi claramente diagnosticado há dez anos nos Estados Unidos, quando ninguém na chamada “legacy media” antecipou a primeira vitória de Donald Trump. Nessa altura todos prometeram que iriam sair das suas rotinas confortáveis em Manhattan e passar a ir mais vezes aos Apalaches, mas o que aconteceu depois foi exactamente o contrário, pelo que em 2026 a imprensa dos Estados Unidos caiu para o fundo do fundo nas avaliações da confiança nas instituições, como de resto sublinhei quando os mesmos de sempre voltaram a ficar surpreendidos com a nova vitória de Trump.

5 Portugal ainda não bateu tanto no fundo, mas não escapa a esta tendência, com a confiança nas notícias a cair de 66% para 51% entre 2015 e 2026, sendo que a desconfiança é bem mais elevada entre os mais novos e substancialmente maior entre as pessoas que se declaram de direita comparando com as que se declaram de esquerda. Não há que ficar admirado, a realidade é o que é, e a verdade é que muito do nosso jornalismo continua a acreditar que tem o monopólio da moral e como missão promover certas causas ou combater determinados protagonistas.

Quem seguir o nosso comentariato sabe que não se pode dizer que se discorda das opções políticas de Trump – tem de se demonstrar que tudo correu mal, que no fundo não passa de um tarado e que, se não tivermos cuidado, vem aí o fascismo. Sabe também que André Ventura perde todos os debates em que participa e é sempre o mau da fita. Assim como sabe que as propostas do Chega são inumanas mesmo quando correspondem a políticas adoptadas noutros países.

Quem seguir as notícias sabe também que um protesto de uma mão cheia de activistas climáticos terá por regra mais cobertura mediática do que centenas ou mesmo milhares de pessoas a manifestarem-se contra o aborto. Quem ouvir os noticiários fica muitas vezes a interrogar-se porque é que o noticiário sobre crimes quase sempre omite as características de quem esteve envolvido (excepto, claro, se forem homens brancos e cisgénero).

Podia continuar a dar exemplos – porque é que se sente tantas vezes que só se pode falar de lucros das empresas se lhes dermos um carácter pecaminoso? porque é tão sistematicamente desequilibrada a cobertura do conflito israelo-palestiniano? ou porque é que só se fala de bebés a nascerem em ambulâncias quando se está a discutir uma reestruturação dos serviços de saúde? – mas creio que a distância entre o jornalismo e todos os que são tentados por aquilo a que os jornalistas chamam indiferenciadamente “populismo” tem muito a ver com a incapacidade de ver os ângulos cegos de um mundo e de um país com inquietações menos activistas.

6 Mesmo assim, 50 anos depois, continuo a adorar o que faço e tudo aquilo que sempre me motivou nesta profissão: manter viva a curiosidade pelo desconhecido, pelo diferente e pelo surpreendente; descobrir as notícias que alguém preferia que não fossem dadas; revelar o que devia estar à vista mas que não vemos porque estamos distraídos; procurar explicações e partilhá-las, pois todos desejam perceber e aprender; contribuir para uma cidadania com mais sentido crítico e sem medo do contraditório; pensar pela minha própria cabeça com um feroz sentido de independência; e por fim defender, nos espaços próprios, os valores em que acredito sem disfarce e sem receio de estar em minoria, mesmo uma “minoria de um” se tal for necessário.

Dan Rather, um jornalista americano famoso que conheci de raspão durante a primeira guerra do Iraque, em 1991, recomendou um dia que se tivesse cuidado pois “o jornalismo é mais aditivo do que cocaína, por vezes desequilibramos as nossas vidas”. Só posso confirmar que ele tem razão e que, apesar de toda a intensidade com que vivi estas cinco décadas e das muitas compensações que tive, ainda aqui estou – entre outras coisas para procurar um equilíbrio que tantas vezes sinto faltar na minha profissão.


Portugal no seu melhor - Tempos difíceis