quarta-feira, 15 de julho de 2026

Livro - A religião woke

 Ao que a nossa "civilização" chegou...













Música - Diogo e Nancy Vieira na Gulbenkian

 Diogo na Gulbenkian com Nancy Vieira






Reflexão - LBC (comentários no Observador)

(Comentário colocado no site do Observador sobre o Rui Seabra, ex-seleccionador nacional).



 Luiz Carvalho

1 - Felicito-o pela forma de estar e pela presença de espírito; 2 - ...que estão naturalmente em extinção, como facilmente se depreende não só pelo que se assiste no nosso futebol - inenarrável e indescritível! -, como da significativa maioria de "comentários" que aqui se apresentam; 3 - finalmente, é sempre bom regressar à história, mesmo que - dada a sempre parcialidade da apreciação -, ela desagrade a alguns. 



(Comentário colocado no Observador à história do José Torres da Costa)


Felicito-o pela simplicidade desta história. Em extinção, esta capacidade de nos contar e aprisionar num mundo que cada vez mais nos passa ao lado. Continue! Há quem o continue a ler pelo que escreve mas, sobretudo, por aquilo que se adivinha para lá do que se lê.



(Comentário colocado no Observador a João André costa)

Felicito-o, Sr. João André. Pela oportunidade do texto, pelo texto ("de" e não "da", define bem o mensageiro) e pela opção sensata de ter saído daqui, deste sítio...
Mesmo que lhe tenha custado muito, como tive ocasião de ler no seu anterior artigo que desconhecia. 
O tempo é bom conselheiro...
Felicidades.

Reflexão - Relíquias dos anos 80

enviado ao Jorge Coelho nos anos oitenta, quando ainda escrevia...  

























Observador - Neves a derreter e falta a água em Almada

 


(sublinhados pessoais)

Neves a derreter e falta a água em Almada

Enquanto cresce a percepção de insegurança em torno de Luís Neves como MAI, à Presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, só faltou mesmo dizer: “Não têm água? Tomem banho com Moët & Chandon!”

Querem começar o dia com boa disposição? Então vamos lá. O Supermercado Público de Bens Essenciais é uma proposta do Livre, apresentada no congresso do partido, que prevê a criação de uma rede de supermercados estatais, sem fins lucrativos, para vender bens essenciais a preços controlados. Hã? Gostaram da ideia? A Justiça está ótima, não mexe. A Saúde? Perfeita! A Educação? Tudo resolvido! Portanto, segundo o Livre e Rui Tavares — passe a redundância — o Estado já não tem mais nada para fazer. Está finalmente pronto para nos dar a papinha à boca.

Sei que às vezes não parece, mas o meu intuito é que estas crónicas tenham um cariz humorístico — juro. Acontece que, chegados a este ponto, nomeadamente vindos directo do século XX, só me restam duas hipóteses para justificar não só esta proposta, como a própria existência do Livre (e do resto da cangalhada socialisto-comunista). E nenhuma delas é especialmente engraçada. A primeira é que as pessoas do Livre — ou seja, Rui Tavares — sejam estúpidas. A segunda é que as pessoas do Livre — ou seja, Rui Tavares — achem que nós é que somos estúpidos.

Por mera precaução, caso se confirme esta segunda hipótese, a minha única exigência para o Supermercado Público de Bens Essenciais é que tenha sempre o bem mais essencial de todos: que esta malta do Livre (e restante cangalhada socialisto-comunista) jamais volte a ter qualquer espécie de poder neste país. Mas espera… Se estou a exigir que o Supermercado Público de Bens Essenciais tenha um determinado produto, é porque o Livre (e restante cangalhada socialisto-comunista) já voltou a ter poder neste país: o suficiente para criar o próprio Supermercado Público de Bens Essenciais.

Além de que, se já existisse o Supermercado Público de Bens Essenciais, é certo que não só nunca teria stock do bem mais essencial de todos, como não teria stock de chicha, nem de peixe, nem de pãozinho. Afinal, é isso que define qualquer Supermercado Público de Bens Essenciais. O Continente tem “A vida passa a comer”; o Supermercado Público de Bens Essenciais teria “A vida passa muito mais depressa sem o comer”.

A propósito de enclaves soviéticos, Almada continua com falhas no fornecimento de água. Mas também só passaram, quê, duas semanas? Calma, pessoal. De certeza que a administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada, onde pontifica a Presidente da Câmara-actriz, está a tratar do assunto. Afinal, estamos a falar de um trio de especialistas em questões de águas. Nomeadamente do ponto de vista do bebedor de água e do tomador de duches e banhos de imersão, também eles com água. Portanto, é fazer as contas: lá para outubro, novembro a situação deve estar regularizada, logo que comece a chover e os munícipes ponham uns alguidares à janela.

Agora, se é verdade que a irmã da Presidente da Câmara de Almada, Maria de Medeiros, foi estrela do mega-sucesso de Quentin Tarantino, Pulp Fiction, não é menos verdade que a líder camarária, Inês de Medeiros, não lhe fica nada atrás enquanto protagonista desta Poop Reality que é a de Almada por estas semanas. Parece que a estou a ver, a embarcar para Paris, à porta do avião, a entregar a sua fala: “Não têm água? Tomem banho com Moët & Chandon!”

É por isto que, nesta fase, a sul do Tejo o sítio mais certo para encontrar água é a piscina — ou melhor, o tanque — do monte do Ministro da Administração Interna, em Odemira. Receio que o aumento das dúvidas sobre as obras que o empreiteiro da Polícia Judiciária está a executar em dois montes de Luís Neves acabe por reforçar a percepção de insegurança quanto à sua continuidade no MAI. Acaba por ser um bocadinho irónico: Neves a derreter e, mesmo assim, falta a água em Almada.


Observador - O que fará um Putin derrotado?


 

(sublinhados pessoais)

O que fará um Putin derrotado?

A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente?

Como sempre, para a maioria dos analistas europeus, a Cimeira da NATO foi sobre Trump. O que diz Trump? As gaffes de Trump? O que faz Trump? Como vai tratar os europeus? O que vai fazer na Gronelândia e no Irão? Mas, há mundo para lá de Trump. Muito mesmo, e convém dar-lhe atenção.

Para quem acha que a política mundial vai para além de Trump, era óbvio que a questão central da Cimeira da NATO seria sempre a Ucrânia. A NATO é uma aliança de defesa para defender os países europeus. A Rússia é a maior ameaça à segurança europeia. Está em guerra, há mais de quatro anos, com outro país europeu. O que raio deveria a NATO discutir? Os humores de Trump? É impressionante como tanta gente só consegue ver Trump e não presta atenção ao que é importante.

A Ucrânia foi a grande vencedora da Cimeira da NATO. Por uma razão muito simples. Zelensky queria produzir misseis Patriot na Ucrânia. Conseguiu que o presidente americano desse autorização para o fabrico dos Patriot em território ucraniano. A Lockheed Martin ainda terá que confirmar, o que é o mais provável, e até poderá abrir uma fábrica na Ucrânia, ou num país vizinho. É uma vitória política indiscutível para Zelensky. O Presidente americano não autorizou o fabrico dos Patriot porque de repente começou a gostar do presidente ucraniano. Trump percebeu que a Ucrânia está a ganhar a guerra; e gosta de vencedores. Mas, sobretudo, vê que a Rússia está a perder. E Trump não gosta de derrotados.

Foi isso que a Cimeira da NATO reconheceu: Putin está a perder a guerra. A Rússia nunca conseguirá conquistar a Ucrânia, o objectivo inicial da guerra. As tropas russas deixaram de avançar no terreno. Mas, pior do que tudo, a guerra deixou de se limitar ao território da Ucrânia. Chegou à Rússia. Os drones ucranianos atacam as maiores cidades russas, incluindo Moscovo, matam militares russos e estão a destruir lentamente a produção de petróleo, agravando a situação económica e social na Rússia.

A população russa deixou de acreditar na propaganda do regime e hoje não entende a razão desta guerra. As mães e as mulheres russas sofrem com a morte dos seus filhos e maridos na frente de guerra. Os homens russos temem uma recruta forçada. E a emigração de russos voltou a aumentar. A “operação militar especial” de Putin transformou-se numa guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Nada mudará o curso da guerra, a não ser que os russos consigam assassinar Zelensky.

Mas uma Rússia derrotada poderá ser mais perigosa do que uma Rússia vencedora. Putin sabe que o reconhecimento da derrota será o seu fim político. Por isso, nunca aceitará a derrota, nem assinará um acordo de paz com Zelensky. A melhor solução seria o afastamento de Putin do poder. Mas não é nada fácil, e não se sabe quem ficaria no seu lugar.

A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente? Se assim for, o que poderá Putin fazer? Tem duas opções. O uso de armas nucleares tácticas contra a Ucrânia, ou um ataque militar contra outro país europeu. Ambos seriam dramáticos para a Europa.

Não podemos ignorar estes riscos. Uma Rússia derrotada e fraca é muito mais perigosa do que uma Rússia vencedora e forte.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Observador - São os políticos ou somos nós?

 


(sublinhados pessoais)

São os políticos ou somos nós?

O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado. Quem tem interesse em alterar seja o que for?

Há tempos, em conversa com um grupo de amigos, perguntávamo-nos o que raio sucederia a um político que, por alguma razão inexplicável, decidisse tratar os portugueses como adultos responsáveis e livres. E se alguém se submetesse a eleições com um plano de mudanças estruturais, de fortalecimento da sociedade? A conclusão foi unânime: não duraria mais do que um mandato, se o conseguisse concluir, e se chegasse sequer a ganhar a eleição.

Há uma explicação sempre dada para os problemas nacionais: não temos bons governantes. Não discordo da ideia, confesso. Mas essa também é a resposta mais confortável de todas vinda de uma sociedade que não se sente responsável por nada. Mas que incentivos pode ter alguém que decide colocar-se ao dispor do escrutínio público e mediático pugnando por um Estado eficaz e uma sociedade dona do seu próprio destino? O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; mais de um milhão e meio de menores, sem direito de voto; mais de três centenas de milhar de desempregados; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado, dos seus procedimentos e da sua inércia. Quem em Portugal tem efectivo interesse em alterar seja o que for?

Durante décadas, entre regimes de naturezas diferentes, habituámo-nos a exigir do Estado praticamente tudo. Francisco Lucas Pires afirmou, em tempos, que um Estado que promete tudo a todos provavelmente acabará não tendo nada para dar a ninguém. Teve o sucesso eleitoral que se conhece. Queremos melhores escolas, melhores hospitais, melhores estradas, mais cultura, mais segurança, menos impostos, melhores pensões, salários mais elevados, mais apoios sociais, uma Administração Pública que funcione, políticas de entretenimento patrocinadas pelas autarquias, queremos apoiar fundações, institutos, senhorios, inquilinos, bancos, empresas, jornais, televisões, sem que exista um mínimo de debate público sobre prioridades, custos, renúncias. O país pede mudanças, mas nunca sobre a vida de cada um. Queremos eficiência, sem que ninguém perca direitos. Queremos menos despesa, sem que se reduza nenhuma despesa que nos beneficia. Vivemos, por isso, numa teia jurídica complexa, imperceptível, toda feita de excepções e alçapões, de interpretações e mais concreta do que geral e abstracta. O poder político, entre o legislativo e o executivo, convenceu-se mesmo de que tem como missão essencial promover a felicidade de todos, como já tantos responsáveis políticos afirmaram, da esquerda à direita, sem que se pondere sequer que ao Estado compete assegurar os serviços públicos essenciais e que às pessoas compete decidir o que querem que a sua vida seja. Inevitavelmente, com tamanha obsessão com a vida de cada um, o elevador social estagnou: quando se promete tudo a todos, acaba-se, de facto, com nada para ninguém.

Não há dia em que, entre cafés e mesas de comentário televisivo, não se acusem políticos de incompetência ou de falta de coragem, sem que se pondere por uma vez que a coragem política também se mede pelo ambiente em que ela pode ser exercida. Um país que penaliza eleitoralmente quem cria conflitos, quando esses conflitos são necessários, acaba por premiar quem administra a realidade sem a transformar, e talvez seja mesmo por isso que se premeia tantas vezes com o selo de boa governação aquele que acena apenas com a tranquilidade. Por que raio, por exemplo, haveria alguém de afrontar a poderosa máquina dos serviços públicos, onde todos são pagos para não decidir, onde ninguém é responsabilizado por nada, porque, no fim do dia, há sempre um eleito à disposição dos pedidos de demissão? E quando se refere, como se se tratasse de uma inevitabilidade, que há opções políticas que não são tomadas, optando-se por outras menos profícuas mas mais compensadoras do ponto de vista eleitoral, isso diz mais dos eleitos que escolhem esse caminho ou dos eleitores que o validam, caucionam e reforçam?

Os partidos procuram controlar tudo, é certo, mas o que disputam, na verdade, é o direito de ocupar temporariamente o topo de uma máquina que nenhum deles quer, consegue ou se atreve verdadeiramente a transformar, procurando agradar a todos. O país funciona numa espécie de escada circular, em que os eleitos possuem legitimidade formal, mas não têm domínio total da máquina, e os que dominam a máquina, que os partidos querem continuadamente controlar, não respondem perante os cidadãos, ao passo que os cidadãos exigem tudo dos eleitos formais e nada de si próprios. Daqui à política única da comunicação vai o salto de uma pulga. Trata-se, afinal, não de cobardia dos dirigentes partidários ou dos eleitos, mas de mera racionalidade eleitoral. Tal como uma reforma estrutural produz custos imediatos e benefícios tardios, uma política zelosa do que existe de mais básico enquanto serviço prestado pelo Estado produz custos eleitorais imediatos e benefícios nunca sentidos. Como é que se pode falar de futuro num país assim?


segunda-feira, 13 de julho de 2026

The spectator - Why can’t Elon Musk leave Britain alone?

 


Why can’t Elon Musk leave Britain alone?

Elon Musk (Credit: Getty images)

Why is Elon Musk so obsessed with what’s going on in Britain? The billionaire owner of Tesla and X has been busy posting on his social media platform about the murder of Henry Nowak and what it says about the state of British policing. What does Musk actually know about policing in this country? 

What the tech mogul definitely does know about is how to stir the pot. According to a report in the Financial Times, Musk has written more than 110 posts, retweets and replies about British politics since last Wednesday on X. This is almost three times the share devoted to his company Space X, which is valued at $1.8 trillion (£1.3 trillion) ahead of its highly anticipated IPO next week.

Musk is all fired up about the murder of 18-year-old Henry, which has led to accusations of ‘two-tier policing’ after it emerged police had arrested him for alleged racial abuse as he lay dying. There were violent clashes with police in Southampton this week near to where he was killed by Vickrum Digwa, who was given a life sentence on Monday. Musk criticised how ‘heinously’ Nowak was treated by the police in a series of posts: 

The West has created an utterly evil state religion where an accusation of ‘racism’ is the gravest offence that can be committed, even worse than rape or murder! 

The billionaire vowed to fund a wrongful death lawsuit against the police officers who arrested Nowak. Why? No one, least of all the dead student’s family, is asking for his help. 

Footage released this week showed one of the police officers refusing to believe Nowak when he said he had been stabbed. The video caused universal outrage and condemnation. There are plenty of questions that need answering over the police response to the murder, and an investigation is underway by the Independent Office for Police Conduct. 

Anyone who really cares about justice and the truth will let the investigators go about their work. Musk has no role to play in any of this, so why stick his oar in? He might be better employed turning his attentions to his own businesses. 

Grok, the Musk-owned AI platform, was among the sites that falsely identified a former police officer as being involved in Nowak’s arrest. Christi Hill, who left Hampshire Police in April 2024 (long before the murder of Nowak in December last year) said in an interview that she had been forced into hiding because of the ‘onslaught’ of threats after being wrongly identified. That’s an injustice right there, Elon. Deal with it.

Keir Starmer is right to accuse Musk of trying to ‘whip up division’ over Nowak’s murder. It is a significant toughening of language from the Prime Minister about the X owner, and not before time. Speaking during a visit to York, Starmer accused Musk of ‘interfering’ in British politics:

We need also to assert who we are as a country, because Musk, again, has been interfering in our politics in the last few days, trying to whip up division – that is not who we are in Britain. 

In Britain, we are reasonable, tolerant people. When we have a terrible case, like Henry’s case, Henry Nowak, we react calmly, as his family have done.

This is a welcome reminder that there is a family at the heart of this tragedy, who Downing Street said that Starmer would have private talks with. In a meeting with the Conservative leader Kemi Badenoch, the murdered teenager’s parents urged all political parties and religions to help rebuild trust in the police. The Tory leader deserves praise for her measured response to this tragedy, including outlining her thoughts on how equality should be dealt with under the law. After the meeting, she said:  

Henry’s family do not want anger to tear communities apart. They are a family who have friends across faith and race, and so did Henry. His family want his memory to help bring our society together.

Powerful words indeed. Such sentiments are a million miles removed from the interventions of Musk and his egregious social media platforms, much more focused on creating division. Musk claims to care about the Henry Nowaks of this world but he really doesn’t. Those cheering him on from the sidelines as some sort of Messiah – a man with a deep understanding of Britain’s political and social ills – need a reality check. The tech billionaire is no friend to Britain or ordinary Britons. He has no one’s interests at heart but his own. Give it a rest, Elon, and leave this country alone.

Observador - Fiz 50 anos de jornalismo. Adoro o que faço, não o que fazem


 


(sublinhados pessoais) 

Fiz 50 anos de jornalismo. Adoro o que faço, não o que fazem

Comecei em Julho de 1976, vi muito e assisti a transformações radicais, mas quero seguir inquieto e não conformista, até por não querer que o jornalismo se suicide como às vezes parece tentado a fazer

1 Fez agora 50 anos que comecei a trabalhar nos jornais: o primeiro em que escrevi foi publicado no princípio de Julho de 1976. Tinha chegado à sua redação uns dias antes procurando uma forma de ganhar a vida – com 19 anos já era pai, a militância política estudantil não me punha comer na mesa da família. Recordo-me que o meu primeiro ordenado era diminuto, o equivalente ao salário mínimo da altura, quatro contos, algo que, com correcção monetária, hoje equivaleria a 569 euros. Não daria para viver sem o apoio familiar que tinha, mas foi um começo.

O jornal em que me estreei tinha um nome que era todo um programa: chamava-se “25 de Abril do Povo”, nascera como semanário com a ambição de se tornar diário mas morreria pouco depois, publicando apenas 11 números. O projecto – fazer reviver a campanha eleitoral de Otelo nas Presidenciais de 1976 – revelar-se-ia um enorme fiasco, o que significa que poucas semanas depois desta minha estreia já estava de novo desempregado. Felizmente a política proporcionava outras oportunidades, pelo que fui andando por várias publicações militantes até à sua bancarrota final e ao momento em que fui bater à porta da imprensa profissional (quem quiser mais detalhes sobre estes meus anos de militância adolescente e juvenil pode sempre encontrá-los em “Era uma Vez a Revolução”).

Quando bati à porta do Expresso no início da década de 1980, num tempo de sérios apuros financeiros, não só os tempos da revolução e da imprensa mais militante estavam a ficar para trás, como eu próprio já me tinha afastado dos meus desvarios juvenis ao perceber o imenso logro que era a utopia comunista – uma trágica e mortal ilusão, uma catástrofe onde só por deliberada cegueira se podia continuar a acreditar.

Tenho boa memória do primeiro artigo que propus para publicação: era sobre alterações climáticas – chamava-se “Secas e inundações, frio e calor: quem tem mão no tempo?” e saiu a 16 de Maio de 1981, ou seja, há mais de 45 anos – e o tema era tão novo que o texto esteve algumas semanas à espera de ter luz verde para ser publicado, para meu desespero.

Sei também que nessa altura ainda não tinha a certeza de querer ser jornalista toda a vida. Tinha voltado a estudar pouco tempo antes – depois de ter entrado em Medicina optei pelo meu tema de paixão, a Biologia – e estava convencido que um dia me cansaria deste mundo da informação, pelo que necessitaria de outra profissão. O mínimo que posso dizer é que não foi isso que aconteceu, pelo contrário: como a Coca-Cola na famosa frase de Pessoa, isto foi qualquer coisa que ao princípio estranhei, e depois se me entranhou.

2 Ao longo destes 50 anos fiz de quase tudo, de todos os géneros, em todos os suportes, passando por todas as secções e nos diferentes registos. Assisti não apenas à radical transformação tecnológica deste sector como a profundas transformações tanto na forma de fazer jornalismo – transformações que não creio que estejam a ser bem interiorizadas pela profissão – como na relação entre jornalistas, órgãos de informação, política e espaço público.

Depois de um período de enorme politização e mesmo partidarização e de enorme condicionamento por a maior parte dos órgãos de informação pertencerem ao Estado e seguirem as orientações dos governos de turno, a viragem para a normalidade dá-se no final dos anos 1980, inícios dos anos 1990, graças à privatização de jornais e rádios, à abertura dos canais privados de televisão, a uma conjuntura económica favorável, com um crescimento rápido do mercado publicitário, e ainda ao aparecimento de projectos editoriais inovadores e modernos.

Mas o clima de euforia não duraria muito, pois a chegada primeiro da Internet e depois das redes sociais viria a transformar radicalmente a forma como as pessoas se informam e desafiar a centralidade do jornalismo como guardião e polícia sinaleiro do espaço público.

3 Historicamente o jornalista era quem levava e trazia as notícias, quem seleccionava o que valia ou não valia a pena relatar, quem testemunhava os acontecimentos para depois os contar ao grande público. As transmissões em directo, primeiro na rádio e depois na televisão, mudaram um pouco essa realidade, criando a ilusão de que todos podiam assistir a tudo, mas não mudaram o essencial, um essencial definido pela forma como se hierarquizavam as notícias numa primeira página ou estas eram arrumadas no alinhamento de um telejornal. Tudo com hora mais ou menos marcada, fosse na rotina de comprar o jornal da manhã ou no hábito de jantar com a família à hora dos noticiários.

O cidadão comum tinha de esperar pelo jornalista para saber o que se passava na sua cidade ou no mundo, estava condicionado pelas escolhas dos profissionais, e parecia que estes hábitos ordeiros (e pouco variados) durariam para sempre. Não duraram.

À partida a nova realidade só traria vantagens, pois seria mais fácil ler vários jornais e não apenas aquele para que se tinha dinheiro, ver vários canais de televisão a qualquer hora, consultar directamente as fontes, acompanhar as recomendações dos amigos, no fundo estar-se melhor informado.

Aconteceu algo diferente: a natureza tribal do ser humano veio ao de cima. Mais fontes de informação, mesmo fontes de informação profissionais, não corresponderam, como se esperava, a mais pluralismo, antes levaram a uma pulverização do espaço público e, depois, ao entrincheiramento das diferentes facções. A explicação é simples: quando procura informar-se, a maioria das pessoas não procura conhecer as realidades que desafiam as suas convicções, antes prefere o conforto das histórias que reforçam o seu ponto de vista.

4 Foi algures neste processo que, com frequência, o jornalismo perdeu o norte. Pior: foi ao perceber que estava a perder centralidade que muito jornalismo preferiu entrincheirar-se e fazer coro com os que explicam os males do mundo culpando as “fake news” e as redes sociais.

Na verdade o que as redes sociais fizeram foi dar a todos a possibilidade de produzirem notícias e comentários não apenas à mesa do café mas num espaço público agora muito menos hierarquizado, já sem jornalistas a determinarem o que valia ou não valia a pena ser noticiado, já sem profissionais da comunicação a determinarem rigidamente o “agenda setting”.

Esta nova realidade teve consequências para o funcionamento dos sistemas democráticos, facilitando tanto a extrema polarização dos debates (uma consequência de se viver na “bolha” dos que pensam igual) como a fragmentação da representação política (num espaço público pulverizado e cruzado por inúmeros microtemas é mais difícil manter a hegemonia dos grandes partidos de antigamente).

A perda de crédito do jornalismo, uma tendência a que assistimos na generalidade das nossas democracias, não decorreu apenas de os cidadãos começarem a procurar outras fontes de informação e terem-nas encontrado nas redes sociais – decorreu também de muito jornalismo se ter fechado na sua bolha. Esse mal foi claramente diagnosticado há dez anos nos Estados Unidos, quando ninguém na chamada “legacy media” antecipou a primeira vitória de Donald Trump. Nessa altura todos prometeram que iriam sair das suas rotinas confortáveis em Manhattan e passar a ir mais vezes aos Apalaches, mas o que aconteceu depois foi exactamente o contrário, pelo que em 2026 a imprensa dos Estados Unidos caiu para o fundo do fundo nas avaliações da confiança nas instituições, como de resto sublinhei quando os mesmos de sempre voltaram a ficar surpreendidos com a nova vitória de Trump.

5 Portugal ainda não bateu tanto no fundo, mas não escapa a esta tendência, com a confiança nas notícias a cair de 66% para 51% entre 2015 e 2026, sendo que a desconfiança é bem mais elevada entre os mais novos e substancialmente maior entre as pessoas que se declaram de direita comparando com as que se declaram de esquerda. Não há que ficar admirado, a realidade é o que é, e a verdade é que muito do nosso jornalismo continua a acreditar que tem o monopólio da moral e como missão promover certas causas ou combater determinados protagonistas.

Quem seguir o nosso comentariato sabe que não se pode dizer que se discorda das opções políticas de Trump – tem de se demonstrar que tudo correu mal, que no fundo não passa de um tarado e que, se não tivermos cuidado, vem aí o fascismo. Sabe também que André Ventura perde todos os debates em que participa e é sempre o mau da fita. Assim como sabe que as propostas do Chega são inumanas mesmo quando correspondem a políticas adoptadas noutros países.

Quem seguir as notícias sabe também que um protesto de uma mão cheia de activistas climáticos terá por regra mais cobertura mediática do que centenas ou mesmo milhares de pessoas a manifestarem-se contra o aborto. Quem ouvir os noticiários fica muitas vezes a interrogar-se porque é que o noticiário sobre crimes quase sempre omite as características de quem esteve envolvido (excepto, claro, se forem homens brancos e cisgénero).

Podia continuar a dar exemplos – porque é que se sente tantas vezes que só se pode falar de lucros das empresas se lhes dermos um carácter pecaminoso? porque é tão sistematicamente desequilibrada a cobertura do conflito israelo-palestiniano? ou porque é que só se fala de bebés a nascerem em ambulâncias quando se está a discutir uma reestruturação dos serviços de saúde? – mas creio que a distância entre o jornalismo e todos os que são tentados por aquilo a que os jornalistas chamam indiferenciadamente “populismo” tem muito a ver com a incapacidade de ver os ângulos cegos de um mundo e de um país com inquietações menos activistas.

6 Mesmo assim, 50 anos depois, continuo a adorar o que faço e tudo aquilo que sempre me motivou nesta profissão: manter viva a curiosidade pelo desconhecido, pelo diferente e pelo surpreendente; descobrir as notícias que alguém preferia que não fossem dadas; revelar o que devia estar à vista mas que não vemos porque estamos distraídos; procurar explicações e partilhá-las, pois todos desejam perceber e aprender; contribuir para uma cidadania com mais sentido crítico e sem medo do contraditório; pensar pela minha própria cabeça com um feroz sentido de independência; e por fim defender, nos espaços próprios, os valores em que acredito sem disfarce e sem receio de estar em minoria, mesmo uma “minoria de um” se tal for necessário.

Dan Rather, um jornalista americano famoso que conheci de raspão durante a primeira guerra do Iraque, em 1991, recomendou um dia que se tivesse cuidado pois “o jornalismo é mais aditivo do que cocaína, por vezes desequilibramos as nossas vidas”. Só posso confirmar que ele tem razão e que, apesar de toda a intensidade com que vivi estas cinco décadas e das muitas compensações que tive, ainda aqui estou – entre outras coisas para procurar um equilíbrio que tantas vezes sinto faltar na minha profissão.


Portugal no seu melhor - Tempos difíceis

 










domingo, 12 de julho de 2026

Observador - Culpar o país pelo falhanço do PS em Almada? Não, obrigado

 


(sublinhados pessoais)


Culpar o país pelo falhanço do PS em Almada? Não, obrigado

A falta de água em Almada não é um exemplo do falhanço do país. O país fez progressos visíveis no abastecimento de água potável. O que falhou em Almada foi um poder municipal abaixo de medíocre

É ponto assente: quando o PS está no governo e falha a culpa é do mundo. Já quando o PS falha à escala local a culpa é do país. E assim, nos últimos dias e perante o espectáculo AdisAbebiano de Almada sem água, lá surgiu a explicação do falhanço do país no seu todo para explicar o falhanço particular do PS em Almada. Ora o que falhou em Almada foi um poder municipal abaixo de medíocre mas exímio no domínio da linguagem do bondadismo progressista. (Não quero dizer que à direita sejam mais competentes, simplesmente não podem falhar tanto e por tanto tempo porque, felizmente para o país, não estão abençoados pelo diáfano manto do porreirismo progressista de que beneficia a esquerda ex-caviar agora woke).

O que é o bondadismo progressista? Veja-se a capa da última revista editada pelo município de Almada cuja directora é Inês de Medeiros. Data de Abril deste ano e nela a presidente, directora e entrevistada Inês de Medeiros declara numa espécie de megalomania planetária “Almada é um foco de humanidade num mundo cada vez mais desumano”.

Por essa altura, a direcção do município não ignorava que era responsável pela baixíssima renovação da rede (uma das baixas, senão a mais baixa do país); pelas perdas da rede que se contam entre as mais altas do país; pelo laxismo em relação às captações ilegais das piscinas e das explorações agroindustriais; pela proliferação das habitações clandestinas; pela desatenção aos problemas com os furos que ficam em Corroios e que motivaram uma querela em tribunal com o Seixal. Também não desconhecia o executivo almadense que o número de habitantes aumentara ao longo dos anos; que desde há mais de sessenta anos os portugueses procuram as praias da Caparica e que é no Verão que os portugueses vão para a praia. Mas acompanhando as declarações do incrível executivo almadense de que esta publicação é um exemplo, o abastecimento de água não era de modo algum uma preocupação ou sequer uma prioridade.

Na página em que se detalham as prioridades orçamentais para este ano de 2026 (e note-se que no município de Almada, tal como acontece nos restantes, dinheiro não falta), constam a habitação, acessos às praias, uma loja do cidadão e até um centro de recolha animal. Mas sobre água nada. Na longa entrevista feita a Inês de Medeiros não há referências à água e o próprio vereador Luís Palma, que detém a presidência do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada (SMAS), prefere falar da “ofensiva em curso de destruição do Serviço Nacional de Saúde” em vez de informar sobre aquilo que os SMAS iriam fazer para melhorar o seu serviço em Almada. Aliás as únicas referências a água e aos SMAS nesta publicação encontram-se numa pequena notícia que dá conta da contratação de mais 16 trabalhadores para esse serviço em Janeiro deste ano. A água é um assunto praticamente omisso nestas comunicações, à excepção da revista de Outubro de 2022 onde Inês de Medeiros, depois de citar uma daquelas platitudes de Guterres — “O valor da água é profundo e complexo. Não há nenhum aspeto do desenvolvimento sustentável que não dependa fundamentalmente dela” —, afirma que Almada é um “concelho assente sobre uma reserva quase inesgotável de água de grande qualidade”. Seguem-se páginas e páginas com explicações de um sistema perfeito com ilustrações de reservatórios, torneiras de seccionamento, colectores e ramais, tudo inevitavelmente com muito azul.

Entretanto no subsolo de Almada a água perdia-se numa rede que não se renovava e pontos de acesso não contabilizados que proliferavam. Acreditando na propaganda, Almada vivia no melhor dos mundos possíveis no que à rede de distribuição de água potável dizia respeito. Estava-se em 2022. A realidade era bem diferente e piorou desde então.

O que está a acontecer neste Verão de 2026 é precisamente um choque entre a realidade e a propaganda naquele município e também entre o argumentário da esquerda e a realidade no país: como bem sabem aqueles que não vivem em Almada, e que quando abrem a torneira vêem água correr, é mentira que Portugal não tenha sido capaz de fazer o necessário neste assunto. Em 2026, os portugueses têm, na sua esmagadora maioria, acesso a água de qualidade e em quantidade. Não são assim tão longínquos os tempos em que nas casas portuguesas existiam sempre uns garrafões de reserva para aqueles dias em que a água faltava ou uns recipientes para a ir buscar ao chafariz mais próximo. Ou em que beber água da torneira não era opção no Algarve. Existem obviamente falhas pontuais provocadas por cheias, rupturas na rede, obras… mas são isso mesmo: pontuais.

O que agora está a acontecer em Almada nada tem a ver com o Portugal de 2026 mas sim com esse país de há algumas décadas, em que nem sequer fomos poupados à discussão paleolítica sobre a “água de Almada” e “a água do Seixal” (como se o aquífero tivesse muros a separá-las!) entre dois autarcas, Inês de Medeiros e Paulo Silva, que nunca foram capazes de avançar para uma gestão integrada do aquífero, quer entre eles, quer com os outros autarcas que dependem deste aquífero para o abastecimento dos seus munícipes.

A falta de água em Almada não é um exemplo do falhanço do país, como alguns socialistas nos querem fazer acreditar. O país fez progressos visíveis no abastecimento de água potável. O que falhou em Almada foi o pensamento mágico socialista.


sábado, 11 de julho de 2026

The Spectator - Why Celebration Day isn’t nonsense

 


(personal underlines)

Why Celebration Day isn’t nonsense

After the tears, surely we shouldn’t mentally seal the beloved in a box and bury them

(iStock)

Today is Celebration Day when we are asked to remember the people we’ve loved and lost. My first reaction to the idea, was a groan. Really? Who needs another dedicated day? There are already more of them than there are days in the year, so some have to share. I’ve never taken any notice of Mothers’ Day, or Fathers’ Day, (and neither, sadly, have my children), let alone Potato Day, Upcycling (what’s that?) Day, Black Cow Day, or International Pisco Sour Day. There’s even a Love Conquers All Day, for heaven’s sake.  

But I’ve come round. When someone important to us, who inspired or helped us, or whom we greatly loved, dies, we mourn them painfully for a period – and then stop talking about them altogether. Of course, that period of uncontrollable sudden tears and night-time misery, and later the weeks of joylessness, must be gone through. But after the tears, surely we shouldn’t mentally seal the beloved in a box and bury them. There’s relief and happiness in talking about them, in sharing old stories, laughing again at their idiosyncrasies, remembering why we loved them. It keeps them alive to us. But in our modern crammed lives we don’t often do that, and maybe Celebration Day will remind us that it is a fun thing to do. 

Celebration Day is a largely spontaneous grass-roots movement, with no commercial aspect, no fundraising target, no political or religious connotations and no rules or regulations. Started a few years ago, it has grown in many directions. People celebrate in all sorts of ways, maybe gathering to watch their loved one’s favourite film, walk a favourite path, play a favourite board game, or just meet in the pub to raise a glass to absent friends. Judi Dench famously plants trees in remembrance and talks to both the trees and the departed friends they were planted for.  

I do it with food of course. I never make my brother James’s Red Dragon Pie (a red bean casserole so called because it encouraged his children to eat it) without thinking of him. If I’m with any of his family it stimulates memories and laughter, and also his widow’s affectionate jibe that it wasn’t his recipe anyway but hers.  

Jamie was the only person who would tick me off if I got too pleased with myself, like the time I asked my secretary to get him on the phone but then kept him waiting while I finished another call. He was the only person I wanted to speak to when newly widowed.  I’d sometimes ring him at 7 pm, the time my husband and I would unfailingly quit working and meet for a drink on the terrace or in the sitting room, or, if apart, would call each other. ‘Ah’, Jamie would say, ‘It must be 7 pm. Time for a bit of brotherly love?’

Because I’m so old there are a lot of people I miss. There was an exacting Cordon Bleu teacher who insisted we chop parsley to a fine dust and wash the spinach seven times in icy water (both edicts long ignored) and instilled in me a love of cooking and respect for the best ingredients. And then there was Sir Peter Parker, my husband’s best friend and my business mentor: he proposed me for Businesswoman of the Year ten years in a row before I got it, he encouraged me to get involved with the RSA (Royal Society of Arts) which I ended up chairing, he critiqued my speeches and generally pushed me.  

So maybe making a deliberate decision to think about those lost friends, to talk about them or generally honour and celebrate them is a good idea. And having a national day to jog us to do that, seems to be working. Like Remembrance Day, but joyful.