quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Reflexão (LBC) - sobre RAP e Seinfeld

 Pergunta: E Ricardo Araújo Pereira vai ver o seu "colega de profissão" Seinfeld?

                



Observador - O que esperar da rentrée política? (Jérémy Silvares Jerónimo)


 

(sublinhados pessoais)

O que esperar da rentrée política?

Portugal está em declínio… Pois Portugal está em declínio. A questão é saber se existem elites.

Temos o prazer de começar a rentrée política em grande, com uma moção de censura do Chega ao Governo. Que emoção! Os meios de comunicação não falaram de outra coisa. Claro que o comportamento do MAI devia preocupar-nos – sobretudo a sua arrogância durante a conferência de imprensa. Há muitas suspeitas, demasiadas. Será a moção de censura justificada? Digamos que o comportamento do MAI, a atitude do Primeiro-Ministro, bem como das lideranças do PSD, não ajudaram…

Contudo… Será esta moção de censura assim tão importante? Ou não fará tudo isto parte de um circo político-mediático com que os nossos políticos e jornalistas têm o prazer de nos inundar de tempos a tempos? Se o Governo cair, claro que esta se torna importante. Contudo… mesmo que o Governo PSD caia, para além da vida dos políticos profissionais e dos membros da alta burguesia de Lisboa (que conseguem os bons tachos), será que a vida dos 11,4 milhões de habitantes vai mudar para melhor? Será que isto tudo ainda faz sentido? Não serão estes casos e casinhos, esta arrogância de certos membros da “elite”, esta impunidade que grassa nas classes dirigentes, antes um claro sinal de que a III República está gangrenada? Algo cheira mal neste regime. Diria antes: algo cheira mal nesta época… Que “fin de règne” patético. Já Karl Marx dizia que a História se repetia sempre duas vezes: a primeira enquanto tragédia, a segunda enquanto farsa. O final da Primeira República foi uma tragédia (miséria, violência, golpes, etc.). O final da Terceira República é uma farsa.

Consequentemente, quando me perguntam o que espero da rentrée política portuguesa, costumo dar a mesma resposta há pelo menos 10 anos: pessoalmente, não espero nada. Não espero nada a não ser casos e casinhos, polémicas e compadrios, corrupção e mediocridade. Simplesmente porque somos governados por pessoas que, não todas, mas na sua maioria, são incompetentes, sem capacidades para governar um país desenvolvido (por quanto tempo seremos um país desenvolvido?) e que apenas anseiam entrar na política não para engrandecer o país, mas sim para engrandecer a sua conta bancária. Provavelmente, vamos continuar na mesma: nada muda para melhor, mas, pelo contrário, tudo piora ligeiramente, de ano para ano.

Claro, o Governo pode vir a cair agora no Outono de 2026, ou na Primavera de 2027, ou no Outono de 2027 (é provável, quando o senhor Carneiro tiver os tais 5% a mais). Podem surgir mais casos de ministros que envergonhem o Governo. Alguns até podem demitir-se. Podem surgir mais histórias ligadas ao caso Spinumviva. Vivemos numa constante telenovela, com os seus casos e casinhos, Governos que caem, novas eleições, novos Governos que caem, novas eleições e novos Governos que irão cair, não sem antes termos o seu leque de moções de censura, gritarias no Parlamento, explicações na televisão. Teremos ministros que enriqueceram de maneira pouco clara. Secretários de Estado que fizeram favores a tal pessoa pouco recomendável. Membros do Governo que eram sócios de ministros do antigo Governo do partido adversário. Empresas criadas com fundos europeus, concursos supostamente públicos mas bem privados, e, claro, o inevitável compadre do partido, conhecido dos anos em que todos militavam nas jotas… Sim, provavelmente vamos ver isto tudo no final de 2026, em 2027, em 2028, etc.

Uns estarão aborrecidos, outros enojados. Alguns preferem usar e abusar do humor, de tão caricata que se tornou a nossa política nacional. Isto mostra, por si só, o estado de acelerada decomposição — e peso as minhas palavras — em que Portugal se encontra. Claro que nunca devemos generalizar. Existem, de certeza, muitos governantes inteligentes, trabalhadores e com ideias para mudar o país. Mas, infelizmente, estes têm-se tornado uma minoria e são muitas vezes impedidos pelos “outros”: aqueles que apenas usam e abusam dos seus cargos para enriquecer, acumular bens, influência e poder. Enquanto tudo isto nos prende a atenção, que ideia ousada foi implementada nos últimos anos? Que é que os Governos PS ou PSD fizeram para ajudar os jovens e menos jovens que, mesmo tendo empregos pagos acima da média, não conseguem comprar casa, de tão absurdos que estão os preços? Que tem sido feito para controlar melhor as fronteiras? Que tem sido feito pela natalidade? E para melhorar a segurança? E para melhorar os serviços administrativos? Que fizeram para lutar contra as cunhas, a corrupção e o nepotismo? Que é que o Governo apresentou como medida realmente inovadora? Uma medida que tenha sido um “choque” relativamente aos anos anteriores? Dizem-me para deixar o “Luís trabalhar”. Mas de que trabalho falamos?

O imobilismo total, eis o que nos define. Vivemos num ciclo histórico afogado numa visão de que as coisas não devem mudar, de que não devemos reformar — já li no Observador um colunista criticar aqueles que querem reformar demasiado — e quem quer reformar é visto com desconfiança. Reformar instituições que não funcionam leva logo a greves gerais. Este imobilismo, sinal dos tempos, é, para mim, também um sinal de “fim de época”. E quando o provável único estadista que tivemos nos últimos 30 anos afirma que é preciso reformar e não só — falo, evidentemente, de Pedro Passos Coelho — é atacado quer pelo PSD, quer pelo PS. Mas não se preocupem: não é apenas em Portugal, é geral em quase todo o Ocidente. Só que, em Portugal, a corrupção, o nepotismo e a incompetência já vêm de longe. Mesmo no fim da ditadura do Dr. Oliveira de Salazar, as elites portuguesas ficavam aquém do resto das elites ocidentais. Como o nível no resto do Ocidente baixou – e muito – apenas fomos acompanhando a descida. Mas, como aqui os problemas já eram muitos, apenas ficámos com ainda mais problemas.

Quando, em 2006, o jornalista e intelectual Franz-Olivier Giesbert perguntou ao escritor de ficção científica Maurice G. Dantec se existia realmente um declínio do Ocidente, o escritor — que se tornara crítico da descristianização do Ocidente, da imigração extra-europeia e da islamização de certos bairros europeus, que via como a maior ameaça existencial ao Ocidente — deu-lhe uma resposta lapidar: “a questão não é tanto saber se existe um declínio, mas sim se existem elites”. Quando, num outro programa, um apresentador lhe perguntou qual a razão da sua desconfiança em relação às elites francesas (e europeias), Dantec respondeu, mais uma vez, de maneira assaz mordaz: “porque os políticos franceses são meros porteiros (concierges no original) que apenas legislam sobre os limites de velocidade nas aldeias”. A definição que Maurice G. Dantec deu dos políticos franceses assenta que nem uma luva aos políticos portugueses. Tal como em França, os nossos políticos são meros pequenos técnicos, sem coragem, que apenas legislam sobre coisas menores, como a recolha do lixo, os limites de velocidade ou a interdição dos telemóveis nas escolas. Quanto às elites europeias sediadas neste antro burocrático e cinzento, privado de qualquer coragem política, em que se tornou o Parlamento Europeu, o maior feito que conseguiram nos últimos 10 anos foi terem imposto que as tampas das garrafas de plástico estivessem presas às garrafas.

Tentemos não desesperar. Ainda pode surgir um estadista que tente movimentar as coisas. Claro que, para isso, terá de ter uma equipa. Juntar uma equipa de pessoas capazes e íntegras deve ser possível em Portugal. Difícil, mas possível. Não sei se tal vai acontecer, embora seja o que eu mais desejo. Um líder que pegue num PSD moribundo, deite a ideologia social-democrata no caixote do lixo e consiga aliar toda a direita portuguesa à volta de um projecto liberal-conservador. Sou sonhador? Sim, sou, demasiado. Mas, infelizmente, não vivemos numa época de sonhadores, mas sim de cínicos… Resta apenas responder à pergunta de Dantec: a questão não é saber se Portugal está em declínio… Pois Portugal está em declínio. A questão é saber se existem elites.

“Nous sommes menacés par bien pire que la chute, dit Heidegger, car il manque jusqu’à la hauteur d’où nous pourrions tomber.” (tradução: Somos ameaçados por algo bem pior do que a queda, diz Heidegger: falta-nos até a altura de onde poderíamos cair.)

Alain de Benoist
L’exil intérieur. Carnets intimes, Krisis / edições La Nouvelle Librairie, 2022


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Música - Still Walking Beside You… | Surreal AI Film (4K)

 


Livro - La revanche des Juges

 






The Spectator - Why climate sceptics are winning

 

(personal highlights)

Why climate sceptics are winning

One man's 1,000-mile walk against catastrophism

Summer in Britain (Getty)

Travis Cook is a man on a mission. Armed with just a sandwich board (‘There is no Climate Crisis’), an array of literature and formidable scientific knowledge, the 32-year-old former mechanical engineer is on a 1000-mile walk around the UK to talk to people and try to dispel the climate gloom that we are customarily bombarded with. His is a message of climate realism (what the BBC might call ‘climate denialism’) and of hope. Far from being the lost cause this might once have seemed, he believes his message is beginning to be accepted.

‘I love it,’ he tells me of his daily interactions (he was at Hayling Island in Hampshire when we spoke). ‘It’s a good news message, so it’s easy to deliver, and it brings me joy.’ And though he does face regular abuse, this doesn’t bother him, ‘as long as they don’t touch me, I don’t mind.’

His views are outlined in a series of punchy but robust articles on his website and two books. In essence, he takes his cue from world-renowned authorities like William Happer and Richard Lindzen. Yes, increased CO₂ in the atmosphere does raise global temperatures, but only to a limited degree and with much of the effect being beneficial (evidence suggests that the Earth has become 5 per cent greener since 2000). Renewables are pretty much a waste of time, and Net Zero is a dangerous, unattainable fantasy. The whole debate is skewed by bias and saturated with unreliable, or even manipulated, data.

Cook is a veteran campaigner. He was heavily involved in the anti-lockdown movement, the ‘Great Re-opening’, which he says ‘catapulted’ him to the forefront of activism. He started the Climate Con movement in 2022, first as an Instagram page, then a website, and now a walk. He claims 100,000 subscribers across various social media platforms. His supporters are assisting him on his walk, with offers of accommodation and support.

Cook is an optimist, a rational one, and describes the reception he has received as ‘mixed but leaning towards positive’. Women are worse than men, he says. So far, Essex has been the place most receptive to his message and Rye in Sussex has been the most aggressively hostile. He met people there who seemed to have a ‘demon within them’, he says, which recalls Jordan Peterson’s depiction of ultra-progressives as ‘ideologically possessed’.

What is the evidence that we sceptics are winning? Despite a fresh wave of climate doom in the wake of the hot summer and forest fires, there is reason to believe that the public’s sympathy for and interest in climate apocalypse messages is waningYouGov has the environment as a key issue for just 20 per cent of voters, down from 34 per cent five years ago. It ranked 18th in priority ahead of the local elections in May. Andy Burnham seems tepid on the subject and Ed Miliband has been moved to a place of greater safety. The whole narrative appears to have stalled.

The Greens have largely moved on to trans issues, the ‘Nordic doom goblin’ (thank you Rod Liddle), Greta Thunberg has turned her attention to Gaza, and even the permanently keffiya-clad Dale Vince appears to be swithering. The wind seems to be going out of the sails, or blades, of climate catastrophism. Will the great unlocking be followed by the great unravelling?

‘It looks promising,’ says Cook. He believes that the volume of climate change research has peaked and is now on the decline. ‘We have reached and passed ‘peak climate’. The whole climate crisis narrative could be gone ‘within five years’.Cook has never voted but is cautiously impressed with Reform (‘They have kept their promises when they have attained power’) and Restore (though he doubts they can ever be big enough to make a difference). He hopes they can sort out their differences and work together. ‘I haven’t given up on politics. If we do, it could be civil war.’

But how does he feel about the ultra-zealots, the ones that spew bile at his good news message, or the Just Stop Oil activists? ‘I don’t hate them, even when they are vicious or hateful. I just think their energy is being channelled in the wrong direction.’

Are they reachable? I tell Cook about my academic colleague with whom I’d been on reasonably friendly terms, who, astounded to hear I was a sceptic, said she believed in the climate crisis because of the ‘thousands’ of scientists who endorsed it. I asked her to name one of these scientists. One. She couldn’t. And thus embarrassed (this took place in public), she never spoke to me again. I had made my point. But not a great outcome.

‘You were on the right track, probing to find the limits of their knowledge. But there is a small percentage that are hopeless, that you have to write off. But I’m not really targeting them. It’s the people in the middle, the not angry, not sad. For them, stay cool and be light-hearted.’

He then recalls a highlight of his tour, a spirited debate with three lads in Brighton during which he acquainted them with critical perspectives they had never encountered. ‘I met them later at the station,’ he says, ‘and they were completely changed. They had gone on a deep dive. I had had a profound effect on them.’ Fight the battles you can win. Shrug off the defeats, and rejoice at the victories. And enjoy the sunshine.

Cartoon - Jim Unger

 







Série - A escavação

 


domingo, 6 de setembro de 2026

Victor Davis Hanson: President Trump Has Completely Changed America For the Better

 




https://www.youtube.com/watch?v=ViX8BKaRq0o


Victor Davis Hanson: President Trump Has Completely Changed America For the Better

Almoço - Os Marretas

 Em 03.09.2026 no Maré alta em Cascais, com M. Oliveira, A. Pires, Zé Azevedo, Alfredo duarte e Zé Machado








Cartoon - Jim Unger (Herman)

 




The Spectator - Will this century see the end of books?

 


(personal highlights)

Will this century see the end of books?

James Marriott warns of the threat to truth and the flourishing of mad fantasies as we become increasingly reliant on screens for online information and entertainment

Anyone proposing to publish a polemic between hard covers about the decline of literacy and reading will, of course, find themselves preaching to the choir. If you read books, you will agree with this one; if you don’t, your negligence will not be touched by its fervour. I won’t say that it is a useless object; merely how unhelpful it would be simply to agree with its main point.

The decline of reading practices is quite convincingly demonstrated in surveys. Fewer and fewer people in the US and Britain read habitually, by their own admission. In one celebrated case, an entire cohort of English literature academics in America was unable to make anything at all of the first page of Bleak House. The trend seems to correspond with a decline in general intellectual ability, as reported in IQ tests. The explanation for this is given as the rise of smartphones and online distractions, which may have accelerated a process already observable since the introduction of screens of all sorts. In a fascinating, puckish study cited by James Marriott, the slow roll-out of cable TV across Norway’s challenging terrain is shown to correspond exactly to a small but measurable fall in IQ in each location.

The impact has been marked, not just on consumers but on many forms of entertainment and information. In brief: even the junk is getting worse. Netflix movies oblige their characters repeatedly to explain what’s happening. Pop music is becoming more rudimentary. I think I first noticed this when Beyoncé’s colossal hit ‘Single Ladies’ attained its global triumph on the back of a tune sung by eight-year-old girls playing a clapping game. Studies have laboriously demonstrated that both melodies and lyrics have grown simpler over the past 50 years. But if you go into a cool-ish bar or coffee shop, the music playing is more likely to come from the 1970s than the 2020s. And the most challenging music of the time seems to be holding up pretty well. Never mind Joni Mitchell; you can sell out a concert hall with an all-Ligeti programme. The enthusiasm for the dumbed-down may not be as universal as we worry it is. People long for complexity, in parts.

But even if this book doesn’t quite convince in its tone of catastrophe, there is no doubt that a decline in reading in large parts of the population is happening, and it brings some terrible implications. Marriott emphasises the threat to truth and the flourishing of mad fantasies. A public that won’t go near books or print newspapers and gets everything from online sources will erode standards. You only have to look at the opprobrium heaped on those trying to find objective truth in the history of a questionable academic appointment, who were told that they must only believe and respect individual feelings, to see what that will do in the end.

 Marriott is a Times columnist, and this is his debut book. He has a proposal to sell, and the style throughout is journalistic. The Iliad is ‘Homer’s famous epic poem about the Trojan War’, and no name appears without its defining adjectival cluster. You may find this newspaper habit annoying or merely otiose and inelegant, giving off the impression of nervousness. ‘The novelist H.G. Wells’, ‘the novelist Victor Hugo’ and ‘the Russian novelist Fyodor Dostoevsky’ follow hot on each other’s trail. Even the most banal observation needs backing up with a named authority  and a quote: when near universal literacy was achieved in society, ‘as the historian Robert Darnton puts it, this was a “turning point”’.

Montaigne, early astronomy, correspondence between philosophers, Dr Johnson’s reading habits, the Industrial Revolution and revolutionary feminism are swept through in six not entirely coherent pages. Marriott is excellent, however, on the forces which he thinks are affecting our habits of reading. If classic fiction is only referred to briefly, loving attention is paid to the evolution of the smartphone; and some pages dwell on the online output of someone called Mr Beast, and even stranger algorithmic entertainments:

AI-generated animated characters with fruit for heads enact brief soap-operatic (and sometimes faintly pornographic) emotional dramas. The curvaceous Mrs Strawberry-head has an affair with the handsome and expensively suited Mr Banana-head.

This junk content is so irresistible,’ Marriott says. Well, I don’t know about that. It seems fairly resistible to me. I quite enjoyed ‘Single Ladies’ when it came out, for about ten days. On the other hand, the Eroica Symphony’s pleasures were appreciated, after a little effort, 50 years ago, and are still going strong. If you think that sounds snobbish, then you’re part of the problem. The issue which Marriott doesn’t quite address is that the habit of reading is becoming a class-based one. Fifty years ago, a child like me at a state school had access to excellent libraries, an ambitious curriculum and a literary culture of bold tendencies and a willingness to entertain. (I well remember the eruption of Anthony Burgess’s novel Earthly Powers.) All those public resources have receded somewhat. No one at a Sheffield comprehensive has been told to read Madame Bovary in French for decades. In recent years, the bookish child is much more likely to emerge from private education and a professional family background. If the habit of reading is going to be something largely ensured by social status, then social standing is going to harden, and life for all of us is going to grow worse. There is, however, no real prospect that reading is going to disappear from the most successful parts of society.

The New Dark Ages is a usefully cautionary contribution to the argument – though I did feel that it had a slight seat-of-the-pants feel to it, and my recurrent response was: ‘Oh, come off it.’ Maybe this was a book that should have been written by someone with a large store of experience at the end of a long intellectual career. That said, there is value in hearing from someone who has, as Marriott says, a foot in both camps – who has been affected by screens and games and streaming and social media in ways that will always remain somewhat mysterious to the older generation. If ‘Charlie bit me’ is a more widely recognised phrase than ‘Reader, I married him’, then we are going to have consequences to face which can’t only be analysed from outside.

Observador - A esquerda "sentadita" à vista da realidade

 


(sublinhados pessoais)

A esquerda "sentadita" à vista da realidade

É o teste mais simples e mais devastador das utopias políticas. Quando os seus corifeus recusam para si o risco que distribuem generosamente pela plebe, a hipocrisia fica exposta.

Herdade da Torre Bela, 1975: José Quelhas, um camponês com senso comum, discute a posse da sua enxada com um esquerdista inchado de ideologia. O delicioso trecho do filme condensa o debate ideológico do tempo do PREC.

Ceuta, 2026: Um vídeo que viralizou é, mutatis mutandis, um meme da atmosfera ideológica do tempo em que vivemos, com o eterno confronto entre o senso comum e os fumos ideológicos.

De um lado, Noelia, mãe de dois filhos menores, na rua e cercada pela realidade. Do outro, em estúdio, a jornalista Gema Peñalosa, enfunada com os estribilhos da moda.

Noelia, indignada, explica que já não deixar os filhos saírem sozinhos. Peñalosa reage com o catecismo: “Já estamos outra vez a associar delinquência e imigração”.

A certa altura a mãe explode e entre vários “cojones”, desafia a atarantada Gema, a trazer os próprios filhos para Ceuta porque de Madrid, “sentadita y pintadita”, é tudo muito fácil.

É, sem dúvida. A distância é um excelente calmante. A insegurança dos outros, vista através de um monitor e de um filtro ideológico, torna-se uma construção social; o medo alheio é “preconceito” e uma invasão de dezenas de milhares de homens reduz-se a uma questão lexical. Não há caos, apenas “mobilidade humana”. Não há perda de controlo, só “desafios de acolhimento”. Não há cidadãos abandonados, mas sim cidadãos a “fazer o jogo da extrema-direita”.  O dicionário progressista não resolve as crises que cria, mas deixa-as com óptimo aspecto.

O catecismo da moda, obriga a fingir que uma invasão de jovens adultos muçulmanos é uma mera “entrada súbita” que não altera as condições de segurança, não sobrecarrega serviços e não aumenta a violência. Mas entre a acusação de xenofobia e a negação da realidade, existe uma região, outrora conhecida por bom senso, que não consta no vademécum dos sinalizadores de virtude.

Os factos, esses são crus e embaraçosos. Nos dias 30 e 31 de Julho invadiram Ceuta mais de 72 mil pessoas. Milhares permanecem ali um mês depois, nas praias e  nas ruas, pressionando  a vida normal, os transportes, os serviços sociais, a tranquilidade e a segurança. Há agressões, violações, roubos, vinganças. A realidade está lá, mas não recebeu autorização para entrar no estúdio sem tradução para a língua de pau do wokismo.

Quando Peñalosa perguntou a Noélia se o medo não era apenas mais uma ligação indevida entre imigração e delinquência, não estava a querer saber, mas a corrigir. Noelia apresenta a realidade, a jornalista molda-a ao catecismo. Uma fala dos filhos que deixou de mandar à escola, a outra, da frase feita que aprendeu a mandar para o ar. O confronto opõe o conhecimento empírico de quem suporta as consequências, à cartilha ideológica de quem está fora e racha lenha. Perante factos  incómodos, o dialecto progressista, corrente nos  estúdios e nas bolhas, em vez de investigar, corrige de imediato o vocabulário de quem os relata.

É a  arrogância intelectual em estado puro. Não sabe mais, mas julga-se moralmente superior à necessidade de saber. Não escuta para perceber, mas para classificar. Se o cidadão descreve um assalto, procura-se nele uma fobia. Se fala de fronteiras, detecta-se-lhe  fascismo. Se pede ordem, diagnostica-se racismo. Se menciona os filhos, explica-se-lhe que o medo é só uma percepção. Tudo isto com o ar enfastiado e condescendente que informa o paciente de que a dor que ele sente está errada.

Gramsci chamou intelectuais orgânicos aos agentes que dão linguagem a uma classe e à sua visão do mundo. Hoje esses “intelectuais” são os comentadores, académicos, activistas políticos, e funcionários da indústria da virtude, unidos  na bolha da ignorância letrada, pela missão de debitar as palavras tremendas com que o povoléu deve interpretar aquilo que lhe acontece. Não lhes importa o tumulto, mas a forma como se pode falar dele. A fronteira pode deixar entrar milhares de homens, mas a patrulha ideológica vigia ferozmente a terminologia.

É a mesma gente das esquerdas flotilheiras, pronta a fazer-se ao mar para socorrer abstrações, mas indisponível para atravessar a rua em direcção às consequências das suas ideias. Ama a Humanidade em abstracto, e detesta os seres humanos concretos. É gente que embarca rumo a Gaza com cachecóis terroristas, melancias, câmaras e comunicados, mas à mãe de Ceuta propina instantaneamente uma aula de semântica. Gente que procura a épica distante, mas foge à prestação de contas na realidade próxima.

Pedro Sánchez elevou o exercício a doutrina de Estado. Segundo o Narciso espanhol, que supura antissemitismo por todos os poros, a corrida a Ceuta foi estimulada por desinformação, particularmente  israelita. Na geografia moral de Sánchez, ele e Marrocos  desaparecem da equação. Já os judeus, a milhares de quilómetros, surgem no centro de comando.  Se amanhã falhar a recolha do lixo em Madrid, Sanchez virá certamente à televisão denunciar que uma conta associada a Israel sabotou os horários dos camiões. Nenhuma explicação moderna fica composta sem a regurgitação bolorenta dos velhos libelos antissemitas.

A questão de que Sanchez foge como Maomé do toucinho, é que as políticas inspiradas pelas suas fantasias woke produzem efeitos perversos precisamente porque recusam a natureza humana, os incentivos e a aritmética. Se o poder transmite que entrar irregularmente pode compensar, mais pessoas tentarão entrar. Se demora a deportar os invasores,  acumula populações num limbo degradante. Se abandona os residentes e depois lhes chama racistas e ignorantes, converte a inquietação em revolta. É uma política errada que prejudica quem chega, quem já lá estava e, por fim, a própria democracia.

A culpa, claro, é dos judeus.

Há ainda o habitual elitismo geográfico a distribuir prejuízos.  Os custos da generosidade são enviados para bairros, ilhas e terras onde os seus autores não vivem. A bolha progressista conserva a consciência limpa e o conforto burguês do condomínio numa área chique. A periferia fica com as escolas sob pressão, os serviços saturados, a rua perigosa, a polícia à porta e a raiva a acumular. Quem protesta é informado de que é fascista, racista, xenófobo e de ultra-direita. Nunca a solidariedade foi tão compulsiva nem tão confortavelmente terceirizada.

O bom senso anda longe, porque exige fronteiras efectivas, decisões rápidas, distinção entre refugiado e migrante económico, e protecção de quem recebe. Exige sobretudo admitir que toda a decisão ou inação tem custos e que os custos não desaparecem por serem catalogados como discurso de ódio. Humanidade sem ordem, torna-se depressa em desumanidade e isso não se resolve com especialistas em slogans.

A pergunta que uma Noelia indignada lançou das ruas de Ceuta para a senhora Gema no estúdio de Madrid mantém-se a pairar: entregaria a senhora “pintadita” os seus filhos à realidade que recomenda aos filhos dos outros?

É o teste mais simples e mais devastador das utopias políticas. Quando os seus corifeus recusam para si o risco que distribuem generosamente pela plebe, a hipocrisia fica exposta.

A esquerda passou anos a ensinar que a realidade é uma narrativa construída pelo poder capitalista, heteropatriarcal, neoliberal e todo esse palavreado de espuma.

Em Ceuta, a realidade respondeu sem bibliografia e num tom pouco inclusivo. A esquerda ficou ”sentadita”. A realidade continua de pé.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Reflexão - Politics commentators (LBC)

Who we should hear...

...in these days of so much spewed stupidity



Victor Davis Hanson 




Matt Walsh


Bill Maher


Jesus Enrique Rojas



Observador - A vida falsa e a morte verdadeira de Jason Arday (Alberto Gonçalves)

 


(sublinhados pessoais)

A vida falsa e a morte verdadeira de Jason Arday

Em suma, Jason Arday era um aldrabão. Toda a história dele é uma sucessão de mentiras cujo descaramento cresceu em proporção directa à importância que lhe deram.

Comparada com a de Jason Arday, a vida de Ulisses, herói ficcional, foi a de um revisor oficial de contas, sem desprimor para os revisores oficiais de contas. Nascido em 1985, na infância Arday viu-se diagnosticado com atraso global do desenvolvimento e perturbação do espectro do autismo. Não conseguiu falar antes 11 anos de idade, comunicando apenas por linguagem gestual, e só aprendeu a ler e a escrever aos 18. Todas as previsões garantiam que Arday nunca conseguiria sequer ser uma pessoa autónoma, e a mera hipótese de um percurso académico só seria colocada por graçola de péssimo gosto.

Sucede que Arday, como todas as lengalengas de motivação que atafulham belos livros de auto-ajuda e comoventes telefilmes, não se resignou às limitações que o destino lhe definiu. Um dia, presumivelmente posterior à aprendizagem da escrita, Arday escreveu na parede do quarto uma lista de objectivos, entre eles o de chegar a professor em Oxford ou Cambridge. De seguida escreveu outras coisas, incluindo os trabalhos que lhe facultaram a licenciatura, o mestrado e o doutoramento. Com obras publicadas a partir de 2018 e passagens pela docência em universidades menores, Arday ganhou razoável fama enquanto autor e investigador. Está bem que a área de investigação era a da “igualdade étnico-racial” e da “inclusão”, mas mesmo assim. Em 2023, chegou enfim ao estrelato, com uma nomeação que o transformou no mais jovem professor catedrático negro de Cambridge, apesar de a distinção versar a Sociologia da Educação e apesar de enfrentar o que, segundo alguns, é a “a escassa representatividade e as barreiras estruturais impostas a professores negros nas universidades de elite britânicas”. As proezas do homem acumulavam-se.

E as proezas só se multiplicaram quando Arday, entretanto uma celebridade, contou aos “media”, e pelos vistos aos alunos, novas facetas da própria, e devastadora, grandeza. Numa ocasião, ou em diversas ocasiões, revelou ter corrido 30 maratonas em 35 dias, quase 500 km em três dias e perto de mil km numa passadeira em seis dias. Outras vezes, louvava sem falsa modéstia os seus esforços caritativos, que angariaram 5 milhões de libras. E isto sem ceder às ameaças de misteriosos perseguidores: a seguir à cátedra, os pais de Arday receberam em casa uma cabeça de porco, e o que poderia ser um gesto de felicitações e um pretexto para o churrasco de Domingo foi tomado por uma intimidação – que Arday valentemente suplantou.

Em suma, Jason Arday era um aldrabão. Toda a história dele é uma sucessão de mentiras cujo descaramento cresceu em proporção directa à importância que lhe deram. Não há vestígios dos diagnósticos de atraso e de autismo. Os ex-colegas da escola primária relatam que o pequeno Arday passava o tempo a dizer piadas e a imitar vozes alheias – não se calava, portanto, o que é um forte indício de que era “verbal” e um provável chato. A iniciação na leitura e na escrita terá acontecido em idade normal, embora com deficiências que se evidenciaram nas obras que assinou em adulto. Não houve maratonas ou outras correrias. Não houve cabeça de porco. Não houve “barreiras estruturais”. Não houve angariações beneficentes. Não houve a vertiginosa evolução intelectual e física que faria de Arday um caso talvez inédito nos anais da humanidade, da psiquiatria e do atletismo. Não houve, em Arday e nos que o alimentaram, pingo de vergonha.

O que houve foi a propensão de um indivíduo para a fraude, e a compensação da fraude a expensas de um “clima” social adequado. Desde logo, as dúvidas acerca da, digamos, produção literária e académica de Arday antecederam Cambridge em alguns anos. A título de exemplo, a tese de doutoramento, de 2015, continha centenas de erros básicos de gramática, pontuação e sintaxe, incongruências grosseiras, e cento e tal longos excertos plagiados de outrem. A tese passou, tanto no júri como nos orientadores, empenhados em privilegiar a “diversidade” em detrimento da competência. Já catedrático, ajudado por uma carta aberta em que centenas de estudantes de Cambridge exigiam a “descolonização” da universidade na sequência (?) da morte de George Floyd, a fraude de Arday começou a notabilizar-se tanto quanto ele. Alguns alunos queixavam-se de aulas absurdas e sem conteúdo, reduzidas à narração dos “obstáculos”, da “superação” e da geral excepcionalidade de Arday. Alguns jornalistas e académicos menos aflitos com o racismo “sistémico” deram em expor a sistémica trafulhice. Àqueles, Arday respondia com a penalização nas notas. Aos demais, Arday atiçou advogados, processos por calúnia e acusações de “stalking”. Com todos recorreu à carta racial e ao estatuto de vítima, protegido por Cambridge em peso, que até as provas serem impossíveis de continuar a negar chegou a falar em “campanha vil de difamação”.

Após uma breve carreira a prejudicar alunos e colegas de facto habilitados, a contribuir para destroçar o abalado prestígio do ensino superior e a fomentar sentimentos racistas, Arday demitiu-se no passado dia 5. Em comunicado, não pediu desculpas, reforçou o mito da “perseguição” e prometeu voltar “mais forte e mais sábio”.

O problema, naturalmente, não é a desonestidade e o escasso carácter de Arday, e sim as forças que, de modo a corroer os sempre frágeis equilíbrios sociais, produzem inúmeros Ardays. Essas forças mobilizaram-se num instante para explicar que o episódio em questão em nada representa nem compromete os princípios da D.E.I. (Diversidade, Equidade e Inclusão), quando o episódio representa com exactidão milimétrica os princípios e as consequências da D.E.I. – e devia comprometê-los.

Desgraçadamente, não compromete: para não ir longe, anteontem Cambridge “descobriu” que uma sua docente, Farah Ahmed, é ou era militante de uma organização terrorista islâmica, além de rabiscar arengas furiosas contra a democracia e a “educação ocidental”. E à hora a que escrevo Arday foi encontrado morto, um final triste que certamente será aproveitado para se acusar a divulgação da fraude, em vez da fraude.


Observador - Tudo na última semana de Agosto (Jaime N. Pinto)

 


(sublinhados pessoais)

Tudo na última semana de Agosto

O que realmente importa não é reconhecer, enfrentar ou resolver o que quer que seja; é “tomar medidas” para travar o crescimento da “extrema-direita”

Em Ceuta

No dia 28 de Agosto, em Ceuta, numa reunião da Assembleia da Cidade Autónoma, o presidente Juan Jesús Vivas, com apoio de todos os partidos, não pode ter sido mais claro: “a cidade perdeu a sua forma de vida e a tranquilidade; no passado 30 de Julho, Ceuta deixou de ser o que era”.

Era, de resto, natural (para todos menos para quem nos informa e insiste em resistir ainda e sempre às evidências) que os cerca 84.000 habitantes de Ceuta se sentissem “abandonados no caos”, depois de uma invasão de 72.000 pessoas, com a tolerância ou a cumplicidade das autoridades marroquinas. E que, um mês depois de ofensiva, apesar dos profusos discursos e das amplas garantias do governo de Pedro Sánchez, os habitantes de Ceuta, baseados em convincentes “percepções”, continuassem a pedir o reforço das Forças de Segurança e a blindagem da fronteira, e a reportar violações, fogos-postos, agressões, assaltos, pilhagens e encerramentos de lojas.

Quando no Domingo, 30 de Agosto, até o El País titulou em primeira página “Ceuta, ciudad rota – El miedo, la sensación de abandono y la falta de soluciones asfixian una localidad al borde del estallido”, estava tudo dito.

Entretanto, Pedro Sánchez – cujo governo, afogado em escândalos de corrupção e tráfico de influências, se mostrava incapaz de repor a ordem em Ceuta, onde entre 5000 e 8000 imigrantes ilegais tornavam a vida impossível aos residentes – refugiava-se no silêncio e na ausência. Temia, sobretudo,  o “avanço da temível extrema direita”, ou, por outras palavras, uma eleição perdida.

Na Alemanha, em França, na Bélgica, na Islândia

Também no passado 28 de Agosto, na Alemanha, o Forschungsgruppe Wahlen, um instituto de pesquisa eleitoral, previa a vitória do partido nacional-popular Alternativa para a Alemanha (AFD) nas próximas eleições da Saxónia-Anhalt, com 42% dos votos (contra 23% para os Democratas Cristãos, 11% para a Esquerda, 8% para os Sociais Democratas, e 6% para os Verdes). A ser assim, Ulrich Siegmund, o líder do partido na região que foi capa do semanário Der Spiegel de 14 de Agosto sob a legenda “o homem mais perigoso da Alemanha” poderá ganhar e governar aquele Estado alemão. O número da revista foi um dos mais vendidos, com exemplares autografados pelo líder radical à venda, na Internet, por mais de mil Euros.

No dia anterior, 27 de Agosto, em França, no estádio Roland-Garros, num debate promovido pelo Mouvement des Entreprises de France entre sete candidatos às presidenciais francesas da Primavera de 2027, Marine Le Pen saía-se bem nas questões económicas. Marine continua à frente nas sondagens (36%); e se o seu adversário for Mélanchon, poderá ganhar por uma margem considerável. A esquerda francesa prevê cataclismos sem nome e sem fim, se assim for e conta “tomar medidas” para que assim não seja.

Também na última semana de Agosto, em Bruxelas, a dupla capital do reino dos belgas e da União Europeia, voltou a haver tiroteios entre gangues de narcotraficantes cujas nacionalidades ou origens étnicas são conhecidas mas não reconhecidas ou mencionadas, por uma questão de inclusão e para “não dar pasto” à “extrema direita”. A situação é tão grave que  o governo belga teve de requisitar as Forças Armadas para a tentar controlar. A organização não governamental anti-máfia BASTA lembrou que este foi o 69.º tiroteio do ano e que, desde o início de 2025, os duelos de gangues já somam 170, com mortos e feridos entre criminosos envolvidos e vítimas colaterais.

Finalmente, na mesma semana, no referendo sobre as negociações com a União Europeia na Islândia, uma maioria de 52,5% rejeitou a retoma de conversações, e disse não à Europa.

Tudo na última semana de Agosto.

A mais grave consequência

As causas e as consequências de tudo isto pouco importam.  Ou melhor, há uma única consequência, aparentemente a mais grave, que importa: o crescimento da “extrema-direita”. E se não há medidas para resolver ou para parar o que quer que seja, ao menos que as haja para parar “a marcha inexorável da direita radical e nacionalista”.

Uma destas medidas, porventura a mais extrema, veio da Alemanha, onde o ministro da Defesa, o social-democrata Boris Pistorius, e o primeiro-ministro do Baden-Württemberg, Cem Özdemir (um verde alemão de origem turca), num artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, pediram a ilegalização da Alternativa para a Alemanha, na Saxónia-Anhalt, na Turíngia e no Brandemburgo, três dos dezasseis Estados Federais da República Alemã reunificada.  Escusado será dizer-se que os esforços para a proibição diziam sobretudo respeito à Saxónia-Anhalt.

A base do pedido de ilegalização era um relatório de 1500 páginas da ONG Sociedade para os Direitos Civis (Gesellschaft für Freiheitsrechte), liderada pelo progressista Bijan Moini, que acusava a AFS de “etno-nacionalismo”, contrário aos princípios da Constituição alemã.

Alice Weidel, a co-líder do partido nacionalista, denunciou o relatório como fraudulento, redigido maioritariamente por inteligência artificial; e as possibilidades de ilegalização são baixas. O processo teria de partir do governo de Berlim, do Parlamento ou da Segunda Câmara, e passar por um itinerário jurídico complexo e demorado (nem o Partido Nacional Democrata, hoje Die Heimat, esse sim, com ligações ao hitlerismo, foi interditado).

É, no entanto, sintomático que haja espaço para tentar a ilegalização de um partido que, a crer nas sondagens, tem uma expectativa de voto nacional de 27-28% e, que em alguns Estados, como os da antiga RDA, pode mesmo vir a governar.

Mas é a democracia a funcionar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cartoon - Jim Unger (Herman)

 







The Spectator - How Prague cured me of my communism

 



How Prague cured me of my communism

Proust can keep his soggy madeleine. For me the word ‘Prague’ is a trigger of memory like no other. It stirs me up like some plaintive half-heard tune, or the faint scent of lavender in sheets left folded for years.

Evil news from Prague, in another stuffy August long ago, turned my world over completely. This was 1968, a year of wonders, none of them very nice, which will not easily leave my recollection. It was the year I joined a Trotskyist sect. It was the year I punched a man (in self defence). It was the year I attended my first violent raucous demonstration, against the war in Vietnam, with the police horses thundering through the March mud in Grosvenor Square. A few weeks later Paris was full of tear gas and flying cobblestones, and how I wished I was there. It was an age when, if your head was not hot, you weren’t thinking or fully alive. I was on the wrong side – and I was on the right side. I will never be able to unscramble the messy omelette of opinions I then held, to separate the good from the bad.

Then came Prague, and the Soviet tanks flattening a brief flowering of freedom, just about this time of year. I knew, or thought I knew, that revolutionary socialism did not need to lead to the cement-headed repression of the USSR. I despised that as a tyranny and a failure. Freedom under communism was like fire under water. But what was this mysterious city, Prague?

My geography lessons had been traditional, about the Empire or the Home Islands, so that I knew much of the Western Ghats or the Carse of Gowrie, and nothing of the Danube or the Carpathians. Now I was learning about a part of Europe I had never previously considered, and beginning to understand that it might be important in my life. And like a grey haze just behind the modern headlines, I could also see another Prague and another Czech crisis, in another stifling late summer then (amazingly) only 30 years before.

In 1968, the Munich crisis was about as distant in time as Princess Diana’s divorce from the present King is now. I imagined Prague’s baroque towers in a dark bend of the river Vltava, but what we saw on our TV screens was a jazzy city mainly of the 1930s, lots of glass and concrete, streamlined yet old-fashioned, and now full of stupid violence and righteous anger. Film of a tank smashing into a barricade of trams, as if it were made of biscuit tins, made me realise for the first time what a terrifying thing a tank must be. I had never before seen shameless power being exercised in plain sight.

In Vietnam you saw the bombs going off in the distance and heard the crackle of gunfire, but here people in civilian clothes, much like us, were being intimidated by iron-faced men in armoured vehicles, while their leaders were carted off in manacles to Moscow. We were all outraged. I remember fiddling late one evening with our elderly wireless, which had one of those illuminated dials promising transmissions from Kalundborg, Hilversum, Athlone, Droitwich, Königsberg… and Prague. I hoped absurdly to pick up a last whisper of protest on the night airwaves. Shocked and distressed as we were, we knew that our government would do nothing, because at Yalta we had promised to stay out. We hated what was happening, but our anger was empty and so rather shameful.

Partly for that reason, I never forgot it, and ten years later, when the chance came to go to Prague itself, I had to go. I really owe the journey to Evelyn Jones, wife of the once-mighty trade union leader Jack, and a friend of my wife’s parents. Evelyn had been a courier for the Comintern in the 1930s, carrying messages to Moscow from western communists and bringing gold back. She said: ‘You must go to Prague. Nowhere else still has the spirit of Europe between the wars. It is utterly beautiful and surprisingly easy to get to.’ As I was by then a Fleet Street journalist, my visa took some weeks to arrive, while the Czech secret police dismantled, photocopied and reassembled my passport. As we planned our railway journey (Paris, Heidelberg, Nuremberg) we noticed that the official map stopped at the Iron Curtain – from Nuremberg there was just an arrow pointing to ‘Praha’.

So, on an early spring day our train crossed from dozy Franconia into the evil empire, through a web of barbed wire, and if I had not thought this was an evil empire before, I certainly did then. The country was a sort of prison. Men in grey uniforms swarmed over, through and under the carriages, searching every corner of the train and every pocket and bag of the passengers. The seats were hard plastic. The compartments were decorated with a large Red Star. The cities we passed through were smoke-blackened and hung with red-and-white propaganda banners. Our fellow passengers had stainless-steel teeth.

As we ran into the outskirts of Prague, we began to see Soviet railway carriages marked with the hammer and sickle, and to feel as if we were being pulled into the orbit of a darker sun. As we rode the tram from Wenceslas Square to our hotel, we were approached and befriended by the first secret police spy I have knowingly met. Later we would meet all kinds of other people, one of them almost in tears about the comfort the BBC World Service brought him, another an Anglophile black Cuban comrade on an exchange, anxious to share his splendid rum. (We did so. The rum broke several language barriers at once.)

Beyond all this lay the city, oddly reminiscent of Oxford with its crooked, narrow streets, bells and spires, best seen from the hill above, much of it black and held up only by ancient scaffolding. The communists did not treasure it. There were no tourists. The staple diet seemed to be dumplings. It reeked of oppression. We learned for the first time what it is like to be afraid to say what you think. And it did indeed whisper from its towers the last enchantments of the 1930s, as Evelyn Jones had promised. History, the real, dangerous sort that frightens and unsettles you, came rushing into my mind – and all this in the middle of one of the most movingly beautiful places I had ever seen. I am sorry, but you cannot go there now. The modern world has scrubbed it clean of the past. But we will always have Prague, the greatest history lesson I ever experienced.