Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho a certeza absoluta.
(Einstein)
But the tune ends too soon for us all (Ian Anderson)
Fernando de Almeida Santo, bastonário da Ordem dos Engenheiros, esteve no programa Economia Sem Fronteiras, do NOW, à conversa com Miguel FrasquilhoFoto: D.R.
“Se não tivéssemos obras novas, trabalhos novos ou infraestruturas novas, precisaríamos apenas de repor o mínimo indispensável, que seria de cerca de 500 engenheiros por ano. Estamos a formar 300, ou seja, nem sequer conseguimos assegurar essa reposição”, alerta Fernando de Almeida Santos, bastonário da Ordem dos Engenheiros, em entrevista a Miguel Frasquilho, anfitrião do programa Economia Sem Fronteiras do canal NOW. Perante o volume de investimentos previsto, “se fizermos as coisas ao longo de dez a 15 anos, precisamos de formar, no mínimo, 800 engenheiros civis por ano. Estamos muito longe desse número”.
O problema tem raízes na crise económica de 2011–2015, que reduziu a procura de engenheiros civis e contribuiu para tornar a profissão menos atrativa para os jovens. A quebra na construção teve consequências que ultrapassaram o período de contração económica. As escolas de engenharia, que chegaram a formar cerca de mil engenheiros civis por ano, passaram a disponibilizar um número muito inferior de diplomados. As áreas tecnológicas, a informática e a cibersegurança apresentam necessidades próprias, num contexto no qual a modernização da construção exige também competências digitais, considera Fernando de Almeida Santos.
Bastonário desde 2022, acrescenta que “temos de olhar para as várias dimensões da engenharia. A engenharia informática, a cibersegurança e a ciberdefesa têm carências diferentes das da engenharia civil, mas são áreas complementares. Se pensarmos que a modernização da construção exige construção digital, percebemos que também precisamos desses novos tipos de engenheiros”.
Para Fernando de Almeida Santos, é necessário atrair mais jovens para os cursos de engenharia. Refere que um dos principais obstáculos à atração de estudantes para a engenharia é que “ser um grande arquiteto ou um grande médico funciona do ponto de vista individual; um grande engenheiro esfuma-se um pouco num conceito de equipa e já não é tão distinguível individualmente”. Além disso, “a criação de novas engenharias nas áreas tecnológicas, aeronáuticas, que os mais novos gostam mais, tudo isso fez com que houvesse essa diminuição nas engenharias clássicas”, explicou.
Fuga de talento
Considera que seria de evitar que os recém-diplomados em engenharia optem pela consultoria e não sigam a engenharia, o que é “uma fuga de talento para dentro de Portugal, mas para fora da engenharia, é uma questão que também cria alguma complicação”. Defende ainda a criação de condições para que os portugueses que emigraram regressem ao país e, ainda, a captação de talento estrangeiro para responder às necessidades das empresas e dos projetos nacionais.
A emigração de engenheiros portugueses dirige-se sobretudo para países desenvolvidos do Norte da Europa, incluindo os países escandinavos, mas também para a Europa Ocidental e os Estados Unidos, sobretudo nas novas tecnologias e na aeronáutica, mas também nas áreas tradicionais, uma vez que têm falta de engenheiros. A qualidade da formação, o domínio do inglês e a procura internacional tornam os profissionais portugueses competitivos. O problema está na capacidade de Portugal para os reter.
“Somos favoráveis à internacionalização da engenharia portuguesa. Os nossos engenheiros podem trabalhar lá fora ligados às capacidades e às empresas portuguesas. Isso é completamente diferente de irem trabalhar para o estrangeiro e beneficiarem exclusivamente aquele país, porque, dessa forma, também criamos riqueza para Portugal”, defendeu Fernando de Almeida Santos.
“Do ponto de vista da retenção de talento, temos de ser muito mais assertivos”, defende. Fernando de Almeida Santos considera que as políticas públicas devem inverter a lógica atual. Em vez de assistir ao recrutamento de profissionais portugueses por outros países, Portugal deve desenvolver uma estratégia para atrair os seus engenheiros emigrados e captar profissionais no estrangeiro. Assinalou que, com as atuais “políticas públicas, este ano, já regressaram 70 mil pessoas a Portugal, mas não sabemos quantos são engenheiros”.
A Ordem dos Engenheiros tem procurado contribuir para esse objetivo mediante instrumentos de ligação à diáspora, como a aplicação “Engenheiros pelo Mundo”, e de protocolos de reconhecimento profissional com organizações congéneres de mais de 20 países, incluindo Angola, Reino Unido, Brasil, Espanha e Holanda. A instituição procura também promover a mobilidade internacional dos engenheiros portugueses, desde que esta possa gerar benefícios para a economia nacional.
A fusão das ordens de engenharia
“O nosso grande objetivo para o segundo mandato é a fusão por incorporação da Ordem dos Engenheiros Técnicos, e chegamos aos cerca de 85 mil engenheiros, inscritos na ordem”, afirmouFernando de Almeida Santos, bastonário da Ordem dos Engenheiros desde 2022. Considera que esta é uma “reforma estrutural para a engenharia falar uma só voz e estou convencido de que vamos conseguir. Já fizemos tudo o que tínhamos de fazer, já está no Ministério e no Parlamento”.
Fernando de Almeida Santos é licenciado em Engenharia Civil pela Universidade do Minho desde 1991, e está no seu segundo mandato como bastonário da Ordem dos Engenheiros, ligação que começou em 1997 como delegado adjunto em Braga. Foi vice-presidente nacional da Ordem entre 2016 e 2022, ano em que foi eleito bastonário pela primeira vez. Em 2025 foi reeleito para o seu segundo mandato até 2028.
Salientou que a Ordem dos Engenheiros aproveitou as mudanças de estatutos das ordens profissionais impostas pelo governo para criar valor. “Criamos novos colégios, novas especializações, principalmente nas áreas tecnológicas”. Além disso, foram criados atos e competências dos engenheiros, “que não existiam”, concluiu Fernando de Almeida Santos.
The question Cambridge still refuses to answer over Jason Arday
Tributes in Cambridge to Jason Arday after his death (Getty images)
It’s been six weeks since the Jason Arday scandal came to its tragic conclusion, when the disgraced Cambridge professor was found dead at a flat in south London, after credible accusations of plagiarism, academic fraud and extensive fabrications about his personal life and achievements brought his career crashing down.
Arday’s death triggered a moment of ‘anti-racist’ hysteria the likes of which we hadn’t seen since 2020 and Black Lives Matter. At a vigil in Trafalgar Square, Lord Woolley, the principal of Homerton College, Cambridge, called Arday the victim of a ‘lynching’– a shameful, racially charged accusation that glossed over the extensive claims against Arday, demonising journalists and whistleblowing academics purely for exposing his falsehoods.
At that point, it became clear this story was being rewritten and the great and good were determined to dodge awkward truths, preferring to construct a lurid fantasy in which Arday was British academia’s Emmett Till. The pilfered PhD thesis, the apparently falsified quotes in his academic papers, the tall tales of running ultra-marathons, raising millions of pounds, or appearing on television shows aired before his birth – none of this is now allowed to intrude upon the agreed narrative.
Thus, Cambridge, which was dragged kicking and screaming into taking the allegations seriously, has been (partially) let off the hook. It has watered down its investigation into the Arday affair before it has even really begun. It will now focus on whether Cambridge offered him sufficient support amid the storm. This is much more limited than what was originally promised, a day before Arday’s body was found, when Cambridge vice-chancellor Deborah Prentice said there would be a ‘thorough and transparent’ investigation into his 2022 appointment by the Faculty of Education.
This doesn’t bode well for Cambridge’s now-battered reputation. Of course it should be held to account for how it supported a colleague at his lowest ebb. But as an ancient institution, nominally committed to the pursuit of truth and academic excellence, it also owes the world an answer as to why it ever hired him to begin with – a man whose wafer-thin record was obvious even before the plagiarised passages began to surface. Was Cambridge desperate for a more ‘diverse’ faculty? Was the university dazzled by Arday’s fantastical backstory? Did it sacrifice standards on the altar of identity politics?
Those who think ‘standards’ are the last refuge of the racist are only betraying their own bigotry of low expectations, not to mention their ignorance of this case. As the New York Times has reported, when Arday was appointed as a professor of sociology of education, he was chosen over ‘three more senior scholars, including two women of colour’. Perhaps it was his origin story – he claimed he was illiterate until the age of 18. Perhaps it was his ‘scholarship’, infused with the fashionable bunk of critical race theory. Either way, it appears Cambridge chose Arday at the expense of more accomplished ethnic-minority academics.
Even so, if Cambridge prefers to self-flagellate over how Jason Arday, who clearly wasn’t well, was treated by the university, it might well ask: was it ever particularly kind to elevate a man way beyond his talents, and to indulge a man who had become a prisoner of his own fantasies? Arday was on a pedestal from which he was always, inevitably, going to be knocked off – as soon as someone began poking around his wild claims and questionable CV. The blame lies squarely with Cambridge for putting him there in the first place.
I moved on from most of my father’s automotive prejudices. He refused to buy from the Japanese ‘who treated our prisoners so cruelly’, French and Italian cars would ‘always let you down in the end’ and Fords were gaudy creations of ‘big-headed Americans’.
Instead, it was Volkswagen (VW) I never trusted. Stupidly stuck in a bygone era, I couldn’t get over that infamous 1938 photograph of Adolf Hitler, smiling with childlike delight, leaning over a miniature Beetle. Beside him, in a smart civvy suit, SS Colonel Ferdinand Porsche gleefully shows off the prototype. The foundation of Volkswagen is the definitive portrait of a dictator and his sycophants.
Okay, it’s 88 years later and I don’t like hearing about people losing jobs, even at VW. But I do detect a whiff of karma this week. One of the world’s largest automotive empires is in such trouble it plans to axe half its vehicle line-up and sack up to 100,000 workers globally. It’s not restructuring – it’s capitulation.
The Nazis never got round to building their ‘people’s car’; the second world war started and they used the expensively assembled VW hierarchy and factory to make V-1 flying bombs to terrorise Britain instead. VW engineers personally selected skilled Jewish metalworkers from Auschwitz and, by 1944, its production lines were manned by Soviet prisoners, political dissidents and Jewish inmates. They were subjected to a Nazi slogan that horrifically contrasted with VW’s later glib marketing. VW’s factory operated on the concentration camps’ ‘Vernichtung durch Arbeit’ principle: ‘extermination through labour’. Thousands were starved, beaten or worked to death in freezing conditions.
Post-war, the bombed-out VW factory was saved by well-meaning British officers led by Major Ivan Hirst, who restarted Beetle production to help local employment recover. Looking back, it was an extraordinary act of allied charity. Our own car industry went down the pan while a strange, rear-engined bubble car took over the world. We handed the keys of VW back to the Germans when we probably should have just pinched the whole bloody idea.
But credit where it’s due: what followed was a superb corporate reinvention, fuelled by brilliant engineering and a masterclass in marketing make-over. VW grew into a global colossus by investing up to £5 billion a year becoming the world’s biggest advertising spender.
Visionary advertising companies won awards creating wry, sophisticated lifestyle commercials that wiped away its past stains. In 1987, the world was seduced by a sexy woman storming out on her unfaithful husband, pulling off her pearls, dumping her ring… but after a tiny hesitation pocketing the keys to their VW Golf. ‘If only everything in life were as reliable as a Volkswagen,’ we were told with a knowing wink.
From the cheeky ‘love-bug’ ads in the 1960s, which implied that buying a Volkswagen was the natural byproduct of an active sex life, to the linguistic seduction of Audi’s guttural ‘Vorsprung durch Technik’ (‘progress through technology’) slogan in 1971, Western middle classes came to accept these standard mass-market vehicles as badges of high-status sophistication.
VW’s wooing of the West was backed by seriously good business. Replacing the obsolete Beetle with the front-wheel-drive Golf hatchback in 1974 created Europe’s undisputed top seller for decades. VW took ‘platform sharing’ (using the same mechanical chassis and engines for different models) to new extremes. A budget Skoda, youthful Seat and premium Audi could be bolted onto almost identical underpinnings. Production costs were slashed, profits soared.
Under the notoriously tyrannical leadership of chairman Ferdinand Piëch, grandson of the man who had smiled alongside Hitler, from 1993 VW swallowed icons like Bentley and Lamborghini. At its peak, the VW Group was the world’s largest automaker by revenue, a 12-brand empire pulling in more than €320 billion annually and churning out ten million vehicles a year. It was an industrial superpower second only to Apple on the global manufacturing stage.
It all shattered spectacularly in 2015 with ‘Dieselgate’. Unable to meet US emissions standards, VW’s engineers used illegal software to cheat instead. It meant VW cars passed the lab tests but were pumping out toxic gases up to 40 times the legal limit on the road. It was harmful corporate deceit on an industrial scale.
The scandal forced executive resignations, triggered criminal indictments, permanently shattered that expensively-acquired trustworthy façade – and cost the group more than €30 billion in penalties and legal settlements.
Desperate to scrub this toxic image, VW gambled its entire future on a multi-billion-pound transition to electric vehicles. For a brief moment, it seemed it might work, but corporate hubris remained. In its rush to match EV rivals, VW fitted flawed infotainment software causing massed product glitches. Meanwhile, agile Chinese brands were winning a brutal price war. The bill for years of strategic miscalculations arrived, setting the stage for today’s collapse. Management is even contemplating building Chinese cars in Germany just to fill factory lines.
This is a parable for industrial Europe’s decline. Now under the German system of Mitbestimmung, slow-moving committees of local politicians and union bosses sit on the board. They don’t seem to care about building great cars or beating the Chinese; they seem to want to protect their votes, gold-plated employee bonuses and local jobs for local people.
When run by obsessed tyrants, the company conquered the world; but when run by progressive, focus-grouped committees, it engineered its own demise.
Certamente o melhor livro que li este ano - se não de sempre... -, sobre a forma como o futebol é encarado pela carneirada. Depois de ler outros, tanto de Perelman como de Brohm, penso que este é o mais acutilante sobre futebol. Uma peste, na realidade! Uma alienação completa de todos os que, directa ou indirectamente, participam no "rodeo"...
Pergunto-me sempre porque é que não temos este tipo de publicação a nível nacional? Porque é que temos sempre de recorrer a livros não nacionais para obter esta informação? Seremos assim tão limitados, ou é mesmo desta incapacidade inata que sofremos? Não haverá um único rapaz da área da educação física / sociologia que se tenha debruçado sobre esta temática?
Some years ago I heard a moving story about Roy Jenkins. An unpromising start to any anecdote but stay with me. It involved a croquet match during the late period of his life – as Chancellor of the University of Oxford – when Jenkins had become one of the grander, not to say more pompous, figures in our public life. According to someone playing with him, his Lordship had appalling luck. Although he wielded his mallet with all requisite skill, his ball would not go through the hoops. Eventually the grand old man stormed off the pitch in a great huff. Only after he had left did the other players discover that the ball Lord Jenkins had been working was from a different croquet set, and too big to fit through the hoops.
I have been thinking of the incident of Lord Jenkins and the crooked croquet match lately. Not just because I enjoy the image of his Lordship puffing off the pitch in a fury, but because it feels like something similar is going on at a national level. Someone has queered the game, forbidding us from winning even on home turf.
Our much overpraised Home Secretary used her party conference speech to condemn the ‘racists’ who marched in the south of England the other week with their faces covered. She had nothing to say about the far larger number of people from her own Muslim community who have marched through Tower Hamlets and elsewhere, covering their faces and being infinitely more thuggish. On Question Time a panellist whose grandmother came here from Bengal claimed that the men on that south of England march were not just racist but exhibiting ‘small penis behaviour’. What’s more, this woman – a self-described communist – said the people objecting to illegal migration were not patriotic and not British.
We seem to be facing a slew of similar pronouncements of late – often from people who have either arrived in the country recently or whose parents arrived comparatively recently. It seems that absolutely anyone can turn up in Britain and tell us what is or is not British. But if we quibble with this lack of manners we are, of course, called ‘racist’. This is deeply unfair.
As I have pointed out before, if my parents had chosen to move to, for example, Pakistan and given birth to me there, I think I’d regard my position in the country as something like a visitor or a guest. I can say with considerable certainty that the entire population of Pakistan would regard me in such a light. But if I went around telling the Pakistani people what their country was or should be, and what Pakistani values were or were not, then I think people would think me a little presumptuous, to say the least. Yet the British public have to hear arrival after arrival tell us who we are or who we should be and they do so with the confidence that comes from knowing that most British people are too polite to clear their throat, say ‘ahem’ in a meaningful manner, and then give them both rhetorical barrels.
But it isn’t just recent arrivals who have joined this game of telling us what we are or should be. This week the Labour government’s under-secretary for nature, one Jenny Riddell-Carpenter, warned that the ‘far-right’ are likely to co-opt the countryside in the next election. Specifically she said that they will summon up ‘a Britain that never really existed’. She continued: ‘It’ll be that warm ale, a black labrador by your feet in a pub that doesn’t exist. It’ll be a very far-right nostalgic vision of Britain that we don’t want to have, [that] never really existed.’
About which there are many eloquent things to say. One of which is ‘WTF?’ Are the presence of black labradors around the feet now another dog-whistle? Must our ale only ever be cold? And who is Jenny Riddell-Carpenter to tell us that we are ‘far-right’ if we engage in any of these activities?
More importantly, the image of Britain she tries to evoke is not some ‘far-right’ mirage of a country that never existed. It is in fact a small part of a Britain that exists very nicely for many of us. A Britain that exists and is neither political nor invented.
And all this happened in a week in which any opportunities to object to the disaster this country is being led into seemed to contract yet again.
On Tuesday, an activist known as ‘Danny Tommo’ was refused bail. The crime of which he stands accused, and to which he has pleaded not guilty, is damaging a migrant boat. Tommo is alleged to have slashed the dinghy having taken matters into his own hands, apparently as a result of British government claims that it can do nothing to stop boatloads of illegal migrants arriving each day. If he’s found guilty, the full force of the law – the same force that takes no interest in your own burgled property – is likely to come down on him in predictable fashion and he could well spend the coming weeks in jail because he harmed the property of an illegal smuggling gang.
It is not surprising. This week we also learned that a Muslim lecturer has been teaching British police officers about ‘Islamophobia’ and the threat of Nigel Farage. Meanwhile, our Foreign Secretary, Ed Miliband, was sucking up to his counterpart from the world’s number one terrorist-sponsoring state – Iran – and declaring himself ‘humbled’ in the presence of the Palestinian representative to the UK.
Which brings me back to Roy Jenkins. By all accounts, Jenkins’s fellow players didn’t realise their error. But it seems to me that as a nation we are playing on a pitch that has been deliberately queered. I have this lovely column in which to voice my own frustrations. But most of the British public do not, and as they notice that the game is rigged they may do more than simply leave the pitch in a huff.
Crack open the warm bitter. Dust down the bunting. Put Elgar’s ‘Nimrod’ on repeat. For at last we have something to make every true English heart swell with pride. It’s the stirring sight of that 76-year-old geezer who was arrested for wearing a burka attending court yesterday in… a burka. Oh, this blessed plot!
His name is Timothy Miller. He’s from Southampton. On 12 September he was arrested at an anti-immigration protest for parading about in an entombing niqab.The cops accused him of using the Islamic veil to conceal his identity. Not so, he replied: I really am an ageing student of Allah.
He repeated this defence at Portsmouth magistrates’ court yesterday. He lifted his veil – I’m cracking up – to confirm his name, address and date of birth. He then said he is ‘studying’ Islam and he wears the burqa to gain a ‘greater understanding’ of the faith. His draping veil was flawlessly accessorised with a fetching black handbag.
Let’s not pre-judge this case. Let’s cast no doubt on his professed devotion to Islamic scholarship. I’m just here for the glorious spectacle of an old English fella in full mediaeval garb. It’s Les Dawson does Hamas. If he is taking the mick – and who are we to know? – then he’s braver than any British comic I can think of.
It feels so deliciously blasphemous, but in an entirely English way. It’s like someone put Benny Hill and Sam Harris in a blender. One might even say it’s a heroic feminist stunt – a valiant effort to draw attention to the awful effacement suffered by the women forced into these 7th-century cloaks.
The sourpusses of the Islamo-left will wail ‘Islamophobia!’. They’ll accuse him of ridiculing Islamic dress. But the burqa is ridiculous. We didn’t need a pensioner from Southampton to tell us that. It is cruel, brutish, backward, sexist and profoundly anti-social to make women drape themselves in public like this. If you’re alarmed when a white male pensioner pulls on a sackcloth but cool when a brown-skinned woman is forced to do so, you might want to have a word with yourself.
It’s possible this case will force some serious head-scratching in public life. Like, why is it potentially a crime for a British pensioner to cover his face but fine for a Muslim woman? Is it because she believes Muhammad flew to heaven on a winged horse and that women must wholly surrender the self to divine decree? If I embrace such truthless dogmas, can I also wear a mask on the street?
That discussion will come. At some point there’s going to be a furious debate about double standards, regressive beliefs and whether Britain really should let women go around in misogynistic desert-wear (my view is increasingly ‘No’). But for now, let’s just enjoy the thought of a pensioner lifting his niqab to say: ‘My name is Timothy Miller.’ No notes.
Os nossos governos legislam a trouxe mouche para apaziguar uma rua estridente que anuncia o apocalipse. Quando a luta de classes como via para o socialismo falhou, a emergência afirmou-se como atalho
Agora estamos na crise da habitação que sucede ao apocalipse climático que por sua vez foi antecedido pelo inominável crime de nos dividirmos entre homens e mulheres. Também estivemos para morrer por causa do buraco do ozono, das chuvas ácidas, do inverno nuclear, da explosão demográfica e duma mais que certa penúria alimentar. E para cada uma destas crises mais que anunciadas e antecipadamente dadas como inquestionáveis nas suas consequências, amplitude e dimensão pelos seus activistas-profetas, os nossos governantes legislaram a trouxe mouche para apaziguar a ira duma rua estridente que se especializou em criar momentos para as câmaras.
Note-se que estamos a pagar agora as consequências do desnorte que acometeu os governos europeus a propósito do aquecimento global: fecharam-se refinarias, centrais nucleares e a carvão, puseram-se limites tais à indústria automóvel europeia que esta entrou em crise enquanto a indústria automóvel chinesa florescia e apostou-se pelo gás. Russo obviamente. O resultado está à vista. Mas longe de se pedirem responsabilidades, vimos o cenário a repetir-se na emergência seguinte.
Milhares de crianças e adolescentes tiveram e ainda têm a sua puberdade interrompida, foram sujeitos a castração química e operações cujo impacto não têm capacidade de discernir, unicamente porque quem nos governa, mesmo tendo dúvidas (e obviamente achando que tal loucura nunca afectaria os seus filhos) não foi capaz ou não quis sofrer o desgaste de enfrentar os activistas, as ONG que brotavam sob as pedras e até os jornalistas que desataram a falar de identidades de género como se a biologia tivesse sido proscrita. Ainda há escassos três anos, um actor, num teatro municipal em Portugal, teve de dar o seu lugar numa peça a uma pessoa que se apresentava como trans porque alegadamente só um trans podia representar um trans. E agora quem responde pelas consequências de tudo isto? Bem, agora já ninguém quer saber disso: a tenda substituiu a Terra que ia ferver. Mas como foi possível que fossemos mais exigentes para fazer uma intervenção para colocar uma banda gástrica a um adulto do que para fazer uma operação de mudança de sexo a um jovem e, em alguns países, a um adolescente? Quem vai explicar como foi possível?
O absurdo, quando não o criminoso de várias destas respostas, só se compreende quando se atende ao frenesi da emergência que parecia ter-se apoderado da sociedade. Era como se o próprio acto de fazer perguntas fosse mais do que um crime, uma heresia. Sim, a cada uma destas crises os activistas-profetas cujos discursos e interesses ninguém escrutina tornam-se os detentores duma verdade alcandorada a dogma. Quando a luta de classes como via para o socialismo falhou, a emergência afirmou-se como atalho e a dúvida como atentado à salvação. Os activistas não querem construir uma sociedade nova. Montar barraca nos escombros desta chega-lhes, por agora. E, convenhamos, é uma excelente aposta para o seu futuro fora da tenda. Gabinetes universitários, associações, organizações internacionais esperam já pelo dia em que os possam acolher.Tudo devidamente sustentado pelos contribuintes e pelos capitalistas que descobrem que para viver e negociar não há melhor que sustentar os activistas.
Agora estamos na emergência da habitação e mais uma vez o circo está montado. Às vezes os artistas até repetem performances de emergências anteriores, apenas mudam o assunto. Habituados que estão a olhar para o Diário da República como o grande obreiro da sociedade, reivindicam habitação como se ela nascesse de um momento para o outro, à semelhança das tendas que abrem instantaneamente nas praças centrais das cidades (esta gente tem um acendrado fastio pelas periferias que diz representar. Porque não montam a barraca na Buraca em vez do Rossio? Aprenderiam muito, não duvido).
E mais uma vez assistimos à criação dum frenesi sem direito a perguntas sobre o passado: como se pode ter defendido fronteiras abertas sem pensar na habitação?Como pode haver nova habitação se as mesmas forças políticas que agora reivindicam habitação se opuseram invariavelmente às novas urbanizações e às empresas de construção? Se aquilo que apoiaram ao longos destes anos se reduziu a aumentar a burocracia (logo os custos e a demora) dos novos empreendimentos?
Agora vale tudo desde que seja para fazer habitação, mais a mais se esta for apresentada como tendo custos acessíveis. Tal como nas emergências anteriores vemos um problema real agigantar-se, ser transformado em algo que temos de exorcizar. A racionalidade perde-se. Não se discutem opções. Consequências. Tudo tem de ser já. Agora.
Mas tal como não se fazem perguntas aos activistas sobre o que defenderam no passado e as consequências futuras das suas reivindicações (um activista nunca responde pelo seu passado e menos ainda avalia o futuro, ele só tem presente) muito menos se questionam os governantes pela forma como têm reagido a esta pressão. Confesso que já me cansa ver os mesmíssimos governantes que nos esmifram com impostos, regras, regulamentos, taxas, contribuições, coimas, disposições e adicionais para todos os momentos do quotidiano declararem que reconhecem as razões de queixa de qualquer um que se apresente como imbuído duma causa.
Perante as acampadas, os desacatos, os apelos à violência… só me ocorre uma pergunta: quem nos governa nunca ponderou as consequências do factor erosivo que isto causa naqueles que se esforçam por cumprir as regras e que o Estado penaliza impiedosamente à primeira falha?
Os idiotas tomarão conta do mundo pela força do número
Imaginamos figuras autoritárias a conquistar instituições ou dirigentes irresponsáveis a acumular poder. Mas há uma possibilidade mais desconfortável: a mediocridade pode instalar-se democraticamente.
Por vezes, é necessário provocar, incomodar e até ser desagradável para despertar consciências e obrigar a olhar para aquilo que preferimos ignorar. Não se trata de provocar por provocar, mas de questionar o percurso que, há muitos anos, enquanto sociedade, temos vindo a seguir, muitas vezes sem perceber, ou sem querer reconhecer, para onde nos está a conduzir. Um caminho marcado pelo crescente afastamento dos cidadãos da vida pública, pelo enfraquecimento do sentido de pertença à nação, pela desvalorização do Estado e pela indiferença perante questões fundamentais de soberania, identidade e responsabilidade coletiva.
Até que ponto a qualidade de uma sociedade depende também da exigência, do conhecimento e da responsabilidade dos seus próprios cidadãos?
Talvez o maior problema do mundo não seja a falta de conhecimento, competência ou sentido crítico, mas o facto de estarmos progressivamente a entregar o poder, a influência e o reconhecimento público a quem menos demonstra possuir estas qualidades. Pior ainda, começámos a aceitar a mediocridade como uma condição normal da vida em sociedade, a confundir ignorância com autenticidade e a tratar a competência como um defeito. Quem sabe é acusado de arrogância, quem pensa é visto como complicado e quem grita, insulta e apresenta soluções absurdamente simples encontra frequentemente uma multidão disposta a aplaudir.Chegámos a um ponto em que ser popular parece valer mais do que ter razão, e a capacidade de provocar reações passou a contar mais do que a capacidade de construir alguma coisa.
Basta olhar para o mundo que temos diante de nós. Assistimos a guerras, ameaças militares, disputas territoriais, crises económicas, desigualdades profundas e ao enfraquecimento de instituições que demoraram gerações a construir. Enquanto estas questões exigem prudência, conhecimento e responsabilidade, parte da discussão política internacional transformou-se numa sucessão de provocações, insultos, ameaças e demonstrações de força. Há dirigentes que comunicam como se estivessem numa discussão de café, figuras públicas que confundem popularidade com autoridade e responsáveis políticos que parecem medir o sucesso pela capacidade de humilhar adversários. O espetáculo ocupa cada vez mais espaço, enquanto a discussão sobre as consequências das decisões se torna secundária.
Seria fácil responsabilizar apenas os governantes, os partidos políticos ou as elites económicas. Mas existe uma verdade muito menos confortável: os dirigentes não aparecem do nada e a mediocridade não se mantém no poder sem encontrar quem a aceite, desculpe ou recompense. Uma sociedade que aplaude a mentira quando esta favorece os seus interesses, que tolera a incompetência quando esta veste as cores da sua preferência política e que confunde agressividade com coragem acaba por criar as condições para ser governada precisamente por aquilo que alimenta.
A democracia reconhece aos cidadãos o direito de escolher os seus representantes, mas nunca garantiu que essas escolhas seriam acertadas. O voto tem o mesmo valor independentemente do conhecimento de quem o exerce, e assim deve continuar. O problema não está na igualdade política, mas na crescente facilidade com que a opinião desinformada se transforma em certeza absoluta e a convicção substitui qualquer necessidade de compreender os factos. Quando milhões de pessoas passam a admirar mais a insolência do que a competência, a qualidade da governação deixa de depender apenas dos candidatos disponíveis e passa também a refletir aquilo que a sociedade está disposta a valorizar.
Uma sociedade entretida com a própria decadência
Na Roma antiga, o poeta Décimo Júnio Juvenal criticava uma população que parecia satisfeita com pão e espetáculos, progressivamente afastada das preocupações da vida pública. Dois mil anos depois, o mecanismo não desapareceu, apenas se tornou mais sofisticado. Aos anfiteatros da Roma antiga sucederam-se novas arenas de entretenimento, dos estádios de futebol às redes sociais, onde o espetáculo se prolonga muito para além das bancadas, porque cada pessoa transporta no bolso um mundo de entretenimento permanente, disponível a qualquer hora e concebido para disputar cada segundo da sua atenção.
Enquanto o mundo enfrenta guerras, disputas pela soberania dos Estados, instabilidade económica e problemas que ameaçam o futuro dos serviços públicos, uma parte considerável da sociedade consegue mobilizar uma indignação extraordinária por uma polémica futebolística, uma celebridade ou uma publicação nas redes sociais. Há quem conheça todos os pormenores da vida privada de pessoas que nunca encontrou, mas desconheça quem governa o seu município, como funciona a Assembleia da República ou quais são as competências do Presidente da República. Acompanha os resultados desportivos, comenta cada escândalo mediático e discute durante horas acontecimentos sem grande relevância coletiva, enquanto demonstra um desinteresse quase absoluto pelas decisões políticas e económicas que condicionam os seus direitos, os seus rendimentos e o futuro dos seus filhos.
O problema não está no futebol, no entretenimento ou na legítima necessidade de procurar momentos de distração. Está na inversão das prioridades, quando assuntos secundários despertam paixões desmedidas e questões fundamentais para a sociedade são recebidas com indiferença. Uma população pode divertir-se sem abdicar da capacidade de pensar, questionar e participar na vida pública. O que dificilmente pode é transformar o entretenimento na sua principal relação com a realidade e continuar a lamentar a qualidade das decisões tomadas em seu nome, quando nem sequer demonstra interesse em compreendê-las.
Esta realidade não resulta exclusivamente da distração ou do desinteresse dos cidadãos. Existe uma indústria que aprendeu a transformar a atenção em lucro, a polémica em audiência e a indignação em instrumento de influência. Políticos, comentadores, influenciadores e plataformas digitais beneficiam de um ambiente em que a provocação alcança maior visibilidade do que a reflexão e a mensagem mais agressiva circula mais depressa do que uma explicação fundamentada. O conhecimento exige tempo, leitura e capacidade de análise, enquanto a estupidez pode tornar-se viral em segundos. Quando o número de seguidores passa a funcionar como certificado de credibilidade, deixa de interessar aquilo que alguém sabe ou a consistência do que afirma. O que conta é a dimensão da multidão que consegue reunir, mesmo que nada tenha de substancial para lhe dizer.
Gerações com direitos, mas cada vez mais distantes dos deveres
Existe outra questão que merece uma reflexão particularmente exigente: a relação das gerações mais novas com a sociedade, o Estado e a própria ideia de nação. Seria intelectualmente desonesto afirmar que toda a juventude se tornou indiferente à vida coletiva. Existem jovens empenhados, qualificados, solidários e politicamente ativos. Mas também é legítimo questionar até que ponto determinados comportamentos sociais revelam um afastamento dos valores de responsabilidade, participação e pertença que sustentam uma comunidade política.
Crescemos a ouvir que a educação deveria preparar cidadãos livres, informados e capazes de participar na construção do futuro coletivo. Hoje, perante a centralidade das redes sociais, da exposição pessoal e da gratificação imediata, vale a pena perguntar que lugar ocupam a história, a cultura, a cidadania e o sentido de responsabilidade nessa formação. Que relação pode estabelecer com a nação alguém que desconhece a sua história, não compreende o funcionamento das instituições e nunca foi levado a refletir sobre os direitos e deveres que acompanham a vida em sociedade?
Uma nação não é apenas um território delimitado por fronteiras, nem se reduz aos símbolos que exibimos em competições desportivas. Representa uma comunidade histórica e política, construída através de experiências partilhadas, instituições, património cultural, memória coletiva e projetos de futuro. O Estado não é uma entidade abstrata destinada apenas a cobrar impostos ou distribuir apoios. É a organização institucional através da qual uma comunidade estabelece regras, assegura direitos, presta serviços públicos e procura responder a necessidades coletivas. Quando estes conceitos
deixam de fazer parte da formação cívica dos cidadãos, a ligação entre o indivíduo e a comunidade política corre o risco de ficar reduzida a uma relação de conveniência.
É precisamente aqui que surge uma contradição difícil de ignorar. Exigem-se direitos, oportunidades, proteção social, educação, saúde, habitação e condições de vida dignas, exigências perfeitamente legítimas numa sociedade democrática. Mas nem sempre encontramos a mesma disponibilidade para compreender os deveres, os custos coletivos, a necessidade de participação cívica ou a responsabilidade individual perante o funcionamento das instituições. O Estado é frequentemente apresentado como responsável por resolver todos os problemas, enquanto a obrigação de contribuir para a sua sustentabilidade parece pertencer sempre a alguém diferente.
Também não podemos ignorar a responsabilidade das gerações anteriores. Foram os adultos que construíram os sistemas educativos, definiram prioridades políticas, normalizaram determinados comportamentos e entregaram aos mais novos um ambiente digital onde a atenção é constantemente disputada. Seria demasiado conveniente criticar os jovens pela superficialidade de uma cultura que não foram eles a criar. Se pretendemos cidadãos conscientes da história, comprometidos com a democracia e capazes de compreender o valor das instituições, precisamos de perguntar que formação lhes proporcionámos e que exemplos encontram naqueles que exercem responsabilidades públicas.
O verdadeiro problema não é uma geração ser diferente da anterior. Todas o foram. O problema está em considerar dispensáveis a memória histórica, a responsabilidade coletiva e o conhecimento das instituições, como se uma comunidade política pudesse sobreviver indefinidamente sustentada apenas por interesses individuais. Não se exige nacionalismo acrítico, obediência ou uniformidade de pensamento. Exige-se algo bastante mais elementar: compreender que pertencer a uma sociedade implica direitos, responsabilidades e um compromisso mínimo com aquilo que permite a sua continuidade.
A ignorância deixou de provocar vergonha
Talvez uma das transformações mais preocupantes seja a facilidade com que o desconhecimento passou a apresentar-se publicamente como autoridade. Nunca foi tão simples consultar informação, mas também nunca pareceu tão fácil formar opiniões definitivas sobre assuntos que não compreendemos. A política internacional explica-se em trinta segundos, a economia resolve-se com uma frase, a ciência é contestada com um vídeo e qualquer pessoa que tenha acesso a uma rede social parece sentir-se habilitada a contrariar décadas de investigação.
Naturalmente, ninguém tem obrigação de dominar todas as matérias. O problema não é desconhecer, mas recusar aprender e transformar essa recusa numa demonstração de superioridade. Há uma diferença enorme entre questionar especialistas e acreditar que uma opinião improvisada possui o mesmo valor que conhecimento sujeito a investigação e escrutínio. A liberdade de expressão garante o direito de falar, não a obrigação de considerar inteligente tudo o que é dito.
O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, ajuda a compreender esta transformação: as redes sociais e as plataformas de vídeo passaram a ser, no conjunto dos mercados estudados, a via mais utilizada para aceder a notícias digitais. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, mais de metade identifica as redes sociais, as plataformas de vídeo ou os sistemas de inteligência artificial como principal meio de acesso à informação. Estes dados não demonstram falta de inteligência ou de interesse cívico, mas revelam uma alteração profunda dos intermediários através dos quais se forma a perceção da realidade.
E talvez seja essa uma das maiores fragilidades do nosso tempo. Estamos a formar opiniões políticas, económicas e sociais num ambiente em que a visibilidade depende frequentemente da capacidade de provocar emoções e não da qualidade dos argumentos. A verdade continua a existir, mas precisa de competir com versões mais simples, mais convenientes e, muitas vezes, muito mais apelativas. Para quem procura apenas confirmar as próprias convicções, uma mentira confortável pode tornar-se mais aceitável do que um facto desagradável.
O país que exigimos e o país que ajudamos a construir
Portugal não está imune a estas contradições. Criticamos o funcionamento do Estado, a burocracia, a lentidão da justiça, as dificuldades dos serviços públicos e a qualidade das decisões políticas. Muitas dessas críticas são justificadas, mas raramente aplicamos ao nosso comportamento a mesma exigência que dirigimos às instituições.
Queremos serviços públicos eficientes, mas toleramos a falta de responsabilidade quando ela nos favorece. Exigimos transparência aos governantes, mas relativizamos comportamentos eticamente questionáveis quando são praticados por pessoas próximas das nossas preferências políticas. Defendemos o mérito, mas continuamos a aceitar que relações pessoais, influência e conveniência ocupem espaços que deveriam pertencer à competência. Reclamamos contra a corrupção, mas nem sempre demonstramos igual indignação perante as pequenas práticas quotidianas que alimentam uma cultura de favorecimento e desrespeito pelas regras.
Existe também uma facilidade preocupante em confundir o Estado com o governo do momento e a nação com determinada orientação partidária. O Estado deve servir a comunidade política independentemente de quem exerce temporariamente o poder, enquanto a Nação representa uma continuidade histórica que ultrapassa governos, partidos e ciclos eleitorais. A incapacidade de distinguir estas realidades empobrece a discussão pública e transforma questões fundamentais de interesse coletivo em instrumentos de confrontação partidária.
A recente votação nas Nações Unidas sobre a escravatura transatlântica e as reparações históricas é um exemplo da necessidade de defender a história nacional com conhecimento, rigor e independência política. Reconhecer os abusos e as injustiças do passado, à luz dos valores e princípios morais contemporâneos, não significa aceitar que acontecimentos de há vários séculos possam ser utilizados para atribuir responsabilidades às gerações atuais ou exigir indemnizações financeiras ao Estado português.
A história deve ser compreendida no enquadramento de cada época, considerando as circunstâncias, os protagonistas e as realidades políticas, económicas e sociais que marcaram os acontecimentos, sem os subordinar a interpretações orientadas por agendas políticas.
Portugal optou pela abstenção, acompanhando a posição europeia, quando poderia ter afirmado de forma mais autónoma a sua posição histórica. Não se trata de negar ou justificar os acontecimentos do passado, mas de recusar que a história de uma nação com quase nove séculos de existência seja reduzida aos episódios que hoje merecem maior condenação, ignorando a sua contribuição para a ciência, a cultura, a navegação e as relações entre povos. Uma nação que não conhece, não compreende e não sabe defender a sua história abre espaço para que outros a interpretem e utilizem segundo os seus próprios interesses.
Uma sociedade politicamente madura deveria conseguir criticar um governo sem hostilizar o Estado, reconhecer problemas nacionais sem desprezar o país e defender a sua identidade sem transformar a diferença numa ameaça. Quando estas distinções desaparecem, o debate degrada-se numa sucessão de acusações em que quase todos reclamam direitos, poucos aceitam responsabilidades e a construção de soluções acaba subordinada à necessidade permanente de encontrar culpados.
A vitória dos idiotas não precisa de um golpe de Estado
Quando se fala na possibilidade de os idiotas tomarem conta do mundo, imaginamos frequentemente figuras autoritárias a conquistar instituições ou dirigentes irresponsáveis a acumular poder. Mas existe uma possibilidade bastante mais desconfortável: a mediocridade pode instalar-se democraticamente,
com eleições, aplausos, maiorias e uma população perfeitamente convencida de que está a fazer as escolhas certas.
Não é necessário acabar com a liberdade de expressão quando a própria discussão pública se transforma numa competição de insultos. Não é necessário proibir livros quando uma sociedade perde o interesse pela leitura. Não é necessário destruir a educação quando o conhecimento deixa de ser valorizado. E não é necessário impedir os cidadãos de participar na vida política quando estes se afastam voluntariamente dela, convencidos de que nada merece o seu tempo, exceto aquilo que lhes proporciona satisfação imediata.
A decadência de uma sociedade raramente se anuncia como decadência. Pode apresentar-se como modernidade, liberdade individual, entretenimento permanente ou rejeição das autoridades tradicionais e nenhuma destas realidades é necessariamente negativa. O problema surge quando a liberdade se confunde com ausência de responsabilidade, a modernidade com desprezo pela memória e o pensamento crítico com rejeição indiscriminada de todo o conhecimento.
Também seria perigoso acreditar que apenas os menos instruídos contribuem para esta situação. A mediocridade atravessa classes sociais, níveis de escolaridade, profissões e instituições. Existem pessoas altamente qualificadas que utilizam o conhecimento para manipular, dirigentes experientes que colocam interesses pessoais acima do interesse público e cidadãos instruídos que abandonam qualquer espírito crítico quando estão em causa as suas preferências ideológicas. A estupidez não possui classe social, certificado académico ou filiação partidária.
Quando deixamos de pedir competência a quem governa, rigor a quem informa, responsabilidade a quem exerce influência e consciência cívica a quem participa na vida coletiva, criamos um ambiente onde a mediocridade deixa de encontrar resistência. Quanto maior for o número de pessoas que aceita estas condições, menor será o esforço necessário para as perpetuar.
Talvez a frase que dá título a este texto seja mais séria do que parece. Os idiotas não precisarão de demonstrar mérito, conquistar respeito ou apresentar soluções. Bastará que sejam suficientemente numerosos, suficientemente ruidosos e suficientemente persistentes para transformar a superficialidade numa referência coletiva. O problema não está apenas nos políticos que temos, nos dirigentes que observamos ou nas gerações que criticamos. Está também naquilo que toleramos, nos comportamentos que premiamos e nas responsabilidades que recusamos.
Uma sociedade que perde a ligação à sua história, deixa de compreender o valor das suas instituições e transforma os deveres coletivos numa preocupação secundária não precisa de ser conquistada por ninguém. Vai entregando gradualmente a capacidade de decidir o seu próprio futuro, enquanto permanece convencida de que a liberdade consiste apenas em poder fazer aquilo que lhe apetece.
E talvez a maior tragédia não seja o dia em que os idiotas tomarem conta do mundo, mas o facto de podermos chegar a esse momento sem sequer perceber o que aconteceu. Estaremos demasiado ocupados a discutir a última polémica, a defender o nosso político preferido ou a acompanhar mais um espetáculo irrelevante. Quando finalmente olharmos à nossa volta, talvez já não reste muito para defender.
O pão continuará a ser distribuído, o circo continuará cheio e os aplausos continuarão a ouvir-se. A única diferença é que, desta vez, não poderemos dizer que ninguém nos avisou.