domingo, 15 de fevereiro de 2026

Observador - Um país à espera das Forças Armadas que a própria lei impede de agir (Rodrigues do Carmo)

 


(sublinhados pessoais)

Um país à espera das Forças Armadas que a própria lei impede de agir

O problema é um Estado que, perante a lama, a chuva e o caos, ainda acredita que a solução é criar mais uma comissão e andar tudo a correr como baratas tontas. Quando tudo falha, chamamos um almirante

No rescaldo da tempestade Kristin, Portugal descobre, de súbito, que as Forças Armadas existem.  Este tipo de descoberta acontece, normalmente, quando há desfiles, incêndios, cheias ou, como agora, uma tempestade que varreu postes, árvores, telhados, casas, vidas, e a compostura nacional.

E então, invariavelmente, surge a proverbial pergunta televisiva, dita com ar de quem acaba de resolver a quadratura do círculo:

— “Mas os militares estão nos quartéis a fazer o quê?”

A frase sai com um tom meio indignado, meio infantil, como se as Forças Armadas fossem um grupo de escuteiros pagos pelo Estado, prontos a correr para onde o primeiro “popular” ou pivot televisivo, aponte o dedo.

Mas convém, antes de berrarmos ordens aos batalhões pela televisão, perceber o pequeno detalhe de que as leis do país, infelizmente, não obedecem ao telejornal das oito.

Comecemos pelo básico, que raramente passa no rodapé das notícias.  O Governo decretou o “estado de calamidade”. Que não é guerra, nem golpe, nem lei marcial, mas simplesmente um regime administrativo da Protecção Civil. Manda o Governo e coordena a Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil.

O que fazem as Forças Armadas? Apenas o que lhe mandam fazer, nem mais nem menos um milímetro. Os militares não são um corpo autónomo que decide que “hoje vamos limpar árvores em Leiria”, porque nos apetece. Só actuam quando formalmente requisitados. E quando actuam, fazem aquilo para que a lei os autoriza, isto é, logística, engenharia, comunicações, transporte, hospitais de campanha, geradores, pontes, desobstruções. Não policiam ruas, não fazem segurança pública, não substituem autarcas, não tomam conta de municípios.

Ainda estamos numa democracia e num estado de direito, por mais que isso aborreça certos comentadores. Nestes casos o protagonismo é da polícia, da GNR ou da Protecção Civil.

É verdade que o espectador doméstico, sentado no sofá, imagina o Exército como um botão vermelho: carrega-se e aparecem cem Unimogs, trezentos geradores e dez helicópteros em cinco minutos. Mas infelizmente, a realidade é menos cinematográfica e mais jurídica. Para cada escavadora há ordens, seguros, regras de empenhamento, cadeias de comando, responsabilidades. É que se um soldado derruba um muro privado, alguém paga. E o Estado, entidade que todos insultam, mas de que todos vivem, gosta de saber quem assina.

A expectativa popular é emocional, “façam qualquer coisa, pá!”, mas o Estado é processual: “ora primeiro preencha o formulário de requisição 27-B”. O choque entre expectativa e realidade é inevitável.

E depois há o nosso desporto nacional da guerra das quintinhas. Cada organismo defende o seu território como se fosse o Império Romano. A Protecção Civil não gosta que a GNR mande, esta não gosta que a PSP se meta, a PSP detesta que o Exército apareça, a Câmara não gosta que Lisboa interfira e Lisboa não gosta que alguém lhe estrague o PowerPoint.

O resultado são  cinco chefes, sete comunicados, índios sem nenhuma coordenação e a árvore continua caída na estrada. Noutros países, mais habituados a calamidades sérias, delimita-se a zona e nomeia-se um único comandante operacional, não um grupo de WhatsApp ou um saco de gatos de quintinhas.  Um responsável com autoridade real sobre todos os meios ali presentes:  militares, bombeiros, polícia, técnicos, máquinas. Ele chega à zona, monta um posto de comando, instala comunicações e começa a mandar. É simples, antigo e eficaz.

Mas por cá preferimos o método lusitano: reunião, sub-reunião, despacho, contra-despacho, e quando finalmente alguém decide, já passou a calamidade seguinte.

Talvez valesse a pena criar um ou dois comandos permanentes de resposta a catástrofes. Com um pequeno estado-maior multidisciplinar, treinado, com meios próprios, capaz de se instalar rapidamente numa zona afectada e assumir a coordenação total. Sem ciúmes institucionais, sem concursos de protagonismo, sem o presidente da junta a dar ordens ao coronel, ou o chefe dos bombeiros a receber ordens do sargento.

Mas isso exigiria três coisas raríssimas em Portugal: organização, humildade burocrática e unidade de comando. Não temos nada disso e é por isso que a televisão pergunta onde andam os militares, quando a resposta é simples: estão exactamente onde a lei manda que estejam, à espera de ordens formais, integrados num sistema que lhes ata as mãos com fita vermelha.

O que nos leva ao momento de ironia histórica que devia envergonhar o país.

Recordemos a vacinação COVID. Meses de confusão, agendamentos perdidos, centros vazios, outros cheios, telefonemas, plataformas, gabinetes, task forces, comissões, subcomissões, e a eterna dança das cadeiras. Até que alguém teve a revolucionária ideia de chamar um almirante. E, milagrosamente, quando apareceu um militar com método, disciplina e cadeia de comando, as vacinas começaram a entrar nos braços à velocidade de uma linha de montagem.

Descobriu-se, com espanto, que mandatar uma pessoa para decidir é mais eficiente do que reunir vinte para bolçar palpites. Mas não aprendemos nada. Resolvido o problema voltámos ao normal, cada qual no seu feudo, a guardar o carimbo. Por isso, da próxima vez que ouvirmos um comentador indignado a perguntar “o que fazem eles nos quartéis?”,já sabemos a resposta simples:  cumprem a lei.

O verdadeiro problema é um Estado que, perante a lama, a chuva e o caos, ainda acredita que a solução é criar mais uma comissão e andar tudo a correr como baratas tontas. E quando tudo falha, chamamos um almirante para organizar o que vinte ministérios não conseguiram.

Observador - Os três blocos ou uma procissão de impotências (Miguel Morgado)

 


(sublinhados pessoais)

Os três blocos ou uma procissão de impotências

Montenegro dividiu a política portuguesa em três “blocos”. À partida, a declaração é inofensiva; acontece que por vezes há descrições que escondem prescrições tácitas para a acção.

Ainda há poucos dias, na Assembleia da República, o Primeiro Ministro fez questão de dizer à nação como vê a situação política actual. Repetindo uma habitual saída retórica do Governo, Montenegro dividiu a política portuguesa em três “espaços” ou “blocos”: o da “esquerda”, o da “direita” e o “central”, sendo este o do PSD/Governo. À partida, a declaração é inofensiva e imune a comentários. Se são apenas factos, o que há a acrescentar? Acontece por vezes que há descrições que escondem prescrições tácitas para a acção.

Por um lado, a simples constatação aparece agora como uma resignação. Nesta formulação, a política portuguesa divide-se em três partes todas separadas entre elas, e sem que uma se intrometa na esfera que cabe à outra. Sugere rigidez no apoio político da sociedade a cada bloco e fronteiras gravadas na pedra. Da parte do governo, ajuda a justificar por que é que negoceia medida a medida, ora com a “esquerda”, ora com a “direita”, sem necessidade de entendimentos duradouros com “blocos” estranhos ao seu, com cada “espaço” no seu proverbial galho, por assim dizer.

Mas ao mesmo tempo reconhece ao Chega que a esfera da direita é sua. Como o Governo já tem uma, rende-se o eleitorado e os temas políticos de uma área política inteira a um partido seu concorrente. Se somos do centro, diz o PSD, o que iríamos fazer à direita? É difícil conceber uma maior consagração da dilatação galopante da força eleitoral do Chega dos últimos 2 anos. À absurda reivindicação de Ventura de que ele “lidera a direita”, o PSD responde: por favor, não se faça rogado; não seremos nós a impedi-lo; nós somos apenas os vizinhos do lado. O reconhecimento de um bloco da “direita” onde o PSD não está, nem quer estar, recorda as piores estratégias do partido desde a sua fundação.

No contexto actual, situar o PSD no “centro”, ou no “bloco central”, pode sugerir a alguns um aceno de virtude política, por um lado, e de conforto eleitoral futuro, por outro. Afinal de contas, não é no “centro” que está a virtude, longe de “extremismos” que as noções de “esquerda” e “direita” sugerem? Quem pode contestar no clima político que se vive que o “centro” vale como sinónimo de “moderação”, imputando automaticamente “imoderação” aos adversários? Não é verdade que a maioria dos votos está sempre no “centro”, o que tornaria a recompensa eleitoral de quem se situa no centro sempre vencedora? Não vale a pena perder tempo com o desmantelamento destas ilusões, gastas pelo uso, pelo tempo e pelos resultados.

Mas, independentemente dos benefícios ou malefícios para o PSD de um posicionamento que proclama a inércia e a complacência como trunfos estratégicos, o que resta daqui é a cristalização de um impasse do sistema político enquanto tal. Caminhamos para uma paralisia à francesa e veremos se não com fracturas sociais idênticas no futuro. Quando o (marginalmente) maior partido do sistema, no caso o PSD, sela as fronteiras entre “blocos” com os quais não se pode entender, nem cujas respectivas esferas políticas pretende invadir, proceder a uma tal constatação e posicionamento é comprometer-se com esse impasse. É renunciar à responsabilidade – que é sua mais do que dos outros – de tentar rompê-lo. É abraçar a tarefa absurda de contribuir para mantê-lo.

Sucede que, como a França nos ensina, deixar o sistema político cristalizar esta paralisia, que se camufla com as cores de um equilíbrio inocente, é encomendar sarilhos nacionais muito sérios. Nunca é boa ideia deixar que o sistema político produza apenas uma procissão de impotências. A política nacional torna-se apenas num desfile de protestos que deixam de vir apenas da oposição formal, mas assumem a orientação geral de quem está no Governo também. Uns não deixam governar, os outros não podem tolerar que quem precisa deles queira governar sem eles. Como a tese dos três “blocos” recomenda gavetas onde cada um se sente arrumado, perde-se a ambição de falar, representar e governar para os eleitorados que a mesma tese entrega como população em enclaves aos blocos onde não nos situamos. É certo que, para os propósitos de gerir a próxima semana, fica assim tudo muito certinho para explicar a impotência de cada um. Mas governar é incompatível com confissões de impotência.

Observador - O Estado, esse grande educador da juventude (Helena Matos)

 



(sublinhados pessoais)

O Estado, esse grande educador da juventude

Tenho uma discordância de fundo face a um estado que não faz o que deve, não cumpre os seus deveres inalienáveis nem exerce os seus poderes insubstituíveis e depois quer substituir-se aos pais e mães.

Estava o país debaixo de água, com ministros, Presidente, autarcas, militares e autoridades civis andando de açude em açude diante de câmaras de televisão, quando o parlamento entendeu votar um diploma apresentado pelo PSD que proíbe o acesso às redes sociais de crianças até aos 13 anos e condiciona a autorização parental esse acesso àqueles que têm entre 13 e 16 anos,

Note-se que os senhores deputados consideraram ser de tal forma grave a calamidade que se estava a viver em Portugal que eximiram o primeiro-ministro de ir ao parlamento mas não lhes chocou votar um diploma que interfere com a família e os direitos e os deveres dos pais num momento em que ninguém daria pela falta de discussão sobre o assunto. Nada que surpreenda: há décadas que sucessivos governos põem e dispõem sobre a família, com a arrogância de quem se considera superior e melhor informado que as famílias, essa instituição que na impossibilidade de substituir há que iluminar, no sentido jacobino do termo.

Nos últimos anos este intervencionismo estatal na família tem-se acentuado e traduzido num constante activismo legislativo. Tivemos a questão das crianças trans, questão essa que não duvido será um dos grandes escândalos do nosso tempo, a que se seguiu a luta pela constitucionalização do direito ao aborto em países onde o aborto já não é uma questão. Agora chegou a vez da proibição do acesso às redes sociais pelos adolescentes. Sim,  a mesma sociedade cujas instituições dizem que a Luísa aos 10 ou 11 anos já sabe que é Luís, pretende agora que a Luísa/Luís corre sérios riscos nas redes sociais e como tal o acesso a essas redes deve ser-lhe vedado.

É inesgotável o absurdo emocional e legal criado por estas catadupas de legislação determinadas pelo activismo-legislativo a que hoje se chama governar. Veja-se o caso francês em que está proibida de ter acesso às redes sociais a mesma Martine que aos 14 anos pode abortar sem que os seus pais sejam sequer informados. Repito, em França, a Martine aos 14 anos pode abortar não só sem a autorização dos seus pais como até sem que eles sejam informados do facto: Si vous êtes mineure, vous pouvez choisir de demander le consentement de vos parents ou de votre représentant légal qui pourra vous accompagner dans votre démarche d’IVG. Cependant, si vous souhaitez garder le secret, l’IVG est pratiquée à votre seule demande. Dans ce cas, vous devez vous faire accompagner dans votre démarche par une personne majeure de votre choix.”  Presume-se que os pais da Martine serão chamados caso o aborto corra mal e a Martine precise de cuidados médicos que não serão certamente assumidos pela pessoa adulta (seja ela quem for!) que a Martine escolheu para a acompanhar quando foi abortar. Já para ter acesso às redes sociais a Martine tem de esperar pelos 15 anos.

Portanto num dia, os pais não são chamados para nada, noutro antes pelo contrário. Idem para as crianças e jovens que num dia são tratados como adultos e noutro enfiados numa redoma.  Não morro de amores pelas redes sociais, partilho as preocupações dos demais com o tempo que as crianças e jovens levam diante dos ecrans mas tenho enormes dúvidas sobre as vantagens e a viabilidade de criar um mundo aparte para os adolescentes em vez de os tornar aptos para o mundo que de facto existe. E sobretudo tenho uma discordância de fundo em relação a um estado que  não faz o que deve, não cumpre os seus deveres inalienáveis nem exerce os seus poderes insubstituíveis e depois quer substituir-se aos pais e mães. Que, sinal dos tempos, temerosos de exercer o seu papel, nem lhes parecerá mal que o estado lhes diga o que devem proibir ou permitir aos filhos.

Como era de esperar o diploma apresentado pelo PSD passou. Contou com o apoio do PS, PAN e JPP. Dentro em pouco outro assunto ainda mais virtuoso substituirá este, por ventura com o objectivo de proibir os pais de proibir…   Um dia isto rebenta como os açudes.

Série - True Love

 





Teatro - A canção de Lisboa


1 - Adiado, à semelhança de outros espectáculos, depois de ter havido uma série de eventos aquando da "tempestade" em Lisboa que inoperacionalizaram o fórum Romeu Correia. 


 


2 - no estúdio a gravar



Com a Filipa que faz de Alice (minha filha)


sábado, 14 de fevereiro de 2026

The Spectator - "cartoons"

 












Livros - Crítica XXI (nº 13)

 










Teatro - O jarrão chinês (Dom Sancho)

 Em 31.01.2026 na Incrível Almadense com o grupo de teatro da Universidade Dom Sancho






Séries - Vanguard

 


Observador - A grande questão do nosso “tempo” (Alberto Gonçalves

 (sublinhados pessoais)



A grande questão do nosso “tempo”

O problema do IPMA não é a escassez de avisos: é o excesso. O IPMA produz centenas e centenas de avisos por ano, dezenas e dezenas por mês, às vezes uma data deles num único dia.

Tem-se discutido imenso o que se fez, ou não se fez, após a tempestade Kristin. Discutiu-se menos o que se fez antes. No máximo, soltaram-se por aí uns queixumes acerca da falta de informação preventiva. Os queixumes são pouco informados: no dia anterior à calamidade, com cerca de 12 horas de avanço, o Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) publicou um comunicado a prever ventos de 160 km/h “ou mesmo de 180km/h”, nas declarações de uma meteorologista do Instituto. A mesma senhora, Maria João Frada, referiu à RTP a possibilidade de um “impacto catastrófico” e recomendou às pessoas “para se manterem em casa, com as persianas bem fechadas, e protegerem estruturas”. Ou seja, embora as zonas de alcance da tempestade permanecessem vagas (“algures entre Leiria e Braga”), a sua dimensão e consequências plausíveis estavam bem definidas. Haveria uma grande diferença caso as pessoas tivessem prestado atenção e agido em conformidade? Provavelmente, nem por isso. Alguém prestou atenção? Não.

O problema do IPMA não é a escassez de avisos: é o excesso. O IPMA produz centenas e centenas de avisos por ano, dezenas e dezenas por mês, às vezes uma data deles num único dia. No momento em que escrevo, o distrito de Lisboa está sujeito a seis avisos, três amarelos e três laranjas. O do Porto a cinco. O de Setúbal a sete. São demasiados avisos, demasiados alertas, demasiados esforços para apavorar a população, frequentemente com a ameaça de ventos triviais ou chuvas ordinárias, de manhãs geladas no Inverno e tardes abafadas no Verão. Para cúmulo, cada aviso é acompanhado dos indispensáveis “conselhos” da Protecção Civil, que do alto da sua proficiência técnica informa os leigos de que devem usar roupa fresca em Agosto e um agasalho em Janeiro.

Venha fazer Votorologia com o Observador: simule o resultado da 2.ª volta das Presidenciais

A história de Pedro e do lobo é excessivamente óbvia. Prefiro comparar a análise dos fenómenos naturais aos péssimos filmes de terror: a abundância de sustos, na vasta maioria não fundamentados, consegue a proeza de não assustar vivalma. Contaram-me – fonte seguríssima – que os presentes num café de Óbidos receberam em simultâneo a SMS sobre a aproximação da “depressão Kristin”: seguiram-se minutos de risinhos, de resto a reacção expectável em quem passa a vida a ser inquietado com calamidades que raramente acontecem. E é difícil culpar os galhofeiros quando não são eles a banalizar (agora diz-se “normalizar”, mas eu não digo) as travessuras do clima.

Há uma explicação superficial, simplória e essencialmente correcta para o desmesurado zelo das “autoridades” meteorológicas. Acima de tudo, à semelhança dos laboratórios que enfiam nas bulas improváveis e irrelevantes efeitos secundários (“Há relatos contraditórios de que o consumo moderado de paracetamol possa ter causado ligeira morrinha a um contabilista da Lituânia em 1983”), as “autoridades” receiam falhar por omissão. Vai daí, adoptam o pressuposto de que, se avisarem a população a pretexto do que calha, incluindo de uma brisa incapaz de tombar um balde de plástico, a população não pode acusar as “autoridades” de não terem avisado. Sucede que, conforme se verificou na Kristin, a população ri-se dos avisos e de seguida reclama da inexistência dos avisos. E a culpa é menos da população que do frenesim apocalíptico das “autoridades”, repetido pelo eco das televisões desesperadas ante a fuga de audiências.

Porém, a explicação “profunda” é outra. O IPMA e a Protecção Civil são entidades públicas, e por isso tendem a reproduzir os procedimentos de um Estado que crescentemente trata os cidadãos como crianças para se ilibar a si próprio. Não admira que adopte um estilo de pedagogia assente no medo. Para não sairmos do tema da conversa, alguns recordarão a época em que o quadro de pessoal do falecido Instituto de Meteorologia dava a ideia, necessariamente errada,  de ser composto apenas pela sensata e credível figura de Anthímio de Azevedo. Durante as décadas em que apresentou diariamente o “tempo”, aquele saudoso homem jamais exibiu um esboço de histeria ou sequer um fugaz abalo na calma com que descrevia as atribulações do anti-ciclone dos Açores. Nas suas intervenções, os quadros eram rigorosos e sem cores evocativas do Juízo Final. Não havia “rios atmosféricos” ou “comboios de tempestades”. As avarias climatéricas não tinham nome nem indiciavam o fim do mundo. Os espectadores eram adultos conscientes, ou o dr. Anthímio assim os imaginava. E o respeito era recíproco.

Esse “tempo”, em dois dos sentidos da palavra, morreu. A progressiva, e progressista, infantilização dos “súbditos” no clima e no resto não deve à preocupação com eles. Ou deve: à preocupação em manter os “súbditos” dependentes e submissos e permeáveis aos desvarios de uma classe política tão dissimulada quanto incompetente. Além de mandar “mais”, o objectivo dos actuais poderes é mandar “pior” – e sob o menor escrutínio possível. A segurança de líderes fracos passa por eleitores abúlicos, pelo que suspeito que o Estado não usa as sugestões de pânico exactamente para nos aterrorizar: é para nos anestesiar.

E anestesiados andamos, à mercê de ventos e tempestades, incêndios e epidemias, alarmes falsos e autênticos, “planos” e “apoios”, corruptos e corruptelas do “bem comum”. Depois rimos sem vontade até que o céu, ou prosaicamente o telhado, nos caia em cima. E por fim estendemos a mão aos senhores que nos guiam, a ver o que cai. Sinais dos tempos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Reflexão - Presidenciais

 


Observador - Basta não ser Ventura? (Rui Ramos)

 

(sublinhados pessoais)

Basta não ser Ventura?

O que significa votar num certo candidato presidencial? Em António José Seguro, dizem-nos que é possível votar sem ser socialista, e sem sequer apreciar a sua figura. Mas no caso de André Ventura, não. Votar em André Ventura equivale, segundo os anti-venturistas, a matricular-se no seu partido, e prestar culto à sua personalidade. 

Porquê? Porque é que também não é possível votar em André Ventura sem que isso signifique adesão ao Chega ou aprovação do seu estilo? Por exemplo, para marcar a importância de certos assuntos de que só Ventura tem feito campanha, como o caos migratório e o risco que esse caos representa para a coesão social e a viabilidade do nosso modo de vida. Ou então, para vincar, nesta segunda volta das presidenciais, a persistência da grande maioria de mudança das eleições legislativas de Maio, de modo a prevenir qualquer tentação de usar uma eventual vitória de Seguro para justificar o imobilismo, quando não precipitar um regresso ao domínio do PS. 

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Venha fazer Votorologia com o Observador: simule o resultado da 2.ª volta das Presidenciais

Para os oligarcas, porém, não é assim. Dizem-nos que não estamos a escolher entre dois políticos que são candidatos a presidente, mas entre democracia e ditadura. É mesmo a democracia que os preocupa? É que o pânico sobre o que Ventura pode imaginariamente fazer à democracia raramente corresponde ao repúdio pelo que José Sócrates e o PS lhe fizeram efectivamente entre 2005 e 2011. A subversão socrática do regime continua a não incomodar os que agora reagem aos cartazes de Ventura como se fossem um golpe de Estado. 

Fingir que estamos nos anos 1930 tem o efeito de desligar o debate político da realidade: ficamos à espera de marchas de camisas castanhas, e deixamos de debater o colapso dos serviços públicos; passamos a estar de alerta contra o novo Hitler, e não precisamos de nos preocupar com as políticas migratórias ou a divergência económica da Europa em relação aos EUA. No caso das presidenciais, eis-nos empurrados para montar barricadas contra Ventura, e dispensados de procurar saber quem é António José Seguro. A suposta mobilização cívica esconde o que é de facto uma forma de despolitização. 

O anti-venturismo histérico está, neste momento, a sujeitar o país ao risco de eleger um candidato que foi isento do devido escrutínio e debate, apenas porque não é André Ventura. Somos convidados a votar em António José Seguro, não como se estivéssemos a votar numa pessoa real que foi deputado, ministro e secretário-geral do PS, mas na “democracia” ou até no “humanismo”. O candidato Seguro foi esvaziado de todo e qualquer conteúdo político, e reduzido a um busto da república para pôr em Belém. Ninguém lhe perguntou o que pensa dos governos de José Sócrates e de António Costa, governos que ele, deputado de Sócrates, nunca criticou. Ninguém lhe perguntou que significado dá à mudança de opinião do país nas eleições de Maio, e que só pode ter contrariado a inclinação que ele, como socialista, sempre teve. Ninguém lhe perguntou que relações espera ter com este governo, se por exemplo o governo optar por uma orientação reformista apoiada na maioria parlamentar de direita. Seguro precisou apenas de dizer que o seu adversário “quer mudar de regime”. Basta-lhe não ser Ventura. Não deveria bastar. 

Nada disto é saudável. Os oligarcas estão a usar a histeria anti-fascista para empobrecer a democracia. No Reino Unido, vão mais à frente. O governo trabalhista promoveu o cancelamento das próximas eleições locais nos municípios onde o partido de Nigel Farage pode ganhar. Eis a última estação desta campanha contra o “fascismo”: suspender a democracia a pretexto de defender a democracia. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Filme - Manchester by the Sea

"Manchester By The Sea Chorale"

 https://www.youtube.com/watch?v=2aXtLtfv2bE&list=RD2aXtLtfv2bE&start_radio=1




Desporto - Andebol (Portugal 5º lugar no Europeu)

 














Desporto - Andebol (Campeonato Europeu)

 


O melhor estava para vir: Portugal vence Suécia nos últimos segundos e conquista histórico quinto lugar no Europeu de andebol

Após uma primeira parte equilibrada num jogo em que o desgaste físico teve peso, Suécia tentou fazer prevalecer maior experiência mas Portugal fez das fraquezas forças para virar o resultado (36-35).

Martim Costa foi o melhor marcador de Portugal frente à Suécia, com nove golos, e voltou a sentenciar o momento decisivo nos segundos finais

Começou em 25%, passou para os 50%, subiu aos 75%, acabou de forma natural com 100%. A última ronda de Portugal na main round foi um exemplo paradigmático de tudo o que justifica a alcunha de Heróis do Mar à equipa que tem batido recordes atrás de recordes. Por partes: vinha de uma igualdade com sabor a derrota frente à Noruega na sequência dos desaires com Alemanha e França, soube bater a Espanha que ganhara na ronda anterior aos gauleses com a maior margem de sempre em duelos ibéricos, viu depois a França cair do Europeu com uma derrota diante da Alemanha e fez a festa com o “atropelo” da Dinamarca com a Noruega. Já não era possível chegar às meias-finais, todas as forças foram canalizadas para o objetivo de entrar na partida de atribuição do quinto e sexto lugares. Mais uma vez, a meta foi definida… e atingida.

Tudo parecia escrito nas estrelas quase como destino. A histórica vitória contra a Dinamarca até podia ter esse condão de fazer subir as ambições nacionais mas todos sabiam que não só o Europeu é cada vez mais um Mundial com menos equipas em termos de competitividade como Portugal iria entrar num “grupo da morte” só com antigos campeões olímpicos, mundiais e europeus à exceção da Noruega, que foi duas vezes vice-campeã mundial. O foco estava em melhorar o ano de 2020, onde a Seleção acabou em sexto depois de perder com a Alemanha mas conseguiu o resultado mais alto de sempre na competição, um ano que ficou marcado pela goleada histórica em Malmö diante da Suécia – que seria agora o adversário pelo top 5.

“Estar a lutar pela melhor classificação de sempre é espetacular. Após o jogo com a Dinamarca, sabíamos que tínhamos feito história, sabíamos que tinha sido incrível. Demos uma alegria aos portugueses mas o nosso objetivo desde o início era fazer melhor que o sexto lugar de 2020. Temos essa oportunidade, queremos conquistar esse quinto lugar. O nosso caminho ia ser difícil, todas as equipas que estavam no nosso grupo podiam perfeitamente estar nas meias-finais ou até mesmo ganhar o Europeu. Agora há que colocar o cansaço de lado e encontrar soluções”, apontara o lateral Francisco Costa, que era o melhor marcador da prova a par do dinamarquês Mathias Gidsel (54 golos). “A fase de grupos e a main round foram muito exigentes mas quando se joga para o quinto e sexto, sabendo que podemos melhorar a melhor classificação de sempre… É o último jogo do Europeu, temos que encontrar forças”, acrescentara o jovem jogador.

“A Suécia tem grandes jogadores, dos melhores do mundo. Tem bons guarda-redes, um excelente central, excelentes defensores. A nossa estratégia vai ser igual à dos outros jogos: temos que entrar com tudo, temos que ter uma boa defesa, conseguir defender bem e depois contra-atacar e marcar alguns golos fáceis. O cansaço vai ser evidente e acho que o jogo se vai decidir nos últimos minutos. Por isso, quem conseguir gerir melhor o cansaço vai conseguir tirar vantagem. Mas vamos entrar com tudo, é o último jogo, temos que encarar como se fosse uma final porque para nós é mesmo. Está em disputa o melhor lugar de sempre. Não pode haver cansaço, nem medos, há que ir com tudo e conseguir o quinto lugar”, apontara o lateral.

O histórico não era propriamente favorável mas havia a tal inspiração que vinha desse histórico Europeu de 2020, quando Portugal foi a Malmö no início da main round dessa prova para silenciar um pavilhão com mais de 10 mil pessoas com uma goleada por 35-25. Mais: no último Mundial, apesar do empate a 37, os Heróis do Mar não foram em nada inferiores, confirmando que aqueles tempos em que jogar com a Suécia era derrota garantida estavam longe apesar desse currículo com quatro medalhas de prata em Jogos, quatro títulos mundiais entre oito finais e mais cinco títulos europeus em seis finais disputadas.

Os suecos até foram os primeiros a marcar por Lukas Sandell mas Portugal não demorou a recuperar com golos de Martim Costa e Victor Iturriza para o 3-1 em três minutos. A defesa nacional estava um pouco mais subida do que tem sido habitual, o que criava maiores dificuldades ao ataque organizado dos escandinavos, e só mesmo nas saídas rápidas conseguiam encontrar espaço para baterem Diogo Valério. Atrás estava tudo bem, à frente era dia de Martim show, com quatro golos nos quatro minutos iniciais que só não tiveram um maior impacto com seis minutos decorridos porque António Areia falhou um sete metros. Ainda assim, antes dos primeiros dez minutos, Michael Apelgren parou o encontro perante a superioridade da equipa nacional no arranque a todos os níveis, que conferiam uma vantagem de dois golos com sete minutos (6-4).

Aos poucos, essa paragem teve efeito. A Suécia foi encontrando outras soluções no plano ofensivo sempre com Jim Gottfridsson a mostrar o porquê de ser um dos melhores centrais da atualidade e Portugal chocou contra novos dilemas em ataque organizado, cometendo duas falhas técnicas sem remate que permitiram o empate a oito e tendo mais um remate travado por Andreas Palicka que só não colocou os suecos na frente porque Gustavo Capdeville saiu do banco para defender dois livres de sete metros e fechar o ângulo num tiro da ponta que bateu no poste antes de Martim Costa marcar o 9-8 (16′). Cap entrou muito bem no encontro, Palicka também começou a aparecer e a partida ficou equilibrada mas com menos golos, com Paulo Jorge Pereira a parar a partida para travar as saídas rápidas dos suecos com ataques mais pausados em 7×6 com Iturriza e Frade como pivôs que teve o condão de abrir mais o encontro mas nem por isso estabelecer um novo distanciamento nacional no resultado, com golos atrás de golos até ao 16-16 ao intervalo.

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O recomeço com bola para a Suécia deu a segunda vantagem do encontro aos suecos com mais uma grande entrada de Gottfridsson aos seis metros mas Portugal teve também uma boa notícia com o empate marcado por Francisco Costa, que se estreava assim a marcar na partida. Lukas Sandell começava a aparecer mais na primeira linha, Andreas Palicka fez duas defesas importantes e pela primeira vez a Suécia chegou aos dois golos de vantagem pela primeira vez (21-19) ainda nos dez minutos iniciais da primeira parte, que fecharam com um empate a 22 e com sinais de desgaste claro em muitos jogadores nacionais e suecos, que tinham nas pernas sete encontros ao mais alto nível sem grandes margens para rotações e disputados até ao final. O coração também ia ter peso nas decisões finais, com Francisco Costa a ter outro protagonismo no jogo.

Os erros começavam a ter outro peso, com uma falha técnica dos suecos a permitir a Francisco Costa fazer o 26-25 e recolocar mais uma vez Portugal na frente de um encontro que voltaria a estar em aberto até ao final, com Mikael Appelgren a entrar para a baliza da Suécia mas a não conseguir travar mais uma combinação só ao nível dos melhores centrais com Rui Silva a assistir Victor Iturriza. A parte física tinha um peso crescente (nos derradeiros minutos Salvador Salvador caiu numa ação defensiva e ficou mesmo no chão para conseguir recuperar o fôlego…), a experiência da Suécia a gerir uma vantagem mínima também e os últimos três minutos chegaram com os escandinavos na frente por 34-33 antes do empate de Martim Costa e da paragem técnica dos suecos para prepararem a última jogada no minuto final para a história, que teve um empate a 35, um desconto de tempo de Portugal e um grande golo de Martim Costa… nos últimos segundos.



Observador - «"Pot-pourri" contra Ventura»: a fita do ano (Alberto Gonçalves)

 

(sublinhados pessoais)

«"Pot-pourri" contra Ventura»: a fita do ano

O dr. Seguro é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as expectativas que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas.

Já temos os “católicos por Seguro”, os “maçons por Seguro”, os “médicos por Seguro”, os “não-socialistas por Seguro”, os “sociais-democratas por Seguro”, os “socialistas por Seguro”, os “artistas por Seguro”, os “leninistas por Seguro”, os “liberais por Seguro”, os “ex-presidentes da República por Seguro” e os “ex-candidatos à presidência da República por Seguro”. Aguarda-se a todo o momento o apoio ao candidato por parte dos astrólogos e da Federação Ribatejana de Pelota Basca.

Tamanho consenso devia ser irritante. No caso, o consenso é sobretudo esquisito, visto que se ergueu num ápice e em volta de alguém tão improvável. Há uns meses, ninguém se lembrava do dr. Seguro. Há uns anos, o dr. Seguro não lembrava a ninguém. Durante três décadas de carreira política, o dr. Seguro, outrora o vagamente popular “Tozé”, foi o típico apparatchik que subiu sem estrondo na hierarquia partidária. Após atingir o topo, viu-se enxotado sem maneiras e decidiu hibernar. Não deixou uma marca, uma ideia, sequer um espaço vazio. A sua ausência notou-se tanto quanto a presença: não se notou.

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Se calhar é exactamente essa insipidez que explica parte do apelo (?). O dr. Seguro é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as expectativas que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas (não se imagina que a presidência do dr. Seguro satisfaça em simultâneo o prof. Cavaco e o dr. Tavares), mas a fase do desapontamento virá a seguir. Por enquanto, o objectivo é unir, juntar, agregar, enlatar. Se me permitem ultrapassar a quota de analogias por crónica, a extraordinária pluralidade dos apoiantes do dr. Seguro evoca menos o proverbial albergue espanhol do que o metropolitano de Tóquio, em que cabem todos, e os que arriscavam ficar de fora são empurrados à força para o interior da carruagem.

A segunda explicação para o consenso prende-se com a circunstância de o dr. Seguro ser um socialista, embora hoje a maioria dos seus repentinos apoiantes finja que não reparou e ele próprio disfarce. Seria inconcebível que a esquerda pura e dura como uma broca manifestasse por um candidato da “direita” um milésimo do frenesim que a “direita” dedica ao dr. Seguro. Não existe um cenário plausível em que o dr. Tavares caminhasse, ainda que metaforicamente, ao lado do prof. Cavaco para catequizar o povo acerca das vantagens do voto no dr. Cotrim.

A esquerda não cede à “direita” nem deseja cair nas graças da “direita”, que no fundo contempla com nojo. Em compensação, a “direita” encontra-se sempre mortinha por mostrar à esquerda que o nojo é imerecido, que também dispõe de “humanistas” iguais aos “humanistas” que berram pelo Hamas, por Maduro e pelos aiatolas, que todos partilham um chão comum. E a “direita” não perde uma oportunidade de se sentar no chão comum e tocar na guitarra cantigas fraternas que só terminam quando a esquerda desfaz a guitarra em cacos. Porém, a “direita” não desiste.

A terceira e talvez mais decisiva explicação para a União Nacional em curso resume-se a um nome (ou a dois): André Ventura. A quase totalidade dos argumentos usados para defender a eleição do dr. Seguro converge para a necessidade imperiosa de não se eleger o dr. Ventura. A coisa formula-se invariavelmente com requintes dramáticos e invariavelmente avisa para o que aconteceria se, por absurdo e loucura colectiva, o dr. Ventura chegasse a Belém. São imagens fortes: a Constituição em chamas, a “governabilidade” [sic] moribunda, o país exilado nas franjas do submundo. E isto sem contar com a deportação em massa de imigrantes, os campos de reeducação para ciganos e, pior, a submissão dos cidadãos em peso a 37 audições diárias de “A Portuguesa”.

Mesmo admitindo com periclitante certeza de que semelhante distopia é o que o dr. Ventura (e um terço dos eleitores) quer, a União Nacional não informa de que modo o dr. Ventura procederia para chegar lá. Por um lado, vai por aí uma enorme desconfiança na solidez das “instituições” e um entendimento desmesurado do alcance dos poderes presidenciais. Por outro lado, os abundantes inimigos do dr. Ventura estão por decidir se o homem é o taberneiro sem etiqueta de que se riem às terças, quintas e sábados, ou o demiurgo malvado que os aterroriza no resto da semana, capaz de proezas medonhas e desmesuradas.

Eu, que não rio do dr. Ventura e não o receio (nem venero), julgo que se atribui à personagem propriedades excessivas: são tais os esforços para não o “normalizar” que o pintam com aptidões paranormais. Não alinho em crendices. O dr. Ventura é apenas um político que, às vezes com razão e às vezes sem ela, ameaça a famosa “estabilidade” a ponto de federar os beneficiários desta num curioso pot-pourri. Quem não aprecia excessivamente a “estabilidade” e os seus beneficiários, votará no dr. Ventura. Quem acha que a “estabilidade” nos tem dado sucessivas alegrias, votará no pot-pourri, perdão, no dr. Seguro. E nenhuma das escolhas garante o resultado pretendido.

Reflexão - Jorge Marrão e Jaime Nogueira Pinto - Novos impérios e um novo desenho do Mundo

Programa "Isto é o povo a falar", ou... "o que vale a pena ouvir".


https://www.youtube.com/watch?v=TXVUoXaT3Fk




27 de janeiro 2026 - Vetvals

Em 27.01.2026 no Colégio Valsassina, com Mário Guerra, Carlos Amorim, Luis costa, Luis Miranda, José Azevedo, João Francisco, Hugo, Luísa, Alfredo e um belo brownie. Faltaram, dos ainda operacionais, o Alberto Pina Gil, o José Pina Gil, o Tomás Melo, o Carlos Barroso e o Manuel Piedade. 



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Observador - O voto é secreto. A consciência também deveria ser (José Borralho)

 

(sublinhados pessoais)

O voto é secreto. A consciência também deveria ser

Há uma linha subtil, mas decisiva, entre dizer “Esta é a minha escolha” e afirmar, ainda que implicitamente, “Esta é a escolha certa”. É aqui que o espaço democrático começa a degradar-se.

Há expressões que atravessam gerações e resistem ao tempo porque encerram princípios estruturais. “O voto é secreto” é uma delas. Não é um detalhe técnico do processo democrático; é uma salvaguarda profunda da liberdade individual. O segredo do voto existe para proteger o cidadão da pressão, do medo, da retaliação e da manipulação. Existe para garantir que, naquele instante decisivo, cada pessoa escolhe por si e apenas por si.

No entanto, assistimos hoje, sobretudo em momentos eleitorais decisivos, a um fenómeno cada vez mais intenso: figuras públicas, líderes de opinião e profissionais da influência a declararem publicamente o seu voto, acompanhando essa declaração de argumentos cuidadosamente construídos para convencer, mobilizar ou condicionar outros. Muitas vezes, não se trata apenas de partilhar uma escolha pessoal, mas de moldar consciências.

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Do ponto de vista legal, é importante dizê-lo com clareza: não existe, em regra, ilegalidade neste comportamento. A democracia protege a liberdade de expressão tanto quanto protege o segredo do voto. A lei limita a coação, a propaganda em contextos específicos e o abuso direto de poder, mas não impede a manifestação de opinião política. E ainda bem. Uma democracia sem debate seria uma democracia vazia.

Mas a legalidade não esgota a questão. Há uma diferença fundamental entre o que é legal e o que é eticamente responsável.

Quando falamos de pessoas cuja profissão, estatuto ou alcance assenta precisamente na capacidade de influenciar – seja no espaço mediático, cultural, empresarial ou digital – entramos num território diferente. Não porque essas pessoas devam ser silenciadas, mas porque o impacto da sua voz não é neutro. Influência implica responsabilidade. Sempre.

Há uma linha subtil, mas decisiva, entre dizer “esta é a minha escolha” e afirmar, ainda que implicitamente, “esta é a escolha certa”. Entre partilhar uma convicção e construir um discurso moralizador onde quem pensa de forma diferente é visto como ignorante, irresponsável ou perigoso. Quando o debate deixa de convidar à reflexão e passa a induzir culpa, medo ou vergonha, algo essencial se perde.

É precisamente aqui que o espaço democrático começa a degradar-se. Não apenas pela tentativa de influenciar, mas pela forma como se desqualifica quem escolhe de modo diferente.

Nos últimos tempos, tornou-se comum ouvir (de forma explícita ou velada) que quem vota em determinados candidatos é “burro”, “pobre”, “mal informado”, “sem formação” ou “sem capacidade crítica”. Este tipo de discurso não é apenas ofensivo. É profundamente antidemocrático.

Reduzir milhões de cidadãos a rótulos simplistas é um sinal claro de arrogância moral e pobreza argumentativa. É substituir o debate por insulto. É trocar ideias por caricaturas. É, no fundo, declarar que só um determinado perfil social, económico ou académico tem legitimidade para decidir o futuro coletivo. Ora, a democracia não foi criada para premiar elites intelectuais nem para humilhar quem pensa de forma diferente. Foi criada precisamente para garantir que todos, independentemente da sua condição, escolaridade ou contexto, têm direito a voz e escolha.

Tratar o voto alheio como um erro de ignorância não revela superioridade ética; revela medo do confronto de ideias.

Este tipo de discurso cria fraturas perigosas. Divide o país entre “esclarecidos” e “atrasados”, entre “bons cidadãos” e “maus votantes”. Alimenta ressentimento, radicaliza posições e destrói pontes de diálogo. Pior ainda: empurra muitas pessoas para o silêncio, não por falta de opinião, mas por receio de humilhação pública.

O paradoxo é evidente. O voto é secreto para libertar o cidadão do medo, mas o espaço público transforma-se num palco de intimidação simbólica. Uma pressão que não vem do Estado, mas da opinião social amplificada. Uma pressão que não ameaça com punições legais, mas com desprezo, exclusão e julgamento moral.

Há também um fenómeno menos discutido, mas igualmente relevante. Muitas declarações públicas de voto não nascem apenas de convicções profundas. Nascem do medo de não falar. Medo de ser interpretado como cúmplice. Medo de ser associado ao silêncio. Medo de perder estatuto, relevância ou pertença. Em muitos casos, não se fala para defender uma ideia; fala-se para evitar um rótulo.

E isso deveria inquietar-nos.

Uma democracia madura não exige alinhamento público permanente. Exige capacidade de discordar sem desumanizar. Exige cidadãos capazes de ouvir argumentos sem precisar de os absorver. Exige, acima de tudo, confiança na inteligência, na autonomia e na dignidade do outro.

O verdadeiro contrassenso não está em alguém dizer em quem vota. Está em defender a democracia enquanto se tenta reduzir a liberdade emocional e intelectual dos outros. Está em proclamar a diversidade, mas apenas quando ela coincide com a nossa própria visão. Está em confundir esclarecimento com arrogância e convicção com superioridade moral.

Ser democrata, neste contexto, é recusar a lógica da pressão disfarçada de virtude. É rejeitar a ideia de que há votos nobres e votos indignos. É acreditar que cada português tem o direito e a capacidade de decidir por si, sem precisar de ser corrigido, iluminado ou envergonhado.

Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer não seja se as pessoas devem ou não declarar o seu voto. Talvez seja outra, bem mais incómoda: estamos a criar um espaço público que eleva o debate e respeita o cidadão ou um ruído permanente que fragiliza a democracia em nome da moral?

No fim, o voto continuará a ser secreto. A questão é saber se a nossa consciência coletiva ainda respeita verdadeiramente essa liberdade ou se tem medo dela.