segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Observador - A democracia na tenda (Rodrigues do Carmo)

 


(sublinhados pessoais)

A democracia na tenda

O que ficará de todo este momento de alucinação e folclore é justamente a falta de casas e o regresso da perigosa ideia de que uma minoria se transforma no “povo” assim que compra um megafone

Um dos defeitos das eleições é a maçadora possibilidade de ganharem os outros. Uma pessoa passa anos no Tik Tok a ver vídeos sobre o capitalismo, o patriarcado, o colonialismo, o heteronormativismo, o cis qualquer coisa, a Palestina, o clima e a compostagem, e depois aparece um electricista de Famalicão que mete uma cruz no quadradinho errado e eis-nos com 230 deputados, regimento, comissões, maiorias, oposições, debates, eleições burguesas, uma maçada.

Felizmente brotou a Assembleia Popular, recuperada do vasto catálogo de êxitos democráticos do  PREC e pronto, resolve-se o problema.

Na Assembleia Popular não são precisos votos, deputados ou, Deus nos livre, eleitores. Bastam umas dezenas de criaturas exóticas, um megafone, três palavras acabadas em “fobia” ou “ismo”, uma relação difícil com o sabão, um concerto solidário de artistas da bolha e a convicção inabalável de que montar uma tenda numa praça confere imediatamente mandato popular.

A partir daí, tudo é simples. Quem arma a Quechua, representa o povo. Quem foi eleito por milhões de portugueses representa “o sistema”.

Para salvar a Humanidade, os campistas anunciam então a intenção de levar o “poder popular” a São Bento e explicar aos deputados como funciona a democracia do povo. O pormenor de os deputados terem sido escolhidos pelo povo não os perturba. A democracia verdadeiramente democrática começa precisamente quando não gostamos do resultado das eleições.

Durante quase cinquenta anos andámos equivocados, a pensar que democracia passava por votar, eleger representantes, aprovar leis e substituir governos.

Afinal passa por uma criatura com um arganel no nariz e ar esgrouviado, com um megafone a informar  a nação de que ela e vinte e sete amigues parecides, decidiram outra coisa.

Isso significa que, se tudo correr de forma revolucionária e expedita, poderemos brevemente fechar São Bento e governar o País a partir da Assembleia Popular da Rua da Betesga. A Constituição será substituída por  uma bandeira da Palestina, o Diário da República por uma conta do Tik Tok e o Tribunal Constitucional por um brasileiro de roupa sebosa e cara tapada, a ameaçar atirar tijolos contra o primeiro-ministro.

À frente de tudo, os direitos. A esquerda folclórica, agora reciclada pelo Tik Tok e Instagram, descobriu que para transformar um desejo numa obrigação de terceiros, basta chamar-lhe “direito”.

Berra-se “direito à habitação” e desaparecem por encanto o preço do terreno, o cimento, o ferro, os salários, os arquitectos, as licenças, os juros, os impostos, as obras, a manutenção, etc.

As casas deverão nascer espontaneamente de palavras de ordem como, na  velha ciência medieval, se acreditava que os ratos nasciam espontaneamente da palha.

A palavra “direito” tornou-se assim uma espécie de cartão de crédito ideológico sem limite, muito agradável porque a factura chega sempre à morada de outra pessoa.

Já o conceito de “povo” ganhou nuances.

Quando as pessoas votam “mal”, são um eleitorado desinformado, reaccionário, ou vítima da extrema-direita.

Quando os representantes eleitos por esses deploráveis, aprovam uma lei, ou a polícia executa uma ordem legítima, trata-se de violência institucional, força desproporcionada, e repressão fascista.

Quando cinquenta figurantes dos filmes do Mad Max levantam o braço numa praça, e decidem não cumprir a lei, temos “povo”,  resistência e uma criatura embrulhada num lenço fedayn a explicar que o povo está a lutar contra o “fássismo, pá”.

Para estas luminárias, uma manifestação só é democrática enquanto ninguém lhes diz que não podem fazer aquilo que lhes apetece. Assim que aparece uma autoridade a dizer “isto não pode ser”, instala-se imediatamente a ditadura.

Não sou jurista, mas desconfio de que o direito à manifestação ainda não inclui o direito de adquirir uma praça por usucapião, transformar o espaço público em parque de campismo e chamar fascista a qualquer pessoa que pergunte a que horas pensam levantar a tenda.

A imprensa, claro, tratou estes movimentos como se tivessem germinado espontaneamente depois de uma chuvada de Outubro, acarinhando-os, entusiasmando-se com as suas verbalizações, amplificando os seus vagidos, enfim, uma festa.

A verdade é que, olhando com alguma atenção, encontramos por lá os flautistas de Hamelin do PCP, BE, Livre, colectivos marxistas, grupelhos de lunáticos,  organizações “antifascistas”, movimentos climáticos, associações “antirracistas” (a novilíngua é uma maravilha), colectivos LGBT, e activismo pró-Palestina (antissemitismo, em português).

Nem me passa pela cabeça que isto seja algo mais do que coincidência, Deus me livre. Até porque quando qualquer pessoa normal fala de habitação, vem-lhe logo à cabeça, de sopetão, o capitalismo extractivo, o colonialismo, o palestinianismo, o género, a polícia, o clima e, acaba inevitavelmente a acusar o supermercado de ser uma estrutura de violência sistémica contra o grão-de-bico.

Já agora, de onde vem o dinheiro para as tendas, as multas, os megafones, os jambés, a paparoca, os telemóveis, os arganéis, os cartazes, o tabaco e a liamba?

Podemos fingir que não sabemos de nada, mas há organizações internacionais a financiar o activismo  “das causas”, redes transnacionais a apoiar organizações e projectos anti-ocidentais, e o dinheiro escorre por uma enorme cornucópia de fundações, ONG, colectivos e associações, que torna uma matrioska num modelo de transparência empresarial.

A Guerrilla Foundation, por exemplo apoia grupos como a Climáximo, e “Casa para Viver”, para superar o “capitalismo extractivo”,  salvar o planeta e isso.

No plano internacional, o milionário Neville Singham, que vive na China, financia uma complexa rede de organizações e projectos radicais, incluindo  Code Pink, The People’s Forum, BreakThrough News, Tricontinental, etc. entidades associadas a campanhas anti Ocidente, antissemitas e outras dezenas de “istas” da moda,  que muito convém ao Sr. Xi Jin Ping.

O mesmo vale para a Irmandade Muçulmana que ajuda a distribuir fartos dinheiros do Qatar e outros, por instituições, flotilhas e grupos esquerdistas e islamistas do Ocidente..

Existe uma notória convergência de causas entre extrema-esquerda, anticapitalismo, activismo identitário, movimentos “antissionistas” e redes islamistas que, apesar de terem ideias aparentemente  diferentes sobre mulheres, homossexuais, religião e liberdades individuais, se juntam na mesma tenda, contra o inimigo comum. É pois óbvio que  não estamos perante uns “jovens” vítimas do “sistema”, que  se encontraram casualmente no Rossio para comparar piercings, descobriram que todos tinham uma tenda e decidiram salvar o proletariado.

Apesar de tudo isto ser muito cómico, há aqui uma questão que não tem graça nenhuma.

A democracia liberal repousa na disposição para aceitar a derrota. Ser-se democrata significa aceitar que milhões de concidadãos possam escolher políticas que se considerem erradas, governos que se desprezem e partidos que não se suportem. E reconhecer que a única alternativa é voltar a votar, não substituí-los por cinquenta alucinados com cartazes, seguidos por algumas centenas de simplórios e calhaus com olhos que, na sua máxima expressão nacional, são menos do que os espectadores de um jogo de futebol da segunda liga.

Este frenesim importado de Paris acabará por desaparecer e algumas das criaturas mais folclóricas regressarão aos obscuros ecossistemas de onde vieram.

A crise da habitação, infelizmente, perdurará.

Durante anos os governos da “justiça social” aumentaram a procura promovendo intensos fluxos migratórios, baixaram a oferta amarrando-a a uma teia de licenças, custos, regras “sociais”,  impostos, travões administrativos e hostilidade à construção e ao lucro, e incentivaram os baixos salários pela importação descontrolada de mão de obra barata. Agora os autores e apoiantes do descalabro, descobrem, indignados, que há mais gente a procurar casas do que casas disponíveis.

O que ficará de todo este momento de alucinação e folclore é justamente a falta de casas e o regresso da perigosa ideia de que uma minoria se transforma instantaneamente  no “povo” assim que compra um megafone e regurgita umas larachas antediluvianas, exumadas da vala comum do marxismo

No fundo, o espectáculo destes dias resume bem a infantilização da política. Monta-se uma tenda, grita-se “revolução” e espera-se que os amanhãs cantem. Enquanto o alucinogénio ajuda, tudo parece épico. Depois passa o efeito. Fica a barraca, a ressaca, a descoberta de que o capitalismo abriu outra vez às nove, e que o poder popular, a assembleia popular, e a resistência anticapitalista consistiam em vinte criaturas ignorantes e patéticas, embrulhadas em lenços terroristas fabricados no Vietname, a telefonar de um iPhone produzido por uma multinacional americana para pedir a uma plataforma capitalista que lhes traga uma pizza que os pais pagam pelo Mbway.

Observador - A inferioridade moral da esquerda espanhola

 


(sublinhados pessoais)

A inferioridade moral da esquerda espanhola

É este rasto indecoroso de crimes, corrupção, atentados ao Estado de Direito democrático, danificação das instituições, incompetências, obscenidades e abusos que o PS em Portugal tanto aplaude.

Poucos minutos depois de receber a notícia da catastrófica colisão de dois comboios de alta velocidade, Óscar Puente, o Ministro do PSOE para os transportes, preparava mais um dos seus infames tweets. A prioridade sobre o terrível acidente, e ainda mais terríveis consequências humanas, vinha sob a forma habitual: a hostilidade e o ódio permanente aos adversários políticos. Desta vez era ainda a respeito da vitória de Lula no Brasil. A extraordinária prosa de Puente dizia apenas isto: “A superioridade moral da esquerda”. Um tweet que resume, no tempo e no conteúdo, todo o cadastro de um político e todo um rasto de um governo.

Já nem vou perder tempo com a mediocridade política de um dirigente nacional, pertencente ao núcleo duro de Sánchez, cuidar mais de um rixa política num país longínquo do que de uma calamidade nacional que cai no centro das sua funções. Agora, é preciso sublinhar a marca de água desta inefável criatura: a política do ódio, da desqualificação dos adversários, sejam eles quais forem, e a encarnação de uma missão política que tem como alfa e ómega a protecção do poder incompetente e corrupto do PSOE. São estas evidentes virtudes o que tanto o recomendam para pertencer ao núcleo duro do padrinho desta convenção de podres políticos, Pedro Sánchez.

Tudo converge em Puentes, como nos seus pares, para o retrato mais sinistro de um político em democracia. As clientelas partidárias com que encheu a operadora da rede ferroviária em Espanha, à semelhança do que o PSOE fez nas restantes instituições. A incompetência no uso e execução de fundos europeus. O recurso soviético à propaganda até ao ponto da mais profunda náusea. O cinismo na acção política, na subversão da democracia, nas alianças escolhidas e na violência verbal permanente. E, neste trágico episódio, a obsessão pelo “controlo da narrativa” independentemente de qualquer consideração pela verdade, justiça ou simples decência.


Antes de os factos terem sido apurados – que, de resto, seriam impossíveis de apurar sob a batuta de Sánchez, como demonstram a obstrução sistemática ao apuramento da verdade no apagão de 2025, no desastre de Adamuz, na invasão de Ceuta, entre dezenas de outros casos -, esta triste criatura enviou para os órgãos de comunicação social amigos um registo áudio das comunicações entre a sede de controlo e os maquinistas mesmo antes da colisão. E seguiu com a mensagem previamente encomendada: o erro fora “humano” e o humano era evidentemente o maquinista morto que tudo fez para evitar a morte dos seus passageiros. Poucos minutos passaram até que esta “narrativa” fosse destruída pela verdade elementar dos factos e pelas próprias admissões do governo que se seguiram, incluindo a ponderação de interromper a actividade de outras linhas de comboio para reforço de segurança do sistema.

Sendo Puente quem é, o problema não se resume a ele. Com Sánchez, tudo é possível. Incluindo esta maravilhosa coincidência. Foi a irmã de Puente quem Sánchez pôs a instruir a maior fraude eleitoral das últimas décadas na Europa da democracia e dos valores do Estado de Direito. Foi ela quem respondeu às dúvidas dos consulados espanhóis na América Latina sobre a concessão de nacionalidade aos beneficiários da Lei dos Netos – que, na lei, abrangeriam apenas os descendentes dos que foram forçados a exilar-se durante e após a Guerra Civil – no sentido de violar a lei, desvirtuando-a, de modo a encher o universo eleitoral das próximas eleições com gente cujos antepassados tinham abandonado Espanha ainda no século XIX. Os números falam por si: dos quase 164 mil processos validados, o governo espanhol só consegue comprovar o exílio político de 901. Só 0,55% dos beneficiados poderiam comprovadamente gozar da cidadania, e consequente direito de voto, de acordo com a lei. Não fosse a suspensão desta vigarice descomunal pelo Supremo Tribunal e teria sido perpetrado um golpe fatal à democracia espanhola.

Como se isto não bastasse, estas e outras patifarias foram devidamente escoltadas por metade da comunicação social espanhola, cujo repugnante exército de funcionários ainda tem o atrevimento de se chamar a si mesmo “jornalistas”. Porquanto, já se sabe, o primeiro e último soluço desta denegeração política é aparecer atrás da proclamação cínica e mentirosa do anti-fascismo. Trata-se de uma mentira hoje, tal como já era uma mentira ontem, e na qual acreditam os que não são menos dados ao cinismo, nem menos propensos à mentira.

Finalmente, é este rasto indecoroso de crimes, corrupção, atentados ao Estado de Direito democrático, danificação das instituições, incompetências, obscenidades e abusos de poder que o Partido Socialista em Portugal tanto aplaude. Mais, escolhe-o conscientemente como referência: de António Costa a José Luís Carneiro, do comentador mais dependente que se arrasta pelas televisões e jornais até ao artista “politicamente consciente”. É este o exemplo e a esperança do socialismo nacional, o que tem ao menos a vantagem de deixar claro para todos o que é, para este admirável grupelho, o bom governo e a defesa da democracia.


Observador - A acampada venceu o Big Brother. O activista ofuscou o trabalhador

 


(sublinhados pessoais)

A acampada venceu o Big Brother. O activista ofuscou o trabalhador

Quem quer saber duma mulher que morreu presa num tear quando estão assegurados directos 24h por dia das acampadas no centro de Lisboa e Porto? A tenda no Rossio é a versão ISCTE da casa do Big Brother

Tinha 52 anos. Era operária de uma fábrica têxtil de Braga dedicada à produção de tela para tendas. O dia de trabalho devia estar no início para esta mãe de dois filhos pois passavam poucos minutos das 9h da manhã quando o desastre aconteceu. A dado momento a mulher aproxima-se de um tear para introduzir uma bobine de fio. Uma peça da roupa que vestia fica presa no tear. Este, ou não tinha sistema de travagem ou se o tinha ele não funcionou. Como a máquina não trava Maria José Silva acaba trucidada. O óbito foi declarado no local, dizem as poucas notícias dedicadas ao caso. Sim, este acidente de trabalho, apesar dos seus contornos chocantes,  não foi muito além da transcrição da notícia do Correio da Manhã e das reportagens nos meios locais.

Por esses dias — este acidente aconteceu a 21 de Outubro — assistia-se ao vivo e em directo ao triunfo do activista e ao ofuscamento do trabalhador. O activista não só é um produto do nosso tempo como existe pelos meios do nosso tempo: sem os directos a anunciar “a carga policial” que está para começar, que afinal não avançou ainda mas vai avançar daqui a pouco; sem o acompanhamento das deliberações das assembleias populares, seja isso o que for, o activismo era um Big Brother sem televisão, ou seja um flop. O activismo vive das audiências e gera audiências.

As notícias sobre a operária da fábrica esmagada pelo tear remetem para coisas técnicas como os teares, os sistemas de travagem, os fios e as bobines, os seguros ou a falta deles, já o activismo permite dar largas às performances dos revolucionários de tik tok.

A operária da fábrica de tendas não interessa mediaticamente falando. O activista que anuncia que vai dormir dentro de uma tenda numa praça central de Lisboa ou do Porto tornou-se o foco das notícias e das atenções desse cortejo de figuras típicas obrigatórias em qualquer protesto em que se ouça a palavra Revolução. Temos os inevitáveis artistas que interrompem a sucessão de concertos “gratuitos” pagos pelo contribuinte para virem lembrar a esses mesmos contribuintes que devem contribuir ainda mais, agora pela habitação (ou por aquilo que eles entendem que deve ser a habitação pública) e amanhã, tal como antes, pela causa do momento. Temos os advogados que em todo o agente de autoridade português vislumbram um algoz. E, claro, não podemos esquecer as maravilhosas pessoas solidárias, sempre com total disponibiidade de meios e de tempo para o exercício da sua solidariedade. Agora as maravilhosas pessoas solidárias fazem em parte incerta refeições para os manifestantes, com produtos certamente caídos do céu e  transportados por anjos. A estas e outras figuras junta-se ainda o estudante ou activista de sotaque estrangeiro que, com alguma condescendência, explica aos locais que eles têm de empatar menos e tratar de fazer a revolução. Enfim, a  tenda no Rossio é a versão ISCTE da casa do Big Brother.


domingo, 1 de novembro de 2026

Céus


 



The Spectator - When are we going to drop the whole reparations farce?

 

(personal highlights)

When are we going to drop the whole reparations farce?

(Photo: Getty)

That old chestnut, ‘slavery reparations’ – i.e. a practice almost every civilisation has engaged in, but which a barefaced band of progressives has decided Britain is uniquely responsible for – has reared its ugly head again.

The King begins his visit to the Caribbean today, taking in the Bahamas, Guyana, and Antigua and Barbuda where he will attend the Commonwealth Heads of Government Meeting.

Ahead of the visit, Commonwealth Secretary-General Shirley Ayorkor Botchwey has suggested that an apology by King Charles for slavery ‘wouldn’t hurt’, and that the time has come to discuss British reparations.

Let us leave aside the question of why anyone thinks we are in a position to dole out money for anything when, thanks to the incompetence of our governing class, we may soon be going cap in hand to the IMF (which might itself struggle to bail us out).

But let us confront the reparations question. Slavery was a terrible wrong. But while British abolitionism was historically exceptional, our participation in slavery was not. Of at least 41 million Africans enslaved and traded, Europeans accounted for 31 per cent (12.75 million), Arabs 53.6 per cent (21.96 million), the Sokoto Caliphate (in modern-day Nigeria) 9.76 per cent (4 million) and the Ottomans 3.14 per cent (1.3 million).

The Cambridge World History of Slavery estimates that in 1804 there were 45 million chattel slaves worldwide, of which 37 million were in Asia. As Nigel Biggar observes, that amounts in a single year, to almost 14 times the number traded by the British (3.258 million) over 135 years. Nor was British slavery uniquely brutal. 

When the British sought to end the slave-trade in the 19th century, African rulers resisted. This is all rather awkward for the advocates of reparatory justice. The Asante kingdom, in modern-day Ghana, was a major participant in the slave trade – a fact conveniently ignored by the current President of Ghana, who is leading the campaign for reparations from Britain but whose ancestors were probably slave-owners themselves. Curiously, the Commonwealth Secretary-General, herself Ghanaian, is also rather quiet on the matter.

Nor has the All-Party Parliamentary Group for Afrikan Reparations (that is the trendy new spelling for ‘African’ by the way), led by the Labour MP Bell Ribeiro-Addy – who I found myself arguing against on the BBC’s Sunday Morning Live over the weekend – published anything about non-European slavery.

And what about Britain’s leading role in abolishing this wicked trade? David Eltis, perhaps the leading scholar of transatlantic slavery, points that in the 50 years following abolition the British government spent as much on suppression of the transatlantic slave trade as British merchants earned in profits in the preceding 50 years.

There is not the space here to do justice to the role of the Royal Navy’s West Africa Squadron, and the thousands of sailors who lost their lives intercepting slave ships and liberating Africans. Nor the diplomatic campaign Britain waged, that saw the department dedicated to abolition becoming the largest unit in our entire Foreign Office. Nor the 300,000 Brits that by 1791 were boycotting sugar consumption in protest against slavery, nor by 1833 the 1.5 million Britons that had signed petitions demanding  abolition (equivalent to roughly one in six adults). This was, by some reckonings, the first mass human rights campaign in British, and possibly world, history.

But there is another line of argument I increasingly hear progressives making – perhaps in desperation – which is worth also confronting. It is that we do not give sufficiently prominent attention to black abolitionists. This is curious. For I recall that in the grand reception of my former employer, the Foreign Office, directly opposite a landmark painting of Queen Elizabeth II, hangs an enormous portrait of Ignatius Sancho, the prominent black writer and abolitionist. William Wilberforce meanwhile is relegated to a small, sculpted bust on the building’s exterior façade, barely noticeable to passers-by.

Yet even as the government rules out reparations, its argument risk conceding the principle. Consider our mealy-mouthed response to March’s landmark UN slavery resolution, on which we abstained rather than outright opposed. We couched our arguments in ‘intertemporality and non-retroactivity’ – asserting that prohibitions on slavery were not established under international law at the time of the trade – in a triumph of legal gymnastics that would have had Starmer proud. Nor, we said, did we want to create hierarchies of historical suffering that diminish other global tragedies. But it was rather a missed opportunity that amidst the lip service paid to trauma and solidarity, we chose not to mention the campaign we waged – intellectually, morally, diplomatically and militarily – to rid the world of slavery. And other national institutions remain hell-bent on giving away money we don’t have for a cause towards which we should feel no financial obligation. In the Church of England’s case, to the tune of £100 million (for starters) as part of its Project Spire.

The King, tactful diplomat as he is, will navigate these choppy waters on his visit. He will no doubt express sorrow and regret at our part in the slave trade. But he will not issue a formal apology on behalf of the Nation and nor should he – for to do so would only risk opening the door to legal liability and give added impetus to the absurd reparations movement.

We neither invented slavery nor were at all unique in engaging in it. But we did lead the world in bringing about its abolition. That is not a history for which we should be doling out cash; rather it is one of which we should be proud. And ‘historical justice’ cannot mean remembering only half the history.

The Spectator - It’s time to de-decolonise Britain

 

(personal highlights)

It’s time to de-decolonise Britain

(Photo: iStock)

The very idea of ‘decolonisation’, ironically, rests on a racialised view of the human race, with white westerners as uniquely evil oppressors of noble savages. Anybody who’s read more than a page of history knows this is pernicious nonsense. It throws every common human failing on to one ethnic group. The idea of ‘whiteness’ is blatant and grotesque racism, though it is, perversely, expounded mostly by white progressives as part of their eternal social status game. In both Kelvingrove and Redpath, there is a strong sense of showing off about the removals. This is middle-class people preening, the way they used to try to outdo each other’s hats at garden parties.

But still, this nonsense has successfully colonised western culture from top to bottom, a potent poison imposed by this small elite of progressives. And it must be kicked out.

How would this work? The Tories, bless them, have a habit of passing a little law and never enforcing it. Look at their 1996 ban on politics in schools – Sections 406 and 407 of the Education Act forbid the partisan promotion of political views in any subject.

Progressives simply ignored it; the Blair government didn’t even bother to overturn it. Why would they, when they control it? They weren’t going to police themselves.

My proposal? Not one penny of public money should be funding this rubbish. These ideas are destructive and dividing, and they must go. You can decolonise all you want on your own dollar, but no public money should come your way.

The right can no longer afford to be squeamish about this. Progressives, after all, are not timid. Despite being a minority in society at large, they have swept through the institutions with devastating power. And they must be met with equal, or maybe greater, force. That will require bruisers who can cut through the inevitable crocodile tears and sophistic objections.

The de-decolonisers must be versed in the nonsense they are fighting, in order both to understand it and to articulate the case against it clearly and firmly. It’s way past time for the progressive academy to be taken in hand – and, where necessary, defunded.

Am I going too far? I have to wonder what High Priest Nekht would’ve made of people in ancient Egypt who spread strange racialised lies about Egyptian society. We can never know, but I suspect he would’ve dealt with them rather more harshly than I would.

Reflexão - LBC (O autocarro cor de rosa do Sporting)

A tontice das modas, a quanto obrigas... E "o verde"??

E não há um que se indigne?




Observador - Da “democracia” no Brasil

 


(sublinhados pessoais)

Da “democracia” no Brasil

A nossa esquerda excita-se com o Brasil actual, à semelhança das épocas em que se entusiasmou com Cuba, o maoismo, o Bloco de Leste, as “experiências” africanas ou a Venezuela.

No Domingo à noite, o Brasil esteve a um microscópico passo de se tornar uma ditadura, e os brasileiros um povo de trogloditas, radicais e, em suma, fascistas. A verdade é que tudo correu milagrosamente e, ao contrário do que garantiam 764 sondagens e insinuavam os resultados da primeira volta, o Bem venceu e, passadas três semanas de incerteza e medo, o sol voltou a iluminar as terras de Vera Cruz e Vera Fischer, apenas uma entre os trinta e oito mil artistas de renome que apoiaram o candidato do PT. Quatro milhões de votos de diferença, contados após um insuspeito juiz do Supremo Tribunal Federal e antigo advogado do sr. Lula decretar, já com as urnas fechadas, o prolongamento da votação por duas horas, chegaram para impedir as pretensões da ultra-direita e a descida aos abismos da tirania.

O povo, o povo sofrido daquela enorme nação, o povo que mais dia menos dia o sr. Lula tirará da pobreza relativa à custa da pobreza absoluta da totalidade dos brasileiros, o povo, dizia eu, festejou nas ruas. Uma parte do povo festejou em casa: um vídeo na Internet mostrou a alegria na interminável sala do humilde apartamento que Chico Buarque possui no Leblon, um apartamento tão humilde que em Portugal teria marxistas do lado de fora, a denunciar a ostentação dos milionários, os malefícios da propriedade privada e o horror da desigualdade. No Brasil, os marxistas estão do lado de dentro, a celebrar com abraços a beatificação do homem que ofereceu ao país a paz, o amor e a subjugação às directivas de Moscovo e Pequim.

Nem toda a gente é assim bem-intencionada. Alguns desconfiam que houve golpe. Outros, naturalmente ao serviço de cavernícolas, fascistas e etc. como o Wall Street Journal, insinuam que houve golpe. Outros ainda juram que houve golpe. Todos juntos, querem fazer-nos acreditar que a candidatura de um ex-condenado e ex-presidiário, patrocinada por um partido atolado nos maiores processos de corrupção da História Contemporânea e acarinhada por uma rede de interesses que reduziu as instâncias judiciais à tradição dos trópicos, seria capaz de aldrabar um acto eleitoral. Ridículo.

Salvo para os cegos pelo ódio, é evidente que o glorioso triunfo do sr. Lula não se distingue da consagração da democracia e da liberdade. Aliás, a democracia apressou-se a homenagear a liberdade quando, sete míseros minutos depois da confirmação oficial da vitória, mais um dos diversos parceiros do sr. Lula no Supremo Tribunal assinou a ordem para cassar o passaporte de Flávio Bolsonaro, o fascista derrotado, para que de seguida a ordem, e o progresso, fosse caçar o portador do passaporte. Não foi uma surpresa. Num dos debates da campanha, o sr. Lula tinha avisado com todas as letras (bem, quase todas: a dicção e a eloquência não são o forte deste enorme humanista): mal perdesse as eleições e a imunidade parlamentar, o adversário seria perseguido e preso. Nada demonstra tanto a honorabilidade e a saúde de um regime quanto a sanha em enfiar políticos rivais no xilindró.

Por azar, e pura má-fé, Flávio Bolsonaro declinou ser encarcerado por anos ou décadas e, à socapa, escapou-se para Miami sob os auspícios da também fascista administração Trump. A democracia brasileira tremeu mas não quebrou: a título de compensação pela presa que fugiu, os admiráveis jagunços do sr. Lula andam aos berros a exigir a detenção de numerosos “bolsonaristas”, e o próprio sr. Lula voltou a convocar, logo no discurso de Domingo, a necessidade de se censurar, perdão, regulamentar as “redes sociais”. Se o mandato anterior foi pujante em calar e, para os recalcitrantes, prender elementos desagradáveis ao poder, o próximo promete ser um festim. A acusação de que os governos do sr. Lula são brandos para com os crimes ligeiros (homicídio, narcotráfico e tal) não pode ser estendida ao rigor com que tratam os crimes realmente graves, leia-se as críticas a quem manda. “Leia-se”, vírgula, que os jornais locais evitam publicar calúnias aos amos e senhores. Por lá, a democracia é a sério.

E por cá? Por cá, não há “democrata” e “anti-fascista” que não se tenha entusiasmado com a manutenção do sr. Lula, que não tenha desvalorizado a título de mau-perder as francas hipóteses de fraude, que não tenha tratado Flávio Bolsonaro abaixo de foragido e cobarde, que não tenha chamado demónios ou pior aos eleitores derrotados, que não tenha afinal aplaudido o anunciado reforço da asfixia dos direitos civis e o gradual regresso do Brasil a uma autocracia, desta vez graças a Deus de esquerda. A nossa esquerda não venera o sr. Lula apesar das suas medonhas credenciais em matéria de liberdades gerais e honradez pessoal: venera-o justamente porque ele impõe o afastamento face ao Ocidente e a devastação económica típica do socialismo enquanto silencia e castiga os “subversivos”, insusceptíveis de sequer merecer a cidadania. A nossa esquerda excita-se com o Brasil actual, à semelhança das épocas em que se entusiasmou com Cuba, o maoismo, o Bloco de Leste, as “experiências” africanas ou a Venezuela, na medida em que sonha que aconteça cá o que está a acontecer lá. Os “democratas” e os “anti-fascistas” nunca se distinguiram pelo apreço à democracia, e a aversão ao fascismo tem dias e variáveis e fendas que escorrem hipocrisia. Cá e lá.

Livro - Chez Trump

Une autre perspective sur une même réalité. Il est toujours bon de connaître un autre avis, et pas seulement celui de nos « professeurs-docteurs-journalistes ». Comment est-ce possible ?












terça-feira, 27 de outubro de 2026

The Spectator - China will kill our car factories if we don’t join ‘Made in Europe’

 

(personal highlights)

China will kill our car factories if we don’t join ‘Made in Europe’

Forgive yet another reference to my recent car-swapping episode, but let me state emphatically that I was not tempted to follow 10,800 other British buyers last month in choosing a Jaecoo 7, the Chinese SUV hybrid that looks like Range Rover’s ugly sister. Led by cheap EVs, Chinese imports took 23 per cent of the UK new car market in September, while surveys say almost half of car buyers would now consider going for a Chinese, double the level of three years ago. That’s an extreme threat to the survival of our own auto industry, yet we still impose only a 10 per cent tariff on these invaders, apparently in the interest of building wider trade with them.

Just 5 per cent of British-made cars are sold to China (chiefly Jaguar Land Rover and luxury marques such as Rolls-Royce) while 56 per cent, plus huge numbers of Ford and BMW engines, are exported to Europe. You might think that makes it blindingly obvious the UK should negotiate to join the EU’s ‘Made in Europe’ scheme, formally called the Industrial Accelerator Act, which would require us to apply tariffs of up to 45 per cent on Chinese vehicles but would cement our position in complex EU supply chains. Such an alliance would be warmly favoured by European auto makers and might also, for example, allow manufacturing of the Mini Cooper EV to return from Jiangsu province to Cowley, where the plant designated for that project stands empty.

A No. 10 spokesman said last week that the government would ‘welcome the objective to have the UK included in the Industrial Accelerator Act’. Yet the Trade Secretary, Jonathan Reynolds, seems to be dragging his feet, denying that Britain is a back door to the EU for Chinese EVs and saying only that a decision on tariffs will be ‘based on the UK interest’.

Is he being bullied by Ed Miliband, who evidently believes it’s better to have more EVs on British roads wherever they come from? Do Reynolds and Andy Burnham fear the ‘Made in Europe’ label would look too blatant as a first move towards reversing Brexit? Or is the entire Burnham crew incapable of any initiative more controversial than banning loud music on public transport? In that spirit, next week’s Budget looks set to be another extended recital of tough decisions deferred. Meanwhile, the relentless Chinese advance means we’ll soon have no car industry left to defend.

France hots up

I grieve for France as a beautiful country intent on self-harm. All the more so because the discontents that animate the arsonists and looters are either beyond their government’s control or likely to be made worse by their actions. If fuel costs are a crucial issue, rioters should be torching the American embassy in protest at Donald Trump’s war on Iran. If schools are under-resourced, civil disorder that provokes a rise in government borrowing costs can only restrict the flow of funds towards everything the French state so lavishly provides.

There is, of course, one sure way to improve the mood of the citoyens: offer them feasts, preferably laid on by their local communes. But the recent untraced cyberattack that caused freezers in 700 French super-markets to heat up is the most worrying news of all; as conspiracy theories abound and food rots on the shelves, revolution may not be far behind.

Locomotive of the left

It’s a depressing thought that Great British Railways will next year become Britain’s third-largest public sector entity, behind the NHS and the armed forces – perhaps soon the second-largest as military manpower continues to shrink. When the Railways Bill passes into law, this corporate locomotive of the left will assume control of Network Rail and ten train companies whose franchises have already been reclaimed by the state. Four still in private hands – Avanti West Coast, CrossCountry, East Midlands and Great Western – will follow by the end of next year, while rampant rail unions relish the prospect of seeing ‘open access’ competitors such as Grand Central and Hull Trains killed off entirely.

You might think a monster like GBR needs a great British railwayman to run it – if only we had one, AI not yet being capable of reanimating the bronze statue of Sir Nigel Gresley in the concourse of King’s Cross. Downing Street’s actual pick for GBR chairman is Sir John Kingman, the ultimate safe-hands insider whom some of us first spotted as a Treasury press officer guarding Gordon Brown’s flank back at the turn of the century. Shrewd career moves since include a hand in Greater Manchester’s devolution deal before moving to the City to chair Legal & General and Barclays UK and bagging seats on the boards of the Royal Opera House and National Gallery.

Richard Tice of Reform UK calls this £250,000-a-year appointment ‘a civil service stitch-up’, missing the point that the zero-rail-experience appointee may be the only Establishment big-shot with Labour cred willing to take a no-win job under ever-changing, decision-ducking transport ministers. But Kingman is clever enough to learn which signal levers to pull – and considerably better networked than his own dysfunctional railway.

Ave Maria

It was at King’s Cross this week that I chatted to a Romanian train cleaner whom I often see shepherding stressed travellers towards the correct platforms. I’ll call her Maria. Once a teacher in her home country, she reached these shores in 2009, when a wave of Romanian and Bulgarian arrivals was provoking the hostility and fear that has since come to dominate the political climate.

Maria toils long shifts in the kind of work native Britons shun, pays tax, radiates cheerfulness and takes pride both in the cleanliness of her trains and the settled lives of her family here. We forget what a blessing immigration can be, for them and for us.

Livros - Conservadorismo (Crítica XXI)

 






Reflexão - "Vultos" (LBC)

 

Mais "vultos"...

"Não gostei do que vi"? 

Que gente é esta?




domingo, 25 de outubro de 2026

Youtube - The Reason Why Western Civilization is Collapsing (Matt Walsh)

 



Observador - A mentalidade revolucionária e nós (Miguel Morgado)

 


(sublinhados pessoais)

A mentalidade revolucionária e nós

A questão que se coloca, hoje, não é se a mentalidade revolucionária ainda está viva, mas se a sociedade das liberdades está disponível para derrotá-la.

A exaustão espiritual da Europa é patente em todos os aspectos da vida social do nosso tempo. Para alguns, o indiferentismo generalizado e convertido em regra de vida é tomado por triunfo da liberdade. Mas não é.

Os alicerces e as instituições da sociedade assente nas liberdades individuais, na prosperidade económica e na coesão cívica depende de uma dose regular de investimento imaterial. Depende da aceitação e adesão da grande maioria da população aos “valores” e bens que estão na base de toda essa infraestrutura. Não se trata aqui de esforço intelectualizado, nem da aparição regular em comícios vociferando palavras de ordem. É outra coisa a que os franceses há muitos anos chamavam moeurs.

Os moeurs eram as crenças e os “valores” convertidos no quotidiano em comportamentos, gestos, reflexos, maneiras, em louvores e reprovações espontâneas. No fundo, a democracia liberal, representativa e constitucional tem os seus próprios moeurs. Sem os seus próprios moeurs, a democracia morre.

Contudo, a situação em França, que sinaliza o que está a acontecer de modo mais ou menos latente por toda a esfera ocidental do continente, incluindo em Portugal, mostra que essa exaustão está a atingir um ponto muito perigoso. Esperemos que não seja irreversível.

O que hoje sucede a cada minuto em Portugal e nos seus vizinhos europeus é, nada mais, nada menos, do que um colapso ominoso da nossa consciência política colectiva. No domínio da discussão pública, abdicamos com surpreendente facilidade de normas estruturantes do regime das liberdades. Nas conversas que animam os estúdios das televisões, deixamos de proteger instituições vitais da sociedade democrática diante das investidas do delírio revolucionário. Como se não bastasse a indigência intelectual do que a vanguarda revolucionária em Lisboa, Madrid e Paris diz, as fórmulas usadas repetem sem escrúpulo, nem pudor os lemas de regimes assassinos que produziram uma das maiores tragédias que a Humanidade jamais conheceu.

Ver a facilidade com que jornalistas se impressionam e reproduzem a vulgata do leninismo ou do sacrifício dos valores e direitos mais elementares em nome da “revolução”, sem uma centelha sequer do brilho e da sofisticação de que os nossos antepassados apesar de tudo deram provas nas manifestações revolucionárias que produziram, é uma lição histórica importante. Fala-se na “morte do capitalismo”, na destruição da “ordem burguesa”, no “sionismo”, na aniquilação de bens privados e na ofensa à segurança pessoal, no apelo à violência e desordem generalizadas, com uma naturalidade que só se compreende porque o espaço comum e mediatizado onde essas palavras abrem caminho está vazio. Ou melhor, foi deixado vazio pela ignorância e pela indiferença.

O problema não é uma manifestação repetir a ladainha falida que, hoje, mais de 100 anos depois da revolução bolchevique, devia causar escândalo ou gargalhada. Onde as coisas indicam outros horizontes está na serenidade com que esses termos são aceites para a discussão sobre a “crise da habitação” ou, em França, sobre “as condições das escolas”. Está no modo como se relata jornalisticamente o mesmo modus operandi de sempre, testado até à saturação durante mais de 100 anos – de provocação e resposta violenta, de disseminação do rumor e marchas contínuas contra os “inimigos do povo” – ser situado sempre no campo da acção espontânea que encontra do outro lado governantes cruéis ou uma polícia selvagem.

É óbvio que a mitologia que abriga estas possibilidades confunde as consciências que se despolitizaram, perderam a noção do passado político europeu e responde apenas a estímulos emocionais gerados pelo complexo mediático. É o terreno estéril onde só podem vicejar as aberrações intelectuais e os radicalismos políticos. Nessa mitologia figuram as sombras da grande coligação “anti-fascista”, onde todos os adversários da extrema-esquerda são fascistas, onde todos os problemas decorrem do fascismo, e onde se acomodam os chamados “idiotas úteis” – expressão sempre tão acarinhada pelos patrões dos totalitarismos desde os anos 20 do século passado.

Também é aí que, perante uma população que deixou de reconhecer as verdades elementares de edificação de uma democracia liberal protegida por um Estado com autoridade, e que os seus pais reconheciam espontaneamente, aparecem as falsas extensões dos princípios democráticos para os postulados mais radicais. Todas as promessas, todos os dispositivos, aparecem a estes olhos fechados como simples extensões da democracia que todos acarinham: a ocupação das ruas, as decisões por “assembleias populares” dos amigos, a exigência de “soluções” baseadas na ofensa aos “inimigos do povo”. As condições elementares da democracia aparecem, em contrapartida, como agências de opressão: a ordem pública, a superioridade da representação política, a regência da lei, a discussão racional dos méritos relativos de propostas que têm de ser tecnicamente testadas, a intolerância à violência como método.

Pouco antes de morrer, em plena euforia liberal após a implosão da União Soviética, François Furet avisava que a ilusão revolucionária – destrutiva, criminosa, milenarista – não tinha morrido definitivamente. É certo que não apareceria no futuro com a mesma forma da acção totalitária que dominara o século XX. Mas, no seu movimento essencial, acabaria por regressar. A questão que se coloca, hoje, não é se a mentalidade revolucionária ainda está viva, mas se a sociedade das liberdades está disponível para derrotá-la.


Observador - Sob as tendas, o terror (Alberto Gonçalves)

 


(sublinhados pessoais) 

LBC - Bravo!

Sob as tendas, o terror

Não convém permitir que a comédia involuntária das “acampadas” lhes esconda a natureza e os propósitos: a destruição em larga escala, inclusive dos princípios que damos por adquiridos.

“Homem com bandeira de Israel invade concentração no Rossio e é retirado pela PSP”, informou a imprescindível Agência Lusa.

Repare-se no uso do verbo “invadir”, a sugerir que o homem não pertencia à “concentração” e tentou integrá-la de modo abusivo e quiçá ilegal. A infracção cometida não passou por ostentar a bandeira de um país estrangeiro numa manifestação que alegadamente protesta um problema português: não encontrei um único artigo em que a Lusa chamasse invasores aos homens e mulheres que têm acampado no Rossio com bandeiras da “Palestina” ou sem quaisquer bandeiras. Não vi em lado nenhum notícias de que, ao contrário do que sucedeu no referido caso, as bandeiras da “Palestina” e os lencinhos “fedayin” valessem aos respectivos portadores insultos, agressões e a necessidade de serem escoltados pela polícia. Para a Lusa, deduz-se, os manifestantes não só têm pleno direito de ocupar praças públicas, a vandalizar estátuas e a emporcalhar as imediações, como estão habilitados a seleccionar os candidatos a participar na pândega – e a filtrar a iconografia exibida. Porquê? Que se saiba, o indivíduo insultado e agredido pelos manifestantes pacíficos não era senhorio ou especulador imobiliário. Que se saiba, não há relação entre símbolos judaicos e o custo das casas em Lisboa e no Porto. Que se saiba, o indivíduo, à semelhança dos restantes, apenas queria juntar a sua voz aos que reclamam a dificuldade de comprar ou arrendar um apartamento no nosso país e, à semelhança de alguns dos restantes, levou a bandeira que lhe apeteceu. As assembleias “populares” realizadas nos acampamentos são pela liberdade, não são? E os acampamentos são sobre habitação, não são?



Não e não. Claro que os métodos leninistas não têm nada a ver com liberdade e os acampamentos têm pouco a ver com habitação. E este recorrente erro é culpa da generalidade dos “media”, que o repete a cada “directo” televisivo ou texto de jornal. Os campistas não têm culpa. Os campistas fartam-se de dizer o que de facto querem, ou com o que de facto sonham. E não o dizem em surdina, mas de megafone na mão. Uns exigem que se acabe com os “cães fascistas” (deve ser uma raça desagradável; por sorte, dos meus cinco rafeiros não há sequer um que mostre apetência para aderir a bandos de fanáticos ou que dê sinais de anti-semitismo). Outros proclamam “morte a Israel e aos israelitas”. Outros ainda pedem a “destruição do capitalismo” ou a “globalização da intifada”. Uma senhora com o cabelo verde intimou as massas: “Temos que ter mais raiva. Temos que fazer com que os políticos tenham medo de sair à rua.” E há os que divagam, sempre aos berros, acerca do clima, do colonialismo, do racismo, do feminismo, do movimento LGBT, de Trump e das demais modas que condizem muito bem com as tonalidades mais ousadas da L’Oréal Paris e dois piercings nas pálpebras. Mas não condizem de todo com o preço da renda de um T1 nas Amoreiras.

Conforme confessam nas entrelinhas de tudo o que guincham, os campistas “pela habitação” pairam na D. João I e no Rossio por ordem dos partidos assumida ou disfarçadamente radicais a que pertencem, os quais encontram na rua, aliás o seu habitat, uma alternativa ao fracasso nas urnas. Se realmente se afligissem com a dificuldade no acesso a casa própria, aqueles meninos e meninas guinchariam contra os governos socialistas, que abriram as fronteiras e, através de leis fatídicas e punições fiscais, fecharam a confiança de proprietários e investidores. Mas não. Na época dos governos do dr. Costa, com ou sem “geringonça”, não houve “acampadas”, esse grotesco neologismo que os babados reproduzem. As “acampadas” acontecem agora em parte para contestar o governo actual, que a tradição e os comentadores televisivos convencionaram colocar à “direita”. Sobretudo, os acampamentos são a importação possível do caos que vigora, ou que se procura implantar, pela Europa afora, e cujo alvo é o que também se convencionou designar por Ocidente.

Se Portugal não caiu na devastação sem retorno por exemplo da França, é somente por faltar força às forças empenhadas em devastar o que calha. Os campistas nacionais não carecem de raiva, que já possuem de sobra: carecem da adesão de cidadãos “comuns”, leia-se sujeitos que trabalham e não dispõem de vagar nem inclinação para pastiches revolucionários, e principalmente carecem da aliança estratégica com multidões de jihadistas genuínos, muçulmanos de 2.ª e 3.ª gerações empenhados em retribuir a hospitalidade dos infiéis com a extinção dos mesmos.

Por isso, os campistas de trazer por casa, perdão, por tenda limitam-se em geral e por enquanto em fornecer generoso alimento ao anedotário indígena. Tem piada ouvir a rapaziada que fala às reportagens e não consegue expressar a sombra de um esboço da caricatura de uma ideia. Tem piada observar, evidentemente a partir do sofá da sala, o aspecto circense da maioria da rapaziada. Tem piada constatar que, impedida de montar barracas, numa das noites a rapaziada recorreu a sacos-cama. Tem imensa piada ler que, no dia seguinte, a rapaziada acordou resfriada e trocou nova dormida ao relento por um minuto de silêncio em “conchinha”. Etc.


Porém, não convém permitir que a comédia involuntária das “acampadas” lhes esconda a natureza e os propósitos. Essa gente aguarda unicamente pelo número e pela oportunidade para proceder à destruição em larga escala, inclusive dos princípios que damos por adquiridos e, melhor ou pior, nos mantêm do lado de cá da civilização. Essa gente não pode ser legitimada – ou “normalizada”, em jargão contemporâneo – mediante “diálogo” e reuniões sérias com políticos que pretendem ser levados a sério. Essa gente, que na quase totalidade coincide com a extrema-esquerda, é um perigo tanto maior quanto o ignorarmos ou tratarmos com suicida tolerância. Se a deixarem, essa gente não gastará iguais mesuras connosco.