sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Observador - Mamíferos, Doutores, Islamismo e ciência

 


(sublinhados pessoais)

Mamíferos, Doutores, Islamismo e ciência

Em vez de observarmos o elefante na sala, debatemos se é ofensivo chamar-lhe mamífero. Mas é. E nós também somos. A diferença é que o elefante não invoca relatórios “científicos” para fingir que não é

Há dias, na CNN, discutia-se o afluxo súbito de milhares de marroquinos a Ceuta, muitos dos quais se lançaram ao mar num movimento de excitação e frenesim colectivo. Comparei a dinâmica da formação daquela multidão à de outros grupos de mamíferos submetidos a stress ou orientados para um objectivo comum.

Foi o bastante para o Dr. Rui Henrique Santos (RHS), num arroubo de virtude censória, me acusar de “animalizar” pessoas. Ignorou o argumento, mas revelou ansiosa prontidão para exibir superioridade moral. Ignorar os factos, indignar a verve  e salvar a Humanidade com demagogia, é uma especialidade só ao alcance de alguns.

Já tínhamos discordado antes, quando declarou que o principal elemento disruptor do Médio Oriente era Israel, e não o Irão. Para ele,  a República Islâmica é o actor racional. De facto, enquanto espera pelo Mhadi, financia o Hezbollah, arma os houthis, patrocina milícias no Iraque, sustenta o Hamas, mata a sua população, ataca navios civis, dispara mísseis balísticos e encaixa uma destruição devastadora com uma racionalidade inigualável.

Já Israel, ao tentar não ser destruído, perturba a harmonia regional.

Não resisto a uma pequena ironia académica. RHS doutorou-se com uma tese intitulada “A Morte Fica-vos Tão Bem: A Manipulação do Medo Existencial funciona como resposta a ameaças à Hegemonia Liberal?”. Um homem que em 343 páginas usa a  morte como metáfora poderia, por simples cortesia, conceder-me trinta segundos para fazer uma analogia com um mamífero.

É que sim, somos mesmo animais. Mamíferos, para ser exacto. A circunstância de usarmos gravata, termos diplomas e aparecermos na televisão não revogou a evolução. Partilhamos, por exemplo,  quase 99% das sequências de ADN alinháveis com chimpanzés e bonobos. Partilhamos também mecanismos neurológicos e hormonais de medo, fuga, agressão, imitação e protecção do grupo.

Afirmar isto é desumanizar alguém?  Ou, pelo contrário, reconhecer a inteira condição humana que integra um animal biológico, um indivíduo moral e uma criatura cultural? Não será, isso sim, desumanizante, imaginar que o homem é uma peça de porcelana progressista, liberta de instintos e totalmente apegada aos discursos do Engenheiro Guterres?

Os animais, sob certas condições, estreitam a atenção e tendem a imitar quem está próximo. Se todos correm numa direcção, correr para o lado contrário exige uma  vontade e uma informação que em, certas circunstâncias, não existe. Encontramos esta dinâmica em cardumes, bandos, manadas e multidões humanas.

Isto não significa que todas as multidões humanas enlouqueçam. Em muitas catástrofes surgem cooperação, disciplina e solidariedade. Mas a densidade, a incerteza e o medo podem desencadear movimentos colectivos com racionalidade mínima, ou mesmo nenhuma. Em Heysel, em 1985, morreram 39 pessoas; em Hillsborough, quatro anos depois, morreram 97. Nas batalhas, o fenómeno ocorre com frequência e leva muitas vezes ao colapso ou à galvanização. Não foi necessário que cada indivíduo decidisse esmagar outro. Bastaram a pressão física, a fuga, o erro e a propagação do movimento.

No mesmo debate referi as dificuldades reais de integração de parcelas das populações muçulmanas na Europa e o aumento da insegurança. RHS respondeu que “os estudos científicos” não confirmavam semelhante coisa. Não identificou os estudos, invocou simplesmente a Ciência, como outrora se invocava Santa Bárbara, para esconder a trovoada.

A verdade é que  a maioria dos  países ocidentais não regista a religião dos criminosos, logo não se sabe de que estudos falava  RHS.  Registam sexo (alguns nem isso), idade, nacionalidade, condição económica, etc. Por isso, não é possível estabelecer uma taxa uniforme de criminalidade por religião. Mas ausência de estatística não significa ausência de realidade.

Veja-se a Suécia. Um estudo oficial encontrou, entre 2007 e 2018, um risco de suspeita de violação 3,2 vezes superior quando o violador é  estrangeiro e, na Suécia, isso implica uma esmagadora maioria de muçulmanos.

Um estudo posterior analisou 4.032 condenados por violação ou tentativa, entre 2000 e 2020. No total, 63,1% tinham origem imigrante.

A televisão  sueca analisara já 843 condenações entre 2012 e 2017.  58% dos condenados eram estrangeiros e, nas violações cometidas por desconhecidos, mais de 80% tinham nascido fora da Suécia.

Isto prova que existe de uma sobre-representação que factores como  rendimento, assistência social, drogas, álcool, perturbações psiquiátricas e antecedentes criminais, não explicam. É, por isso, legítimo investigar normas culturais, religiosas, morais e éticas sobre mulheres, honra, consentimento, tutela masculina e liberdade sexual. O contrário é fechar deliberadamente os olhos para que todos os gatos sejam pardos.

Quanto ao terrorismo, a religião não é mero palpite. Quando uma criatura presta juramento ao Estado Islâmico, invoca Alá, grava um testamento de mártir e esfaqueia em nome do califado, não precisamos de pedir a RHS uma revisão pelos pares para descobrir a inspiração.

Segundo o relatório TE-SAT 2026 da Europol, em 2025 o jihadismo respondeu por mais de 50% dos ataques terroristas consumados, falhados ou frustrados na Europa Ocidental, e  por 71,4% das detenções relacionadas com terrorismo. Só em 6 ataques (Madrid, Londres, Berlim, Paris, Nice, Bruxelas e Manchester) morreram 515 pessoas.

Os islamistas são uma minoria, naturalmente. Mas também eram os bolcheviques, na Rússia, os nazis na Alemanha, os fascistas na Itália, e os professores e estudantes da esquerda terrorista na Europa “burguesa”. A História é frequentemente desviada por minorias organizadas, fanáticas e violentas, face a maiorias cansadas, intimidadas ou entretidas a sinalizar virtude.

O importante não é quantos empunham a faca, mas sim  quantos aprovam o objectivo, justificam o agressor, intimidam os críticos ou preferem calar-se por medo.

Um estudo (dirigido por Ruud Koopmans), baseado em inquéritos a muçulmanos e a cristãos nativos de seis países europeus, descobriu que cerca de 44% dos muçulmanos concordam simultaneamente com o regresso às raízes religiosas, a existência de uma única interpretação correcta do Corão e a superioridade da sharia sobre as leis da terra. Entre os cristãos, a combinação equivalente foi irrisória. O estudo permite concluir que o  problema não foi inventado por racistas e xenófobos, depois de uns copos no Martim Moniz. Uma análise honesta tem de conseguir perceber que há aqui ameaças sérias à liberdade e à segurança, até porque o mecanismo “democracia + demografia” levará inevitavelmente à imposição de valores que nos são estranhos. Em locais como Londres, Hamtramck, Birmingham, etc., onde foram eleitos muçulmanos para poderes locais, observam-se concessões graduais, pressão social e alteração enviesada e  paulatina de normas.

Chegamos assim à questão dos valores.

A civilização ocidental contemporânea resulta do encontro, por vezes sangrento, entre Jerusalém, Atenas, Roma, o cristianismo, o direito natural, a Reforma, o Iluminismo e a ciência moderna. Há diferenças profundas entre a democracia moderna, que Nietzsche considerava a versão secular do cristianismo, e a tradição islâmica.

Cristo não fundou um Estado, não comandou exércitos nem produziu um código penal. Separou Deus de César, recusou responder à violência com violência e colocou no centro de tudo  o perdão, a consciência individual, e a dignidade de cada pessoa. Os cristãos traíram frequentemente estes princípios, é verdade, mas, ao fazê-lo, eram julgados por eles.

Maomé foi profeta, legislador, governante, juiz, exemplo moral e chefe militar. Na tradição islâmica, Deus é César. A sharia regula culto, poder, família, herança, sexualidade, estatuto da mulher, relações com não-muçulmanos, guerra, apostasia e blasfémia. Regula tudo e o Islão não é uma religião privada.

Não é que todos os muçulmanos desejem aplicar todas essas normas. O problema é que quem pretende aplicá-las se apoia em textos imperativos com carácter legal e ético, precedentes jurídicos e exemplos históricos com uma autoridade religiosa difícil de neutralizar.  Muitas desses normativos são totalmente incompatíveis com os  das sociedades democráticas ocidentais.

É por isso que a integração exige adesão efectiva aos nossos valores de raiz cristã (segundo Nietzsche) , à primazia da lei civil, à liberdade de abandonar ou criticar uma religião, à igualdade entre homens e mulheres, à liberdade sexual dos adultos, à liberdade artística e ao direito de representar, satirizar ou ridicularizar figuras sagradas. Quem vem viver para a Europa não é obrigado a beber vinho, comer leitão da Bairrada ou tornar-se admirador de Voltaire. Mas tem de ser obrigado a aceitar que os outros possam fazê-lo sem receber ameaças de morte. É suicida transformar a integração numa negociação sobre os nossos próprios princípios. Uma sociedade aberta pode conviver com religiões. O que não pode é fingir que todas as religiões convivem igualmente com a sociedade aberta. Não se trata de perseguir crentes, insultar muçulmanos, ou negar que muitos vivem a sua fé de modo pacífico e compatível com a liberdade. A questão é reconhecer que o islamismo transforma a religião num sistema de poder total, e que esse sistema entra em colisão directa com a nossa liberdade. O respeito pelas pessoas não impõe respeito pelas ideias que elas professam, porque as ideias têm consequências.

No fundo, o episódio televisivo que motivou este artigo,  resumiu bem o nosso problema.

Perante uma analogia incómoda, sinaliza-se virtude, e discute-se  a palavra “animalizar”. Face a  atentados, crime, intimidação religiosa, segregação e conflito de valores, invocam-se vagamente “estudos científicos”,  e outras vacuidades, para evitar enfrentar os factos.

Em vez de observarmos o elefante na sala, debatemos se é ofensivo chamar-lhe mamífero.

Mas é. E nós também somos. A diferença é que o elefante não invoca relatórios “científicos” para fingir que não está lá.

Em suma,  invocar vagos  “estudos científicos” com ar de autoridade, sem os concretizar, é apenas uma forma pouco académica de assobiar para o ar. Felizmente a Helena Ferro Gouveia, foi concreta nos números e calou cientificamente o assobio.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Observador - No pântano do poucochinho (Nuno Lebreiro)

 



No pântano do poucochinho

As coisas são o que são e são muito poucochinho — tal como estão para durar num pântano de imobilismo nacional onde tudo nos aparece como pobrezinho, pindérico, mas sem fogacho de melhor solução

Por estes dias a ditosa pátria lusitana agita-se em frémitos de excitação política: o ministro da Administração Interna foi apanhado, primeiro, a banhos numa piscina ilegal rodeada de obras feitas por empreiteiro amigo que há muito trabalha com entidades públicas tuteladas pelo agora ministro— no caso, ainda para mais, a Polícia Judiciária — e, depois, viu-se envolvido numa curiosa aparição nas instalações desse mesmo empreiteiro de um atrelado apreendido numa operação da PJ contra o tráfico de droga, atrelado o qual viu o seu transporte autorizado, ao que consta para “poupar” dinheiro, pelo mesmo amigo director da PJ, ou seja, o actual ministro da Administração Interna. Pelo caminho, o mesmo ministro absteve-se ainda, diz-nos ele por desconhecimento, de entregar uma série de declarações patrimoniais, uma omissão que, admita-se, só pode cheirar a desculpa pobrezinha para quem exerce os cargos que o ministro exerce, e exerceu.

Todo o enredo é estranho, nesse ponto parece que todos podemos concordar, tal como tresanda a moscambilha, seja ela bem intencionada, como sugerem as explicações do ministro, ou não. Ainda assim, até porque gozando o período estival onde procuro, acima de tudo, dedicar-me a outras coisas que não a cansativa torrente de “notícias” que 24 sobre 24 horas nos enche o cérebro de lixo, a verdade é que me interessam pouco os pormenores do caso — a seu tempo, como sempre, a comezinha realidade fará o caminho até à praça pública, provavelmente para gáudio das oposições e dos adversários do Governo pelos novos pormenores que encherão manchetes, telejornais e demais escaparates jornalísticos que adoram o mexerico, o sangue, o escândalo, sempre pulando, claro está, alegremente, aos gritos, por cima do essencial.

Não. Admito que nada disto me interessa. Prefiro, por outro lado, lembrar um outro tempo onde, independentemente dos pormenores, meras suspeitas levavam indivíduos detentores de cargos públicos ao pedido de demissão — ou, na ausência do chamado “sentido de Estado”, a serem demitidos. Recordo-me, por exemplo, da forma como o ministro do Ambiente e Recursos Naturais do III Governo de Cavaco Silva, em 1993, foi dispensado do seu cargo depois de ter contado, durante uma visita a Braga, uma anedota de mau gosto sobre doentes que tinham morrido no Hospital de Évora, na unidade de hemodiálise, por intoxicação de alumínio. A piada, grosso modo, foi: “sabem o que é que no Alentejo fizeram aos cadáveres das pessoas que morreram ultimamente? Levaram-nos para reciclar, para aproveitar o alumínio.” Chegada a pilhéria aos ouvidos do primeiro-ministro Professor Cavaco Silva, este demitiu-o de imediato. Depois, puff, proscrito, nunca mais Carlos Borrego exerceu quaisquer cargos políticos.

Outra demissão famosa foi a de foi Jorge Coelho, então Ministro de Estado e do Equipamento Social no Governo de António Guterres na sequência da queda da Ponte Hintze Ribeiro, mais conhecida como Ponte de Entre-os-Rios, que colapsou no dia 4 de Março de 2001, por volta das 21h15, provocando a morte a 59 pessoas. No dia seguinte, 5 de Março, menos de 24 horas depois da tragédia, já Jorge Coelho apresentava a demissão, assumindo a responsabilidade política com a frase “a culpa não pode morrer solteira”. O primeiro-ministro António Guterres, apesar da moleza e promiscuidade que o caracterizam, ainda assim aceitou de imediato o pedido do seu maior peso-pesado político governamental.

Ou seja, e este é o meu ponto, em tempos os tempos foram outros. No caso de Borrego, nada salvo um sentido estritamente moral e ético implicava a demissão; no caso de Coelho, nada forçava a tal, excepto um sentido de responsabilidade política meramente formal. Quer um, quer o outro sentido, entretanto, desapareceram. E, se digo que desapareceram, digo-o convencido que desapareceram mesmo. Veja-se, por exemplo, quando em 2017, morreram 66 pessoas nos incêndios de Pedrógão. Onde estava a tal “responsabilidade política” da então ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa? Não estava em lado algum, nem sequer depois de se saber das falhas do SIRESPE, um sistema da sua tutela, bem como do facto de ter sido responsável por uma remodelação profunda na estrutura da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) — a estrutura operacional que coordena emergências — poucos meses antes da época de incêndios, ocasião onde foram trocados, a propósito, aqueles profissionais que haviam sido escolhidos por governos anteriores por outros mais do agrado do governo socialista.

Ainda assim, a senhora ministra lá ficou pendurada no cargo e foram precisos morrer mais cerca de 50 pessoas em Outubro desse mesmo ano para que a senhora conseguisse que o primeiro-ministro aceitasse a sua demissão por “falta de condições”, “esgotamento” e “dignidade”. Daí, pergunte-se também onde estava a tal responsabilidade política do então primeiro-ministro, António Costa, que, recordemos, pelo meio até se deu ao luxo de, ainda as cinzas esfriavam, tirar férias. Pior, também foi António Costa que, anos antes, enquanto ministro da Administração Interna de José Sócrates, lançara o desastre, e a negociata, que nunca deixou de ser o SIRESPE. Responsabilidade política nesta salgalhada toda? Que nada. Zero. Nenhum responsável, nem político, nem de nada.

O mesmo se passou, aliás, com o sucessor dessa mesma ministra, o infame ministro Cabrita, personalidade sinistra que, com toda a lata, conseguiu evitar a demissão apesar de sucessivos escândalos sobre os quais saltou que nem sapo de nenúfar em nenúfar: desde encomendar golas de fumo que eram, afinal, flamáveis, passando pela morte de um cidadão ucraniano às mãos do SEF — que acabou extinto gerando o caos na fronteira e na gestão da imigração — até, imagine-se, estar dentro de um automóvel que, a mais de 160 Km/h, passou a ferro um trabalhador de uma empresa de manutenção de estradas que aí perdeu a vida. Responsabilidade política? Nenhuma. Responsabilidade moral? Ética? Um mínimo de noção? Nadica de nada, zero, bola.

Em boa verdade, o tempo da responsabilidade acabou. Aliás, a deterioração de todos os índices de qualidade política é aterradora, bem como evidente. Tal como depois de Marcelo Rebelo Sousa qualquer indigente, inimputável ou simples ornamento — como é o caso actual — pode ser eleito Presidente da República, também, hoje em dia qualquer valdevino pode acabar ministro. E a pergunta que se coloca, no final, até é simples: se gente como Urbano de Sousa e Cabrita, voluntária ou involuntariamente, pularam por cima das maiores atrocidades sem qualquer punição política imediata, ainda para mais bem respaldados, senão forçados, pelo primeiro-ministro, que raio fez o actual ministro da Administração Interna que justificasse a sua demissão? Na cabeça dele nada, obviamente. Tal como na do primeiro-ministro, como é evidente, também não.

Desde há muito que se percebeu, para mal dos nossos pecados, que a bitola de Luís Montenegro não é outra além da de António Costa. É-o no objectivo puro e duro da manutenção do poder pelo poder; é-o na forma como navega o orçamento à vista sem sombra de reforma estrutural; é-o no modo como se desculpa das suas responsabilidades de liderança com o comportamento dos outros agentes políticos; e é-o, também, na forma como convive bem com ministros que, atraindo o fogo político, deixa a queimar em lume brando até que, esturricados, transformados em carvão, deixem de cumprir a sua primordial função política: desviar as atenções da nulidade que representa a liderança política do primeiro-ministro.

Assim, e por comparação, considerando o sucesso eleitoral de Costa e a forma como, apesar de todos os “casos e casinhos”, acabou no topo da hierarquia europeia a envergonhar todo um continente, assim se compreende a perspectiva do actual primeiro-ministro. As coisas são o que são e, como em tempos dizia o original, são muito poucochinho — tal como estão, ao que parece, para durar num lamacento pântano de imobilismo nacional onde tudo nos aparece como pobrezinho, pindérico, mas sem fogacho de melhor solução. No fim, sobra aquela leve sensação que permeia toda esta tristonha governação AD: isto é tudo muito fraquinho, mas antes, com Costa e o PS, era muito pior. Mais grave, também: isto — a governação AD, entenda-se — é poucochinha, sim, mas, considerando as alternativas, as coisas ainda poderiam ser muito piores.

Também aqui, infelizmente, não se me oferecem muitas dúvidas. Afinal, como alternativa a Montenegro, por um lado, temos o regresso do PS com um novo “líder” Carneiro, um político com o carisma de uma caixa Multibanco, ainda para mais dirigente de um aparelho partidário que ainda imagina indigentes políticos estilo Pedro Nuno, ou idiotas úteis da extrema-esquerda tipo Alexandra Leitão, como gente politicamente recomendável. Ou seja, a alegada “alternativa de confiança” que o PS vende pelo país em outdoors não passa de algo que política, racional e higienicamente só pode ser visto como uma piada de mau-gosto, para mim ainda pior que aquela que levou Borrego à sua desgraça política — afinal, antes ele que um país inteiro.

Pelo outro lado, e falo das alternativas à pobreza reinante, temos a aposta no vazio programático, no bota-abaixo em esteróides e no auto-proclamado salvador da pátria André Ventura. Que o Chega trouxe contributos importantes para o panorama político português, isso não posso deixar de aceitar e, até, enaltecer: a luta contra o politicamente correcto, o estilhaçar do unanimismo monotemático dos órgãos de comunicação social, a capacidade de combater sem tréguas o wokismo, bem como trazer a problemática da imigração para a ordem do dia, tudo isso foi positivo e agradece-se. O ponto é que tais feitos, primeiro, já foram alcançados e, segundo, para um partido que granjeia 23% dos votos, a liderança da oposição e promete “salvar” Portugal, lamento, mas não Chega — pun itended.

Aliás, não apenas não chega, como, e mais uma vez para mal dos pecados portugueses, é também poucochinho: desde um programa eleitoral concebido para agradar a Gregos e Troianos contando com um PIB per capita 2 ou 3 vezes superior ao português, estatismo e mais estatismo a coberto de alegado reformismo — uma heresia —, bem como socialismo a coberto de “direitismo” — outra —, no final, aquilo que o Chega propõe para o país é acenar com uma mão cheia de sonhos enquanto que com a outra, ao melhor estilo da esquerda, apenas lança uma simples promessa: “as coisas serão muito melhores se em vez daqueles que lá estão formos para lá nós”. Ora, é pena, mas isto não é um programa, é um arraial. É, em poucas palavras, um embuste político, uma farsa e, pior, no caso de chegar ao poder com uma maioria, uma perfeita receita para o desastre.

Estamos, portanto, no final e em bom português, verdadeira entalados: entre o PS que mata, o Chega que esfola e esta AD que não ata nem desata, a única coisa que se pode esperar é que, sem sombra de um projecto capaz de inspirar uma maioria, seja quem lá estiver dos actuais intervenientes, tudo vá ficando na mesma como à lesma — calmamente se deteriorando, decaindo, apodrecendo, a pouco e pouco se afundando no tal marasmo pantanoso sem sombra de solução no actual quadro político-partidário, pelo menos com os actuais intervenientes.

Não admira, portanto, que ao bom estilo português, no meio deste denso, húmido, tenebroso nevoeiro que nada permite vislumbrar de particularmente bom para o país num futuro próximo, vá cada vez mais gente sonhando com D. Sebastião, desta feita encarnado talvez na única personagem — e que tristeza ser só uma — que alia a capacidade política, a visão estratégica e a virtude de um carácter corajoso, íntegro e determinado capaz de rasgar com o impasse aflitivo em que nos encontramos — Passos Coelho, pois claro. Uma das pouquíssimas personalidades públicas, aliás, que previram, e logo avisaram desde o início, no caso de Passos com a frontalidade que o caracteriza, que a nomeação de um director da PJ em funções para ministro do governo era um mau sinal que apenas poderia acabar mal. Como em quase tudo o resto que vai avisando, tinha razão.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

The Spectator - Therapy speak is turning us into sissies

 


(personal underlines)

Therapy speak is turning us into sissies

I'm just boring old ‘neurotypical’

(iStock)

As one who’s always been keen on putting their hand up and admitting to their faults (a perverse form of boasting, I suspect) I was always suspicious of the medicalisation of character flaws which apparently render us helpless in the clammy hands of Fortuna. It was bad enough when friends who’d generally always seemed highly capable jumped on the ADHD bus in later life, suddenly flinching at loud noises when they’d spent a good deal of their lives dancing to ear-splitting techno. But it was another sort of annoying when ex-friends who were merely awful people started blaming all their past ghastliness first on ADHD and then – still not feeling special enough – on autism, a serious condition which affects a tiny amount of people.   

But if you want to create ‘conditions’ where previously there were simply personalities, fill your boots; everyone benefits from having a hobby. Where I draw the line is when they attempt to drag me on to the bus with them. No, I am not a ‘narcissist’ who is ‘on the spectrum’ – I’m simply a self-adoring show-off with a tendency to fidget. ‘We’ll relax and take our time!’ I invariably tell my restaurant companion, and if they know me well, they smile sceptically. I’m already catching the waiter’s eye and planning the next watering hole. But I don’t have Attention Deficit Syndrome – I’m just greedy for the next thing.  

So it’s a real relief to have psychologists come out and call a halt to this new dance craze. In the Times this week, Charlotte Alt writes: ‘Therapy-speak, which is the casual use of psychological jargon, has made its way into everyday conversation and is thrown around in millions of videos on social media purporting to explain how to spot if someone is “toxic” or if something is “triggering”. Experts warn that casual use of terms which have specific meanings in clinical contexts risk diluting their significance and ‘over-pathologising’ everyday human emotions’. Or, as the clinical psychologist Marianne Trent put it: ‘One of the trickier aspects of being a human is to feel awful, but it doesn’t mean that every uncomfortable feeling we have is a mental health condition. In the same way, not every difficult person has a personality disorder.’  

When I was young, people got drunk because they enjoyed it. When I was a young adult, people caught on that they could wriggle out of responsibility for things they enjoyed but which were taking over their lives (such as drinking) by blaming their mothers. Now, like the writer Caitlin Moran, you’re probably a binge-drinker because, like her, you have ADHD. Am I very bad for wishing that people still got drunk for no reason more complex because they enjoyed it? Life was so simple then. Some people were straight; some were eccentric. But unless you were actually hearing voices, your mental health was not an excuse to be a bore – or a boor.  

It’s not just me. The similarly jaded journalist Katie Glass recounts: ‘People turning up late/forgetting plans/not answering texts – and blaming their “neurodiverse brains”.’ One friend’s ex claims to have  ‘Oppositional Defiant Disorder’ which means he gets angry if she asks him to do anything with their children. Another one has a funny line about dating self-diagnosing men in which mental health is the new ‘It’s not you, it’s me’ because they all blame their selfishness on it now: ‘I’m autistic, I can’t help behaving badly!’  

Since the turn of the century, autism diagnoses are up a whopping 640 per cent and ADHD almost 1,600 per cent. According to the Department for Work and Pensions (DWP), one in four of us are now ‘disabled’ – this is driven not by people who are physically unable to walk, like me, or suffering from life-changing illnesses, such as cancer, but by people who are feeling a bit mis. Forgive me if I’m not overflowing with the oat-milk of human kindness here, but I’d advise anyone feeling that they can’t get out of bed because they failed to score their dream job to confine themselves to a wheelchair for a week, or to walk around with their eyes closed for a dayand see how that messes with your precious, special mind. As someone who is disabled, if I was on a desert island, I’d be done; if someone with ADHD was, they’d pull themselves together and get on with the business of building shelters and catching fish.  

Britain already spends more on health and disability benefits (£83 billion) than on defence (£63 billion) according to the Office for Budget Responsibility. With the arrival of John Healey as Chancellor, perhaps we can at last hope to see this ludicrous situation reversed. But what are we defending? A growing population of people – mostly young and who should be at the peak of rude health – who are the modern equivalent of those Victorian maidens lying on fainting couches, too enervated to engage with or enjoy life? ‘Self-diagnosis’ is merely hypochondria dressed up in some sassy pseudo-scientific drag; in fact, it’s not going too far to say that some doctors give out diagnoses to get patients off their backs.   

As Michael Simmons wrote here recently: ‘We live in a society in which disabled people must be described as merely “differently abled”, while apparently requiring more state support than ever before. It is a society in which autism is idiotically advertised as a “superpower” – a slogan particularly galling for those families caring for people who cannot speak or live independently. Doctors know this but few speak out. Many privately describe the visible “exhilaration” on the faces of patients they have just diagnosed with in-vogue conditions such as ADHD. They’re gobsmacked when they see the same patients announce the news on social media as though they’ve won the Lottery rather than received confirmation of a lifelong disorder.’ 

The ‘Worried Well’ have become the ‘Smug Sick’ – sensitive flowers so complicated and precious that we ‘neurotypical’ (the narrow-minded Normies who are only good for paying the taxes that enable the ‘neurodiverse’ to put their feet up) can never begin to understand the exquisite torment of being in their very special shoes. I can’t wear proper shoes any more as my feet are so vulnerable to pressure sores, but I drag my old carcass out of bed at dawn because I can’t imagine not making an effort. I have tenacity and I have talent – but I have just as many vices as virtues, and they’re all mine, the good and the bad. Regrettably, there is a good deal of evidence to suggest that severe spinal cord injuries do affect the brain, so at some point I may literally become ‘neurodiverse’ – but I won’t be running around boasting about it as if it’s a new handbag. Because, to me, stubbornly sticking to one’s guns and refusing to identify as anything but an ordinary person with ordinary character flaws is the most original and brave choice one can make in this crazy world.  

So I’ll continue to fidget, interrupt and be distracted by bright, shiny things – but let me state here and now that anything which annoys or repels you about me, IS menot some cod-condition I’m hiding behind. On that basis, feel free to accept me or shun me, free in the knowledge that I won’t have a meltdown as I don’t have ‘Rejection Sensitive Dysphoria’ – ‘a condition characterised by extreme, overwhelming emotional pain triggered by the perception of being rejected, criticised, or having failed.’ In fact, I’ll be moving on to the next watering hole in no time.   

The Spectator - The unspoken truth about wildfires


 

(personal underlines)

The unspoken truth about wildfires

Bordeaux and Madrid are threatened by flames. In Sicily, arsonists tied burning rags to the tails of cats to spread fires. Here in Britain the Cairngorms and Peak District national parks are ablaze. It’s the climate Armageddon, say the greens. If only we had built more wind farms and eaten fewer cows this would not be happening.

Hot, dry spells undoubtedly make fires more likely, but awkwardly for those blaming climate change, wildfires are getting less frequent worldwide, not more, as the globe warms. The acreage burned has decreased steadily since 2000, according to Nasa’s satellites, and is thought to have almost halved in a century. The great fires of 1871 in Wisconsin and Michigan burned more than a million hectares long before anybody drove a car, before even Joseph Swan’s first light bulb, when the world was cooler.

It is not just the trend that is surprising. Hard to believe, but this year is an unusually quiet year for wildfire: so quiet it is breaking records for lack of fires by this date, even in Europe. If you don’t believe me, check the figures produced by the Global Wildfire Information System: as of last week, the world had seen 106 million hectares burn this year, the lowest at this date since these records began in 2012. In Europe, just 3.6 million hectares have burned – less than half the average for this date. That’s cold comfort to people driven from their homes in France, but it is nonetheless a fact.

The real issue is that climate change is a handy excuse for politicians who have failed to take precautionary measures to prevent wildfires. They can just shrug: it’s global warming, innit? It has been known for many decades that in fire-prone habitats, the longer you go without a fire, the worse the fires will be. So preventing the build-up of tinder by controlled burns is the most important factor.

The California filmmaker Gabriel Mann’s hard-hitting 2023 documentary Hotshot showed in detail how fire suppression has made today’s fires harder to control. He has no patience with those who use climate change as an alibi. ‘They tell you the sky is falling and it’s all the fault of our modern, shitty climate,’ he says. ‘But when was the climate not shitty?’

Here in Britain the government has consistently and relentlessly demanded less ‘cool’ burning – low-intensity, controlled fires – in winter on heather moorland, Britain’s most fire-prone habitat. Such fires have been used by farmers and gamekeepers for generations to create a mosaic of short and long heather. This encourages fresh young heather shoots for sheep and grouse to feed on and makes open areas for rare birds such as golden plover and curlew to nest in. If done in winter it can burn off the rank heather plants while leaving the moss underneath barely touched, as demonstrated by a famous video in which a gamekeeper places a Mars bar in the moss, lights a fierce fire over it, then picks up the unscorched, unmelted chocolate bar, unwraps it and eats it.

Natural England argues that regular cool burning harms the habitat; researchers at York University and elsewhere argue the opposite: that it encourages the growth of sphagnum moss and other species by letting light in. But both sides agree that regular cool burns can dramatically reduce the risk of much more damaging wildfires, which burn down through the moss layer and into the peat. Cutting heather instead is less effective but better than nothing. Yet Natural England has banned heather burning on deep peat altogether and is pushing hard to limit it further everywhere – or at least tie it up in complicated licensing rules. As a result, the fuel load on heather moorland has been increasing; in places the heather is now waist-deep. The National Fire Chiefs Council warned last year that such restrictions on heather management would increase ‘the danger to firefighters and the public’.

Unlike private owners, bodies such as the Royal Society for the Protection of Birds (RSPB) and the National Trust are refusing to burn and reluctant to graze heather moorland, as they join the cult of ‘rewilding’. With the support of government, they plan to mitigate the fire risk by ‘rewetting’ moors with leaky dams to hold back rainwater. But this approach is useless in a drought.

Case in point: the Tintwistle fire in the Peak District spread from a wild camp in woodland on to a heather moor owned by United Utilities and managed by the RSPB. This moor had been extensively ‘rewetted’ yet it went up like a torch and the fire spread, drowned Manchester in smoke, burned deep into the peat and was only contained – for now – when local gamekeepers and Greater Manchester Fire and Rescue used two diggers and a bulldozer to create a firebreak on its northwest flank on the neighbouring Stalybridge estate. But so quick is Natural England to prosecute landowners and gamekeepers for even inadvertently breaking rules about managing habitat that they were anxious they might be punished for doing this.

Richard Bailey, coordinator of the Peak District Moorland Group, estimates that the past month’s firefighting by gamekeepers would have cost the taxpayer millions of pounds if done by the fire service. Many long, hot, hard days and nights have left gamekeepers and their families under severe mental strain, alleviated a little by generous food drops from Micklehurst cricket club. You can imagine how much it sticks in the craw for these gamekeepers that they have been working to save land managed by an organisation that makes the risk worse.

The nearby Dovestone fire was also started on RSPB-managed land after a man drowned in the local reservoir and his friends commemorated him with fireworks. The Cairngorms fire too began on land owned by the RSPB at Abernethy. The irony is not lost on locals that the very same people who tell us that climate change is an existential crisis are also the ones urging us to stop using the one tool we know helps to mitigate the problem. If your view is that climate change is a massive threat, why are you pursuing policies that increase fuel load?

The North York Moors fire last year affected 2,500 hectares of moorland, smouldering for more than a month in the peat and releasing vast quantities of carbon dioxide. Yet no Defra minister bothered to visit. The cost of fighting these fires does not fall on their department, so why do they care, says Jamie Blackett, founder of Ground Cry, a new organisation campaigning on behalf of ground-nesting birds like curlews.

The authorities know their policies increase the fire risks. Here is what the Cairngorm National Park says in its Integrated Wildfire Management Plan about plans to increase shrubs and other vegetation by reducing deer and stopping burning: ‘These habitats will take many years to develop and during the intervening period fuel loads will increase, as will the corresponding need for fire risk mitigation.’ So they knew the risk was increasing. But little was done. John Kirk, a board member of the Cairngorms National Park Authority, told the Strathspey Herald: ‘Everyone is furious… the entire Abernethy forest has no firebreaks.’

Andrew Gilruth, chief executive of the Moorland Association, says: ‘While Scotland has a clear plan to manage the excess vegetation, in England the authorities are obsessed with rewilding and restricting all commonsense measures for reducing fuel loads.’

In May, before the drought, Gilruth wrote to MPs who represent moorland constituencies to point out that the number of firefighters is down by a quarter over the past seven years and that the fire service relies heavily on gamekeepers’ vehicles, water bowsers and other equipment. Banning the burning of heather means fewer keepers can justify having such equipment. He described Defra’s refusal to change policy on heather burning as reckless.

Sadly he was proved right. So was I. After I warned in these very pages last year that government policy was worsening the fire risk on moorland, it gives me no pleasure to say: ‘I told you so.’

Observador - Para lá de Luís Neves (Nuno Poças)

 


(sublinhados pessoais)

Para lá de Luís Neves

O que o ministro da Administração Interna, ex-director da Polícia Judiciária, e toda a trupe que o defende dizem é que o próprio Estado reconhece não cumprir a lei. Nunca fora dito tão frontalmente.

Não era nada mau sinal se todos os contornos do caso de Luís Neves fossem apenas mais um caso de alguém que, chegando a ministro, visse mediaticamente destapadas as suas falhas de homem médio que, à semelhança de todos os portugueses, tem de viver enquanto se tenta desenlear da tenebrosa rede de legislação, burocracia e imobilismo públicos. Infelizmente, não é bem disso que se trata. Luís Neves não é só ministro da Administração Interna, o homem forte da segurança do País, tutela das polícias. É também ex-director da Polícia Judiciária. E aquilo que nos foi dado a conhecer, em primeiro lugar pela imprensa, e depois pelo próprio, na derradeira conferência de imprensa em que reconheceu as suas falhas, mas que, enfim, elas foram feitas em prol de um bem maior, é, segundo o que me é permitido concluir, o fatal desmascaramento de como o próprio Estado faz as coisas: informalmente, ilegalmente, despudoradamente. A consequência evidente e final de tudo isto não pode ser outra: o ministro da Administração Interna, ex-director da Polícia Judiciária, e toda a trupe que o defendeu e defende neste caso que o envolve, o que estão a dizer ao País é isto: o Estado deixou de ter legitimidade moral para exigir o cumprimento da lei aos seus cidadãos, na medida em que é o próprio Estado que reconhece não cumprir a lei. Não é que isto não fosse sabido. É que nunca tinha sido tão frontalmente assumido como agora.

O problema não é Luís Neves, ainda assim. O desastre ultrapassa-o de sobremaneira. O problema é que Luís Neves nos fez olhar para o sistema de janelas e portas quase escancaradas, e pode ajudar a compreender as razões que têm levado tantos portugueses a traduzir em votos a sua raiva contra esse mesmo sistema que parece cada vez mais de uns e não de todos. Sejamos francos, não existe em Portugal um sentimento colectivo de cumprimento da lei, e ele existirá menos ainda quanto maior for a confusão legislativa em que vivemos. O que nos assusta não é a corrupção, mesmo que tantos vociferem contra ela. É, antes, o facto de o sistema se ter democratizado – no sentido em que vive dos seus concursos públicos, da sua transparência, do seu escrutínio judicial, da igualdade das condições de acesso a isto ou àquilo – mas apenas para os de baixo, e de se ter mantido opaco, feito de cunhas e favores mútuos, para os de cima.

O Estado Novo sobreviveu décadas sem sobressaltos de maior graças a mecanismos de favores que chegavam a toda a gente. Um analfabeto filho de alguém que tinha um primo que se tinha feito chefe de finanças, podia facilmente tornar-se funcionário público de um dia para o outro. Esse mundo só terminou para as classes com menos acesso aos patamares mais cimeiros da Administração Pública ou dos centros de poder do Estado – que são, na verdade, os grandes centros de poder do País.

Os partidos colonizaram boa parte dessa camada intermédia do poder. E quando não a conseguem colonizar, elas não deixam de estar ocupadas e fechadas em círculo, imunes às decisões dos Governos, às vontades dos ministros. Os mecanismos de intermediação elitizaram-se, no fundo. E esta oligarquia burocrática não serve o poder político democraticamente legitimado: condiciona-o, com o beneplácito da comunicação social, que influencia as percepções públicas e as, como se diz agora, narrativas. A burocracia já não é um mero instrumento da democracia; tornou-se um centro autónomo de poder que vive praeter legem, sem controlo, sem escrutínio, sem fiscalização, como num sub-mundo de onde se destroem ministros e onde se sobrevive na inércia frentista de um País inteiro. Isto seria literário, se não fosse dramático. Mediaticamente, vivemos obcecados com quem ganha as eleições, quem forma Governo e com quem, discutimos sondagens, comentamos debates, como se o destino do País dependesse disso para alguma coisa. É uma ilusão confortável a nossa, quando os poderes reais não vão a votos e nós não os discutimos. Se isto não é um regime apodrecido, não sei o que será – e não serve de consolo o facto de não ser um problema exclusivamente português, mas europeu.

Algumas almas poderão acenar com a ideia de que alimentar a polémica é destruir a democracia. Não creio que a democracia, neste momento, careça de ajudas à sua erosão. A menos que acreditem mesmo que a democracia é isto, um sistema entre sub-mundos de opacidades e gente mediana. Terei de discordar também. A democracia existe para impedir a tirania, não para consagrar a mediocridade. Mas neste tempo, em que a democracia vai sendo cada vez menos capaz de ser ela mesmo não tirânica, tudo parece susceptível de ser posto em causa. E é por isso que o caso de Luís Neves nos podia levar a uma outra conversa que, eventualmente, ninguém quererá ter. É que, em democracia, o titular da soberania ainda é o povo. Mas talvez tenhamos chegado a um novo tempo em que se deve voltar a perguntar que qualidades devem ter aqueles que exercem o poder. Talvez o século XXI tenha de redescobrir uma palavra amaldiçoada e injustamente condenada: a aristocracia. Não do sangue, dos títulos ou da riqueza, não como uma elite fechada, mas permanentemente aberta, onde qualquer cidadão possa entrar e de onde qualquer um possa sair quando tal se justificar. Entre a implosão do Estado, que é necessária, e a reconfiguração do sistema e do regime políticos em que vivemos, não me parece má ideia abrir a discussão sem preconceitos.

The Spectator- Make the Royal Navy great again

 (personal underlines)

Make the Royal Navy great again

It’s all very well for Andy Burnham and John Healey to say they want to fund defence, but are they aware of just what a perilous situation the Royal Navy is in? Policy failure by successive governments, more focused on election appeal than security, means the state has lost sight of the basics. Ensuring the free movement of global shipping has been a priority for centuries because Britain cannot produce enough food, fuel or raw materials for itself. Along with the nuclear deterrence, shipping routes form the existential core of our national security. These routes – vital in world wars against Napoleon, the Kaiser and Hitler – depended on a powerful, globally deployed navy. The current force is not up to the task.

The place of the ocean in national life and culture has also declined. Seafaring roles and shipbuilding have been outsourced. Essential ships are registered by nations without warships, or even a coast. In the past, the connection between a powerful navy, the interests of the City of London and the economic health of the nation was acknowledged by governments of all parties, and managed by the Admiralty, a great department of state located not 100 yards from Nelson’s Column. The Admiralty built, maintained, crewed and directed the navy in war and peace, stood up to the Treasury and co-ordinated with the War Office on strategy. It worked with Lloyd’s of London to manage wartime convoy systems from the 18th century to 1945, securing ocean trade and destroying hostile economies.

After 1945, Britain sacrificed the navy’s wider roles and focused instead on the Cold War defence of West Germany. We relied on America’s immense forces to plug the gaps. In 1964, politicians desperate for more defence cuts abolished the Admiralty, merging the three service ministries into an amorphous Ministry of Defence that lacked any sense of commercial links, cultural prominence and national dependence on the sea. The new arrangement expanded the dominance of the Treasury, which cut major programmes, notably new aircraft carriers, within months of the change. Not only did the MoD ignore the centuries-old priority of maritime security, but it sacrificed critical non-military roles, including acting as the central clearing house for maritime messaging that ensured Britain understood why the sea was central to national security, identity and prosperity. After 1964, British strategy was no longer shaped by the realities of geography and oceanic dependence. Instead it focused on Nato, dismissing other commitments as being ‘Out of [the Nato] Area’. These included the Falkland Islands.

The Falklands War in 1982 demonstrated the limits of Nato support, most of all American – a constant concern as long as Britain is weak. The navy rapidly assembled and dispatched a taskforce, recovered the islands and upheld international order. The success reflected the fact that the navy still owned and ran the maintenance facilities – but only just. They were about to be privatised. Thankfully, because of the swift and effective response to Argentine aggression, plans to cut the navy were reduced, ensuring a strong national response to the tanker war of 1987-88.

Despite the post-1964 decline, when the Cold War ended the navy was still in just about reasonable order. The contrast with today is painful. We need to know who decided to reduce national defences to their current state. Who halved the Type 45 Destroyer build? Who failed to order new frigates to meet the end of life expectancy of the Type 23 class? There have been several times in recent years when the navy has not had a single attack submarine at sea – why were new ones not ordered in time to avoid the fiasco?

Having forgotten why and how this country took such a large role in world history, politicians treat defence as a question of percentages. They do not appear to understand that solutions that work for most Nato partners will not necessarily meet British needs. In this regard, the Nato defence spending goal of 3 per cent of GDP is an unhelpful incentive. It encourages a standardised assembly of capabilities, when the intelligent thing to do is to create defence systems that deliver national security both within the alliance and outside it. Nato would not act if the Falklands were attacked tomorrow. Furthermore, the 3 per cent target fails to recognise specific priorities. For instance, since Germany is building a serious tank force, Britain can focus on the sea, instead of rehashing veteran vehicles.

If Britain were to restore the navy, that would require a consistent long-term building plan to keep the fleet at full strength. It would mean no more Treasury-led funding gaps and quick fixes that leave the navy with massive repair bills for old assets, a shortage of new ships and submarines and a maintenance crisis that private industry appears unable to address. Returning maintenance to nationally owned facilities would be an obvious answer. Private industry has long had a major role in defence, but the Armed Forces and national security are the government’s responsibility and should not be privatised for profit.

Earlier this year, there was a small example of what the navy can still achieve. On 14 June, British forces seized the Cameroon-flagged ‘shadow’ tanker Smyrtos, which had sailed from the Baltic. The operation was legal, swift and effective. Russia’s war economy relies on the illegal movement of oil, gas, fertiliser and grain to fund the Ukraine war. Does our navy have the resources to do something about this at the scale required?

The new government has an opportunity to sort this out before it gets any worse. Wes Streeting, the Defence Secretary, has already said he will resign if not enough is spent on defence. If the government can restore the deterrent fleet, securing more new frigates and much else, then Britain can return to the classic maritime strategic model. Without a fleet upgrade, our interests will be ignored by friends and foes alike.

Observador - Será que o Sanchismo vai morrer na praia de Ceuta? (Tiago Dores)

 

(sublinhados pessoais)

LBC - Brilhante!

Será que o Sanchismo vai morrer na praia de Ceuta?

Marrocos levou a mal o flirt de Sánchez com a Argélia e, numa variante do clássico “malas à porta”, despejou um carregamento de gente em Espanha, só com a roupa do corpo.

Se ainda for a tempo, começo por uma sugestão de férias: Nova Iorque. Têm é de ir o mais depressa possível, se querem testemunhar aqueles cinco, sete minutos em que um supermercado público tem produtos nas prateleiras. mayor da cidade, Zohran Mamdani, confirmou o arranque deste projecto e é a vossa oportunidade de fotografar esse fenómeno ainda mais efémero do que o eclipse do sol do próximo fim de semana.

Só podem mesmo é fotografar, esqueçam comprar os produtos supostamente 30% mais baratos do que nos supermercados normais da cidade. Para ir às compras no supermercado de Mamdani é preciso uma identificação de residente em Nova Iorque. Ou seja, para estes democratas — no sentido de “militantes do partido democrata”, jamais no sentido de “apreciadores da democracia” — comprar um molho de brócolos deve exigir documento de identificação, mas votar num fã do Hamas para liderar a capital financeira dos Estados Unidos da América dispensa por completo essa maçada, num volte-face tornado racista e colonialista.

A propósito de colonialismo, o que nunca foi uma colónia espanhola foi Ceuta. Como é óbvio para todos, especialmente para os geringonços ibéricos e afins, pois se Ceuta fosse uma colónia, isso faria do governo de Pedro Sánchez mais um braço armado do colonialismo, certo? Só para garantir que estamos todos de acordo e celebrar esta ocasião tão rara como haver pão no estaminé do Mamdani.

Não estou com isto a comparar Pedro Sánchez a Zohran Mamdani, como é óbvio. Até porque um é um bonitão e bem-falante comunista apostado em destruir tudo o que de mais fundacional existe no mundo ocidental por forma a alimentar a sua sanha de poder, de signo Peixes, e o outro é de signo Balança. Não, Sánchez é, como nos explicou há meses a jornalista do Público, Ana Sá Lopes (numa demonstração de perspicácia que só encontra paralelo na épica sagacidade da jornalista de investigação, Fernanda Câncio, que jamais desconfiou haver alguma coisa esquisita com José Sócrates), o Churchill dos tempos modernos.

O que depois deste episódio de Ceuta até faz, tenho de admitir, algum sentido. Afinal, houve presciência de Ana Sá Lopes. Quem é que disse que a Sonae está a deitar dinheiro à rua?! Quem diria que o enorme estadista Pedro Sánchez iria ter direito ao seu momento Gallipoli no norte de África. Em termos de tragédias marítimas para os lados do Mediterrâneo, o presidente do governo espanhol está ali, a pedir meças, a Winston Churchill e à sua catástrofe na Primeira Guerra Mundial.

Na verdade, Sánchez é, isso sim, um melting pot de tiranetes sul-americanos, de António Costa obreiro da geringonça e agora, com esta tragédia de Ceuta, do xexé Joe Biden. Que, se estão lembrados, nas vésperas da invasão da Ucrânia por Putin regurgitou a célebre gafe da “minor incursion”, ou seja, proferiu uma frase com o efeito de “se entrar só um bocadinho não conta”.

Enfim, a frase terá tido um efeito ligeiramente menos gráfico do que a minha versão, que serve, no entanto, para lançar o que parece ser a explicação mais simples dos acontecimentos em Ceuta: Marrocos levou a mal o flirt de Sánchez com a Argélia e, numa variante do clássico “malas à porta”, despejou um carregamento de gente em Espanha, só com a roupa do corpo.

E Sánchez ficou pior do que estragado, claro. Não por desdenhar — como é óbvio! — mais umas largas dezenas de milhares de marroquinos — é o desdenhas! — prontos a substituir os empecilhos nativos que teimam em não querer viver na Venezuela. Não, o que não foi simpático para Sánchez foi a forma de entrega deste novo pacote de votantes.

Que este tipo de “encomenda” não pode ser atirada, assim, por cima do portão. Este tipo de entrega tem de ser feita com a discrição que depois estende a passadeira ao clássico “mas como é que estas pessoas aqui chegaram? Bom, agora é humana, financeira e até fisicamente impossível recambiá-las para os seus países. Não resta alternativa senão dar-lhes casa, comida, subsídio e cartão de eleitor para irem às urnas para a semana.” É assim que este tipo de entrega tem de ser feita. E não num cenário que dá ideia de ser o próximo projecto dos criadores da Casa de Papel, uma co-produção hispano-marroquina do novo World War Z.

Resumindo: a culpa é dos judeus.


domingo, 2 de agosto de 2026

Livro - História do Abastecimento de Água a Lisboa (Luis Leite Pinto)

 


Reflexão - LBC

 

Eis as razões do que se passou em Ceuta, em 20 segundos...



The Spectator - The rise and rise of Australia’s Nigel Farage

 

(personal underlines)

The rise and rise of Australia’s Nigel Farage

For three decades, Australia’s political Establishment has been predicting Pauline Hanson’s demise. But whenever critics tried to administer the kiss of death to the flame-haired firebrand, it somehow functioned as mouth-to-mouth resuscitation.

Today her One Nation party is polling at levels once thought unimaginable. In recent polls, it even surpasses support for Australia’s centre-left Labor government and centre-right Liberal-National party opposition. Last month, One Nation won its first lower-house seat. Whatever happens next, Hanson has become one of the most consequential figures in modern Australian politics.

To British readers, Hanson is often described as Australia’s answer to Nigel Farage. The reverse is closer to the truth. Hanson emerged in 1996, two decades before Brexit, long before Donald Trump’s rise, before Reform UK and before the resurgence of nationalist and populist parties across Europe. Australia encountered populism before populism became fashionable.

Hanson’s maiden parliamentary speech that year, in which she said that Australia was in danger of being ‘swamped by Asians’, triggered outrage among metropolitan sophisticates and offended an entire region. The Australian left responded with its customary restraint and moderation by comparing her to Hitler. She even served time in prison on electoral fraud charges that were ultimately overturned on appeal.

To much of educated Australia, Hanson appeared less like a politician than an embarrassing historical artefact. The assumption was Hanson would eventually vanish. I should confess that I was among those who believed she had reached her peak years ago. So were many others. Hanson has spent much of her career proving us wrong.

Why? The answer is not that Australians suddenly became racists or extremists. Nor is it that Hanson was always right. Rather, many of the issues she raised never disappeared. Concerns about mass immigration, housing affordability, national identity, energy security and affordability, and the widening gap between political elites and the general public remained potent long after commentators declared them settled.

For years, much of Australia’s media and political class treated these questions as beyond respectable debate. It was not so much their opinion and her opinion; it was their opinion – and she’s stark raving mad. Hanson wanted to reopen questions that the Establishment considered closed. That helps explain her extraordinary longevity.

The Establishment has often mocked Hanson as a simpleton, a former fish-and-chip shop owner who had somehow wandered into parliament by mistake. Yet her supporters see a profoundly patriotic politician who speaks plainly, appears authentic, and seems less interested in impressing elites than representing voters who feel ignored by them.

In an age of growing distrust toward institutions, authenticity has become a formidable political asset. Hanson and One Nation have benefited from a simple perception shared by many supporters: whatever her faults, Hanson says what she thinks. This also helps explain why repeated attempts to destroy her politically often backfired. Critics attacked Hanson herself rather than addressing the concerns which were driving voters towards her. The more she was denounced as beyond the pale, the more some Australians concluded she must be touching subjects others preferred not to discuss.

Recent events have reinforced that lesson. The landslide defeat of the Voice referendum in 2023 – the proposal that a selective group of Indigenous Australians should be granted a special place in the national parliament – revealed a substantial gap between elite opinion and public opinion. The result demonstrated that Establishment consensus is not always the same thing as popular consensus. The same institutions that expected a comfortable victory for the Voice have repeatedly underestimated the depth of support for Hanson and the causes she represents.

The same dynamic is evident in the immigration debate. Over the course of a generation, large parts of urban and outer-suburban Australia have been transformed by rapid population growth. Many residents worried about housing shortages, congested roads, overstretched hospitals and crowded schools felt their concerns were either ignored or dismissed as prejudice. But they were genuine anxieties, and many voters continue to believe that neither major party is prepared to address them.

The coalition behind One Nation therefore includes not only traditional conservatives who think the Liberal party has lost its way under a succession of wet and weak leaders, but also working-class voters who believe Labor has become preoccupied with identity politics. In that respect, Hanson supporters resemble many of those drawn to Farage, Donald Trump and Marine Le Pen. They are willing to disrupt conventional politics not because they know precisely what comes next, but because they have lost faith in what already exists.

None of this means One Nation is destined for government. Under Australia’s preferential voting system, Hanson may never become prime minister. But that may be beside the point. Farage was not even an MP when Britain left the European Union. Political influence is not measured solely by office. Some politicians govern; others make the weather. Hanson belongs firmly in the second category. The more important question is whether Australian politics continues moving onto terrain that Hanson helped define. On immigration, energy policy, cultural identity and distrust of political elites, that process already appears well under way, especially at a time of stagnant living conditions and a productivity drought.

The real surprise is not that Pauline Hanson survived, but how many of the issues she raised now dominate politics across the democratic world.

Desporto - Sumo (Torneio de Julho)

É notável a subida de nível destes últimos torneios! Mesmo com a lesão no pé, conseguiu ganhar depois da finalíssima com o sekiwake Atamifuji e o ozeki Kirishima. 









Classificações antes do torneio de Julho de 2026