segunda-feira, 11 de maio de 2026

Observador - Avanços extraordinários para o povo no cu dos outros é refresco (Diogo Quintela)

 


Avanços extraordinários para o povo no cu dos outros é refresco

Admiro os comunistas. Todos os dias, sem excepção, apresentam-se ao serviço na Casa da Democracia, um sítio que os enoja. Como um vegan que preside a um clube de tauromaquia, pesca e caça.

Esta semana tive de actualizar o meu ranking de empregos cujos profissionais têm de vencer a mais agressiva repugnância para os desempenhar. Até 6.ª feira passada, o pódio era ocupado por: em terceiro lugar, polícias que são os primeiros a entrarem numa casa onde faleceu alguém há vários meses, ao pontos de os vizinhos terem topado pelo cheiro; no segundo posto, desentupidor de fossa séptica em pocilga industrial; e em primeiro, a larga distância, prostituta que exerce o seu mister em estrada nacional por onde circulam desentupidores de fossas sépticas em pocilgas industriais.

Porém, depois de ter assistido à prestação do grupo parlamentar do PCP no dia da visita do Presidente do Parlamento da Ucrânia, o ranking ganhou novo líder. Neste momento, considero que o funcionário que ultrapassa o maior nojo para se apresentar no local de trabalho é o deputado do PCP. O asco que lhes causa a democracia foi patente quando entraram a meio da sessão, já depois de o dignitário ucraniano ter saído. Só uma hercúlea força de vontade os impediu de se apresentarem na latrina parlamentar de galochas, luvas de borracha e uma máscara de gás.

Admiro os comunistas. Todos os dias, sem excepção, apresentam-se ao serviço na Casa da Democracia, um sítio que os enoja. Como um vegan que preside a um clube de tauromaquia, pesca e caça, têm de fingir que apreciam as actividades que lá se praticam. E, honra lhes seja feita, ao longo dos anos têm disfarçado muito bem. (E nós também, que suspendemos a descrença e fazemos de conta que eles são democratas). Participam nos debates, apresentam projectos de lei, votam quando é preciso, imitam todos os gestos de um democrata. Mas percebe-se que não estão convencidos. Como um daqueles amigos desengonçados que não gosta de dançar, mas até decorou a coreografia da Macarena.

Os comunistas estão sempre muito concentrados na mecânica do processo democrático, mas de vez em quando distraem-se e sai-lhes qualquer coisa que denuncia o repulsão que os move. Desta feita, aconteceu a Paula Santos, líder parlamentar, que enquanto operava uma das corriqueiras defesas da invasão russa, saiu-se com esta: “A União Soviética, infelizmente, já há muito tempo terminou. Infelizmente, porque de facto foram avanços extraordinários para o povo”. Foi o momento em que, agoniada com o odor a democracia que se sente em São Bento, Paula Santos pegou no seu frasquinho de Eau de Gulag e borrifou o hemiciclo.

O problema da declaração de Paula Santos é gramatical. Há que substituir a preposição. Onde se lê “foram avanços extraordinários para o povo”, devia estar “foram avanços extraordinários sobre o povo”. Nomeadamente, o povo russo, o povo ucraniano, o povo georgiano, o povo cazaque, o povo arménio, o povo azeri, o povo letão, o povo polaco, o povo húngaro, o povo checo e o eslovaco. Sobre esses povos, de facto, a URSS avançou. Aliás, avançou, fez marcha atrás, voltou a avançar, voltou a fazer marcha atrás. Já pretender que os povos gostaram desses avanços é como achar que aquelas doutorandas de sociologia desfrutaram dos avanços do Prof. Boaventura.

Na nossa democracia, condescende-se com a ligação que os comunistas insistem em manter com ditaduras torcionárias. Não é a primeira vez que um membro do PCP elogia a ditadura mais longa e mortífera do séc. XX – e espero que não seja a última: de vez em quando é preciso sermos mordidos pela ratazana para nos lembrarmos que é perigosa – sem que se dê grande sobressalto. Geralmente, a explicação para a simpatia é dever-se a derrota do nazismo à URSS. O que é verdade. Os soviéticos foram fundamentais para os Aliados vencerem a 2.ª Guerra Mundial. Mas reconhecê-lo é uma coisa, admirá-los é outra. É como ficar eternamente agradecido à diabetes por ter morto Papa Doc Duvalier, esquecendo que continua a matar 3.4 milhões de pessoas por ano. Até porque, como a diabetes antes do ditador haitiano, quando Hitler os atacou, os soviéticos também já tinham feito a folha a milhões de inocentes. Entre purgas internas, esmagamento de kulaks e subversivos de vária sorte, Holodomor e outras fomes provocadas, repressão a povos dentro das suas fronteiras, foram perto de 10 milhões entre 1922 e 1941.

Ao longo do tempo, a Assembleia da República tem servido de púlpito a vários  defensores da URSS. O que não me choca, embora lamente que, por uma questão de igualdade, não seja dado tempo de antena a proponentes de canibalismo, de roubo de órgãos ou de pedofilia com órfãos cegos que sofrem de trissomia 21. Enfim, não há espaço para todos.

Em defesa do PCP virá o argumentário do costume: de comunistas já  só têm o nome, renegam o estalinismo, na verdade são quase sociais-democratas. Só que isso é aldrabice. E, logo no dia seguinte à apologia soviética de Paula Santos, tivemos a prova. Com a morte de Carlos Brito, pudemos ler os obituários que lembram como o antigo braço direito de Álvaro Cunhal sugeriu que o partido se afastasse do marxismo-leninismo, a ideologia oficial do Estado soviético, desenvolvida por Estaline e que preconiza, entre outras maravilhas, a ditadura do proletariado. Os comunistas portugueses não acharam graça à ideia, correram com Carlos Brito e optaram por manter, até hoje, a aversão pela democracia. No entanto, aparecem todos os dias para trabalhar nela. Com uma mola no nariz, claro.

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