quarta-feira, 3 de junho de 2026

Observador - A grande substituição (João Pedro Marques)

 


(sublinhados pessoais)

A grande substituição

Esta é a substituição da verdade histórica por uma narrativa pseudo-histórica que legitima as aspirações e metas políticas dos povos de outros continentes, em particular os de África.

Sim, eu sei que a expressão “grande substituição” se aplica usualmente à ideia de ultrapassagem demográfica das populações brancas, as tradicionais ocupantes da Europa, por vagas de pessoas vindas de outros continentes, gente que por via da imigração descontrolada e da subsequente alta taxa de reprodução biológica, poderá, segundo a antevisão, vir a sobrepor-se às populações que cá estão e a dominá-las. Mas eu aqui uso a expressão com outro significado, o da substituição da verdade histórica por uma narrativa pseudo-histórica que legitima as aspirações e metas políticas dos povos de outros continentes, em particular os de África.

Quando, no passado dia 25 de Março, a Assembleia Geral da ONU aprovou a aberrante proposta do Gana que caracterizou o tráfico transatlântico de escravos e a escravidão de africanos nas cidades, minas e plantações nas Américas como “o mais grave crime contra a humanidade”, e exigiu aos países ocidentais que nele se envolveram o pagamento de reparações, muita gente na Europa veio dar conta da sua oposição a essa aprovação e tentou demonstrar o mal fundado, tanto histórica como jurídica e logicamente falando, da referida proposta. Também em Portugal isso se verificou. Miguel Morgado, por exemplo, apontou com grande clareza a hipocrisia de tudo aquilo e criticou duramente a cobardia, ignorância e desorientação de uma Europa — Portugal incluído — que se absteve perante tão aberrante proposta. Eu também o fiz, primeiro preventivamente, antes da votação da proposta, e depois após a sua aprovação. Poderia ter escrito um terceiro artigo para apontar o dedo à desfaçatez da Rússia e dos países árabes, grandes traficantes e/ou utilizadores de trabalho escravo, que agora votaram a favor da exclusiva penalização da Europa, ou para apontá-lo com ainda maior veemência à hipocrisia do Gana, o patrocinador ou porta-voz desta aberração, e de outros países africanos que foram grandes actores do tráfico transatlântico de escravos, com o qual lucraram, e que agora vieram exigir ser ressarcidos, como se tivessem um passado angélico e impoluto nessa matéria. Mais. Poderia apontá-lo igualmente à falsidade ou duplicidade do governo de Angola, que após ter prometido, pela voz do seu Presidente da República, que nunca exigiria a Portugal o pagamento de reparações, apareceu agora, como membro da União Africana, a exigi-las. E não me esqueceria certamente de apontar também o meu dedo aos embaixadores europeus na ONU que em vez de se sentirem orgulhosos por representarem países que se tinham empenhado em pôr fim ao tráfico transatlântico de escravos, surgiam agora cabisbaixos, compungidos e encolhidos. De facto, como é possível que os países europeus — nomeadamente o Reino Unido —, não obstante reconhecerem e reafirmarem a impossibilidade e o erro de estabelecer uma hierarquia entre atrocidades históricas, e sublinharem que não há qualquer dever de reparação por acções de agentes históricos que não eram ilegais na época em que aconteceram, ainda assim se tenham abstido em vez de votarem frontalmente contra?

Porém, tudo isso seria inútil, um trabalho baldado, porque nada nesta tendência culpabilizadora e reparacionista é permeável à luz dos factos e dos argumentos. O que está aqui em jogo não é a lógica nem a verdade, mas sim a vontade política de mais uma vez relançar a esperança e ajudar os países de África a vencer os seus problemas internos como a pobreza, a saúde pública, a corrupção das elites, o atraso no desenvolvimento, etc. Houve, no final do século XVIII e primeira metade do século XIX, a convicção de que, terminado o tráfico transatlântico de escravos, a África se desenvolveria rapidamente e os europeus, com destaque para os britânicos, empenharam-se fortemente nisso, mas o desenvolvimento não arrancou como imaginado. Houve, depois, um reavivar dessa esperança com o fim do colonialismo e o movimento das independências, mas muitos dos novos países ficaram na mão de elites parasitárias e corruptas. Há agora, patrocinado pela ONU, um terceiro renascer da esperança e o desejo de canalizar, por intermédio das ditas reparações, mais fundos para os países africanos e caribenhos.

O problema é que a África e as Caraíbas não querem aparecer como entidades ajudadas, mas sim compensadas ou ressarcidas. Não querem actos de auxílio, de boa vontade ou beneficência, mas sim de reparação ou indemnização. Querem algo a que teriam supostamente direito, e para isso, para o justificar, precisam de forjar uma história em que surjam como indiscutíveis vítimas de um indiscutível algoz: a Europa colonial. Os dirigentes e ideólogos dos países africanos e caribenhos criaram esse bode expiatório para arcar com os males e culpas de todos os outros, e o que mais indigna é que ele caminhe voluntariamente para a imolação. Pior. Esse bode expiatório — a França, o Reino Unido, Portugal, etc. — produz ele mesmo, ou apoia paternalmente, os historiadores que operam uma sistemática cirurgia plástica dessa realidade a que chamamos passado, e forjam a narrativa que o vai condenar. Essas pessoas estão a falsificar a História, a substituir uma narrativa equilibrada — em História o equilíbrio é absolutamente fundamental —, alicerçada em documentos, por outra estribada em fantasias, mitos, omissões e apagamentos, e estão a fazê-lo com a anuência ou complacência dos poderes políticos ocidentais, que depois se encarregam de transpor essa narrativa falsificada, martelada, mutilada, para o ensino básico e secundário.

O processo de falsificação é relativamente simples. Há desde logo uma falsificação involuntária que radica na ignorância e nas confusões de alguns dos historiadores, assunto a que voltarei num próximo artigo. O processo passa também, mais frequente e astuciosamente, pelo apagamento propositado. Enquanto a historiografia séria e imparcial procura alargar o leque e a visão das coisas, para estudar e compreender a escravatura como fenómeno de quase todas as épocas e de quase todas as regiões terrestres — vejam-se, por exemplo, os vários volumes de The Cambridge World History of Slavery —, os historiadores revisionistas e reparacionistas restringem a escravatura ao tráfico transatlântico de escravos e às colónias criadas pelos europeus nas Américas no período que vai de meados do século XV a finais do século XIX. Apagam ou ignoram tudo o resto, mesmo o que diz respeito a África, como sejam a escravatura intra-africana e o comércio negreiro levado a cabo por árabes e outros muçulmanos, que, como é bem sabido, remonta ao século VII e que terá sido responsável pela captura, venda e transporte de 5,6 milhões de pessoas negras ainda antes de os navegadores portugueses terem chegado ao Golfo da Guiné.

Outro método de falsificação é o da imaginação criativa com vista a diminuir a dimensão humanitária e moral positiva do Ocidente. Vou dar um exemplo. Sabemos que a escravatura — toda ela, não apenas a que fluía através do Atlântico — terminou em consequência do grande movimento abolicionista surgido no último terço do século XVIII e que foi liderado pelos povos ocidentais, nomeadamente pelos britânicos. A importância desse movimento e dos seus principais impulsionadores (Wilberforce, Clarkson, etc.) não oferece contestação, nem mesmo por parte daqueles antigos historiadores de origem africana — como Eric Williams, por exemplo — que queriam minorar o peso da ideologia para fazer sobressair o do interesse económico. Mas os actuais historiadores revisionistas que defendem a ideia de reparação contam-nos outra história. Um deles, José Lingna Nafafé, sobre o qual já escrevi e voltarei certamente a escrever, quer fazer-nos crer que houve um movimento abolicionista africano (sic) anterior ao dos séculos XVIII-XIX. Nessa visão revisionista da História o abolicionismo teria, portanto, nascido em África. Outros, mais numerosos, tentaram e tentam vender a ideia de que a escravatura acabou não por iniciativa e esforço dos abolicionistas ocidentais, mas por acção dos próprios escravos que se revoltaram e lhe teriam posto fim. Ainda há dias pudemos ler, no Público, uma historiadora brasileira a difundir essa tese.

Trata-se de uma tese com pouco ou nenhum fundamento, que combato há 20 anos, tanto aqui como no estrangeiro. Mas estou a remar contra a maré porque muitas pessoas não querem ouvir nem pensar. Sim, é verdade que os melhores historiadores (David B. Davis, Seymour Drescher, etc.) concordam comigo, mas são pessoas nascidas nas décadas de 1920-40, alguns deles já cá não estão, outros estão retirados, e infelizmente há agora um batalhão de novos historiadores ao serviço desse revisionismo e apostados em alcançar e promover a meta das reparações. São eles, e os poderes académicos e políticos que lhes dão cobertura e acolhimento, que têm vindo a forjar uma História falsa, porque descaradamente amputada ou desequilibrada, e a fabricar a grande substituição da narrativa — e de um suposto saber — na qual as futuras gerações irão acreditar, e as desejadas e já tacitamente aceites reparações monetárias e outras se irão estribar.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Livros - Le nouvel ordre post - occidental (Alexandre Del Valle)

What a book! 















Observador - As Forças Armadas continuam à espera de que a Política preste Serviço! (Fernando Figueiredo)

 

(sublinhados pessoais)

As Forças Armadas continuam à espera de que a Política preste Serviço!

No fim, todas as tecnologias militares convergem para uma verdade antiga: nenhum sistema combate sozinho.

Durante décadas, a Europa habituou-se à confortável ideia de que a guerra era um problema distante, resolvido pela NATO, pela dissuasão americana e por uma espécie de “paz automática” garantida pela globalização.

O resultado dessa ilusão estratégica está hoje à vista: exércitos tecnologicamente sofisticados, mas com crescentes dificuldades em recrutar, reter e regenerar efectivos. A guerra na Ucrânia destruiu definitivamente essa fantasia do “fim da História” e obriga os países europeus a confrontarem-se com uma pergunta incómoda: se necessário, quem combate, quem mobiliza e quem sustenta uma guerra prolongada?

É verdade que os carros de combate se compram, as munições se fabricam, mas o capital humano militar demora anos a construir.

A guerra na Ucrânia já dura há quatro anos, mas só agora parte dos nossos deputados parece ter despertado para o estado real das nossas Forças Armadas (FFAA). E despertaram não por iniciativa própria ou visão estratégica, mas porque a tutela da Defesa expôs publicamente os efeitos das medidas tomadas pelo Governo AD que, não curando a doença estrutural, pelo menos conseguiram estancar a hemorragia.

Perante isso, assistimos a mais um episódio de ejaculação legislativa destinada sobretudo ao aplauso das respetivas bancadas parlamentares.

Muito ruido, pouca substância.

O problema é que conhecem mal a realidade que agora fingem descobrir e, pior ainda, não se deram ao trabalho de estudar o problema na profundidade necessária para perceber que não existe uma solução única para os três Ramos. A Marinha enfrenta desafios de recrutamento e retenção muito diferentes dos da Força Aérea. A Força Aérea compete com mercados altamente qualificados e tecnicamente agressivos. O Exército, pela sua dimensão e natureza operacional, sofre necessidades humanas incomparavelmente maiores. Misturar tudo no mesmo pacote de propostas é demonstrar desconhecimento absoluto da especificidade de cada Ramo. E, que tipo de FFAA vamos precisar em 2030? Já pensaram nisso?

Mais grave ainda: produziram essa legislação sem ouvir devidamente quem conhece a realidade operacional, os Chefes dos Ramos.

Numa instituição assente em cadeia de comando, experiência e conhecimento técnico, ignorar quem lidera diariamente as Forças Armadas é não apenas arrogante, mas profundamente irresponsável.

Tinham prestado melhor serviço ao país se tivessem optado pelo silêncio e pelo estudo sério do problema. Porque aquilo a que assistimos foi, em linguagem militar simples e direta, uma monumental bostada.

E convém recordar algo essencial: o drama dos efectivos não é exclusivo de Portugal.

Estende-se por toda a Europa. Espanha, Alemanha, Itália, Grécia ou França enfrentam dificuldades crescentes de recrutamento, retenção e ligação entre sociedade e defesa.

A diferença é que alguns países já perceberam que isto não se resolve com anúncios, slogans ou voluntarismo legislativo. Resolve-se com estratégia, cultura de defesa, valorização da condição militar e políticas diferenciadas para cada realidade operacional.

Vejamos alguns exemplos:

Na vizinha Espanha, as Forças Armadas espanholas mantêm cerca de 120 mil militares activos, mas enfrentam problemas crescentes de envelhecimento, dificuldade de retenção, salários pouco competitivos e forte dependência de contratos temporários. Madrid aboliu o serviço militar obrigatório em 2001, apostando totalmente num modelo profissional. O problema é estrutural: o sistema produz forças relativamente qualificadas, mas sem grande profundidade mobilizável. Ou seja: há capacidade para operações expedicionárias limitadas, mas não necessariamente para sustentação prolongada de conflito de alta intensidade.

A França continua a ser provavelmente o único país da Europa Ocidental com verdadeira cultura estratégica autónoma. Com cerca de 200 mil militares activos, força nuclear própria e tradição expedicionária permanente, Paris preservou a cadeia industrial militar e a capacidade de mobilização relativamente séria, mas também enfrenta dificuldades de desgaste operacional, recrutamento, competição do sector privado e erosão demográfica. Curiosamente, Macron reintroduziu o “Service National Universel”, embora em formato cívico e não militar clássico.

A mensagem política é clara: a França percebeu que a ligação entre sociedade e defesa estava perigosamente enfraquecida.

A Itália possui números aparentemente robustos, cerca de 170 mil efetivos, mas enfrenta forte envelhecimento, estruturas pesadas, baixa disponibilidade operacional e dificuldades de modernização.

O modelo italiano continua fortemente profissionalizado, mas muito dependente de carreiras longas e estruturas administrativas extensas.

Na prática, Roma possui dimensão institucional militar superior à sua capacidade real de projecção sustentada.

A Grécia é um caso muito diferente. Ao contrário de grande parte da Europa, Atenas nunca acreditou verdadeiramente no “fim das ameaças” até porque as tinha à porta.

A tensão permanente com a Turquia obrigou o país a preservar o serviço militar obrigatório, uma cultura de mobilização, uma reserva relativamente ampla e uma forte consciência estratégica nacional.

O efectivo activo ronda 140 mil militares, mas o mais relevante é a capacidade de mobilização reservista.

Num continente que desaprendeu a pensar guerra convencional, a Grécia continua a estruturar-se como país potencialmente mobilizável.

Talvez nenhum país simbolize melhor a crise militar europeia do que a Alemanha

A Bundeswehr com mais de 190 mil militares sofre há anos de subfinanciamento histórico, burocracia extrema, dificuldades graves de recrutamento, baixa prontidão operacional e problemas de equipamento.

Berlim aboliu o serviço militar obrigatório em 2011, precisamente no auge da ilusão pós-Guerra Fria. Hoje tenta desesperadamente reconstruir capacidade humana e industrial, mas existe um problema profundo: a cultura estratégica alemã pós-1945 tornou extremamente difícil a relação da sociedade com o poder militar.

A Alemanha percebe agora algo desconfortável: dinheiro sozinho não produz forças armadas funcionais.

No entretanto, a Europa acordou finalmente para os drones,

A, caças de sexta geração, sistemas autónomos e toda a parafernália tecnológica que alimenta conferências, powerpoints e brochuras institucionais. E tudo isso é importante, sem dúvida, mas o problema é que a Ucrânia demonstrou algo brutalmente simples: a guerra continua a consumir soldados a uma velocidade industrial.

E isso expôs a maior fragilidade europeia: a ausência de profundidade humana militar.

Os conflitos modernos exigem simultaneamente tecnologia, indústria, logística e… massa humana. A robótica ajuda. A IA ajuda. Os drones ajudam, mas continua a não existir algoritmo que ocupe terreno, segure uma linha ou substitua completamente vontade humana sob fogo.

A verdadeira questão, aquela cuja resposta se esperava dos deputados era outra:

como criar uma sociedade capaz de gerar resiliência militar nacional num contexto europeu de crescente instabilidade?

O debate dos deputados rapidamente degenerou em mais um exercício de vacuidade. E eis que surge um deputado do PS, num artigo de opinião no Expresso, iluminado pela habitual certeza sobre tudo o que mexe nas FFAA, a escrever uma mão cheia de nada embrulhada em linguagem de politiques

O mesmo PS que mais desinvestiu nas FFAA nas últimas décadas descobre agora, com espanto quase antropológico, que existem problemas de planeamento, retenção, previsibilidade, carreiras e capacidade operacional.

É sempre comovente ver incendiários regressarem ao local do fogo na qualidade de especialistas em combate a incêndios.

O “especialista da defesa” faz aquilo que a burocracia faz melhor: transformar obviedades em estratégia e diagnósticos em acção política. Fala de “celeridade”, mas a solução apresentada resume-se ao clássico receituário administrativo de mais estruturas, mais mecanismos, mais coordenação, mais plataformas, mais grupos de trabalho e mais camadas burocráticas.

Não existe uma ideia concreta e pragmática sobre efectivos, serviço militar, indústria de defesa, rearmamento, soberania estratégica, cultura de defesa ou mobilização nacional.

Nada.

Apenas linguagem de gestão cuidadosamente desenhada para agradar aos lambe-cus da militância partidária e produzir a ilusão de pensamento estratégico. E não satisfeito com a verborreia tecnocrática, ainda encontra tempo para criticar quem está, bem ou mal, a tentar resolver a herança desastrosa que deixaram para trás.

A certa altura quase se espera a criação de um grupo de trabalho para estudar a constituição de uma comissão de acompanhamento do observatório da previsibilidade operacional sustentável. E nada melhor para resolver os problemas estruturais das FFAA do que acrescentar mais três deputados ao já muito povoado Conselho Superior de Defesa Nacional, espaço onde, convenhamos, escasseiam sobretudo cadeiras. Oxalá a escolha parlamentar esteja à altura do momento histórico.

Seria particularmente enriquecedor ter:

um deputado do PCP a explicar, em plena discussão sobre ameaças russas, que a verdadeira solução estratégica continua a passar pela saída da NATO;

um representante do BE ou do Livre a propor transformar a Base das Lajes num hub eco feminista de observação climática e meditação transatlântica;

e a deputada “única” do PAN profundamente preocupada com o impacto emocional dos saltos operacionais nos cães dos paraquedistas.
Seria absolutamente extraordinário.

A este ritmo, qualquer dia o Conselho Superior de Defesa terá mais conselheiros do que militares disponíveis para mobilização, mas pelo menos ficará muito diverso, inclusivo e climaticamente resiliente.

Quem deixou as FFAA chegar ao estado actual devia apresentar-se primeiro com um pedido de desculpas antes de tentar posar como arquitecto da solução. O colapso dos efectivos, a degradação das carreiras, o envelhecimento das forças, a perda de atractividade e a erosão operacional não aconteceram por geração espontânea. Foram decisões políticas, tal como estas que agora propõem e que querem resolver com semântica, powerpoints e mais entropia no sistema. Infelizmente, a guerra real continua pouco impressionada com artigos de opinião.

Querem realmente ajudar?

Então sejam pragmáticos e aprovem rapidamente a melhoria das condições salariais nas FFAA.

Querem soldados?

Querem discutir seriamente um novo modelo de prestação do serviço militar?

É uma contradição quase caricatural no actual debate sobre defesa. Anuncia-se fundos e milhares de milhões para rearmamento, drones, caças, fragatas, etc mas evitam frequentemente discutir a questão mais básica de todas, quanto ganha afinal um soldado português?

E um europeu?

A realidade é desconfortável, e em muitos países da Europa, um militar no início de carreira ganha pouco mais, ou até menos, do que funções civis de baixa qualificação.

Um soldado espanhol em início de carreira recebe, em média cerca de 1.400€ líquidos mensais, a França paga melhor, na ordem dos 1919€ mas o ritmo operacional francês é muito mais intenso, na Itália, um militar em início de carreira ronda 1.300€ mas o sector privado começa a competir agressivamente por jovens tecnicamente qualificados, a Alemanha aumentou bastante os salários militares na última década, e hoje, um soldado alemão pode começar acima de 2.500€ líquidos e mesmo assim, a Bundeswehr continua com dificuldades de recrutamento. A Grécia paga relativamente pouco, 1039€, mas a sociedade grega mantém uma cultura de defesa nacional.

Portugal com os 961€ de entrada é talvez o caso mais crítico da Europa Ocidental e continua numa situação particularmente delicada. Mesmo com recentes atualizações, muitos soldados portugueses continuam a ganhar significativamente menos do que profissões industriais, a enfrentar progressão limitada e a suportar custos elevados de deslocação e alojamento. Claro que os suplementos salariais melhoram o panorama e não estamos tão mal como já estivemos no passado.

E o problema é só soldados? E a tabela salarial está ajustada para o que serão as FFAA do futuro? Um Pandur hoje precisa de um sargento, mas e um Boxer não precisará de mais? Um F35 precisa de quantos oficiais pilotos? E o novo navio multifunções não precisa de mais quadros do que praças? Os concursos para oficiais e sargentos contratados têm ficado com vagas com preencher porquê?

Durante décadas, a carreira militar foi apresentada como residual, temporária, pouco atrativa e até politicamente desconfortável.

Ao mesmo tempo, o sector privado aumentou salários e a tecnologia abriu oportunidades.

Hoje, os exércitos competem no mesmo mercado de trabalho e muitas vezes perdem. A Europa quer rearmar-se, mas começa lentamente a descobrir algo desconfortável, não existe defesa europeia sem pessoas dispostas a vestir a farda. E essas pessoas vivem no mesmo mercado imobiliário, no mesmo custo de vida, na mesma pressão económica e nas mesmas expectativas sociais que qualquer outro cidadão.

No fim, nenhuma estratégia de defesa resiste se um país estiver disposto a gastar milhões em drones… mas não em quem os opera.

Portanto, senhores deputados, talvez fosse prudente começarem pelo princípio: estudar seriamente como corrigir e ajustar a tabela salarial dos militares das Forças Armadas.

E isso significa que a discussão já não passa apenas pelo Ministério da Defesa. Passa e muito pelas Finanças.

Ou, se não têm pernas para resolver tudo, no mínimo resolvam o problema da legislação dos efectivos que continua por actualizar.

De que adianta o ministro da Defesa vir anunciar metas e ambições que ainda faltam 7.500 militares para atingir o efectivo legal de 32 mil, mas depois o próprio Estado cria bloqueios absurdos?

O Exército, por exemplo, tem cerca de 1.000 candidatos e, por falta de despacho legislativo nem as 150 vagas são preenchidas?

Pior: cerca de 400 candidatos reuniam condições para ser admitidos e não podem ser integrados porque a legislação parada numa gaveta não prevê essa excepcionalidade. E carreiras paradas ajudam? Se não há dinheiro sejam verdadeiros e não enganem os jovens, os militares e nem o País!

Há jovens que apostaram em seguir uma carreira militar e viram a expectativa gorada.

Naturalmente, isso cria um efeito negativo junto de outros potenciais candidatos. E a falta de planeamento agrava tudo: muitos estão empregados, precisam de respeitar a legislação laboral e dar aviso prévio de um mês antes de se despedirem, mas não sabem sequer se vão ser incorporados.

Não aprovam a revisão laboral, nem removem os bloqueios já identificados e depois admiram-se com as dificuldades de recrutamento. Percebem agora porque Nuno Melo saudou a inversão da queda como “notável”, mas pediu cautela “sem euforias”?

Porque há deputados na Assembleia da República e um ministro das Finanças que parecem viver num mundo completamente diferente da realidade das FFAA.

E um primeiro-ministro responsável por dar o murro na mesa ,,, tarda!

Acordem para a vida!

O mundo mudou, mas no fim, o país que preservar a ligação entre sociedade e defesa entram nesta nova era estratégica em posição muito mais sólida do que aqueles que acreditaram que a guerra tinha desaparecido da História.

Porque no fim, todas as tecnologias militares convergem para uma verdade antiga:
nenhum sistema combate sozinho.


Observador - O fim do mundo em calções de banho (Alberto Gonçalves)


 

(sublinhados pessoais)

O fim do mundo em calções de banho

Não são os “negacionistas” das alterações climáticas que colocam a Terra em risco: os alarmistas são um risco imensamente maior.

Há dias, li algures que a onda de calor matara sete pessoas em França, cinco delas por afogamento. Atribuí o absurdo a descuido do redactor da notícia e segui em frente. Sucede que em frente a notícia e o absurdo repetiam-se em todos os sites informativos: sete mortos em França por causa do calor, dos quais cinco afogados. De site em site, acabei por distracção no tenebroso “The Guardian”, que ao menos citava directamente o autor da frase, um porta-voz do governo francês em declarações à estação televisiva TF1. Lembrei-me da época da Covid, quando as preposições “de” e “com” se tornaram intermutáveis. Para efeitos de divulgação pública, era indiferente se uma pessoa morria “de”, por causa da Covid, ou “com”, porque casualmente tinha Covid no momento em que fora apunhalada pelo cunhado. O que importava era esticar os números para estimular o respectivo impacto junto das audiências. E para melhor “legitimar” a gravidade da maleita.

No caso dos afogados no calor, a maleita são as alterações climáticas, que logo inúmeros especialistas incluíram na certidão de óbito dos tais cinco franceses que, se removermos a histeria, aparentemente não sabiam nadar. Dado o precedente, em época de chuva será fácil culpar as alterações climáticas pelo atropelamento do sujeito que fugia dos pingos – e não o condutor distraído a trocar mensagens no telemóvel. Fácil e até recomendável, já que o único objectivo de todo o exercício é o de alimentar o pânico face ao carácter potencialmente destrutivo do clima, às mudanças registadas no clima, e à influência do homem no clima. Não é por acaso que as entidades públicas lançam avisos apocalípticos ante a proximidade de uma reles trovoada, ou que os gráficos das previsões meteorológicas passaram a ser de um vermelho satânico sempre que anunciam temperaturas acima de uns agradáveis 29 graus, numa evocação dos anúncios de medicamentos contra a azia que mostram o esófago em chamas. Também não é por acaso que o medonho planeamento urbano da maioria das nossas cidades é habitualmente esquecido na hora de identificar a responsabilidade pelas cheias. E de certeza não é por acaso que, nos intervalos dos serviços prestados ao Hamas, o secretário-geral da ONU se entretém a inventar termos apatetados (“ebulição global”, “inferno climático”, “bomba-relógio”, “carnificina”, etc.) para definir uma situação que se pretende séria. A finalidade é vender um produto.

Isto não significa que o produto seja fraudulento. À semelhança da Rennie, que julgo ser bastante eficaz, não é preciso questionar o peso da actividade humana nas alterações climáticas para questionar os métodos usados na respectiva divulgação. Pelo contrário: recorrer a truques de feira para exacerbar um fenómeno é que sem dúvida afecta a credibilidade do mesmo. Se o famoso “consenso científico” já demonstrou o essencial sobre as alterações climáticas, os seus fundamentos e as suas consequências, não me parece que mentir e distorcer as evidências ajude a que estas sejam mais evidentes. Insinuar, como fez o sr. Al Gore, a subida iminente de seis metros do nível médio do mar – e a submersão de Manhattan – apenas provoca o desprezo geral pelo facto de que os oceanos têm subido cerca de 3 mm por ano. E Manhattan, ou o que escapar ao sr. Mamdani, vai manter-se acima da superfície por uns milénios. Não são os “negacionistas” das alterações climáticas que colocam a Terra em risco: os alarmistas são um risco imensamente maior.

Os alarmistas, aliás, deviam fazer duas coisas. A primeira é parar de torturar a realidade de maneira a encaixá-la nas suas pretensões: por definição e feitio, a realidade não cede a torturas. A segunda coisa é dirigir o alarmismo para a China. O Ocidente pérfido e capitalista cada vez contribui menos para as emissões de CO2. Sozinha, a progressista China, com 6% da área terrestre e 17% da população, representa actualmente um terço da poluição carbónica. E os valores tendem a subir. Se fosse sincero o frenesim com o clima, os frenéticos passariam a vida a denunciar os abusos chineses, a exigir bloqueios à produção chinesa, a publicitar as calamidades que decorrem do consumo de tralhas chinesas. E não passam. Além disso, a sede da Climáximo seria deslocada para Pequim, e naquelas paragens os “activistas” cometeriam crimes com à-vontade, o à-vontade de quem se vê enfiado num calabouço após a transgressão inaugural.

A mim, que não nego as alterações climáticas nem perco o sono com as suas sequelas, tanto faz. A verdade é que o assunto importa-me muito menos que o circo montado em seu redor, um espectáculo de burlesco digno de atenção antropológica. No fundo, como me aborrece o frio, gostaria que as temperaturas subissem a ponto de poder desfrutar de noites caribenhas no meu jardim, com mojitos e tudo. Infelizmente, não terei tamanha sorte. Se por milagre eu chegar a octogenário, na perspectiva catastrófica as temperaturas terão subido meio grauzinho, ainda longe do Caribe. Quanto ao planeta, é garantido que um dia acaba. E, com ou sem alterações climáticas, acabará num tempo tão distante do meu que, salvo talvez umas paisagens bonitas, entretanto não restará sombra da memória de ninguém nem de nada que hoje me seja familiar. O nosso mundo está sempre a prazo, curto prazo. Por isso, sigam o conselho britânico da II Guerra, relaxem e aproveitem o sol de Maio. Mas antes aprendam a nadar.