(sublinhados pessoais)
Basta não ser Ventura?
O que significa votar num certo candidato presidencial? Em António José Seguro, dizem-nos que é possível votar sem ser socialista, e sem sequer apreciar a sua figura. Mas no caso de André Ventura, não. Votar em André Ventura equivale, segundo os anti-venturistas, a matricular-se no seu partido, e prestar culto à sua personalidade.
Porquê? Porque é que também não é possível votar em André Ventura sem que isso signifique adesão ao Chega ou aprovação do seu estilo? Por exemplo, para marcar a importância de certos assuntos de que só Ventura tem feito campanha, como o caos migratório e o risco que esse caos representa para a coesão social e a viabilidade do nosso modo de vida. Ou então, para vincar, nesta segunda volta das presidenciais, a persistência da grande maioria de mudança das eleições legislativas de Maio, de modo a prevenir qualquer tentação de usar uma eventual vitória de Seguro para justificar o imobilismo, quando não precipitar um regresso ao domínio do PS.
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Para os oligarcas, porém, não é assim. Dizem-nos que não estamos a escolher entre dois políticos que são candidatos a presidente, mas entre democracia e ditadura. É mesmo a democracia que os preocupa? É que o pânico sobre o que Ventura pode imaginariamente fazer à democracia raramente corresponde ao repúdio pelo que José Sócrates e o PS lhe fizeram efectivamente entre 2005 e 2011. A subversão socrática do regime continua a não incomodar os que agora reagem aos cartazes de Ventura como se fossem um golpe de Estado.
Fingir que estamos nos anos 1930 tem o efeito de desligar o debate político da realidade: ficamos à espera de marchas de camisas castanhas, e deixamos de debater o colapso dos serviços públicos; passamos a estar de alerta contra o novo Hitler, e não precisamos de nos preocupar com as políticas migratórias ou a divergência económica da Europa em relação aos EUA. No caso das presidenciais, eis-nos empurrados para montar barricadas contra Ventura, e dispensados de procurar saber quem é António José Seguro. A suposta mobilização cívica esconde o que é de facto uma forma de despolitização.
O anti-venturismo histérico está, neste momento, a sujeitar o país ao risco de eleger um candidato que foi isento do devido escrutínio e debate, apenas porque não é André Ventura. Somos convidados a votar em António José Seguro, não como se estivéssemos a votar numa pessoa real que foi deputado, ministro e secretário-geral do PS, mas na “democracia” ou até no “humanismo”. O candidato Seguro foi esvaziado de todo e qualquer conteúdo político, e reduzido a um busto da república para pôr em Belém. Ninguém lhe perguntou o que pensa dos governos de José Sócrates e de António Costa, governos que ele, deputado de Sócrates, nunca criticou. Ninguém lhe perguntou que significado dá à mudança de opinião do país nas eleições de Maio, e que só pode ter contrariado a inclinação que ele, como socialista, sempre teve. Ninguém lhe perguntou que relações espera ter com este governo, se por exemplo o governo optar por uma orientação reformista apoiada na maioria parlamentar de direita. Seguro precisou apenas de dizer que o seu adversário “quer mudar de regime”. Basta-lhe não ser Ventura. Não deveria bastar.
Nada disto é saudável. Os oligarcas estão a usar a histeria anti-fascista para empobrecer a democracia. No Reino Unido, vão mais à frente. O governo trabalhista promoveu o cancelamento das próximas eleições locais nos municípios onde o partido de Nigel Farage pode ganhar. Eis a última estação desta campanha contra o “fascismo”: suspender a democracia a pretexto de defender a democracia.
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