(sublinhados pessoais)
A grande questão do nosso “tempo”
O problema do IPMA não é a escassez de avisos: é o excesso. O IPMA produz centenas e centenas de avisos por ano, dezenas e dezenas por mês, às vezes uma data deles num único dia.
Tem-se discutido imenso o que se fez, ou não se fez, após a tempestade Kristin. Discutiu-se menos o que se fez antes. No máximo, soltaram-se por aí uns queixumes acerca da falta de informação preventiva. Os queixumes são pouco informados: no dia anterior à calamidade, com cerca de 12 horas de avanço, o Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) publicou um comunicado a prever ventos de 160 km/h “ou mesmo de 180km/h”, nas declarações de uma meteorologista do Instituto. A mesma senhora, Maria João Frada, referiu à RTP a possibilidade de um “impacto catastrófico” e recomendou às pessoas “para se manterem em casa, com as persianas bem fechadas, e protegerem estruturas”. Ou seja, embora as zonas de alcance da tempestade permanecessem vagas (“algures entre Leiria e Braga”), a sua dimensão e consequências plausíveis estavam bem definidas. Haveria uma grande diferença caso as pessoas tivessem prestado atenção e agido em conformidade? Provavelmente, nem por isso. Alguém prestou atenção? Não.
O problema do IPMA não é a escassez de avisos: é o excesso. O IPMA produz centenas e centenas de avisos por ano, dezenas e dezenas por mês, às vezes uma data deles num único dia. No momento em que escrevo, o distrito de Lisboa está sujeito a seis avisos, três amarelos e três laranjas. O do Porto a cinco. O de Setúbal a sete. São demasiados avisos, demasiados alertas, demasiados esforços para apavorar a população, frequentemente com a ameaça de ventos triviais ou chuvas ordinárias, de manhãs geladas no Inverno e tardes abafadas no Verão. Para cúmulo, cada aviso é acompanhado dos indispensáveis “conselhos” da Protecção Civil, que do alto da sua proficiência técnica informa os leigos de que devem usar roupa fresca em Agosto e um agasalho em Janeiro.

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A história de Pedro e do lobo é excessivamente óbvia. Prefiro comparar a análise dos fenómenos naturais aos péssimos filmes de terror: a abundância de sustos, na vasta maioria não fundamentados, consegue a proeza de não assustar vivalma. Contaram-me – fonte seguríssima – que os presentes num café de Óbidos receberam em simultâneo a SMS sobre a aproximação da “depressão Kristin”: seguiram-se minutos de risinhos, de resto a reacção expectável em quem passa a vida a ser inquietado com calamidades que raramente acontecem. E é difícil culpar os galhofeiros quando não são eles a banalizar (agora diz-se “normalizar”, mas eu não digo) as travessuras do clima.
Há uma explicação superficial, simplória e essencialmente correcta para o desmesurado zelo das “autoridades” meteorológicas. Acima de tudo, à semelhança dos laboratórios que enfiam nas bulas improváveis e irrelevantes efeitos secundários (“Há relatos contraditórios de que o consumo moderado de paracetamol possa ter causado ligeira morrinha a um contabilista da Lituânia em 1983”), as “autoridades” receiam falhar por omissão. Vai daí, adoptam o pressuposto de que, se avisarem a população a pretexto do que calha, incluindo de uma brisa incapaz de tombar um balde de plástico, a população não pode acusar as “autoridades” de não terem avisado. Sucede que, conforme se verificou na Kristin, a população ri-se dos avisos e de seguida reclama da inexistência dos avisos. E a culpa é menos da população que do frenesim apocalíptico das “autoridades”, repetido pelo eco das televisões desesperadas ante a fuga de audiências.
Porém, a explicação “profunda” é outra. O IPMA e a Protecção Civil são entidades públicas, e por isso tendem a reproduzir os procedimentos de um Estado que crescentemente trata os cidadãos como crianças para se ilibar a si próprio. Não admira que adopte um estilo de pedagogia assente no medo. Para não sairmos do tema da conversa, alguns recordarão a época em que o quadro de pessoal do falecido Instituto de Meteorologia dava a ideia, necessariamente errada, de ser composto apenas pela sensata e credível figura de Anthímio de Azevedo. Durante as décadas em que apresentou diariamente o “tempo”, aquele saudoso homem jamais exibiu um esboço de histeria ou sequer um fugaz abalo na calma com que descrevia as atribulações do anti-ciclone dos Açores. Nas suas intervenções, os quadros eram rigorosos e sem cores evocativas do Juízo Final. Não havia “rios atmosféricos” ou “comboios de tempestades”. As avarias climatéricas não tinham nome nem indiciavam o fim do mundo. Os espectadores eram adultos conscientes, ou o dr. Anthímio assim os imaginava. E o respeito era recíproco.
Esse “tempo”, em dois dos sentidos da palavra, morreu. A progressiva, e progressista, infantilização dos “súbditos” no clima e no resto não deve à preocupação com eles. Ou deve: à preocupação em manter os “súbditos” dependentes e submissos e permeáveis aos desvarios de uma classe política tão dissimulada quanto incompetente. Além de mandar “mais”, o objectivo dos actuais poderes é mandar “pior” – e sob o menor escrutínio possível. A segurança de líderes fracos passa por eleitores abúlicos, pelo que suspeito que o Estado não usa as sugestões de pânico exactamente para nos aterrorizar: é para nos anestesiar.
E anestesiados andamos, à mercê de ventos e tempestades, incêndios e epidemias, alarmes falsos e autênticos, “planos” e “apoios”, corruptos e corruptelas do “bem comum”. Depois rimos sem vontade até que o céu, ou prosaicamente o telhado, nos caia em cima. E por fim estendemos a mão aos senhores que nos guiam, a ver o que cai. Sinais dos tempos.

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