domingo, 15 de fevereiro de 2026

Observador - Os três blocos ou uma procissão de impotências (Miguel Morgado)

 


(sublinhados pessoais)

Os três blocos ou uma procissão de impotências

Montenegro dividiu a política portuguesa em três “blocos”. À partida, a declaração é inofensiva; acontece que por vezes há descrições que escondem prescrições tácitas para a acção.

Ainda há poucos dias, na Assembleia da República, o Primeiro Ministro fez questão de dizer à nação como vê a situação política actual. Repetindo uma habitual saída retórica do Governo, Montenegro dividiu a política portuguesa em três “espaços” ou “blocos”: o da “esquerda”, o da “direita” e o “central”, sendo este o do PSD/Governo. À partida, a declaração é inofensiva e imune a comentários. Se são apenas factos, o que há a acrescentar? Acontece por vezes que há descrições que escondem prescrições tácitas para a acção.

Por um lado, a simples constatação aparece agora como uma resignação. Nesta formulação, a política portuguesa divide-se em três partes todas separadas entre elas, e sem que uma se intrometa na esfera que cabe à outra. Sugere rigidez no apoio político da sociedade a cada bloco e fronteiras gravadas na pedra. Da parte do governo, ajuda a justificar por que é que negoceia medida a medida, ora com a “esquerda”, ora com a “direita”, sem necessidade de entendimentos duradouros com “blocos” estranhos ao seu, com cada “espaço” no seu proverbial galho, por assim dizer.

Mas ao mesmo tempo reconhece ao Chega que a esfera da direita é sua. Como o Governo já tem uma, rende-se o eleitorado e os temas políticos de uma área política inteira a um partido seu concorrente. Se somos do centro, diz o PSD, o que iríamos fazer à direita? É difícil conceber uma maior consagração da dilatação galopante da força eleitoral do Chega dos últimos 2 anos. À absurda reivindicação de Ventura de que ele “lidera a direita”, o PSD responde: por favor, não se faça rogado; não seremos nós a impedi-lo; nós somos apenas os vizinhos do lado. O reconhecimento de um bloco da “direita” onde o PSD não está, nem quer estar, recorda as piores estratégias do partido desde a sua fundação.

No contexto actual, situar o PSD no “centro”, ou no “bloco central”, pode sugerir a alguns um aceno de virtude política, por um lado, e de conforto eleitoral futuro, por outro. Afinal de contas, não é no “centro” que está a virtude, longe de “extremismos” que as noções de “esquerda” e “direita” sugerem? Quem pode contestar no clima político que se vive que o “centro” vale como sinónimo de “moderação”, imputando automaticamente “imoderação” aos adversários? Não é verdade que a maioria dos votos está sempre no “centro”, o que tornaria a recompensa eleitoral de quem se situa no centro sempre vencedora? Não vale a pena perder tempo com o desmantelamento destas ilusões, gastas pelo uso, pelo tempo e pelos resultados.

Mas, independentemente dos benefícios ou malefícios para o PSD de um posicionamento que proclama a inércia e a complacência como trunfos estratégicos, o que resta daqui é a cristalização de um impasse do sistema político enquanto tal. Caminhamos para uma paralisia à francesa e veremos se não com fracturas sociais idênticas no futuro. Quando o (marginalmente) maior partido do sistema, no caso o PSD, sela as fronteiras entre “blocos” com os quais não se pode entender, nem cujas respectivas esferas políticas pretende invadir, proceder a uma tal constatação e posicionamento é comprometer-se com esse impasse. É renunciar à responsabilidade – que é sua mais do que dos outros – de tentar rompê-lo. É abraçar a tarefa absurda de contribuir para mantê-lo.

Sucede que, como a França nos ensina, deixar o sistema político cristalizar esta paralisia, que se camufla com as cores de um equilíbrio inocente, é encomendar sarilhos nacionais muito sérios. Nunca é boa ideia deixar que o sistema político produza apenas uma procissão de impotências. A política nacional torna-se apenas num desfile de protestos que deixam de vir apenas da oposição formal, mas assumem a orientação geral de quem está no Governo também. Uns não deixam governar, os outros não podem tolerar que quem precisa deles queira governar sem eles. Como a tese dos três “blocos” recomenda gavetas onde cada um se sente arrumado, perde-se a ambição de falar, representar e governar para os eleitorados que a mesma tese entrega como população em enclaves aos blocos onde não nos situamos. É certo que, para os propósitos de gerir a próxima semana, fica assim tudo muito certinho para explicar a impotência de cada um. Mas governar é incompatível com confissões de impotência.

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