sábado, 21 de março de 2026

Observador - A Energia Nuclear que não queremos produzir, mas que precisamos de compreender (Manuel Peres Alonso)

 

(sublinhados pessoais, reflexões silenciosas)

A Energia Nuclear que não queremos produzir, mas que precisamos de compreender

O apagão de 2025 mostrou que a eletricidade não é um luxo. Portugal pode importá-la continuamente ou compreender como se domestica o animal que vai sustentar a civilização moderna.

Na tarde de 28 de abril de 2025, a Península Ibérica ficou mergulhada na escuridão. Não se tratou de uma falha isolada, mas sim de um aviso. Durante várias horas, Portugal e Espanha ficaram sem eletricidade, dado que o sistema energético falhou precisamente quando não podia falhar. O apagão custou 1,3 mil milhões de euros a Espanha. Custou confiança a toda a Europa. Além disso, o apagão veio revelar uma verdade incómoda que Portugal prefere ignorar: precisamos de fontes de energia estáveis e constantes, que não estão a ser construídas em Portugal, mas que todas as nações desenvolvidas estão a construir.

A questão é clara: quando não há vento nem sol, quem alimenta a rede? Na Península Ibérica, a resposta tem sido uma combinação de centrais a carvão e a gás natural, bem como centrais nucleares espanholas. Portugal consome essa eletricidade como se fosse inesgotável. Não é. E aqui reside o paradoxo que define o nosso presente energético.

Os Búfalos de Espanha

Imagine a América do Norte pré-colombiana. Tal como os povos neolíticos europeus domesticavam bois, havia civilizações indígenas que domesticavam búfalos. Construíam currais. Desenvolveram técnicas de pastoreio. Criaram sistemas sofisticados de criação e de cuidados dos búfalos. Outras civilizações, contudo, não investiram neste ecossistema. Esperavam que alguns búfalos fugissem dos rebanhos vizinhos para se alimentarem. Em alternativa, recebiam búfalos em troca de bens valiosos, numa relação comercial assimétrica. Não precisavam de construir currais nem de compreender o pastoreio, desde que os vizinhos mantivessem as manadas.

Durante séculos, isso funcionou. Os vizinhos eram fortes. As suas manadas eram jovens e abundantes. Os campos permaneciam férteis. As trocas eram justas.

Porém, agora, esses vizinhos estão a envelhecer. Os seus búfalos têm mais de meio século de vida. Toda a infraestrutura que sustentava as manadas começa a deteriorar-se. Alguns vizinhos já não conseguem alimentar as suas próprias populações, quanto mais oferecer búfalos aos outros. As civilizações que nunca domaram búfalos despertam para uma realidade desconfortável: sempre estiveram dependentes de um ecossistema que nunca compreenderam nem procuraram entender.

Isto é Portugal e a energia nuclear. Não de forma dramática: somos um país democrático e civilizado que, por convicções políticas profundas, optou por não investir na produção de eletricidade por via nuclear. Respeito essa escolha. No entanto, essa opção teve um custo que não tínhamos previsto.

O Preço Invisível da Indiferença

Portugal não tem centrais nucleares. No entanto, tem hospitais que necessitam de isótopos radioativos para efeitos de diagnóstico, nomeadamente o tecnecio-99m, utilizado em mais de 50 milhões de procedimentos de medicina nuclear por ano em todo o mundo, e o gálio-68, um isótopo em expansão no diagnóstico de tumores neuroendócrinos e cancro da próstata. O tecnecio-99m é produzido exclusivamente em reatores de investigação com mais de 50 anos. O gálio-68, mais recente, começou a ser produzido em Coimbra, através do síncrotão do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde da Universidade de Coimbra, uma instalação inovadora e única no mundo.

No entanto, esta capacidade nacional de produção de gálio-68 é insuficiente para satisfazer a procura crescente de diagnósticos. E o tecnecio-99m? Portugal importa 100% das suas necessidades. Os reatores que o produzem, sobretudo localizados em Espanha, na Holanda, na Bélgica e na Polónia, são bastante antigos. Se um deles falhar, a Península Ibérica ficará vulnerável. Se vários falharem, Portugal ficará sem este instrumento de diagnóstico essencial.

Isto não é especulação. A Comissão Europeia está ciente disso. Por conseguinte, investiu 240 mil milhões de euros em novas capacidades nucleares até 2050. A França comprometeu-se com 70 mil milhões de euros. A Polónia comprometeu-se com 16 mil milhões. A Suécia, que tinha encerrado reatores, está a reativar os seus programas nucleares. O Reino Unido está a construir novas centrais. A Bélgica está a modernizar as suas centrais. Até a Roménia planeia fazê-lo.

E Portugal? Portugal observa.

O que Precisamos realmente de Construir?

Aqui está o segredo que nunca é revelado: Portugal não precisa de uma megacentral nuclear. O que é necessário é algo muito mais importante e menos visível: um ecossistema de conhecimento.

Pessoas qualificadas. Engenheiros nucleares. Investigadores. Operadores de reatores. É necessária uma cadeia industrial que compreenda a tecnologia. Uma regulamentação clara. Uma história de sucesso na qual os mais jovens possam construir as suas carreiras.

Tudo isto é mantido no Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares do Instituto Superior Técnico (IST). O IST é membro de pleno direito da Rede Europeia de Educação Nuclear. Temos mestrados em Proteção Radiológica. Temos investigação ativa. No entanto, funcionamos em modo de subsistência, como um museu que guarda artefactos em vez de uma indústria que irradia futuro.

Entretanto, os engenheiros que formamos acabam por emigrar. Vão para França, para o Reino Unido, para a Suíça. Vão construir o futuro energético europeu sem Portugal.

Os Reatores Modulares de Pequena Dimensão (SMR)

A nível mundial, foi desenvolvida uma solução tecnológica promissora: os SMR (na sigla inglesa). A Europa, através de empresas como a Rolls-Royce e a EDF e de países como o Reino Unido e a França, posiciona-se agora na vanguarda da sua implementação no continente. Trata-se de unidades com uma potência entre os 100 e os 300 megawatts, construídas em fábrica, que incluem sistemas de segurança integrados e cujos custos iniciais são viáveis para países de dimensão média. A primeira unidade entrará em funcionamento em 2030. Nos anos seguintes, serão construídas dezenas de unidades.

Portugal teria espaço para dois ou três SMR. Não só para produzir eletricidade, mas também para aumentar o conhecimento prático, introduzir a indústria neste setor e satisfazer as necessidades da medicina nuclear. Estes SMR seriam os nossos pequenos búfalos.

No entanto, para tal, teríamos de ter iniciado o processo há dez anos. Como isso não aconteceu, temos de começar agora, mesmo que a primeira unidade só esteja concluída em 2040.

O que está em Jogo?

Não se trata apenas de eletricidade. Trata-se de medicina: deixar de importar isótopos para diagnósticos e adquirir capacidade de produção própria. É indústria: participar nas cadeias de valor europeias da tecnologia nuclear, que movimentam centenas de milhares de milhões de euros. É conhecimento: reter e atrair os cérebros portugueses em vez de os vermos emigrar para países como a França ou o Reino Unido. É uma questão de segurança energética: ter uma rede elétrica verdadeiramente resiliente e não depender totalmente dos nossos vizinhos, cujas infraestruturas estão a envelhecer. É uma questão de clima: cumprir os objetivos de descarbonização com fontes reais de energia de base, em vez de depositar esperança em tecnologias ainda não comprovadas em larga escala.

Três Ações para Começar

Portugal pode e deve pôr em prática estas ações imediatamente. Em primeiro lugar, é necessário consolidar o que já existe. O Estado português deve financiar adequadamente o Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares do Instituto Superior Técnico, assegurar a permanência dos investigadores-chave e criar um mestrado e um doutoramento especializados em Engenharia Nuclear, semelhantes aos existentes em Espanha, França ou Itália. Em segundo lugar, é necessário estabelecer parcerias. É necessário celebrar acordos formais com Espanha para uma colaboração no domínio nuclear e para a integração na rede europeia de pequenos reatores modulares. Em terceiro lugar, é necessário avaliar a implementação. É necessário realizar um estudo de viabilidade técnica e económica, de forma genuína, sobre um ou dois reatores modulares para a década de 2040, integrados numa estratégia energética que combine as energias renováveis e a energia nuclear como pilares complementares.

Isto não é revolucionário. É pragmático. É o que todos os nossos vizinhos estão a fazer.

Conclusão: Domar Búfalos

Portugal optou por não ter o seu casal de búfalos. Foi uma decisão soberana. No entanto, esquecemo-nos de que, num continente onde todos os outros criadores domesticam búfalos, ser civilizado já não significa falta de conhecimentos concretos, mas sim estar preparado para um mundo em que a energia nuclear é fundamental para a descarbonização.

O apagão de abril de 2025 mostrou que a eletricidade não é um luxo. É um serviço essencial. Portugal pode importá-la continuamente dos países vizinhos que a produzem ou pode, finalmente, decidir compreender como se domestica o animal que vai sustentar a civilização moderna.

Os búfalos espanhóis estão a envelhecer. Em Portugal, nunca tivemos búfalos para domesticar. Ainda há tempo para aprender, antes que a lição se torne muito dispendiosa.

Nota editorial: Manuel Peres Alonso tem 30 anos de experiência em tecnologias de fusão nuclear e na coordenação de projetos internacionais de energia nuclear. Possui um doutoramento em Engenharia Física de Plasmas e Lasers, obtido em 2002. Trabalhou em laboratórios nucleares de ponta, nomeadamente no Tokamak Joint European Torus, no Reino Unido, e no acelerador de partículas IFMIF-LIPAc, no Japão.

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