(sublinhados pessoais)
Uma geração infantilizada?
Ser-se adulto começa quando cada um percebe que pode pedir, protestar e discordar, mas isso implica também propor, escolher, trabalhar, perder e pagar.
Em França, a pretexto de problemas nos liceus, adolescentes, jovens e adultos de várias etiologias, muitos com bandeiras da Palestina, keffyehs e estandartes com foices e martelos amalgamaram-se num frenesim de violência que ganhou momentum e se transformou num protesto contra já não se sabe bem o quê. Pelo caminho, escolas são bloqueadas, equipamentos destruídos, carros incendiados, e pessoas agredidas.
A questão que me interessa neste artigo é em que momento se passa de uma da reivindicação concreta para a convicção de que reclamar, exigir, incendiar, destruir e agredir é uma estratégia eficaz para resolver um problema de mobiliário escolar, falta de pessoal para arrumar as cadeiras, ou sequer exorcizar frustrações.
Conhecemos todos a típica cena de supermercado.
Uma criança birrenta vê um chocolate e reclama-o. Os pais explicam que não pode ser. O infante berra, bate com os pés, atira com o brinquedo ao chão, e os pais fazem um esforço e cedem, para salvar a tarde, a reputação e os tímpanos. A criança, vitoriosa, aprende a magnífica lição de que berrar compensa e a intensidade do grito é um argumento vencedor. Repetido durante anos, o método produz adolescentes, jovens e adultos que já não chamam “mãe” à entidade encarregada de satisfazer os seus desejos, mas sim “eles” ou “Estado”. E, quando o Estado não lhe dá o que eles exigem, os adultos infantilizados berram, fazem birra e usam o contentor em chamas como estratégia de conseguimento.
Convém distinguir um direito, de uma vontade a que se juntou um megafone. Ter professores, segurança e certas condições são exigências inteligíveis, razoáveis, e os impostos servem para isso. Querer tudo imediatamente, sol na eira e chuva no nabal, sem escolher prioridades ou pensar em custos, é outra coisa.
A educação, em certos meios confortáveis do Ocidente tem procurado eliminar a frustração da infância. A derrota agride a autoestima e causa ansiedade, uma nota má é culpa do professor, um obstáculo é violência estrutural e a palavra “não” necessita de acompanhamento emocional e “espaços seguros”. Chegados à universidade, alguns destes “snowflakes” dominam já completamente a linguagem dos direitos e mostram-se pouco preparados para ouvir falar de deveres, dificuldades, escassez ou concorrência.
A psicologia conhece a sobreprotecção parental, ou educação “helicóptero”, feita por pais que removem todas as dificuldades aos filhos, levando-os à incapacidade de aprender a decidir, falhar e corrigir o rumo. Não é uma doença nem explica uma geração inteira, mas ajuda a compreender o hábito de berrar e fazer birra, a pedir a atenção de uma figura paternal providencial, sempre que surge um obstáculo.
Em Portugal, em 2023, grupos climáticos ocuparam escolas e instituições públicas para exigir o fim dos combustíveis fósseis até 2030 e electricidade totalmente renovável a prazo ainda mais curto. O tema merece ser discutido, mas bloquear a porta de um ministério, ou sujar com tinta o fato de um político, dispensa essa parte maçadora que exige menos esbracejar e mais folha de cálculo.
Nos acampamentos universitários palestinianistas, exigiu-se o corte de ligações a instituições israelitas. No Instituto Superior Técnico chegou a propor-se o fim de um mestrado conjunto em Neurociências e Ciência de Dados. A ideia de sinalizar virtude exigindo a supressão da cooperação científica tem tanta lógica e eficácia como apagar um incêndio destruindo a biblioteca. Mas para certos manifestantes, a reitoria devia obrigatoriamente produzir uma solução para o Médio Oriente até à hora de fecho da secretaria e o mestrado que se cancelasse, quanto menos neurociências, menos dores de cabeça.
A febre dos pronomes oferece outra variante. Tratar uma pessoa pelo termo que ela acha ser-lhe devido é uma cortesia a decidir por cada um. Já a exigência de transformar cada preferência individual numa obrigação universal, administrada por circulares, formações e vigilantes da linguagem, é outra conversa. Há um problema quando a delicadeza voluntária se converte numa exigência de submissão do outro. O respeito deixa então de ser recíproco, porque se exige ao outro que se adapte sem reservas, enquanto se declara ofensiva qualquer pergunta.
A exigência do “façam alguma coisa”, já saiu da universidade e entrou até no futebol.
A Irlanda, um caso patológico de antissemitismo, jogou há dias contra Israel, mas a sua selecção de futebol decidiu acompanhar os jogos com gestos de protesto, braçadeiras negras, cabeças baixas durante o hino adversário e ausência de apertos de mão. O seleccionador Hallgrímsson, cheio de si, encheu a boca com a patacoada de dizer que a equipa jogava “contra o genocídio”. Seguiram-se críticas, conferências de imprensa incómodas e dois encontros tensos. No fim, incapaz de aguentar a frustração de não ser universalmente amado e aclamado por aquilo que acreditava ser uma manifestação de virtude, pediu que a UEFA evitasse novos emparelhamentos entre Irlanda e Israel, invocando o bem-estar dos jogadores.
O princípio é delicioso: sinalizamos virtude, fazemos birra, somos grosseiros, transformamos um jogo numa declaração política e exigimos à UEFA que nos poupe às consequências, à crítica, e que actue como um Serviço de Apoio ao Desconforto Autoproduzido.
Há ainda a política do “alguém que pague”.
Na sua versão infantil, o socialismo é a crença de que o Estado possui um cofre inesgotável, escondido atrás do retrato do Presidente da República, e só não distribui casas baratas, bons salários e serviços perfeitos, por maldade ou distracção. Para o adulto essencialmente reclamador, “eles” têm dinheiro que não nos querem dar, e existe uma abstracção inesgotável chamada “os ricos”, categoria apta a financiar todas as promessas. O programa tem a simplicidade do chocolate no supermercado, é só preciso exigir e reclamar, de preferência com a cara coberta por um lenço da moda intifada-chic e a pergunta “quem paga?”, é uma intolerável provocação reaccionária e fascista.
Manifestar-se é um direito importante, claro, mas uma multidão não substitui uma demonstração, e um cartaz não é um plano. Agir em manada faz muitos destes adultos infantilizados sentirem-se corajosos, sem assumirem qualquer responsabilidade individual. Cada um grita e exige tudo, mas poucos dizem quais das suas exigências sacrificariam para tornar possível a primeira.
Seria injusto, reconheço, transformar esta caricatura no retrato de toda uma geração. Há jovens que estudam a sério, trabalham, criam empresas, cuidam de familiares, fazem investigação ou servem os outros sem pose no Instagram. Talvez sejam poucos os que escapam à armadilha da facilidade, mas são estes que resolvem problemas, pensam soluções e melhoram realmente a vida de todos. São muito capazes, embora menos visíveis porque, em vez de fazer birras em manada, estão ocupados a construir coisas.
A verdadeira infantilização não consiste em ter vinte anos e fazer disparates, porque isso sempre aconteceu, inclusive aos velhos de hoje. Consiste em ensinar alguém, durante vinte anos, que o mundo existe centrado em volta do seu umbigo, com o único propósito de lhe evitar contrariedades.
Ora ser-se adulto começa quando cada um percebe que pode pedir, protestar e discordar, mas isso implica também propor, escolher, trabalhar, perder e pagar. Sem essa descoberta, será toda a vida um “activista empoderado” e fará carreira como deputado do BE ou do Livre, se tiver sorte.
Ou como uma criança com cartão de eleitor, a servir de figurante nos rebanhos habituais, a chamar injustiça à distância entre o que deseja e o que está disposto a fazer para o conseguir.

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