Almoços-pequenas tertulias
Com Pedro Rocha e José Luis (no Riviera, em 11jul), e com o Pedro Gameiro (em Algés, em 16jul)
Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho a certeza absoluta. (Einstein) But the tune ends too soon for us all (Ian Anderson)
quarta-feira, 18 de julho de 2012
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Moi-Filmes Cold Mountain
Sobre o amor e sobre a guerra civil Americana.
E também sobre todo um conjunto de valores que vai, no nosso tempo, pacata e crescentemente desaparecendo:a palavra, o compromisso, a lealdade, a misericórdia, tudo conceitos em extinção...
Moi-Reflexão-Alberto João Jardim
Por vezes, o AJJardim tem razão, e afronta de uma maneira que é necessária.
Mas o que mais me preocupa, para além do estado da nossa sociedade, é o facto de nos limitarmos a rir de nós próprios, e não fazermos o que quer que seja para melhorar ou fazer contra-vapor. Caímos na trivialidade de nos rirmos constantemente connosco, sem tirarmos qualquer ilacção, nem corrigirmos a trajectória. Estamos a ficar, como que anestesiados.
Somos como aqueles maluquinhos que passam o tempo a rir de tudo, de todos e, claro, deles próprios.
Até quando?
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Reflexão-JPachecoPereira no Público
...Sócrates é o
grande responsável por ter conduzido o país à bancarrota, e Passos Coelho pode
vir a ser o grande responsável de, no afã de querer prosseguir um programa
próprio de "revolução", deixar o país pior do que o que estava...
... É que é este o
país e não outro virtual. É nos cafés do Minho, nas fabriquetas de Leiria, nas
pedreiras ilegais, nas plantações subsidiadas, no electricista de bairro, na
empresa de construção civil familiar que contrata os vizinhos e actua num raio
de dez quilómetros da casa do "patrão", na loja de informática com
refugo, no restaurante à beira da estrada, no camionista que faz uns biscates,
na horta de alfaces de Loures, que está o país real e não nos artigos do Financial
Times, na melhor das hipóteses. Há muito mais "empreendorismo"
por metro quadrado nestas actividades económicas que se pretende
"ajustar", ou seja extinguir, que em toda a Universidade de Lisboa. E
depois há as PPPs, a oligarquia de cima, das velhas famílias do poder, e os
seus criados, a oligarquia do meio, nos partidos políticos, e um mar de
corrupção, patrocinato e clientelismo, que também não é alheio ao que o país é.
Quase todos os efeitos perversos se devem à ignorância da realidade nacional,
mas não só…
...E depois há um
"não só" que se agiganta todos os dias e seria bom que o Governo se
apercebesse de que aí é que está a "tempestade perfeita": a questão
da igualdade e justiça dos sacrifícios. E aqui o Governo tem mostrado ser
submisso aos poderosos, à EDP, aos interesses dos bancos, aos donos das PPP, à
elite de poder que circula entre a política as grandes sociedades de advogados,
as consultoras, as administrações, etc. É verdade que mesmo esses já perderam
alguma coisa, mas foram apenas beliscados, tocados ao de leve, se compararmos
com o desastre absoluto que é estar desempregado aos 40 anos, sem qualquer
esperança de voltar a ter emprego, com a derrocada da economia familiar, da
casa, do carro quando havia, dos estudos dos filhos, de uma vida que era
decente e que agora é indecente...
Moi-(Relvas) Para mais tarde recordar
Miguel
Relvas está de consciência tranquila porque cumpriu a lei ao tirar
licenciatura- Economia - Jornal de negócios online
Miguel Relvas está de “consciência tranquila”. O caso
da licenciatura que tirou em um ano na Universidade Lusófona, ao abrigo das
equivalências permitidas com o acordo de Bolonha, não o preocupa porque,
segundo o próprio, cumpriu a lei.
Numa declaração de breves momentos aos jornalistas, após a inauguração do Museu Nacional do Desporto, em Lisboa, o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares admitiu que recebeu a decisão que foi tomada ao abrigo de uma “regra europeia”.
“Ao abrigo da lei que estava, e está, em vigor, apresentei uma candidatura e cumpri todas aquelas que eram as regras que estavam estabelecidas”, citou, também, a agência Lusa.
"Norteio a minha vida pela simplicidade de procura de conhecimento permanente", respondeu o membro do Governo liderado por Pedro Passos Coelho, em declarações transmitidas pela SIC Notícias. Em 2006, Relvas tirou a licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Lusófona, cujo plano de estudos normal se estende por três anos, em apenas um ano, devido ao currículo que apresentou. O político falou, igualmente, de vários portugueses que seguiram os mesmos procedimentos para tirar a sua licenciatura.
Contudo, Miguel Relvas deixou de falar aos jornalistas, abandonou a conferência de imprensa e não quis responder à pergunta que lhe foi feita sobre se considera ter condições para permanecer no cargo, num momento em que, depois do caso do envolvimento no caso das Secretas, das alegadas pressões sobre o jornal “Público”, está a ser questionada a forma como obteve a licenciatura.
Professor que deu equivalências vai dirigir cargo criado há dois dias
A licenciatura do ministro tem estado sob escrutínio dos media, com várias dúvidas levantadas relativamente ao processo, que foram primeiro colocadas, há mais de um mês, pelo jornal “O Crime”.
Das 36 cadeiras que constituem o plano de estudos do curso na Lusófona, Miguel Relvas conseguiu, através do currículo empresarial e político, 32 equivalências. Ou seja, o político apenas teve de ser avaliado em quatro cadeiras.
A questão, neste momento, é que as equivalências foram decididas por apenas uma pessoa: Fernando Santos Neves, que, em 2006, era docente e director de Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Lusófona de Lisboa – cargos que acumulava com o de reitor da instituição.
Foi, segundo a consulta que o jornal “Público” fez ao processo do aluno Miguel Relvas, Santos Neves quem, juntamente com um outro professor, assinou o parecer que está na origem da atribuição das equivalências. Foi apenas Santos Neves quem, um mês depois, assinou o despacho que definia, em concreto, as cadeiras em que eram atribuídas as equivalências a Relvas.
Santos Neves, que era até aqui reitor da Universidade Lusófona do Porto, demitiu-se do cargo, segundo avançou hoje a revista “Sábado”. Ao final da tarde, a Lusa avançou que o professor tinha sido substituído na reitoria para dirigir o Conselho Superior Académico do Grupo Lusófona, um órgão criado na terça-feira.
Segundo as regras da universidade, o processo de equivalências teria de ser aprovado pelo conselho científico do curso. Neste caso, também, há dúvidas. Mais de metade dos nomes divulgados pela Lusófona como fazendo parte do Conselho Científico que deu o aval às equivalências para a licenciatura do ministro Miguel Relvas nunca participou em qualquer reunião para analisar o caso, diz a agência Lusa.
A acrescentar ainda está a notícia de hoje da revista "Sábado", que indica que o administrador do Grupo Lusófona, Manuel Damásio, tem ligações ao grupo maçónico a que Relvas percente (Grande Oriente Lusitano). A mesma revista indica, igualmente, que Relvas nomeou o filho de Manuel Damásio, Manuel José Damásio, para o grupo de trabalho que avaliou o serviço público da RTP.
Comentário- Tudo dentro da lei, portanto...:)
O ministro-adjunto garante que
norteia a vida "pela simplicidade da procura de conhecimento
permanente". Respondeu que estava de "consciência tranquila" em
relação à licenciatura que tirou na Universidade Lusófona. Mas abandonou a
conversa com os jornalistas quando questionado se tinha condições para se
manter no cargo.
Numa declaração de breves momentos aos jornalistas, após a inauguração do Museu Nacional do Desporto, em Lisboa, o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares admitiu que recebeu a decisão que foi tomada ao abrigo de uma “regra europeia”.
“Ao abrigo da lei que estava, e está, em vigor, apresentei uma candidatura e cumpri todas aquelas que eram as regras que estavam estabelecidas”, citou, também, a agência Lusa.
"Norteio a minha vida pela simplicidade de procura de conhecimento permanente", respondeu o membro do Governo liderado por Pedro Passos Coelho, em declarações transmitidas pela SIC Notícias. Em 2006, Relvas tirou a licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Lusófona, cujo plano de estudos normal se estende por três anos, em apenas um ano, devido ao currículo que apresentou. O político falou, igualmente, de vários portugueses que seguiram os mesmos procedimentos para tirar a sua licenciatura.
Contudo, Miguel Relvas deixou de falar aos jornalistas, abandonou a conferência de imprensa e não quis responder à pergunta que lhe foi feita sobre se considera ter condições para permanecer no cargo, num momento em que, depois do caso do envolvimento no caso das Secretas, das alegadas pressões sobre o jornal “Público”, está a ser questionada a forma como obteve a licenciatura.
Professor que deu equivalências vai dirigir cargo criado há dois dias
A licenciatura do ministro tem estado sob escrutínio dos media, com várias dúvidas levantadas relativamente ao processo, que foram primeiro colocadas, há mais de um mês, pelo jornal “O Crime”.
Das 36 cadeiras que constituem o plano de estudos do curso na Lusófona, Miguel Relvas conseguiu, através do currículo empresarial e político, 32 equivalências. Ou seja, o político apenas teve de ser avaliado em quatro cadeiras.
A questão, neste momento, é que as equivalências foram decididas por apenas uma pessoa: Fernando Santos Neves, que, em 2006, era docente e director de Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Lusófona de Lisboa – cargos que acumulava com o de reitor da instituição.
Foi, segundo a consulta que o jornal “Público” fez ao processo do aluno Miguel Relvas, Santos Neves quem, juntamente com um outro professor, assinou o parecer que está na origem da atribuição das equivalências. Foi apenas Santos Neves quem, um mês depois, assinou o despacho que definia, em concreto, as cadeiras em que eram atribuídas as equivalências a Relvas.
Santos Neves, que era até aqui reitor da Universidade Lusófona do Porto, demitiu-se do cargo, segundo avançou hoje a revista “Sábado”. Ao final da tarde, a Lusa avançou que o professor tinha sido substituído na reitoria para dirigir o Conselho Superior Académico do Grupo Lusófona, um órgão criado na terça-feira.
Segundo as regras da universidade, o processo de equivalências teria de ser aprovado pelo conselho científico do curso. Neste caso, também, há dúvidas. Mais de metade dos nomes divulgados pela Lusófona como fazendo parte do Conselho Científico que deu o aval às equivalências para a licenciatura do ministro Miguel Relvas nunca participou em qualquer reunião para analisar o caso, diz a agência Lusa.
A acrescentar ainda está a notícia de hoje da revista "Sábado", que indica que o administrador do Grupo Lusófona, Manuel Damásio, tem ligações ao grupo maçónico a que Relvas percente (Grande Oriente Lusitano). A mesma revista indica, igualmente, que Relvas nomeou o filho de Manuel Damásio, Manuel José Damásio, para o grupo de trabalho que avaliou o serviço público da RTP.
Comentário- Tudo dentro da lei, portanto...:)
Moi-12.jul.2012
Dia "preenchido", entre uma conversa com AMMatos sobre a redução do meu salário para metade, um mini encontro com o João Seixas do CERN/IST, e uma ida à Culturgest com a Isa, ver "Murmure des Murs".
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Reflexão-JPachecoPereira
MORTE CEREBRAL
JPPereira 30.06.2012
Na altura em
que escrevo este artigo, os portugueses estão em pleno síndroma de abstinência,
ou seja, socorrendo-me da Wikipédia, manifesta-se o "conjunto de
modificações orgânicas que se dão em razão da suspensão brusca do consumo de
droga geradora de dependência física e psíquica", que se "caracteriza
em geral por alucinações e crises convulsivas".
Entre as drogas que geram síndroma de abstinência conta-se o álcool, a heroína, o ópio, a morfina, etc. Eu acrescento o futebol. Não os jogos nos campos, onde vinte e duas pessoas disputam uma bola que querem meter numa baliza adversária, porque esse é o menor dos aspectos. Aconteceu quatro ou cinco vezes, no último mês, ocupando a quem os vê a todos mais ou menos entre dez e quinze horas distribuídas por um mês. Essas horas podem ser intensas, dramáticas ou cómicas, interessantes ou um tédio, mas não são suficientes para serem tão brutalmente opressivas como as muitas centenas de horas concentradas nesse mesmo mês, em que por todo o lado, na televisão em primeiro lugar, na rádio, nos jornais, nas conversas de café e salão, nos cartazes de rua, nos ajuntamentos inebriantes e inebriados, se gerou uma forma de histeria colectiva, tão euforizante como o ecstasy.
Eu já não me surpreendo com quase nada, mas seria motivo para surpresa, ver que dizer isto - de tão evidente que se trata de um excesso - provoca uma reacção de fúria contra os "intelectuais antifutebol", que atinge o seu paroxismo nos "intelectuais pró-futebol", cada vez mais e mais agressivos em defender o seu menino de ouro. Claro que os "intelectuais antifutebol" se contam pelos dedos de uma mão só, são fios de voz na gritaria colectiva, capitaneados por mim, que, como se sabe, esmago o país todas as vezes que abro a boca ou escrevo uma linha, provocando uma irritação sublime, próxima da acusação de traição à pátria, e a vontade de me expulsar para qualquer Ilha do Diabo.
Como de costume também, são aprendizes de intelectuais os que mais gritam contra os traidores, que não "sentem como os verdadeiros portugueses", e nos blogues, a forma dominante actual do pensamento débil, isso é muito comum. O que vale a pena dizer é que se "assumam", pintem a cara, vão lá urrar diante de um ecrã gigante, e beber umas cervejas, porque estão mais dentro do seu papel. Com aquele masoquismo que caracteriza os verdadeiros intelectuais, ei-los a defenderem que é normal passar-se um mês sem outro "público" no "espaço público" que não sejam adolescentes aos molhos a saltar e umas senhoras do género das que vão para as portas dos tribunais a exigir a pena de morte para um qualquer putativo criminoso, a gritar pelo Ronaldo. E normal é milhares de comentadores a explicarem os feitos do treinador, cujos defeitos enunciavam há um mês, da equipa "esforçada" que nunca desiste, e que há um mês descreviam como um grupo de mediocridades dirigidas por estrelas que se estavam a "marimbar" para a equipa pátria e que só se preocupavam pelo Real Madrid. Também aqui o poder tem muita força e o homem ganhou e os outros jogaram bem, logo os elogios passaram a norma com tanta veemência como as críticas do passado. Pelos mesmos.
Claro que tudo isto é muito interessante para um antropólogo, ou um sociólogo, ou um psicólogo de massas, ou mesmo um observador de Sirius qualquer que cá venha, e que podem acrescentar mais uns exemplos a um catálogo que inclui ingleses, brasileiros, argentinos e gente que mata pelo futebol, entra em guerra pelo futebol, bate na mulher e nos filhos por causa do futebol, mas está tudo bem. Não somos só nós, escreve-se, não somos os piores, escreve-se, o que é verdade, mas a mim cuidam-me mais os nossos e não os deles.
Os argumentos intelectuais são mais do que conhecidos, a começar pela glorificação do excesso como comportamento genuíno e verdadeiro, num mundo em que prevalece a hipocrisia e o disfarce, as conveniências e as obediências. A histeria colectiva aparece assim como uma necessidade catártica, que de vez em quando permite uma libertação de um quotidiano infeliz. Está bem, mas é pouco, é poucochinho.
Outra linha de escrita dos intelectuais pró-futebol é a linguagem orgástica, para defender que o futebol é uma espécie de orgasmo colectivo democrático e popular, bom para os sentidos, mesmo que bruto e fugaz. É matéria romanesca, já está escrita e descrita, mas é pouco, é poucochinho. O povo como criança grande ou adolescente petrificado, sonhador e generoso, capaz de todos os sacrifícios, e que precisa de exercitar a alma de vez em quando, também não é novidade. Mas esta glorificação intelectualizada do escapismo tem muitos adeptos.
Em Junho, a pátria podia ter batido a Alemanha de Merkel - não bateu -, e depois regressar triste e arrebanhada às repartições, às filas de trânsito, à transumância algarvia dos que ainda podem ir, e a outras formas de cinzentismo de que os intelectuais não gostam porque não são o Kafka. Também sabemos isso. Eu não sei é se estes intelectuais pró-bola percebem o desprezo que têm pelo "povo", cujas exibições de grunhice eles apresentam como genuínas manifestações do ser português, pelo menos no futebol onde somos "grandes", enquanto somos pequenos em tudo o resto. Não, eu gosto demasiado do meu povo para achar que "este" é o meu povo, ou que este é o seu estado mais "natural" e genuíno.
Mas este é apenas o intróito porque o meu ponto é outro: é de que estamos perante uma construção que tem muito de artificialismo, que é gerada essencialmente por uma droga sintética, na qual se movimentam muitos interesses, dos media em crise, desesperados por audiências e publicidade, por equipas de Mad Men à portuguesa, e pelas empresas de cervejas que procuram um público cada vez mais novo, que beba até ao estado de estupor, mesmo que depois falem gravemente dos malefícios do álcool.
Significa isso que o perverso capitalismo é que gera a histeria futebolística para ganhar uns milhões de euros? Seria simples se fosse assim, embora também o seja. Há outras coisas que também aumentam este efeito, que funciona em círculo vicioso. As raízes estão cá fora, mas o adubo, os esteróides, a estufa, tudo o resto está lá dentro, dos media em particular. Até os pesticidas contra as ervas daninhas.
O problema é que este é um fenómeno que se está a agravar de ano para ano. Eu podia ter pegado num artigo antigo e reproduzi-lo outra vez, porque o que se passa não é novo. Mas o que é novo é que cresce cada vez mais, com uma dimensão abafante sobre tudo o resto, numa suspensão colectiva do espaço público a favor do futebol. Os intelectuais pró-bola alimentam consciente ou inconscientemente o dualismo poder-oposição, transportando-o para o terreno do futebol "nacional", ou seja da selecção de "todos nós", criticando o dissenso e valorizando o "consenso", e acham que a chamada de atenção para o monotematismo obsessivo destes dias se destina a "preferir" que as pessoas falassem da austeridade, ou das medidas governamentais, ou da Europa.
Também, mas longe de ser só isso. Também, porque neste mês de rasoira futebolística os portugueses que trabalham perderam um número significativo de direitos sociais, viram as leis laborais ser invertidas a favor do patronato, e assistiram a uma crise europeia em que caminhamos para a submissão completa, em que Portugal passa a uma colónia de papel passado. É normal que eu considere bizarro tanto patriotismo de pacotilha induzido pela histeria mediática ocupar o lugar de um sobressalto inexistente com a proposta para que passemos, sem disfarces, a colónia. Quais oitocentos anos de história, qual glória nos relvados, qual quê! Tretas. Eu, pelo menos, ainda estranho, nem ainda se me entranhou.
E por isso continuarei a considerar anormal, excessivo e socialmente anómalo que se queira ter um país desenvolvido, e ter a RTP1, a SIC, a TVI, a RTP Informação, a SICN, a TVI24 e muitos mais canais a passarem todos ao mesmo tempo e durante o dia todo apenas futebol, entrevistas a populares sobre futebol, comentários sobre futebol, entradas e saídas de camionetes da equipa, adeptos polacos ou ucranianos (da equipa portuguesa, claro), pequenos-almoços ou balneários, fans e magotes, tudo ao mesmo, numa linguagem rasteira, imediatista, com logomaquias de horas sobre nada e coisa nenhuma, seguidas de momentos de histeria ou depressão colectiva televisionada em directo.
Tudo isto está bem longe de ser gostar de futebol, "vibrar" pela equipa, ver os jogos, entusiasmar-se ou desgostar-se. Está muito para além disso. Isto é lavagem ao cérebro, e está cada vez pior.
Entre as drogas que geram síndroma de abstinência conta-se o álcool, a heroína, o ópio, a morfina, etc. Eu acrescento o futebol. Não os jogos nos campos, onde vinte e duas pessoas disputam uma bola que querem meter numa baliza adversária, porque esse é o menor dos aspectos. Aconteceu quatro ou cinco vezes, no último mês, ocupando a quem os vê a todos mais ou menos entre dez e quinze horas distribuídas por um mês. Essas horas podem ser intensas, dramáticas ou cómicas, interessantes ou um tédio, mas não são suficientes para serem tão brutalmente opressivas como as muitas centenas de horas concentradas nesse mesmo mês, em que por todo o lado, na televisão em primeiro lugar, na rádio, nos jornais, nas conversas de café e salão, nos cartazes de rua, nos ajuntamentos inebriantes e inebriados, se gerou uma forma de histeria colectiva, tão euforizante como o ecstasy.
Eu já não me surpreendo com quase nada, mas seria motivo para surpresa, ver que dizer isto - de tão evidente que se trata de um excesso - provoca uma reacção de fúria contra os "intelectuais antifutebol", que atinge o seu paroxismo nos "intelectuais pró-futebol", cada vez mais e mais agressivos em defender o seu menino de ouro. Claro que os "intelectuais antifutebol" se contam pelos dedos de uma mão só, são fios de voz na gritaria colectiva, capitaneados por mim, que, como se sabe, esmago o país todas as vezes que abro a boca ou escrevo uma linha, provocando uma irritação sublime, próxima da acusação de traição à pátria, e a vontade de me expulsar para qualquer Ilha do Diabo.
Como de costume também, são aprendizes de intelectuais os que mais gritam contra os traidores, que não "sentem como os verdadeiros portugueses", e nos blogues, a forma dominante actual do pensamento débil, isso é muito comum. O que vale a pena dizer é que se "assumam", pintem a cara, vão lá urrar diante de um ecrã gigante, e beber umas cervejas, porque estão mais dentro do seu papel. Com aquele masoquismo que caracteriza os verdadeiros intelectuais, ei-los a defenderem que é normal passar-se um mês sem outro "público" no "espaço público" que não sejam adolescentes aos molhos a saltar e umas senhoras do género das que vão para as portas dos tribunais a exigir a pena de morte para um qualquer putativo criminoso, a gritar pelo Ronaldo. E normal é milhares de comentadores a explicarem os feitos do treinador, cujos defeitos enunciavam há um mês, da equipa "esforçada" que nunca desiste, e que há um mês descreviam como um grupo de mediocridades dirigidas por estrelas que se estavam a "marimbar" para a equipa pátria e que só se preocupavam pelo Real Madrid. Também aqui o poder tem muita força e o homem ganhou e os outros jogaram bem, logo os elogios passaram a norma com tanta veemência como as críticas do passado. Pelos mesmos.
Claro que tudo isto é muito interessante para um antropólogo, ou um sociólogo, ou um psicólogo de massas, ou mesmo um observador de Sirius qualquer que cá venha, e que podem acrescentar mais uns exemplos a um catálogo que inclui ingleses, brasileiros, argentinos e gente que mata pelo futebol, entra em guerra pelo futebol, bate na mulher e nos filhos por causa do futebol, mas está tudo bem. Não somos só nós, escreve-se, não somos os piores, escreve-se, o que é verdade, mas a mim cuidam-me mais os nossos e não os deles.
Os argumentos intelectuais são mais do que conhecidos, a começar pela glorificação do excesso como comportamento genuíno e verdadeiro, num mundo em que prevalece a hipocrisia e o disfarce, as conveniências e as obediências. A histeria colectiva aparece assim como uma necessidade catártica, que de vez em quando permite uma libertação de um quotidiano infeliz. Está bem, mas é pouco, é poucochinho.
Outra linha de escrita dos intelectuais pró-futebol é a linguagem orgástica, para defender que o futebol é uma espécie de orgasmo colectivo democrático e popular, bom para os sentidos, mesmo que bruto e fugaz. É matéria romanesca, já está escrita e descrita, mas é pouco, é poucochinho. O povo como criança grande ou adolescente petrificado, sonhador e generoso, capaz de todos os sacrifícios, e que precisa de exercitar a alma de vez em quando, também não é novidade. Mas esta glorificação intelectualizada do escapismo tem muitos adeptos.
Em Junho, a pátria podia ter batido a Alemanha de Merkel - não bateu -, e depois regressar triste e arrebanhada às repartições, às filas de trânsito, à transumância algarvia dos que ainda podem ir, e a outras formas de cinzentismo de que os intelectuais não gostam porque não são o Kafka. Também sabemos isso. Eu não sei é se estes intelectuais pró-bola percebem o desprezo que têm pelo "povo", cujas exibições de grunhice eles apresentam como genuínas manifestações do ser português, pelo menos no futebol onde somos "grandes", enquanto somos pequenos em tudo o resto. Não, eu gosto demasiado do meu povo para achar que "este" é o meu povo, ou que este é o seu estado mais "natural" e genuíno.
Mas este é apenas o intróito porque o meu ponto é outro: é de que estamos perante uma construção que tem muito de artificialismo, que é gerada essencialmente por uma droga sintética, na qual se movimentam muitos interesses, dos media em crise, desesperados por audiências e publicidade, por equipas de Mad Men à portuguesa, e pelas empresas de cervejas que procuram um público cada vez mais novo, que beba até ao estado de estupor, mesmo que depois falem gravemente dos malefícios do álcool.
Significa isso que o perverso capitalismo é que gera a histeria futebolística para ganhar uns milhões de euros? Seria simples se fosse assim, embora também o seja. Há outras coisas que também aumentam este efeito, que funciona em círculo vicioso. As raízes estão cá fora, mas o adubo, os esteróides, a estufa, tudo o resto está lá dentro, dos media em particular. Até os pesticidas contra as ervas daninhas.
O problema é que este é um fenómeno que se está a agravar de ano para ano. Eu podia ter pegado num artigo antigo e reproduzi-lo outra vez, porque o que se passa não é novo. Mas o que é novo é que cresce cada vez mais, com uma dimensão abafante sobre tudo o resto, numa suspensão colectiva do espaço público a favor do futebol. Os intelectuais pró-bola alimentam consciente ou inconscientemente o dualismo poder-oposição, transportando-o para o terreno do futebol "nacional", ou seja da selecção de "todos nós", criticando o dissenso e valorizando o "consenso", e acham que a chamada de atenção para o monotematismo obsessivo destes dias se destina a "preferir" que as pessoas falassem da austeridade, ou das medidas governamentais, ou da Europa.
Também, mas longe de ser só isso. Também, porque neste mês de rasoira futebolística os portugueses que trabalham perderam um número significativo de direitos sociais, viram as leis laborais ser invertidas a favor do patronato, e assistiram a uma crise europeia em que caminhamos para a submissão completa, em que Portugal passa a uma colónia de papel passado. É normal que eu considere bizarro tanto patriotismo de pacotilha induzido pela histeria mediática ocupar o lugar de um sobressalto inexistente com a proposta para que passemos, sem disfarces, a colónia. Quais oitocentos anos de história, qual glória nos relvados, qual quê! Tretas. Eu, pelo menos, ainda estranho, nem ainda se me entranhou.
E por isso continuarei a considerar anormal, excessivo e socialmente anómalo que se queira ter um país desenvolvido, e ter a RTP1, a SIC, a TVI, a RTP Informação, a SICN, a TVI24 e muitos mais canais a passarem todos ao mesmo tempo e durante o dia todo apenas futebol, entrevistas a populares sobre futebol, comentários sobre futebol, entradas e saídas de camionetes da equipa, adeptos polacos ou ucranianos (da equipa portuguesa, claro), pequenos-almoços ou balneários, fans e magotes, tudo ao mesmo, numa linguagem rasteira, imediatista, com logomaquias de horas sobre nada e coisa nenhuma, seguidas de momentos de histeria ou depressão colectiva televisionada em directo.
Tudo isto está bem longe de ser gostar de futebol, "vibrar" pela equipa, ver os jogos, entusiasmar-se ou desgostar-se. Está muito para além disso. Isto é lavagem ao cérebro, e está cada vez pior.
(Versão do
Público de 30 de Junho de 2012.)
terça-feira, 10 de julho de 2012
Moi-Reflexão-Desporto-Sorteios
Não haverá outra forma de fazer isto? Ou será que, pelo facto de os outros o fazerem, nós imitamo-los? Eu gosto de ver uma ou outra beldade, mas o simples espectáculo da exibição do género, faz-me ter pena: delas, por ou não terem alternativa ou por se gostarem de exibir;de quem as contrata, por entenderem que têm de estar na "vanguarda", ou por não terem algo mais imaginativo; e de nós que temos de ter - sempre! -, estes tiques "neanderthalescos".


segunda-feira, 9 de julho de 2012
Moi-Tempos difíceis
As histórias do Vaticano, num cartoon cheio de oportunidade,e não só... :) O aproveitamento do fundo com a transmissão do "testemunho"
Moi-Reflexão-Desporto-Ténis
Roger Federer
E vão 286 semanas de primeiro lugar no ranking, 17 grand slams, 7 Wimbledons, etc...
Sem carimbos nem agrafos, sem tiques de vedeta, sem penteados parvos, sem insultar a assisténcia, sem etc...
Com a mesma calma, com um discurso simples, com o mesmo jogo consistente, com a sobriedade e solidez que o caracterizou. Custa muito. Mesmo muito. Mas "isto" é que é ser bom!
Nos tempos que correm, de uma crescente e mal atamancada vulgaridade, temperada com uma descarada incompeténcia, é bom sabermos que ainda há seres assim.
E vão 286 semanas de primeiro lugar no ranking, 17 grand slams, 7 Wimbledons, etc...
Sem carimbos nem agrafos, sem tiques de vedeta, sem penteados parvos, sem insultar a assisténcia, sem etc...
Com a mesma calma, com um discurso simples, com o mesmo jogo consistente, com a sobriedade e solidez que o caracterizou. Custa muito. Mesmo muito. Mas "isto" é que é ser bom!
Nos tempos que correm, de uma crescente e mal atamancada vulgaridade, temperada com uma descarada incompeténcia, é bom sabermos que ainda há seres assim.
Moi-Reflexão-Desporto
Estes dois, por aquilo que me parecem ser, mas que não "parangonam", mereceriam ser muito, mas muito mais reconhecidos.
Como diria o Ricardo Araújo Pereira: é o país que temos...
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Moi-FIA
Em 04jul fui com Isa à FIArtesanato. Como de costume, ela comprou, e eu não.
Acho que o que me impele, é um mixto de rotina de todos os anos lá ir, com o gozo em ver as cores dos expositores, e com a sempre remota hipótese de encontrar algo diferente, ou uma prenda original.
Acho que o que me impele, é um mixto de rotina de todos os anos lá ir, com o gozo em ver as cores dos expositores, e com a sempre remota hipótese de encontrar algo diferente, ou uma prenda original.
Amigos-tertúlia e almoços
Em SDRana, em junho 2012, a ver o jogo entre Portugal e Espanha, com M.Oliveira, JEduardo, JAzevedo e JOrestes
Com o Jorge Tavares e com o Lobato Braz em julho
terça-feira, 3 de julho de 2012
Moi-Reflexão-Desporto-Atletismo (Europeu)
"A atleta Dulce Félix, nova campeã europeia dos 10 mil metros, dedicou segunda-feira a medalha de ouro conquistada em Helsínquia a "todos os portugueses", na chegada ao aeroporto de Lisboa" (CManhã).
segunda-feira, 2 de julho de 2012
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