quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Observador - Artur Baptista da Silva passeia-se por Cambridge (Jorge Fernandes)


 

(sublinhados pessoais)

Artur Baptista da Silva passeia-se por Cambridge

Questionar a biografia de alguém identificado com uma narrativa de superação e marginalização deixou de ser lido como rigor e passou a ser lido como hostilidade estrutural

Natal de 2012. O país estava em transe. O Passismo, dizia-se, destruía o tecido social e a economia, condenando Portugal a uma pobreza total da qual jamais se levantaria. Nesse ambiente, as Nações Unidas terão feito um relatório sobre a crise social na Europa do Sul dirigido por Artur Baptista da Silva, doutorado pela Universidade de Milton, Wisconsin, que a Lisboa bem-pensante recebeu de boca aberta durante semanas, até que uma ida ao Expresso da Meia-Noite revelou o óbvio: era um burlão de segunda, com um doutoramento falso e o mais perto que estivera das Nações Unidas terá sido uma visita guiada ao edifício.

Treze anos depois de Baptista da Silva, uma fraude inocente que pôs o país a rir naquele Natal de 2012, as fraudes estão por todo o lado. A mais recente e mais famosa foi a de Jason Arday. Vale a pena passar as credenciais de Arday a pente fino porque, sem dúvida, é um burlão de um calibre superior ao de Baptista da Silva. Nascido em 1985, Arday dizia ter sido não verbal até aos onze anos e que só aprendera a ler aos dezoito, o que não augurava propriamente um futuro académico brilhante. Para além disso, afirmara ter feito voluntariado para a WaterAid a instalar pontos de água na África do Sul e na América Latina, e que correra 30 maratonas em 35 dias, tendo sofrido, inclusive, um ataque epiléptico a meio da vigésima primeira maratona, que, ainda assim, concluiu. Com estas corridas, conseguira angariar mais de 5 milhões de libras para obras de caridade. Academicamente, Arday mostrou também ser um óptimo burlão. Depois de uma tese com inúmeras passagens plagiadas, dizia ainda ter sido, tal como o nosso Feliciano Duarte Barreiras, professor visitante na Ohio State University e na Universidade de Glasgow, além de afirmar ter uma cátedra honorífica em Durham, no norte de Inglaterra. Todas estas mentiras foram premiadas, para espanto de muitos, com uma Cátedra em Sociologia da Educação em Cambridge. Ao longo dos últimos anos, vários académicos e jornalistas começaram a alertar para a situação de Arday, que negava veementemente qualquer problema e, mais, ameaçava processar quem se atrevesse a falar sobre o assunto. Na semana passada, as mentiras foram demasiadas, e Arday acabou por demitir-se de Cambridge e, mais tarde, suicidar-se em Londres. Uma tragédia.

Como foi possível que tudo isto acontecesse? Convém dizê-lo com clareza: isto não é uma história sobre a maldade da imprensa de direita, por mais que alguns tentem agora vendê-la como tal, e o New York Times, jornal que dificilmente se pode suspeitar de enviesamento à direita, fez aliás um retrato minucioso das falhas de Cambridge neste processo. É antes a história de instituições intelectuais outrora eminentes a falharem a sua missão, sintoma claro de um declínio mais vasto e mais antigo.

Ao longo dos últimos anos, a academia, especialmente nas ciências sociais, mudou muito. Em primeiro lugar, a lógica que alguns denominam “métrica” na avaliação dos currículos académicos passou a ser vista com o mesmo desconforto moral que se reserva a um pecado confessável: coisa de editoras, de mercado, de um mundo em que ainda se contavam coisas para se avaliar alguém. Em seu lugar, prega-se hoje a avaliação “holística” dos currículos, palavra que, note-se, tanto pode significar rigor renovado como ausência total de critério, consoante o dia e o currículo em causa. É precisamente essa lógica que explica o caso Arday: não precisou de provar excelência académica, bastou-lhe contar uma história de adversidade (não-verbal até aos onze anos, analfabeto até aos dezoito, deficiência, pobreza) que a academia hoje trata como validação moral do mérito. A história substituiu, em larga medida, o escrutínio do trabalho, e o desaparecimento do chamado “Weird Nerd”, o excêntrico brilhante que outrora povoava os departamentos universitários, deu lugar a um tipo de indivíduo que tropeça na academia não tanto por amor à Verdade, mas por incapacidade de vingar em contextos corporativos. Em Portugal, este ataque frontal às métricas está bem vivo nas ciências sociais, e degrada-as até ao limite, naturalmente, com o bom e velho clientelismo que rege a vasta maioria nos concursos universitários em terras lusas.

Em segundo lugar, há uma inversão do ónus da prova: questionar a biografia de alguém identificado com uma narrativa de superação e marginalização deixou de ser lido como rigor e passou a ser lido como hostilidade estrutural. Não surpreende, por isso, que académicos e jornalistas tenham alertado durante anos sem que Cambridge agisse, e que a ameaça de processos judiciais tenha funcionado, com sucesso, como forma de silenciamento. Pior, mesmo depois da morte de Arday, há quem insista em explicar tudo pelo racismo estrutural, como se o escrutínio a que foi sujeito um burlão profissional só tivesse acontecido porque Arday era negro. A fraude confirmada transforma-se, por magia retórica, em mais uma prova da opressão do burlão. O caso Arday e esta desnaturação conformista mais vasta da academia são, creio, epifenómenos do mesmo problema de fundo: ambos a jusante da politização da vida académica ao longo das últimas décadas, que substituiu normas antigas, organizadas, ainda que imperfeitamente, em torno da excentricidade intelectual e da busca da verdade, por normas organizadas em torno da conformidade ideológica, do processo institucional e da vigilância das atitudes sociais e políticas aceitáveis.

Nada disto é acidental. Houve, na academia, uma tentativa sincera, mas mal dirigida, de corrigir, através de políticas de diversidade, equidade e inclusão, universidades estrutural e historicamente ocupadas pelas classes dominantes. Sou absolutamente contra o método, não contra o objectivo. A universidade é o ponto de chegada, o topo da pirâmide; gastar energia e dinheiro a torná-la mais diversa por decreto, ali em cima, é gastá-los tarde demais. Não seria mais justo, e mais eficaz, investir em apoiar crianças de classes mais baixas desde a infância, ao longo da escolaridade, para que cheguem à disputa por uma cátedra em condições de competir de forma limpa? É uma solução menos vistosa, rende poucos posts nas redes sociais, mas tem a vantagem incómoda de ser verdadeira. No final de contas, a classe continua a ser o grande determinante. Marx tinha razão.

Vejamos Claudine Gay, antiga presidente de Harvard, que se demitiu há dois anos no meio de um escândalo de anti-semitismo em que muitos preferiram ver racismo e sexismo puro. Será que Claudine Gay, filha de um dos homens mais ricos do Haiti, próximo do facínora “Papa Doc” que governou a ilha durante décadas, educada nas escolas privadas mais caras dos Estados Unidos, vem de um contexto de falta de privilégio? Terá sofrido mais do que um homem branco de classe média baixa, filho de operários, que nunca pôs os pés numa escola privada? Tenho dúvidas.

Baptista da Silva enganou Portugal durante semanas. Arday enganou Cambridge durante anos. A diferença não está no talento dos burlões: está no tamanho do escudo que a academia construiu à volta deles. Sendo Arday, no fundo, apenas um burlão, o seu caso deveria antes fazer-nos reflectir sobre as estruturas centrais da sociedade actual, e sobre como certos grupos conseguiram capturar o discurso progressista para, sob a pretensa bandeira da justiça social, guardarem, na verdade, o seu próprio privilégio.


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