terça-feira, 16 de junho de 2026

Observador - A gaiola das polémicas (Nuno Gonçalo Poças)

 


(sublinhados pessoais)

A gaiola das polémicas

Episódios que são o retrato fiel do que somos: um bando de saloios embrulhados numa bebedeira de positivismo legalista, de pacóvios que tremem de cada vez que surge alguém no redil com mais dinheiro.

Depois de uma pesquisa rápida no Google, deparei-me com várias. Há polémica na Casa do Secret Story e Liliana é o tema. A FIFA gerou polémica ao vetar o espanhol nas conferências do Mundial. O grupo musical Santamaria está impedido de tocar grande êxito, o que gerou, naturalmente, polémica. O vereador da CDU está envolvido em nova polémica por uso de carro da Câmara de Azambuja. António Pombeiro e Viegas Nunes serão ouvidos no Parlamento sobre a polémica do SIRESP. Houve polémica no Mundial: «Esta não é a Shakira, é uma sósia!». Há nova polémica no Mundial, agora com os hotéis. Kanye West celebrou o aniversário com um vídeo polémico protagonizado pela mulher. Já há solução para a realização do polémico jogo entre Irlanda e Israel. O polémico caso da Murtosa ficou por resolver? Auscultação pública sobre elevação da Póvoa do Lanhoso a cidade gera polémica política. Avenças em Resende geram polémica política. Polémica em Lisboa, com o PS a acusar Carlos Moedas de manter secretário-geral ilegalmente no cargo. Homenagem a Lula da Silva no Carnaval do Rio causou polémica. Os Bandidos do Cante falaram sobre a polémica com Israel. Nova estrutura da Câmara de Resende gera polémica política (algo se passa em Resende, assunto a que terei forçosamente de me dedicar logo que terminar este texto, e que agora até me parece mais interessante do que o assunto a que pretendo chegar e a que, tarde ou cedo, chegarei, não sem antes maçar o leitor com a curiosidade que agora Resende me deixou). Bom, polémicas sobejam, e era a duas delas, mais recentes e lamentavelmente mais lisboetas (na Estrela e na praia do Garrão, que é Lisboa em calções de banho), que me queria dedicar.

Não sei qual das duas polémicas chegou primeiro ao espaço público, mas para o caso a ordem é indiferente.

A primeira refere-se à discussão sobre a possibilidade de se colocarem chapéus de sol na praia em frente às áreas concessionadas. O Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente e a ministra do Ambiente, convergiram na mensagem: impedir os banhistas de colocarem guarda-sóis particulares em frente às áreas concessionadas é um comportamento abusivo. Ergueu-se um belíssimo debate sobre este assunto que atingiu o clímax com gente semi-despida a falar com repórteres de televisão, exibindo já o seu guarda-sol devidamente instalado em frente a umas espreguiçadeiras, utilizadas suponho que por gente rica que pagou por elas, e que, talvez por isso mesmo, talvez merecesse mesmo acabar com o pauzinho do guarda-sol enfiado no peito; e não deixámos ainda a famosa polémica sem comentários da Associação Portuguesa de Defesa do Consumidor, que rapidamente se colocou ao lado da APA e do Governo, não deixando de alertar para a miríade de multas a que está sujeito quem, podendo instalar o seu guarda-sol em frente aos coqueiros das concessionárias, se podia esquecer de que a selvajaria é ilegal, pelo que não é possível ouvir música através de colunas portáteis de forma a perturbar outros utilizadores (coimas entre 200 e 4.000 euros), não se pode praticar desporto fora das zonas autorizadas ou levar animais a praias onde não são permitidos (coimas até 550 euros), nem se pode fazer circular ou estacionar veículos motorizados pela praia (coimas entre 250 e 2.500 euros); e acabou, por fim, com a sugestão ministerial de que se fizesse um desenhinho à entrada de cada praia, para que cada um soubesse onde pode e não pode fazer o quê.

A segunda polémica refere-se ao quiosque do jardim da Estrela. Na rede social de Elon Musk, Pedro Marques Lopes afirmou que «Neste espaço no Jardim da Estrela havia uma esplanada com um café, onde gente conversava e jogava às cartas. Agora está um restaurante de luxo, com dois carros de luxo na frente. É um bom exemplo do que Carlos Moedas quer para a cidade.» Evidentemente, o Bloco de Esquerda já anteriormente tinha questionado o presidente da Câmara sobre possíveis alterações na concessão do quiosque e, descobrindo-se o atentado, a vereadora dos bloquistas exigiu explicações, invocando que a instalação de um restaurante de luxo afronta a ideia de jardim público enquanto espaço para convivência e lazer, devendo a sua utilização privilegiar o acesso universal, livre e não discriminatório por parte da população.

Suspiro.

Apetecia-me discorrer largamente sobre a famosa inveja nacional, sobre aquela ideia de que em Portugal o habitual é alguém ver o vizinho com um carro melhor e acabar não a desejar ter um carro igual, mas sonhando com o dia em que o vizinho fique sem o carro. Eventualmente salientar que aquele quiosque alegadamente acessível nunca o foi. Não vale a pena. Não vou convencer ninguém, estes dois episódios não são sequer verdadeiras polémicas. São o retrato fiel do que somos: um bando de saloios embrulhados numa bebedeira de positivismo legalista, que descura práticas de usos e costumes, um aglomerado urbanita de pacóvios que treme de cada vez que surge alguém no redil com mais dinheiro na bolsa. Talvez por isso as elites políticas, culturais, intelectuais, até mesmo financeiras, deste país sejam quem anda há anos a tentar convencer-nos de que quando chega um francês com dinheiro à Estrela, a cidade está em acelerada gentrificação, mas se chegar 1 milhão de desgraçados e mal pagos aos bairros onde a elite lisboeta sempre desprezou viver, isso passa a ser desenvolvimento cultural.

Entre polémicas que não o são, o que fica deste retrato é que Portugal é este território semi-ocupado onde prevalece a incapacidade de olhar para um rico como uma pessoa normal. Ou é definitivamente um explorador ou é um modelo indiscutível de sucesso. Nunca é apenas um cidadão que tem mais dinheiro. Da mesma forma, o pobre continua a ser tratado ora como vítima sagrada e irrecuperável, ora como problema social para cima do qual se atira dinheiro e ao qual se compram votos. Nunca como um ser humano completo. E fica ainda a certeza absoluta e inquestionável de que não há alma que não sinta um prazer imenso em exibir um certo sentimento de vingança social por quem pode pagar mais, nem há burguês lisboeta que não se sinta afinal um trambolho quando perde a possibilidade de frequentar os seus espaços de sempre, que já eram caros e inacessíveis à maioria dos transeuntes, e os perde para uma concorrência social de valor mais elevado. Tal como, por outro lado, não perde uma oportunidade para lamentar aqueles espaços que eram tão seus, como o Algarve, para onde se ia usufruir de praias desertas, com um rebanho de criadas atrás, vendo casinhas caiadas com dez filhos lá dentro a contar os dentes que tinham na boca, e que agora estão, desgraçadamente, cheias de gente sem maneiras, que come em buffets como quem tem a ilusão da abastança e pica melancias com um garfo embrulhado em guardanapos de papel.

Pelo meio, parecemos todos esquecidos de que a dignidade das pessoas não se mede pelo que tem no bolso, pelo que pode pagar, que não somos apenas o que temos. É possível que esta evidência nunca tenha sido sequer definitivamente instalada na psique colectiva, nem mesmo neste país que foi governado por uma ditadura durante meio século e que sofre de um viés de esquerda há outro meio século e que, afinal, nos brinda sempre que pode com a sua própria apologia da pobreza, já não apenas glorificada, como a de Salazar, mas também vingativa, como a dos incapazes, e que segue assim, de polémica em polémica, até ao ridículo final.


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