(sublinhados pessoais)
O Mundial comanda o sonho
Os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.
Primeira parte: política
Vejo muita gente preocupada com a circunstância de o Mundial se realizar sobretudo nos EUA. Trata-se de um receio pertinente. É sabido que na América actual as autoridades fascistas começam por deter e deportar metade dos visitantes logo no aeroporto. Depois perseguem a outra metade pelas ruas, na maioria das vezes a tiro. E se por acaso no processo sobrar um turista incauto, os agentes do ICE são meninos para segui-lo até o restaurante, sentarem-se na mesa ao lado e passarem a refeição a comer com a boca aberta só para suscitar irritação. Não são as condições ideais para a realização da prova-rainha do desporto-rei. Principalmente numa altura em que a FIFA nos habituara a designar anfitriões com provas dadas de hospitalidade e decência democrática. Houve a África do Sul do sr. Zuma em 2010. Houve o Brasil da dona Dilma em 2014. Houve a Rússia do sr. Putin em 2018. E houve o Qatar dos senhores que mandam no Qatar em 2022. Descer destes regimes exemplares para a autocracia do sr. Trump é um risco escusado e um sinal de que, contra todas as expectativas, as altas instâncias do futebol afinal não são absolutamente impolutas. O que é uma surpresa e um desgosto.
Intervalo capilar
Apesar da natural apreensão sobre as condições políticas, o fundamental é concentrarmo-nos durante 39 dias no que conta: os penteados dos jogadores. Parece impossível, mas na pré-história do futebol os futebolistas possuíam um aspecto similar ao dos restantes mortais. Depois vieram as guedelhas dos anos 1970, as permanentes dos anos 1980 e o estilo mopa/esfregão celebrizado por Figo nos anos 1990. E hoje os jogadores voltaram a ter um aspecto similar ao dos restantes mortais: os mortais que habitam as favelas de Recife, os “barrios” de Ciudad Juarez e as escolas secundárias de Portugal em peso. Embora as tatuagens, a bijuteria e o vestuário sejam importantes, o penteado é determinante. O dito consiste em rapar o cabelo oito centímetros acima da orelha, de maneira a que não se insinue sequer o vestígio de uma patilha. À frente, procede-se a uma risca desenhada a betume ou, preferencialmente, uns caracóis pendurados na testa. Atrás, é aconselhável aparar os pelos da nuca em forma de triângulo, a fim de completar o visual de quem teve alta hospitalar após severa lobotomia. Lavrar traços alegóricos no meio dos folículos é facultativo, enquanto o bigodinho e um arremedo de barbicha na ponta do queixo são acrescento de categoria. Para os autênticos estetas, a cereja no topo do bolo é a tinta amarela no topo da cabeça, adereço que torna o Brasil a selecção com mais loiros em actividade e consagra a expressão “escrete canarinho”.
Segunda parte: inclusão
Óbvia é a ironia de um país com profundas lacunas democráticas acolher o Mundial mais democrático de sempre. Antigamente, a tradição mandava que após apuramento prévio apenas uma ou duas dúzias das melhores selecções se apurassem para a fase final. Felizmente a tradição faleceu. Agora há um apuramento prévio em que, como no ensino inclusivo, quase nenhuma equipa reprova. Por mim, estou ansioso por ver os 104 (cento e quatro) desafios, mas mentiria se não confessasse particular expectativa face aos jogos Alemanha vs. Curaçau, Áustria vs. Jordânia, Uzbequistão vs. Colômbia, Iraque vs. Noruega e Papua-Nova Guiné vs. Turquemenistão. E quero ver com atenção redobrada o desempenho das selecções de Tuvalu, do Panamá e da Eritreia, nações cujos torneios internos não tenho acompanhado regular e devidamente. Em contrapartida, lamento a desqualificação precoce e injusta da Ilha da Páscoa.
Prolongamento: táctica
Nos maus tempos, o futebol permitia a distinção de futebolistas com talento para aquilo. Acima de tudo, Pelé, Cruyff, Zico, Beckenbauer ou Maradona jogavam muito bem, ou o que os leigos achavam que era jogar muito bem. Porém, como nos esclarecem 682 comentadores e especialistas na modalidade, o objectivo da modalidade não é entreter o pagode com jogadas “bonitas”. O objectivo é vencer as partidas através da aplicação de tácticas complexas e que o leigo tende a confundir com uma correria desenfreada e sem tino. Fintar o adversário é rigorosamente proibido. Jogar “bem”, idem. No futebol “moderno” e cientificamente entediante, graças a Deus, a única finalidade é fazer com que 11 sujeitos dotados de excelente preparação física e criatividade reduzida enfiem colectivamente a bola na baliza e, após esperarem 15 minutos de modo a que as “novas tecnologias” (o registo de imagens, divulgado pelos Lumière em 1895) confirmem o golo, com que o golo se festeje com pantomimas ensaiadas e o ar misteriosamente furioso do seu autor. Sem falha, sob pena de despedimento, o relatador de serviço vai proclamar com os gritos de um possesso: “É isto a magia do futebol!” Mas a essa hora o espectador, leigo e bruto, já adormeceu no sofá.
Penáltis: patriotismo
E a selecção portuguesa? Está bem lançada. O presidente Seguro visitou-a e esgotou os clichés disponíveis: “O país acredita em vós. Façam-nos sonhar e tragam para Portugal a taça que nos falta. Vamos todos torcer por vocês. Acredito que, com o vosso entusiasmo, força, fibra, talento e trabalho, isso é possível. (…) Num torneio desta dimensão, também se passa por muitas dificuldades e muitas exigências, mas é aí que se mostra a fibra e a alma de ser português. Nessa altura, estarão milhões de pessoas em todos os cantos do mundo a torcer por vós e a dar-vos o máximo apoio.” O primeiro-ministro manteve os clichés e reforçou o delírio: “Assumimos, sem rodeios, que somos candidatos a poder ganhar o Campeonato do Mundo. Temos muitos desportistas que são os melhores do mundo. Este é um alento à nossa capacidade enquanto país, de podermos pensar que, em todas as áreas de atividade, com espírito de equipa, superação e vitória, conseguimos fazer coisas que os outros ainda não fizeram.” Somos, portanto, espectaculares. Temos força, fibra, talento, trabalho, mais fibra, alma, espírito de equipa, superação e vitória. Com tudo isto é um enigma que entremos no Mundial com um pib per capita inferior ao de 54 países sem dúvida com menos fibra e alma e etc. E é garantido que sairemos do Mundial na mesma. Entre ambos os momentos, o bom povo debaterá as competências de “Rónaldo” e louvará os méritos da “transição ofensiva” e protestará as arbitragens e pendurará bandeirinhas e insultará os presunçosos que teimam em recordar que o futebol era só um divertimento e hoje aborrece um santo. Em suma, os portugueses vão sonhar. Aliás, o nosso problema não é a falta de sonhos: é nunca acordar.


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