segunda-feira, 29 de junho de 2026

Observador - Isto vem tudo no Huxley (Gonçalo Poças

 

(sublinhados pessoais)

Isto vem tudo no Huxley

Onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda?

No tempo em que as crianças jogavam à bola na rua, por entre lancis, passeios, pedras da calçada levantadas, alcatrão, automóveis, camiões, portões de garagem amolgados pela força dos petardos lançados com bolas esfarrapadas pelo asfalto ou balizas feitas com calhaus, medidas com passos, havia uma série de regras altamente falíveis que eram seguidas à risca. Uma delas era a da validade dos golos quando as bolas iam altas. Levantava-se uma grande discussão sobre se o guarda-redes lá chegaria em teoria, simulando-se uma trave horizontal erguida à medida não de uma medida regulamentar, mas da altura de quem jogava à baliza – daí que, quanto mais pequeno o guarda-redes, melhor, porque se reduzia automaticamente a altura da baliza (sendo que pequeno e gordo seria a medida perfeita do guarda-redes, que acaba por transformar a baliza de pedras numa barreira intransponível). As discussões levantavam-se, não raras vezes acabavam à pancada, num processo de libertação hormonal e manifestação de força saudável, que fazia, a curto prazo, mais forte quem batia e, a longo prazo, quem levava.

Lembrei-me disto numa destas madrugadas, enquanto a selecção portuguesa de futebol era massacrada pelos colombianos neste evento de publicidade a que chamam Mundial de Futebol, quando um golo aos olhos de todos válido foi anulado à Colômbia. Aquela aberração a que chamam VAR, vídeo-árbitro, uma máquina que oferece imagens virtuais que apuram ao milímetro a verdade desportiva, descobriu a ponta de um dedo colombiano para lá da linha Maginot virtual que separava o último defesa português do seu guarda-redes. Como sou uma daquelas almas que já gostou mais de futebol do que de uma equipa, e não sou totalmente imune à nostalgia, achei que o golo ia ser validado. Não havia nada, entre o directo e a repetição, que indiciasse um fora-de-jogo. Mas lá surgiu a linha virtual e a Colômbia acabou por empatar um jogo que merecia ganhar.

Há, de facto, qualquer coisa de profundamente revelador num golo anulado porque a biqueira de uma bota ficou dois centímetros para lá da linha. Os jogadores fizeram tudo bem, o estágio explodiu, as gentes entram em êxtase, outras em profunda tristeza, tudo parece encaminhado para a revelação da Humanidade, e eis que uma máquina nos diz que não, que não foi bem assim. Não discuto sequer a regra, a tecnologia, a justiça real que tudo isto traz a um jogo que é, ainda por cima, cada vez menos um jogo e mais um mercado de capitais e transacções. Mas há aqui, em tudo isto, alguma coisa que nos fala sobre o tempo que vivemos e naquilo em que nos estamos a tornar ou em que nos tornámos já.

O que é que se espera do Homem que não aceita a imperfeição, o erro, a margem de erro, a ideia de que a vida é um conjunto infinito de zonas cinzentas oscilantes pela decisão humana que prevalece sobre a ideia de uma medição absoluta? O que é que se pode esperar de uma sociedade que exige a limpeza total, a exactidão total, o controlo total, a perfeição absoluta? Esta é a época das canetas de emagrecimento, afinal, uma revolução real que, procurando ser justo, melhorou, por enquanto, a vida de milhares de pessoas e representa um avanço extraordinário da ciência. Mas onde é que nós queremos chegar, afinal, com este entusiasmo em torno de ideias que anunciam resultados sem caminhos, sem esforço, sem sacrifício, sem dor, sem perda? Por mais sedutora que seja a ideia da perda de peso sem fome, será inevitável que cheguemos a outros sítios: à ambição de aprender sem estudar, de enriquecer sem poupar, de criar relações duradouras sem compromisso, de ter sucesso sem fracassar, de obter reconhecimento sem mérito, se ser feliz sem sofrer. Talvez nenhuma outra civilização tenha investido tanto na eliminação de qualquer forma de atrito pessoal, ao mesmo tempo em que se desmorona em atritos permanentes, sociais e pessoais.

Não digo que isto seja incompreensível. Não é. Durante séculos procurámos combater a doença, a fome, a pobreza, a dor, e felizmente vencemos muitas desses obstáculos, que nos permitiam salvaguardar o valor da vida. Não há romantismo nenhum no sofrimento, como é evidente. Mas há muito romantismo e demasiada utopia num mundo que luta pela abolição total da dor, até ao ponto em que o Homem passa a ser avaliado exclusivamente sob o ponto de vista da sua perfeição ou da sua utilidade. Talvez seja esse o grande esquecimento do nosso tempo: a confusão entre sofrimento e mal absoluto, o varrimento para debaixo de um tapete da ideia de que há um sofrimento que destrói e há outro que forma vontades e carácter. É por isso que o verdadeiro perigo em que vivemos não seja o vídeo-árbitro ou as canetas de emagrecimento, por exemplo, mas a filosofia que os permitiu: a ideia de que qualquer obstáculo é um defeito da realidade e de que a boa sociedade será aquela onde nada custa, nada dói e nada exige. E onde se é, afinal, menos livre porquanto deixamos de estar aptos a fazer escolhas. O Admirável Mundo Novo é este: a troca da liberdade pelo conforto, não pela força, mas pelo prazer. Permitam-me que não aprecie.


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