terça-feira, 16 de junho de 2026

Observador - Pense em nós, Sr. Presidente (Vieira Barbosa)

 

(sublinhados pessoais)

Pense em nós, Sr. Presidente

Surpreenda os seus amigos e eleitores fazendo o que eles não esperam: devolva a Portugal um pouco de dignidade, orgulho e princípios civilizacionais, justiça e vergonha na cara.

Faça-o, porque os portugueses são um povo triste que canta o fado, que tem como herói Cristiano Ronaldo e que agora, que se aproxima Julho, se prepara para rumar à Praia da Rocha com as bermudas cerimoniais do ano passado e mais uma dívida ao banco. Os portugueses merecem essa atenção de V. Excelência, merecem a dádiva do seu silêncio. Mesmo os mais apoucadinhos merecem-no, são eles que dão mais atenção aos seus discursos, mas estimariam que v. Excelência não os desafiasse demasiado ao raciocínio – porque lhes custa pensar e, ao fim, não chegando a nenhuma conclusão aproveitável, admitem com angústia que a culpa é deles. Até ao 5 de Outubro, essa improfícua data, ainda o Sr. Presidente tem muito tempo para reflectir. E, se no entretanto pedirem a V. Excelência que proceda à inauguração de um jardim-escola, ou de uma azinheira, não aceite. Pode não parecer mas é uma coisa de alguma responsabilidade. E se aceitar, o que fará pela delicadeza que todos lhe reconhecem, alegue que está com uma laringite e não vai poder discursar. É bom para todos e em particular é muito importante para debelar a laringite.

As declarações públicas que V. Excelência tem pronunciado, com destaque para o discurso com que no 10 de Junho dedicou aos abismados portugueses ou as que, na mesma linha, dirigiu aos jogadores de futebol da selecção, foram notáveis. Roçaram o nível de profundidade que todos reconhecem em V. Excelência, conseguiram aliar a denguice desarmante à inocuidade com tanta mestria que todos aplaudiram. E, só por isso, porque não continham a perigosa sonsice com que V. Excelência arrazoou sobre as bandeiras LGBT, merecem algum reconhecimento. Infelizmente, é pouco. Ou, vendo as coisas de outra maneira, é demais.

Nenhum português ignora quanto tem sido desanimadora a vida política de V. Excelência. Sabem isso os académicos e as despreocupadas avezinhas do céu, sabem-no melhor e com activa perfídia os seus camaradas socialistas, eles que à frente de todos o projectaram para o sítio onde agora está, umas vezes em Belém e outras nas Caldas. Fizeram-no porque desejavam a sua vacuidade, tão universal como uma ficha USB que entra em todo o lado e se presta, por isso, a qualquer torradeira disfarçada de cidadania. Para o levarem a bem usaram expressões polidas como desiderato e múnus, mas havia neles apenas o desígnio escondido de prolongarem o entremez de V. Excelência num lugar onde se visse melhor. E, apesar de uma certa improbabilidade, também para o desanimar de um dia prescindir da presidência do país para se habilitar ao secretariado do PS.

Pode parecer ao Senhor Presidente que são palavras um pouquinho duras e apressadas. Não são. Elas só querem o bem de V. Excelência. Seriam evitáveis se V. Excelência estivesse servido por um staff que o estimasse, que lhe desse bons conselhos sobre assuntos de política e o encaminhasse a direito em questões de bom-senso. Não parece o caso e, mais preocupante do que essa falha de casting, é a verificação de que V. Excelência ainda não reparou nisso. É verdade que nem sempre as suas escolhas são catastróficas. A sua lista de nomeados para o Conselho de Estado é ternurenta – uma maioria de 3 em 5 ligada às ciências e uma minoria de 2 atolada no passado. A escolha, é certo, denuncia uma interpretação enviesada sobre os problemas de Portugal, que não são as questões biomédicas nem do mar. Mas oferece a imagem de um presidente preocupado com as esponjas, que se propõe compreender os lamelibrânquios e lê com atenção a National Geographic. Também revela, por oposição, que não lê com idêntico empenho os relatórios internacionais sobre demografia e migrações, sobre fragmentação identitária e outras ideias peregrinas. Assim tivesse V. Excelência verdadeiros amigos para o avisarem dessa lacuna.

Lembre-se V. Excelência que não foi eleito. V. Excelência foi repescado. V. Excelência é a Eritreia do hóquei no gelo – depois da desistência do Canadá, da falta de vistos da Suécia e do equipamento considerado impróprio da Finlândia. O caminho que abriram debaixo dos seus pés não se destinava a ir a lado nenhum, era para fugir de várias coisas tremendas – o fascismo, o discurso de ódio, a destruição do Serviço Nacional de Saúde, o encerramento das fronteiras, a violência policial e a proibição do aborto. Foi o que disseram a V. Excelência.

Vossa Excelência teve a confiança do Partido Socialista, se assim se pode dizer. O agradecimento que deve ao seu partido poderá ser dirigido simbolicamente à Dra. Marta Temido que não lhe deu o voto na primeira volta e lho atirou aos pés como o “único possível” na segunda volta. O bom gosto de V. Excelência não deixou de interpretar como deselegante essa temida resignação – e tê-la-á comparado, com indiscutível perspicácia, ao casamento de uma solteirona com o desafortunado da aldeia, a última oportunidade de não ficar para tia.

Vossa Excelência congregou o voto de inúmeras personalidades mediáticas do PSD. Mas não do PSD. Não deve alimentar ilusões sobre os seus propósitos. Todos eles são filhos temporariamente espúrios de um pai sem princípios e a quem preocupa apenas o que pode dizer a vizinhança. Foi-lhes dito, de modo explícito ou pelas sinalefas dos corredores, que podiam sair e andar com quem quisessem – senhoras de má vida ou carteiristas – desde que não aparecessem com eles lá em casa. Por causa do falatório. Outros não-socialistas, assim ditos, engrossaram aquele conglomerado social-democrata com as suas convicções momentaneamente transformadas na falta delas. O melhor que pode acontecer a V. Excelência é que uma quantidade suficiente desses seus apoiantes se mantenha sem pensar e sem vergonha durante os próximos 5 anos.

Vossa Excelência atraiu a simpatia do Partido Comunista, do Livre e do Bloco de Esquerda – aqui referidos em conjunto para que desse aproveitamento de restos se consiga uma quantidade da coisa digna de um parágrafo. Foi o Sr. Presidente muito feliz porque alcançou a união das esquerdas, uma das grandes utopias dos comentadores. Não foi necessário comover aqueles agrupamentos com a urgência de promover o Hamas à decência, aniquilar Israel e assumirem eles próprios a miséria moral do terrorismo islâmico. Bastou que V. Excelência não sugerisse nada em contrário, não afirmasse coisa nenhuma, não expendesse qualquer ideia e acenasse com a mão, que é como fazem os presidentes. Faltaram a apoiar V. Excelência o MRPP e o MAS, para citar os de maior implantação, assim como sobreviventes de uma esquerda histórica que desapareceu mas nunca estará morta: o PCP m-l, o PC(R), a LCI, a FER, a UDP, a OCMLP, o PT, o PUP, a FSP, o PRT, o PSR, o POUS, o PST, a FUP, os GDUPs… Mas nada apagará o mérito de V. Excelência em ter ajuntado na mesma bicha para a eternidade os netos de Estaline e os filhos de Trotsky.


Vossa Excelência ajuntou os votos de médicos, de católicos e de psicólogos. Foi elevado por 3 milhões e meio de portugueses mas alguns, aqueles, organizaram-se em listas identificados pela profissão ou pela fé. Não se conformaram com o anonimato corporativo, como fizeram os encadernadores, os enólogos e os cantoneiros. Ao dizerem quem são deixaram a V. Excelência a tarefa de saber se votaram no seu nome por causa de ou apesar disso. No primeiro caso imputam ao Senhor Presidente uma obrigação de especial estima, no segundo caso deve entender-se que lhe desvelaram uma subtil intimação. Ou pode não ter sido por nenhuma daquelas razões e V. Excelência terá sido vítima de uma mania possidónia de se juntarem as assinaturas de várias personalidades para que nenhuma delas exista por si e entregue à sua própria insignificância.

Vossa Excelência teve o apoio de artistas de todos os géneros. A lista de artistas é inclusiva, tem de tudo e não aparecem descriminados em alíneas. Mas sabe-se que em Portugal os artistas podem ser trompetistas da orquestra da Gulbenkian ou dançarinas mamalhudas de música pimba. Há-os que ganham esforçadamente a sua vida como funâmbulos itinerantes ou a escrever poesias que ninguém lê, e há os que moram em cidades abrigadas e celebram ajustes directos para o espalhamento de monos em rotundas. Considere que todos são artistas, cada um à sua maneira, e que o apoio que dão a V. Excelência significa uma confiança ilimitada em que não serão esquecidos. Há-de V. Excelência ter reparado que nenhuma lista de 500 personalidades ligadas à indústria e ao comércio apelou ao voto na sua candidatura. Que nem ao menos 100 agricultores declararam a expectativa cintilante com que vão acompanhar o seu magistério. Os cidadãos que não são artistas olham para V. Excelência e para aqueles que estão consigo, e inquietam-se – nem todos, só os que se indignam com o adiamento económico do país e a flacidez de carácter dos homens. Existem criaturas dessas, não leve a mal. É gente que considera com reserva os subsídios e as cotas, que lamenta as ninhadas de criaturas impudentes que se consideram artistas e estendem a mão. Os artistas que incorporaram a pedinchice do país, vêem a sua artistice com a cegueira narcísica dos incapazes, têm as suas habilidades na conta de uma variante da arte com o mesmo estatuto prebendário dos grandes estropiados. Pense V. Excelência nisso, se quiser arriscar uma dor de cabeça.

Fora do universo da esquerda também V. Excelência teve muitos apoios. É verdade que alguns declararam fazê-lo sem entusiasmo, uma carência das maiores que pode associar-se a um acto cívico, e outros fizeram disso, por pudor, um segredo de Polichinelo. Em quase todos, pela pressa com que acolheram a sua candidatura e pela declaração ostensiva de que também eles a iriam socorrer, foram notórios o medo e a resignação. Pode V. Excelência orgulhar-se das muitas figuras excelentes que acreditam em si, porque não têm mais nada em que acreditar proveniente de V. Excelência. Mas não deixe de reparar que é pouco de confiar, e nada higiénico, ter o seu magistério apoiado numa trupe de medrosos e borrados.

Vossa Excelência teve a pouca sorte de ter sido apanhado numa curva do mercado. Sabe-se que muito em breve vão aparecer modelos inovadores e mais caros. Por exemplo de automóveis, não é preciso ir mais longe. E ninguém quis arriscar muito. Todos acharam bem ajeitarem-se com um modelo usado mas com bom aspecto, fraquinho mas de confiança, incapaz de grandes velocidades mas poupado, sem fôlego para as ladeiras mas deslizando muito bem se for empurrado nas descidas. Foi nesse ponto que V. Excelência teve a sua oportunidade. Mereceu-a afinal de contas. Oxalá seja capaz de reflectir com dureza sobre o que o rodeia, que não é apenas o que vê mas também o que se esconde debaixo das saias de uma modernidade imbecil – não apenas o que lhe mostram mas também o que reclama coragem para ver e enfrentar. Surpreenda os seus amigos e eleitores fazendo o que eles não esperam: devolva a Portugal um pouco de dignidade, orgulho e princípios civilizacionais, justiça e vergonha na cara.

E deixe, Sr. Presidente, que o passado ilumine os seus passos. As oportunidades são raras, em particular a oportunidade de fazer alguma coisa boa debaixo do olhar expectante de um povo, um povo triste, conforme já assinalado anteriormente, um povo pobre e a empobrecer, atrasado e a embrutecer, ralo e a diluir-se. Esta é já a segunda oportunidade de V. Excelência. A primeira foi desaproveitada no próprio dia em que foi eleito presidente. Olhando para os pressupostos da escolha que o beneficiou, para quem o escolheu e para as razões porque o fizeram, podia muito bem V. Excelência ter ido embora naquela noite. Os dois terços de portugueses que não votaram em V. Excelência respeita-lo-iam por esse gesto de grandeza e desprendimento. E ficaria na História por ter recusado ser residual, ser apenas o que outros queriam que não fosse. Tente V. Excelência ficar de outra maneira, como o presidente que conseguiu ser mais do que aquilo que era.


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