(sublinhados pessoais)
Não perguntem quem perdeu se a guerra no Irão acabar mal
Deixemo-nos de ilusões. Se a guerra acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os generais americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam.
A guerra contra a ditadura iraniana pode não acabar bem. Não acabar bem significa a tirania dos Khamenei sobreviver, e os EUA enredarem-se outra vez no xadrez das negociações e sanções, onde os ayatollahs os têm toureado nas últimas décadas. Mas se a guerra acabar mal, há duas conclusões erradas que, por mais consoladoras que sejam, convém evitar.
A primeira é esta: a guerra acabou mal por ser uma guerra desnecessária. Errado. As guerras são sempre uma opção tremenda e arriscada. Se os EUA recorreram às armas, foi porque os outros meios falharam. Em 1979, a teocracia iraniana declarou-se inimiga do Ocidente e do que o Ocidente representava. Fundou e financiou organizações terroristas, tentou desenvolver armas nucleares, adquiriu mísseis capazes de atingir a Europa. Durante anos, americanos e europeus usaram negociações e sanções para dissuadir os teocratas de Teerão. Sem resultado. Da parte dos EUA, a operação militar foi um último recurso. Se a guerra acabar mal, não quer dizer que não devesse ter sido tentada.
A segunda é esta: a guerra acabou mal porque Trump não tinha um plano ou o seu plano era mau. Errado outra vez. Os EUA têm os meios militares para vencer um conflito armado, incluindo generais aptos para os usar da maneira mais eficiente. O problema não está nas armas, ou nos planos. Está em sistemas políticos e em economias que não parecem suportar uma campanha militar prolongada: governos que temem perder eleições, e economias minadas pelo endividamento, por impostos altos e pela inflação, e por isso impedidas de qualquer esforço mais espartano. Bastou aos mullahs fecharem Ormuz. Se a guerra acabar mal, não correrá melhor da próxima vez.
Dizer que a guerra foi apenas um capricho de Trump ou que um eventual insucesso se deveu somente à sua má planificação é muito confortável. Permite que acreditemos novamente que as valsas diplomáticas são a melhor solução para conter a ditadura iraniana, embora nunca tenham funcionado antes, ou que, sem Trump, venceremos da próxima vez, apesar de não se constatar, no Ocidente, qualquer movimento para ultrapassar as debilidades que agora espartilharam a sua força militar.
Deixemo-nos de ilusões. Se a guerra acabar mal, não é porque tenha sido um delírio de Trump, ou porque os generais americanos e israelitas a não tivessem planeado como deviam. Será por duas razões muito menos convenientes: porque a teocracia iraniana, fanática e sanguinária, é resiliente, e porque o Ocidente, dividido e endividado, não tem força para a derrubar. E isso justificará alguma inquietação, na medida em que a ditadura iraniana não é um problema local do Médio Oriente. O Irão, com 12% do petróleo mundial, quase 100 milhões de habitantes, e aliados como a Rússia e a China, dispõe do que é necessário para ser um problema global. Mais: o Irão dos Khamenei não é um Estado normal, susceptível de compromisso e moderação. É um projecto apocalíptico, que se alimenta de vertigem e ousadia. Funciona, desde 1979, como o principal foco do islamismo político, uma ideologia que subverteu o Médio Oriente, e que agora apela às comunidades muçulmanas que o caos migratório deixou instalarem-se na Europa. Derrotar a teocracia iraniana é a maneira de desacreditar o radicalismo político associado ao Islão, e prevenir que os muçulmanos na Europa se convertam em massa de manobra dos movimentos inspirados pela revolução islâmica iraniana.
É preciso que esta guerra não acabe mal. Mas se acabar, não perguntem quem perdeu. Não será Trump: seremos nós todos. Porque se esta guerra acabar mal, isso apenas significará que a guerra continua.

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