(sublinhados pessoais)
Deixem o Alberto trabalhar por zoom
Comigo no poder, acabavam-se as excursões para fora do país. Na verdade, acabavam-se igualmente as excursões dentro do país, pela simples razão de que não estou para isso.
Houve por aí certa indignação, incluindo a deste vosso criado (salvo seja), pelo facto de o primeiro-ministro ter feito três viagens distintas aos Estados Unidos para assistir a três jogos da chamada selecção nacional durante o campeonato do mundo da bola. As justificações variaram: representação institucional, segundo o insuspeito dr. Montenegro; servir de amuleto, de acordo com o dr. Hugo Soares; aproveitar com voracidade as prebendas do cargo, na versão de uma amiga minha com décadas de experiência na política. Embora a minha amiga deva estar mais próxima da realidade, julgo que os motivos são menos importantes que a despesa, sobre a qual o gabinete do PM ainda não possui “informação detalhada que permita indicar um valor exato”. Quando possuir, eles de certeza correrão a informar-nos. Por enquanto, as línguas, boas ou más, falam em 100 mil euros por cada viagem, que incluiu o insigne estadista e dois ou três subordinados. Lembro também que, nos jogos da “selecção” a que o PM lamentavelmente faltou, “os magníficos embaixadores de Portugal e da Portugalidade que são os nossos atletas” (cito, juro, fonte governamental) contaram com o apoio decisivo nas bancadas americanas ou do dr. Aguiar-Branco ou do dr. “Tozé” Seguro. Com sorte, a coisa ficou aquém do meio milhão de euros, que o contribuinte paga e não bufa. Ou paga mesmo que bufe.
O contribuinte poderia não ter de pagar nada. Bastaria para isso que nenhum vulto do Estado aceitasse voar para Houston, Dallas, Miami e Toronto sem propósito discernível. O problema é que há precedentes e equivalentes, por cá e por lá. Por lá, especificamente na Europa, os PM da Croácia, da Noruega e da Escócia já marcaram presença no “Mundial”, se bem que em apenas um jogo da respectiva equipa (o exemplo de Javier Milei, que garantiu não aparecer nem sequer numa hipotética final da Argentina, não conta porque o homem, como se sabe, é maluco). Por cá, se descontarmos a mudança da corte para o Rio de Janeiro, evidentemente seduzida pelo passe anual no Maracanã, é suficiente recordar os casos do dr. Costa e sobretudo do prof. Marcelo, que raramente perdiam uma oportunidade de apoiar “os magníficos embaixadores da Portugalidade” em jogatanas no estrangeiro. No século em curso, suponho que Pedro Passos Coelho foi o único chefe de governo consciente de que não convinha consumir o erário público em patetices, pelo que, se não erro, jamais o vimos de cachecol verde e vermelho, a cometer figuras tristes num estádio a dois, quatro ou seis mil quilómetros de Lisboa. Aliás, Pedro Passos Coelho viajava em turística nos voos europeus e obrigava os seus ministros a proceder de igual modo, teimosia que sem dúvida alimentou acusações de prepotência e até “fascismo”.
Lamentavelmente, o panorama da política caseira não antecipa futuros líderes com noções básicas de austeridade, contenção e vergonha na cara. Na ausência de Pedro Passos Coelho, cujo regresso é no máximo uma possibilidade vaga, não se vislumbra o advento de um governante que, à semelhança de Milei, mostre respeito pelo dinheiro dos outros e evite esboroá-lo em passeatas sem sentido. Ou vislumbra? Para ser sincero, sei garantidamente de um português adulto e sem impedimentos legais que, apesar de não ter vida política, seria o mais escrupuloso PM em matéria de “representações institucionais”, as quais reduziria a um número próximo de zero. Curiosos? Do alto da minha vertiginosa modéstia, tenho a informar-vos de que o indivíduo em causa sou eu próprio.
Não é uma questão de ética, mas de carácter, ou da extraordinária falta de paciência para fretes que me define o carácter. “Inércia” é um sinónimo plausível, e a devoção que lhe dedico não conhece limites. Enquanto a maioria dos portugueses olha para as viagens dos governantes com inveja, eu contemplo-as com pena, pena das verbas desembolsadas e pena dos desgraçados que saltitam de aeroporto em aeroporto a fim de suportar futebolistas que dão sono, reuniões em que ninguém os ouve, conversas com “homólogos” que não fazem ideia de quem eles são, banquetes em que se come mal e ao lado de emplastros, patuscadas regadas a fado e folclore com compatriotas emigrados, conferências e colóquios e cimeiras e “certames” que convidam ao suicídio precoce e todo um inventário de suplícios desumanos.
Comigo no poder, acabavam-se as excursões para fora do país. Na verdade, acabavam-se igualmente as excursões dentro do país, pela simples razão de que não estou para isso. Conforme se verificou no “teletrabalho” da Covid, as traquitanas modernas, do Zoom ao Teams e ao Meet, permitem que se governe impecável e sazonalmente sem sair de casa, e eu, para cúmulo e desdém do drama habitacional que atinge os jovens, tenho duas e moro em três, pelo que dispenso a residência oficial e as descidas à capital. Convívios directos, somente com os compinchas do costume. Deslocações internacionais, somente os frequentes jantares em Zamora e as rotineiras “road trips” no Sudoeste dos EUA, que pratico há muitos anos e que continuaria a pagar do meu bolso. Prometo, e acreditem que cumpro, nunca beliscar o orçamento de Estado para efeitos de vadiagem abrilhantada a “jet lag”. O salário de PM, sem ajudas de custo, chega-me. E antes que surjam as comparações com o prof. Salazar, que voou uma vez e mal cruzou a fronteira num par de ocasiões, esclareço que: 1) não farei nem um voo a expensas públicas; 2) não tenciono encontrar-me com Franco ou Sánchez. De resto, Salazar conciliava a frugalidade íntima com a aborrecida supressão das liberdades alheias. Eu não sou frugal e não vejo qualquer vantagem na canseira de censurar o que os meus concidadãos pensam, dizem e fazem.
A propósito, sabem o que é que os meus concidadãos podiam fazer? Podiam fazer um partido, nomear-me chefe supremo e vitalício, organizar uma campanha de sucesso, eleger uma maioria esmagadora de deputados com os votos suficientes para eu formar governo com acumulação das cinco pastas sobreviventes – e depois esquecerem que existo. Desde que vocês tratem de tudo, por mim está bem.

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