(sublinhados pessoais)
São os políticos ou somos nós?
O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado. Quem tem interesse em alterar seja o que for?
Há tempos, em conversa com um grupo de amigos, perguntávamo-nos o que raio sucederia a um político que, por alguma razão inexplicável, decidisse tratar os portugueses como adultos responsáveis e livres. E se alguém se submetesse a eleições com um plano de mudanças estruturais, de fortalecimento da sociedade? A conclusão foi unânime: não duraria mais do que um mandato, se o conseguisse concluir, e se chegasse sequer a ganhar a eleição.
Há uma explicação sempre dada para os problemas nacionais: não temos bons governantes. Não discordo da ideia, confesso. Mas essa também é a resposta mais confortável de todas vinda de uma sociedade que não se sente responsável por nada. Mas que incentivos pode ter alguém que decide colocar-se ao dispor do escrutínio público e mediático pugnando por um Estado eficaz e uma sociedade dona do seu próprio destino? O país tem 3,5 milhões de reformados e pensionistas; perto de um milhão de funcionários públicos; mais de um milhão e meio de menores, sem direito de voto; mais de três centenas de milhar de desempregados; uma economia que vive sob a mão poderosa do Estado, dos seus procedimentos e da sua inércia. Quem em Portugal tem efectivo interesse em alterar seja o que for?
Durante décadas, entre regimes de naturezas diferentes, habituámo-nos a exigir do Estado praticamente tudo. Francisco Lucas Pires afirmou, em tempos, que um Estado que promete tudo a todos provavelmente acabará não tendo nada para dar a ninguém. Teve o sucesso eleitoral que se conhece. Queremos melhores escolas, melhores hospitais, melhores estradas, mais cultura, mais segurança, menos impostos, melhores pensões, salários mais elevados, mais apoios sociais, uma Administração Pública que funcione, políticas de entretenimento patrocinadas pelas autarquias, queremos apoiar fundações, institutos, senhorios, inquilinos, bancos, empresas, jornais, televisões, sem que exista um mínimo de debate público sobre prioridades, custos, renúncias. O país pede mudanças, mas nunca sobre a vida de cada um. Queremos eficiência, sem que ninguém perca direitos. Queremos menos despesa, sem que se reduza nenhuma despesa que nos beneficia. Vivemos, por isso, numa teia jurídica complexa, imperceptível, toda feita de excepções e alçapões, de interpretações e mais concreta do que geral e abstracta. O poder político, entre o legislativo e o executivo, convenceu-se mesmo de que tem como missão essencial promover a felicidade de todos, como já tantos responsáveis políticos afirmaram, da esquerda à direita, sem que se pondere sequer que ao Estado compete assegurar os serviços públicos essenciais e que às pessoas compete decidir o que querem que a sua vida seja. Inevitavelmente, com tamanha obsessão com a vida de cada um, o elevador social estagnou: quando se promete tudo a todos, acaba-se, de facto, com nada para ninguém.
Não há dia em que, entre cafés e mesas de comentário televisivo, não se acusem políticos de incompetência ou de falta de coragem, sem que se pondere por uma vez que a coragem política também se mede pelo ambiente em que ela pode ser exercida. Um país que penaliza eleitoralmente quem cria conflitos, quando esses conflitos são necessários, acaba por premiar quem administra a realidade sem a transformar, e talvez seja mesmo por isso que se premeia tantas vezes com o selo de boa governação aquele que acena apenas com a tranquilidade. Por que raio, por exemplo, haveria alguém de afrontar a poderosa máquina dos serviços públicos, onde todos são pagos para não decidir, onde ninguém é responsabilizado por nada, porque, no fim do dia, há sempre um eleito à disposição dos pedidos de demissão? E quando se refere, como se se tratasse de uma inevitabilidade, que há opções políticas que não são tomadas, optando-se por outras menos profícuas mas mais compensadoras do ponto de vista eleitoral, isso diz mais dos eleitos que escolhem esse caminho ou dos eleitores que o validam, caucionam e reforçam?
Os partidos procuram controlar tudo, é certo, mas o que disputam, na verdade, é o direito de ocupar temporariamente o topo de uma máquina que nenhum deles quer, consegue ou se atreve verdadeiramente a transformar, procurando agradar a todos. O país funciona numa espécie de escada circular, em que os eleitos possuem legitimidade formal, mas não têm domínio total da máquina, e os que dominam a máquina, que os partidos querem continuadamente controlar, não respondem perante os cidadãos, ao passo que os cidadãos exigem tudo dos eleitos formais e nada de si próprios. Daqui à política única da comunicação vai o salto de uma pulga. Trata-se, afinal, não de cobardia dos dirigentes partidários ou dos eleitos, mas de mera racionalidade eleitoral. Tal como uma reforma estrutural produz custos imediatos e benefícios tardios, uma política zelosa do que existe de mais básico enquanto serviço prestado pelo Estado produz custos eleitorais imediatos e benefícios nunca sentidos. Como é que se pode falar de futuro num país assim?

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