(sublinhados pessoais)
A guerra que se senta à mesa com bolsa de estudo
Esta guerra não é feita com Kalashnikovs. Entra com bolsas de investigação para cursos como “Intifada Performativa: Acampar no Campus Contra a Civilização”.
Apesar de o Médio Oriente continuar no seu estado habitual de fervura, com mísseis, drones, bombardeamentos, vítimas e comentadores televisivos, nem todas as guerras chegam assim, com estrondo e fumo. Há guerras mais discretas e, por isso mesmo, frequentemente mais perigosas. Entram pelas universidades, pelas fundações, pelos seminários, pelos workshops, pelas bolsas de investigação, pelas tendas iguais em campus “antissionistas” separados por milhares de quilómetros, pelos vídeos lacrimejantes no TikTok e por jovens convencidos de que descobriram sozinhos uma cartilha que alguém lhes enfiou pela garganta abaixo com uma colher de pau ideológica.
A guerra fardada é fácil de reconhecer. Traz capacete, dispara, ocupa terreno, faz mortos e aparece nas televisões. A outra surge de keffiyeh, cinismo humanitário, sotaque de ONG, palavreado hipócrita sobre direitos humanos e indignação selectiva. As sociedades abertas têm este encantador defeito de acreditarem que todos os que usam as suas liberdades o fazem para as preservar. A verdade é que há criaturas sinistras que as usam como escada para subir ao telhado e, lá chegados, retirar a escada aos outros.
António Gramsci percebeu, in illo tempore, que a conquista do poder não começava nos ministérios, mas na cultura. Antes de tomar o Estado, era preciso tomar a escola, a universidade, a imprensa, a literatura, a linguagem, a moral pública, os professores, os artistas, os “intelectuais orgânicos” e, sobretudo, a definição do que passa por respeitável. Obter, no fundo, a hegemonia cultural. Quem controla o vocabulário condiciona o pensamento. Quem condiciona o pensamento prepara a política. Quem prepara a política, manda. O poder mais sólido não é o que obriga as pessoas a obedecer. É o que as convence de que estão a escolher livremente aquilo que o poder pretende.
O que hoje se passa nas democracias liberais é uma guerra cognitiva pela alma das novas gerações. Não se trata apenas de os jovens se inclinarem à esquerda, fenómeno tão antigo como a acne. Trata-se de uma cooptação deliberada de estudantes dos países livres para causas que desprezam os valores que tornaram esses países livres. A liberdade de expressão é usada para justificar a intimidação. Os direitos humanos servem para desculpar terroristas. O antirracismo é convocado para legitimar racismos aceitáveis. A “culpa” ocidental é utilizada para branquear teocracias, ditaduras e movimentos jihadistas. A “justiça social” passou a ser um eufemismo para odiar a propriedade, a família, a identidade, a fronteira, o mercado, o Ocidente e a democracia liberal.
Os sinais não são tranquilizadores. Sondagens recentes nos EUA mostram, entre jovens adultos, simpatias crescentes pelo socialismo, indulgência perante o comunismo, entusiasmo por nacionalizações e níveis de hostilidade a Israel e de preconceito antijudaico que deveriam envergonhar qualquer pessoa que tenha aberto um livro depois de 1945. A amálgama é particularmente visível entre os mais novos e acompanha, noutro plano, a deslocação para a esquerda flotilheira de muitas mulheres jovens, hoje uma das franjas mais permeáveis à moralização radical da política.
A juventude está a ser reeducada para desconfiar das suas instituições antes de as compreender, para denunciar a sua civilização antes de a estudar, para odiar a sua História antes de a aprender, para desprezar a liberdade económica sem saber como nascem a prosperidade, a inovação e a autonomia individual. Muitos jovens sabem gritar “abaixo o capitalismo” em três línguas, mas não sabem explicar o que é, nem por que razão ninguém foge de Miami para Havana numa jangada. Sabem repetir que Israel é “apartheid” mas ignoram que os árabes israelitas votam, têm partidos, juízes, médicos, deputados e direitos que fariam inveja à esmagadora maioria dos cidadãos do Médio Oriente. Sabem acusar o Ocidente de todos os pecados, mas ficam apáticos quando entram em cena a China, o Irão, o Hamas, o Qatar ou qualquer tirania que lhes poupe o desconforto de pensarem.
Não se trata de mera espontaneidade juvenil embrulhada em ignorância. É plano, é método e muito dinheiro em acção. É uma guerra cognitiva.
As universidades norte-americanas e europeias receberam, ao longo das últimas décadas, somas colossais de dinheiro estrangeiro. O Qatar tornou-se um dos grandes financiadores externos do ensino superior ocidental. A China, por vias directas, sinuosas e devidamente perfumadas com linguagem académica, procura moldar narrativas universitárias, mediáticas e militantes.
O caso de Neville Roy Singham, milionário marxista americano, casado com uma fundadora do CodePink (grupo “feminista” de extrema-esquerda, anti-Ocidente e antissemita) e ligado a estruturas do universo comunista chinês, é exemplar: dinheiro capitalista ao serviço de causas anticapitalistas; redes activistas, plataformas mediáticas e organizações sem fins lucrativos a promoverem discursos e eventos antiamericanos, pró-China e anti-Israel.
A indignação espontânea exige planeamento, escritórios, advogados, assessores, salários, produção audiovisual, logística, transporte, comunicação e tendas em quantidades industriais.
Ou seja, o combate ao dinheiro vive de transferências generosas; a voz dos oprimidos chega de viatura e tem equipa de comunicação e guião pormenorizado; os acampamentos pela “Palestina” nos campus americanos foram tão espontâneos como uma coreografia norte-coreana, com as mesmas tendas, os mesmos cartazes, as mesmas palavras de ordem, a mesma indignação encenada, a mesma retórica moralista e a mesma ignorância imunda e grossa.
O Qatar joga este jogo com uma habilidade que merece admiração e o triplo de vigilância. Apresenta-se como mediador, financia universidades ocidentais e grupos terroristas, oferece aviões, acolhe dirigentes do Hamas, conversa com aiatolas, paga flotilhas, compra influência mediática, diplomática e académica, e posa de bombeiro enquanto incendeia o pinhal. É um pequeno Estado com ambições imperiais, muito gás, excelentes relações públicas e uma extraordinária capacidade para adquirir respeitabilidade e empresas no Ocidente, enquanto alimenta tenebrosos objectivos e perigosas ambiguidades.
O objectivo desta guerra não é apenas convencer o estudante impressionável de que Israel errou nisto ou naquilo, de que o capitalismo tem defeitos, de que o Ocidente é culpado cósmico, ou de que os palestinianos merecem compaixão. O objectivo é persuadi-lo de que o Estado judaico é uma aberração moral; que a liberdade económica é violência; que a democracia liberal é opressão; que os terroristas são resistentes; que o Ocidente deve pedir desculpa por existir; que o Hamas tem contexto, o Irão tem razões, a China tem complexidades, mas Israel não deve existir.
As democracias liberais enfrentam aqui um problema complicado. Não se podem defender transformando-se naquilo que combatem. Não podem fechar universidades, censurar opiniões ou proibir debates. Mas também não podem continuar a fingir que tudo isto é apenas efervescência estudantil, ardor juvenil e hormonas aos saltos entre uma aula de Sociologia e uma trip de canábis.
Quem financia deve ser conhecido. Que governos pagam? Que fundações intermedeiam? Que organizações redistribuem? Que professores recebem? Que programas são patrocinados? Que slogans aparecem, com pontualidade prussiana, em campus separados por oceanos? A liberdade académica não vive de opacidade financeira e a democracia não tem obrigação de subsidiar a sua própria intoxicação.
Depois, é preciso recuperar a educação liberal no seu sentido nobre: história, filosofia, economia, literatura, religião, tragédia, prudência, dúvida. Uma juventude que só conhece slogans é presa fácil de qualquer catecismo. Uma geração que nunca leu Orwell acredita em comités da verdade. Uma geração que não conhece Soljenitsin acha o comunismo uma estética vintage. Uma geração que não entende os valores decantados em Atenas, Jerusalém, Roma, Londres e Filadélfia acaba a berrar palavras de ordem concebidas por regimes que a prenderiam ao primeiro protesto.
O Ocidente enfrenta a sua mais estranha batalha. Convencer os próprios filhos de que a civilização que lhes permite insultá-la é preferível às civilizações que os fuzilariam por tentarem imitá-la. Não é tarefa simples, porque a liberdade é menos fotogénica do que a utopia. A democracia exige paciência e negociação. O mercado oferece escolhas, mas o socialismo promete amanhãs que supostamente cantarão. A verdade dá trabalho, obriga a ler e mastigar, ao passo que a propaganda cabe em estribilhos prontos a deglutir e a bolçar no minuto seguinte.
Há quem pense que basta ter razão. Não basta. Nunca bastou. As ideias não vencem por serem verdadeiras. Vencem quando são ensinadas, argumentadas, defendidas e transmitidas. Gramsci sabia-o. Mao também. Os islamistas sabem-no. Os financiadores estrangeiros sabem-no. Só as democracias liberais parecem ter esquecido que a cultura é a primeira linha da frente de combate. Esta guerra não é feita com Kalashnikovs. Entra com bolsas de investigação para cursos como “Intifada Performativa: Acampar no Campus Contra a Civilização”, moralismos de ONG, financiamento obscuro, activistas indignados, seminários sobre justiça global, cartazes recicláveis e coros ovinos de “Free, free Palestine”, debitados por rebanhos ignaros, conduzidos à vara, por gente sinistra que nunca libertou ninguém.
Esta guerra chegou, e já não está às portas da cidade. Está sentada à mesa, instalada no anfiteatro, alojada no currículo, entrincheirada na universidade. E, com uma paciência que só as más ideias possuem, vai educando os nossos filhos contra si mesmos e contra a civilização que lhes dá o luxo de a desprezar.

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