(sublinhados pessoais)
Trump tem toda a razão sobre a Europa
Desligada dos EUA, esta Europa enfraquecida e desorientada tornar-se-ia rapidamente terra para todas as piratarias políticas. Nunca a Europa, desde o pós-guerra, dependeu tanto da América.
Sempre que há uma reunião da NATO, agora é assim. Primeiro, temos as provocações de Trump. Depois, é a vez das oligarquias europeias se contorcerem em chiliques (os EUA abandonaram-nos) e furores (vamos separar-nos). Por fim, toda a gente se reconcilia novamente: os europeus fazem promessas, Trump distribui alguma simpatia. Nada disto parece de levar a sério. Mas é sério. Aliás, não há nada de mais sério neste momento.
Esqueçam por uns minutos as rudezas de Trump. Ele tem razão, como os oligarcas europeus acabam sempre por admitir. Em 1980, o Reino Unido investia 5% do PIB em defesa, e a França, 3,25%. Em 2023, o Reino Unido gastava 2,3% e a França 1,95%. Para Trump, é essa a questão. Mas é só um lado da questão. Porque o desleixo defensivo remete para um facto mais geral. O facto é este: os governos europeus dos últimos trinta anos falharam. Pretenderam prevenir o “capitalismo selvagem”, e criaram uma selva de burocracia e corrupção. Quiseram corrigir as desigualdades, e tornaram os Estados insustentáveis e sufocantes. Procuraram salvar o planeta, e impuseram ao continente a electricidade mais cara do mundo. Hoje, a Europa diverge dos EUA como não acontecia há mais de 50 anos, e está à margem das inovações tecnológicas. Não é Trump que trata mal os governantes europeus: foram eles próprios que tudo fizeram para deixarem de ser levados a sério. A Europa tem hoje uma classe política como as do Terceiro Mundo, detestada pelos cidadãos e desprezada pelos estrangeiros.
Muitos destes erros foram inspirados por um último delírio de grandeza: tratava-se de fazer da Europa, depois ter sido o centro de impérios mundiais, a capital da moralidade no planeta, uma espécie de Vaticano laico. Os oligarcas europeus aspiraram mesmo à legitimidade inerente ao monopólio da virtude. Foi assim que negaram realidades e necessidades. Foi assim que adicionaram problemas. Consentiram no caos migratório para compensar a estagnação económica e demográfica, depois perfilharam o wokismo para calar os debates, e acabaram por comprometer a coesão nacional das suas sociedades. A Europa arrisca-se agora a perder não apenas o futuro, mas o passado.
O mundo mudou. A Europa nunca mais será o que foi. Os erros de muitos anos demorarão a ser corrigidos. Vai ser uma transição difícil. Por isso, qualquer separação dos EUA seria um desastre. Nunca os europeus, desde o pós-guerra, dependeram tanto da América. A Europa precisa dos EUA para tudo. Precisa das suas plataformas da internet, precisa da sua Inteligência Artificial, precisa das suas armas, e precisa dos seus soldados. Precisa, acima de tudo, do que a aliança com os EUA significa e garante: o princípio de que o continente europeu é um espaço civilizacional definido pelo império da lei, o governo representativo, a liberdade de expressão, e a economia de mercado, e a certeza de que essa civilização tem força para se defender dos seus inimigos.
Bem sei, bem sei: basta o presidente ser republicano, para a esquerda americana clamar que os EUA se abismaram no “imperialismo” e noutras malvadezas. Foi assim sob Reagan e Bush. É assim sob Trump. E há na Europa quem goste de partilhar esta demagogia, para imaginar divergências e justificar divórcios. Esqueçam: os europeus não têm meios para se distrair com polémicas americanas. Tomara a Europa, sobrecarregada com a perseguição ao “discurso de ódio”, gozar da liberdade de expressão da América de Trump. Desligada dos EUA, esta Europa enfraquecida e desorientada tornar-se-ia terra para todas as experiências e piratarias políticas. Os europeus não se podem permitir nada, em relação aos EUA, a não ser o mais rigoroso bom senso.

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