(sublinhados pessoais)
O que fará um Putin derrotado?
A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente?
Como sempre, para a maioria dos analistas europeus, a Cimeira da NATO foi sobre Trump. O que diz Trump? As gaffes de Trump? O que faz Trump? Como vai tratar os europeus? O que vai fazer na Gronelândia e no Irão? Mas, há mundo para lá de Trump. Muito mesmo, e convém dar-lhe atenção.
Para quem acha que a política mundial vai para além de Trump, era óbvio que a questão central da Cimeira da NATO seria sempre a Ucrânia. A NATO é uma aliança de defesa para defender os países europeus. A Rússia é a maior ameaça à segurança europeia. Está em guerra, há mais de quatro anos, com outro país europeu. O que raio deveria a NATO discutir? Os humores de Trump? É impressionante como tanta gente só consegue ver Trump e não presta atenção ao que é importante.
A Ucrânia foi a grande vencedora da Cimeira da NATO. Por uma razão muito simples. Zelensky queria produzir misseis Patriot na Ucrânia. Conseguiu que o presidente americano desse autorização para o fabrico dos Patriot em território ucraniano. A Lockheed Martin ainda terá que confirmar, o que é o mais provável, e até poderá abrir uma fábrica na Ucrânia, ou num país vizinho. É uma vitória política indiscutível para Zelensky. O Presidente americano não autorizou o fabrico dos Patriot porque de repente começou a gostar do presidente ucraniano. Trump percebeu que a Ucrânia está a ganhar a guerra; e gosta de vencedores. Mas, sobretudo, vê que a Rússia está a perder. E Trump não gosta de derrotados.
Foi isso que a Cimeira da NATO reconheceu: Putin está a perder a guerra. A Rússia nunca conseguirá conquistar a Ucrânia, o objectivo inicial da guerra. As tropas russas deixaram de avançar no terreno. Mas, pior do que tudo, a guerra deixou de se limitar ao território da Ucrânia. Chegou à Rússia. Os drones ucranianos atacam as maiores cidades russas, incluindo Moscovo, matam militares russos e estão a destruir lentamente a produção de petróleo, agravando a situação económica e social na Rússia.
A população russa deixou de acreditar na propaganda do regime e hoje não entende a razão desta guerra. As mães e as mulheres russas sofrem com a morte dos seus filhos e maridos na frente de guerra. Os homens russos temem uma recruta forçada. E a emigração de russos voltou a aumentar. A “operação militar especial” de Putin transformou-se numa guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Nada mudará o curso da guerra, a não ser que os russos consigam assassinar Zelensky.
Mas uma Rússia derrotada poderá ser mais perigosa do que uma Rússia vencedora. Putin sabe que o reconhecimento da derrota será o seu fim político. Por isso, nunca aceitará a derrota, nem assinará um acordo de paz com Zelensky. A melhor solução seria o afastamento de Putin do poder. Mas não é nada fácil, e não se sabe quem ficaria no seu lugar.
A reação de Putin à sua derrota na Ucrânia constitui hoje o maior risco para a segurança europeia. Irá Putin ensaiar uma fuga para a frente? Se assim for, o que poderá Putin fazer? Tem duas opções. O uso de armas nucleares tácticas contra a Ucrânia, ou um ataque militar contra outro país europeu. Ambos seriam dramáticos para a Europa.
Não podemos ignorar estes riscos. Uma Rússia derrotada e fraca é muito mais perigosa do que uma Rússia vencedora e forte.

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