sábado, 18 de julho de 2026

Observador - Que gente é esta?

 


(sublinhados pessoais)

Que gente é esta?

O caso do ministro Luís Neves revela, no mínimo, uma falta de noção que deveria inibir quem quer que fosse para o exercício de cargos públicos de responsabilidade.

O que se tem dito sobre o caso de Luís Neves é tão óbvio, que é difícil não achar o caso um pouco inexplicável. Como pôde um director da PJ achar boa ideia empregar numa obra particular um empresário com contratos de milhões com a PJ e fazer-se “amigo” dele? Nunca lhe ocorreu que esse tipo de relação entre o dirigente de uma instituição pública e um dos seus fornecedores pudesse suscitar suspeitas de troca de favores? Como pôde um ministro da Administração Interna passear pelos ecrãs a contar histórias que a imprensa pouca dificuldade teve em desmantelar, ao mesmo tempo que se negava majestaticamente a partilhar os únicos documentos capazes de limpar um pouco as nuvens de desconfiança que se acumulavam sobre a sua cabeça? Não percebe que, nestas situações, é fatal parecer que se está a contar mal as coisas ou que se tem algo a esconder?

Ninguém alegou que o ex-director da PJ e agora ministro tivesse cometido alguma ilegalidade ou prejudicado o interesse público. Mas tudo o que já sabemos autoriza a que se discuta, pelo menos, o que o comentário nacional classificou como “informalidade” e “imprudência”. Ora, esta aparente informalidade e esta notória imprudência não são, de um ponto de vista político, menos graves. Porque revelam uma falta de noção que deveria inibir quem quer que fosse para o exercício de cargos públicos de responsabilidade.

A política democrática não tem de ser uma penitência, nem os políticos monges triturados pela consciência pesada de infinitas obrigações. Mas de um político, em democracia, é legítimo esperar algumas coisas. Primeiro, que esteja ciente das limitações que o exercício de cargos públicos impõe à sua vida pessoal, e que seja capaz de compreender o sentido dessas limitações em termos de confiança pública. Segundo, que perceba que não é o único juiz dos seus próprios comportamentos, e que aceite o debate e o escrutínio, e até a curiosidade e alguma desconfiança, como parte da sua carreira política.

Ninguém é obrigado a entrar na vida pública. Quem o faz, deve-o fazer com consciência dos deveres e dos percalços. Tem de estar preparado para toda a atenção, vistoria e discussão. O mínimo que podemos dizer sobre Luís Neves é que não estava preparado. Já muita gente estranhou essa situação. É de facto extremamente bizarro. Luís Neves foi director da PJ durante vários anos. Deve ter visto, ouvido e lido tudo o que há para ver, ouvir e ler neste país. Um homem que passou por isso não pode permanecer inexperiente ou ingénuo. Como é que se dispôs a entrar na política com uns rabos de palha tão crassos, tão básicos, tão inexplicáveis? Reparem: não é a sua honestidade que agora está em causa. Mas é algo igualmente sério para um político: o seu bom senso, ou até, se preferirem, o seu instinto de sobrevivência.

O caso, de tão estranho, obriga-nos a deixar a pessoa de Luís Neves, e a passar a questionar o meio em que isto foi possível. Que se passa com o que poderemos chamar a “classe dirigente” portuguesa, isto é, com os políticos e os altos funcionários do Estado, entre os quais os governantes são frequentemente recrutados em Portugal, como no caso de Luís Neves? Haverá por ali demasiada gente com o sentimento de impunidade de uma casta superior, e por isso desleixada em relação a regras e a cuidados elementares? Ou certos aproveitamentos pessoais tornaram-se tão comuns, tão banais, e por isso tão insignificantes para quem os pratica, que já não passa pela cabeça de ninguém, mesmo dos mais probos e cautelosos, coibir-se ou precaver-se? Tudo é possível, quando vemos que Luís Neves é possível.

Obrigam-nos, como noutros casos, a fazer uma pergunta inquietante: que políticos são estes, como Luís Neves, que caem nestas embrulhadas?

Donde vem essa falta de noção? Quem é esta gente? É gente que vive na ilusão de que é a única juíza dos seus próprios comportamentos, e que qualquer dúvida a seu respeito é inaceitável? Teríamos assim uma espécie de casta superior, indisponível para atender aos murmúrios da plebe.

É gente indisponível para admitir que o poder implica sacrifícios e limitações pessoais, e a quem, pelo contrário, só motivam os benefícios e as vantagens? Teríamos uma espécie de Ou, finalmente, é

Mas uma democracia não funciona bem sem um certo tipo de políticos: políticos para quem o escrutínio e o debate são naturais, e não um insulto a suas altezas; políticos e sobretudo políticos que procuram na vida pública o tipo certo de satisfação, que não é a dos 15 minutos de fama ou o das mordomias, mas a de ser decisivo e útil no momento certo. Já todos percebemos que Luís Neves não é um destes políticos.

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