quinta-feira, 30 de julho de 2026

Observador - Como é barulhenta a felicidade em 2026 (Alexandre Borges)

 



(sublinhados pessoais)


Como é barulhenta a felicidade em 2026

Já não sabemos estar no silêncio. Não conseguimos ser. Ouve-se demasiado o nosso vazio. Fica demasiado espaço para o pensamento.

Duas pessoas, num sábado à tarde, procuravam uma esplanada tranquila para conversar. Conhecendo o tempo e o movo, não se lançaram tresloucadamente à aventura; fizeram planos prévios, estudos, cálculos: vamos a esta, que fica num jardim pouco conhecido nas traseiras de uma biblioteca – deve estar calma. Mas, à chegada, o terror: o jardim tinha sido cedido para uma festa dita de folclore colombiano, com reggaeton a níveis transatlânticos de decibéis, grelhas a expelirem fumo e cheiro a bifana por três quarteirões, barraquinhas disto e daquilo, o povo espalhado pela relva a beber imperiais em copos de plástico, fazendo tempo para o concerto que os instrumentos já montados num palco, por ora, abandonado, denunciavam.

Plano b): aquele outro jardim discreto, atrás dum cinema, de que nunca ninguém se lembra. Nem sinal de folclore colombiano ou baile funk; só um arraial montado para uma festa de crianças, ainda ou já sem crianças, com fitas coloridas e música alegadamente infantil em volume capaz de produzir lesões irreversíveis no tímpano do misantropo.

Avança o plano de emergência: o improviso. Ronda pela cidade, às escondidas, fingindo desinteresse nas esplanadas, até avistar por fim uma sem sinais de festa, fitas, balões, palcos, grelhas ou barracas. Um oásis. Pedem dois cafés – não; um latte e uma cerveja, que esta corrida pela cidade numa tarde de Verão deixa marcas. Sentam-se, enfim. E eis que, duma mesa do canto, dois putos começam a botar hip-hop dos telemóveis. E atrás, uma velhota decide que também vai ver a telenovela no dela, como se estivesse em casa, e não a 30 centímetros da cabeça de outro ser humano.

Já não sabemos estar no silêncio. Não conseguimos ser. Ouve-se demasiado o nosso vazio. Fica demasiado espaço para o pensamento – e sabemos como o pensamento pode ser intrometido. Por todo o lado, e indiferentemente das gerações, consideramos o ruído um direito elementar. Impomos o nosso barulho ao outro como se ele fosse constitucionalmente obrigado a aguentá-lo – de preferência, sem se queixar.

Antes da pandemia, se alguém se punha a ver vídeos em alta voz no telemóvel, ainda se conseguia perguntar se não tinha fones (a palavra “auscultadores” desapareceu do léxico comum, o que, em si mesmo, é sintomático). Desafie-se hoje quem quiser a tentar fazê-lo numa esplanada ou transporte público; seria como tentar parar o vento com as mãos. Há uns tempos, o escriba, que tentava ler algumas páginas de um livro no “food court” de um centro comercial posicionado como chic, perguntou educadamente a um indivíduo que lá estava a usar o telemóvel como uma televisão-bebé e o mundo como a sua sala de estar, se não teria uns exemplares dos ditos fones. O fulano desligou e levantou-se de pronto, garantindo que já estava de saída, para depois atirar, quando já se apresentava a distância confortável, se por acaso não teríamos casa para ler, se tínhamos de ir ler para ali.

Sim. Sabemos dos grandes incómodos causados pelo acto da leitura em público. Imaginem que pega. Que alguma criança vê.

Há uma directiva europeia que proíbe que se faça barulho com o telemóvel nos transportes públicos e estipula multas para quem o faça; durou 10 anos a ser transposta para a lei portuguesa e posta em vigor. Por toda a parte, gente de todas as tribos faz videochamadas ou telefonemas em alta voz, ouve e grava áudios de WhatsApp como se falasse a um walkie-talkie dos anos 80, impõe a coluna bluetooth na praia ou no parque ao congénere incauto que tenha saído de casa sem fones com bloqueador de ruído, sem ao menos aquela lata provocadora do bimbo que, antigamente, carregava ao ombro o tijolo das cassetes.

Serve de pouco ter o nosso próprio telemóvel no silêncio quando, em volta, metade do mundo não se importa de ser interrompida de 10 em 10 segundos pelo plim ou zumbido de mais um email, mais uma mensagem de WhatsApp, mais uma parte duma parte duma parte duma mensagem de WhatsApp, uma notificação do Instagram, outra do Facebook, uma do Tik Tok e mais umas da Uber, da Glovo, da Bolt, da agenda, do jogo, do banco, do MB Way e da dating app. Somos milhões a receber e mandar milhões de mensagens, mais os biliões de mensagens automaticamente enviadas por bots. O mundo é uma notificação. Ininterrupta.

Até há poucos anos, era fácil chamar a polícia para pôr fim ao ruído do vizinho que se aventurava numa obra ao domingo – experimente agora. Os donos costumavam ficar embaraçados perante a insistência dos cães em ladrar a estranhos – experimente agora. São os próprios serviços públicos a dar o exemplo com recolhas do lixo à uma ou duas da manhã, a que, no caso de Lisboa, se acrescenta uma sirene insuportável quando os camiões se deslocam vagarosamente em marcha-atrás nas ruas sem saída.

Mas nada fala tanto desta psicose generalizada como a praia. Numa sociedade que reduziu a ideia do paraíso a um areal ao sol, a música é a materialização fabricada da alegria. A música de praia, especificamente – seja lá o que isso for – de preferência, em volume capaz de comunicar com o radar de uma baleia a quilómetros da costa. Onde haja um pouco de água e um guarda-sol, o bar de apoio emite música para o mundo como se tudo fosse só mais um tórrido dia nas Caraíbas. Mesmo que, na verdade, seja a praia fluvial de Tabuaço, a albufeira do Alqueva, uma enseada de calhau, em mais um dia nublado nos Açores. Há sempre uma festa ao pôr-do-sol chamada sunset. Mas o sunset matou o pôr-do-sol. É quase impossível viver um em silêncio. Não estar radiante sem reggaeton.

Havia uma funcionária na biblioteca da escola a quem chamávamos Chaleira por passar o tempo a mandar-nos calar com os mais longos “schius” da história. Nunca soubemos o nome dela. Creio que nunca lhe ouvimos uma palavra, sequer, para lá daquela onomatopeia. Nunca pensei um dia ter saudades da Chaleira. Espero que se fale baixinho, onde quer que esteja.


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