sábado, 3 de janeiro de 2026

The Spectator - Let the Beatles be

 

(personal underlines)


Let the Beatles be

The latest ‘new’ releases are scraping the barrel

Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon and George Harrison in 1963 [Getty]

Like most freelance writers, I have a notepad full of jottings which come under the loose category of ‘Ideas I Probably Won’t Get Round To Doing As I Doubt Anyone Will Be Interested, They’re A Bit Rubbish Anyway And It Probably Wouldn’t Pay Much’. Around halfway down this list is a book provisionally entitled A Hard Day’s Fight, in which I espouse my opinions on a plethora of Beatles-related debates, and add a few new ones of my own.

So along with my theories that John Lennon didn’t write any good music while he was resident in New York (the Plastic Ono Band and Imagine albums were recorded in the UK, and Double Fantasy was written in Bermuda), and that Beatles For Sale should have been an EP (everything other than ‘No Reply’, ‘I’m A Loser’, ‘I’ll Follow The Sun’ and ‘Eight Days A Week’ is utterly dispensable), I now feel I must add another bromide should times ever get lean enough that I am forced to hawk this half-baked idea around music publishers.

It goes as follows. With the newly released Disney-polished reboot of the 1995 The Beatles Anthology documentary series and the accompanying fourth volume of ‘new’ music for the Anthology Collection album series, we have reached a point where some kind of moratorium on the Fab Four should commence.

The sound of a barrel being scraped would probably have pleased Lennon if he had thought to include it on one of his late 1960s experimental albums with Yoko Ono. But it’s a grating cacophony to listeners today, who it seems are being inveigled to buy some pretty shoddy product – Apple Records I’m sure knowing full well that there are myriad Fab fans of a certain vintage who simply ‘have’ to buy whatever is released for their collections, no matter how flimsy the contents.

I grew up on the outskirts of Liverpool, so am well aware that the city the band were born in has a different relationship with the group to the rest of the world. It’s a dynamic that surprises many outsiders for its lack of deferent gratitude and genuflection. In our late teens and early twenties, my mates and I scoffed at the ersatz Cavern Club (the original was demolished to make way for a ventilation shaft that was never built) and, knowing we could score a free pint off an emotionally overcome Norwegian tourist, we would blag a drink before rolling our eyes at Paul McCartney’s mullet hairdo and references to ‘herbal jazz cigarettes’. How stupid we were. But this latest batch of value-free Beatles releases will do nothing other than to engender, further afield, the same kind of non-sycophancy towards ‘the lads’ that has been present on Merseyside since about 1964, the year they moved out.  

On Spotify, there’s a playlist that has brought together every single piece of music that was ever professionally recorded in a studio by the group. Including all the expanded re-issues of the studio albums, the BBC live records and the endless Anthologies, there is now close to 40 hours of ‘official’ Beatles music – an astonishing oeuvre given that the group were only recording for seven years. Isn’t that enough?

OK, so I’m well aware that, although I now consider myself a huge Beatles fan, I am ludicrously lightweight compared with the obsessives who really do spend lifetimes trying to figure out exactly what George Harrison had for lunch before he recorded ‘Savoy Truffle’. These same fans are currently having web forum meltdowns about the 13-years-and-counting wait for the second volume of Mark Lewisohn’s proposed three-part biography of the group – a work which makes Robert Caro’s Lyndon B. Johnson project look like a haiku in comparison. If you still aren’t aware of the first volume, released in 2013, the ‘expanded’ version of it runs to 1,500 pages and only takes the story up to the release of ‘Love Me Do’. 

So maybe Macca and Ringo Starr are only intending this ‘new’ output to be for the obsessional elements? If so then the move has backfired; the reaction of the Beatles hardcore to the release of the fourth Anthology album has been hostile in the main. It mostly consists of tracks that have already been released, while none of the 13 ‘unearthed’ recordings not officially released before add anything to the building-block story of each song’s creation.  

More than five decades on from the Beatles’ break-up, it’s time to leave the group alone and enjoy what we havewhich is an absolutely colossal body of work. It would also be nice if they left us alone too, barring the discovery of anything genuinely groundbreaking such as a recording of ‘lost’ bassist Stuart Sutcliffe or some colour film footage of them on stage in Hamburg.

What the ‘new’ Anthology tells us is that there is absolutely nothing of any real value left in the studio vaults. And although there will always be a few lickspittles vying for the release of ‘Carnival Of Light’, the holy grail of unreleased Beatles recordings (which, according to the few that have heard it, is a tune-free dirge along the lines of ‘Revolution 9’), the saner fans among us are right to feel irritated by yet more cynical repackaging of, well, not very much at all. Sorry, George, but it’s wallets, not guitars that are gently weeping at this latest outburst of lavishly designed, content-free Fab-crumbs.

Reflexão - O suicídio assistido da democracia e o silêncio dos cúmplices (Alberto Veronesi)

 (sublinhados pessoais) "Estranho, muito estranho..."

O suicídio assistido da democracia e o silêncio dos cúmplices

Temos um sistema fiscal que funciona como uma máquina de triturar a classe média transparente, enquanto serve de guarda-costas a uma elite que domina a arte do ocultismo contabilístico.

É absolutamente incompreensível e roça o delírio coletivo que a classe política continue a assobiar para o lado perante o elefante que ocupa a sala de estar da democracia portuguesa, pois não existe um único deputado ou governante que desconheça a fraude a céu aberto que se passeia nas nossas estradas e vive nos nossos bairros. Mas escolhem o silêncio como estratégia de sobrevivência. O retrato que a Pordata nos devolve é o de uma nação esquizofrénica que decidiu institucionalizar a mentira como método de gestão económica e social ao criar um sistema fiscal que funciona como uma máquina de triturar a classe média transparente, enquanto serve de guarda-costas a uma elite que domina a arte do ocultismo contabilístico.

A perversidade começa na própria estrutura do trabalho e do conhecimento uma vez que criámos um paradoxo europeu único onde quem sabe mais obedece a quem sabe menos, e temos hoje uma força laboral onde mais de um terço dos trabalhadores possui ensino superior e injeta no mercado uma sofisticação técnica que o tecido empresarial é incapaz de absorver. O drama reside no facto de que 42%  dos nossos patrões possuem apenas o ensino básico ou nem isso e constituem o pior registo de toda a União Europeia neste indicador pois esta classe empresarial impreparada não inova nem acrescenta valor e limita-se muitas vezes a gerir a escassez através de baixos salários e de uma engenharia fiscal primária que confunde a caixa da empresa com a carteira pessoal.

O que me deixa num estado de incredulidade permanente é perceber que nenhum político com responsabilidades tem a coragem de quebrar o tabu e apontar o dedo a esta ferida purulenta que todos veem mas fingem ignorar. Todos nós sem exceção já sentimos o estômago revirar ao cruzarmo-nos com a obscenidade de viaturas de alta cilindrada estacionadas à porta de habitação social cujos proprietários declaram rendimentos de miséria e vivem à custa da solidariedade alheia enquanto conduzem carros que valem tanto ou mais do que a casa que o Estado lhes ofereceu. Esta imagem não é uma lenda urbana nem um exagero populista, mas sim a materialização física da injustiça fiscal que permite que alguém usufrua de bens de luxo registados em nome de empresas ou de terceiros enquanto o trabalhador honesto paga a fatura da festa.

O sistema de apoios sociais olha para este indivíduo, com sinais exteriores de riqueza, e vê um pobre estatístico que merece ajuda e olha para o funcionário público ou para o técnico qualificado e vê um rico relativo que deve ser esmifrado até ao tutano. A comparação com a transparência nórdica torna-se dolorosa quando olhamos para o chamado dia da inveja na Finlândia onde os rendimentos de todos são públicos e por cá a opacidade é venerada como um direito fundamental porque permite manter a ficção de que somos um país de pobres gerido por outros pobres. As leis sobre sinais exteriores de riqueza são desenhadas com tantas garantias de defesa e tantas exceções que se tornam inaplicáveis na prática para a grande maioria dos casos de abuso pois o Estado prefere caçar o pequeno erro na declaração de quem ganha mil euros do que desmontar a teia de quem esconde milhões.

Manter esta impunidade dê por onde der é um ato de negligência criminosa que está a empurrar o eleitorado para os braços de quem não tem medo de dizer o óbvio. É uma escolha consciente dos partidos do sistema entregar o monopólio da verdade visível a forças políticas que crescem à custa deste ressentimento justificado pois quando o cidadão percebe que a moderação é cúmplice da batota ele vira-se inevitavelmente para o radicalismo. O povo não é cego e percebe perfeitamente que o contrato social foi rasgado e que a lei não é igual para todos mas sim uma sugestão que varia consoante a capacidade de contratar consultoria jurídica e esconder património.

O resultado final deste teatro de sombras é um país bloqueado onde a inovação é travada por uma gestão arcaica e onde a mobilidade social é assassinada por um sistema fiscal cego que pune o mérito e premeia a esperteza saloia. Enquanto a política não tiver a coragem suicida de assumir que o rendimento declarado em sede de IRS é uma ficção literária e não uma medida de riqueza continuaremos a assistir a este baile de máscaras onde os honestos pagam a entrada e os espertos bebem o champanhe. A consequência não será apenas a estagnação económica descrita nos gráficos estatísticos mas o fim da própria autoridade moral do Estado que ao recusar-se a ver o que está diante dos seus olhos acaba por legitimar a revolta de quem já não aguenta ser o único a cumprir as regras.

Reflexão (Política) - Portugal no seu melhor (LBC-Presidenciais e os debates de Ventura)



"A oeste - aliás, nas televisões, orgãos de comunicação social, merdeios de comunicação e afins - nada de novo"...

Se por um lado se incensa - devagarinho -, o "homem das vacinas", ou seja, o almirante, se amorna e empurra o MM, por outro ergue-se o "charmoso" Cotrim e - eis se não quando -, se começa a "reconhecer", episodicamente, o Ventura. Até já ganha debates quando antes, os mesmos comentadeiros, diziam o contrário... 

Mas os "pseudo-intelectuais" e "proto eleitos da sociedade", "proxenetas da informação" julgam que é tudo carneirada??





Com franqueza, não havia uma foto melhor??



Mais uma derrota, desta vez com Marques Mendes. Dizem que "por décimas". Está a evoluir...


Contra a Catarina, - independentemente de não ter parti pris por ela... -, e como não é uma "elegível", já se pode premiar o Ventura e menorizar a rapariga! Que cambada que nos rodeia!




A hipocrisia que grassa nos nossos media é confrangedora. Há uns anos, o Ventura "perdia" os debates todos. Agora já ganha alguns. Mas estes cretinos da comunicação social, que objetivamente não tiveram cabeça para mais (...),  não percebem que há gente que pensa pela própria cabeça??
Não vêem que entra pelos olhos dentro esta parcialidade? Então o Ventura vence os debates com quem "não interessa" - como Catarina Martins, Jorge Pinto e António Filipe - , e perde os debates com os "elegíveis"? A malta não se enxerga?












quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Reflexão - #NoTempoDasSanjo (Torres da Costa)

Luiz Carvalho
26 m


Bela maneira de se iniciar um ano: na história (grande liceu!), na prosa (bem escrita) e no seu sentido (algo que vai rareando). Parabéns caro dr. Torres da Costa. Obrigado por estes momentos. Luiz Boavida Carvalho 


#NoTempoDasSanjo

As memórias profundas têm desses mistérios, marcam-nos, moldam-nos, sem que saibamos exatamente onde habitam. São verdadeiros “imprints” da personalidade.

Esta história, com palco no Liceu Camões, remonta algures aos anos 60. Foi-me contada por um dos seus protagonistas, a quem chamarei GP. Resgato-a da memória e registo-a aqui como testemunho de um tempo que se vai perdendo e que, como quase sempre, se dilui por entre um turbilhão de incerteza.

Dizia-se à época e eventualmente com justificação, que o Liceu Camões era um dos mais emblemáticos estabelecimentos de ensino do país. Por ali passaram gerações inteiras e alguns reconhecerão, senão os contornos desta história, pelo menos a atmosfera densa e viva que impregnava aquele espaço.

Para a miudagem que despertava para a adolescência, aqueles corredores e salas eram muito mais do que um formal lugar de aprendizagem. Era o torno do oleiro. Era ali que se lançava o barro ainda mole do devir e, no convívio diário, nas pequenas rivalidades e camaradagem genuína recorrentemente temperada por travessuras próprias da idade, aquele local era como a banca do artífice onde o carácter se definia e ganhava consistência. Era ali que o intelecto despertava, que a personalidade ganhava contornos e os princípios, ainda frágeis, começavam a tomar forma. Por entre brincadeiras e cumplicidades ia-se adquirindo a solidez necessária para o futuro e tudo quanto mais lhes reservaria o porvir.

O Liceu Camões tinha fama de forjar personalidades fortes de homens e mulheres (estas, após 1975) que viriam mais tarde a ocupar lugares de relevo na sociedade portuguesa. Não é fácil discernir se tal abundância se devia à excelência do ensino, à exigência dos mestres, à austeridade ou à qualidade da matéria-prima que alimentava aquelas sucessivas fornadas. Talvez fosse a soma de tudo isso! O certo é que nomes como Marcello Caetano, Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, José Saramago, Baptista-Bastos, Luísa Costa Gomes, Miguel Sousa Tavares, Vasco Pulido Valente ou José Cutileiro, entre demasiados outros, são testemunho e registo de um tempo em que a escola pública era, e pasmem-se muitos, uma “olaria” do mérito.

Hoje, a comparação só parece possível com algumas instituições privadas, acessíveis apenas àqueles a que a vida foi particularmente generosa. Locais onde o “mérito” pode ser adquirido como uma panaceia de um qualquer boticário. Criámos escolas para elites protegidas, viveiros cuidadosamente vedados onde crescem jovens que raramente chegam a perceber que a bonança não se distribui de forma equitativa, nem responde pelos méritos que gostam de atribuir a si próprios. Nos seus pequenos universos, o sucesso parece natural, quase hereditário, desligado do esforço, da carência ou da circunstância. Alimentamos nas novas gerações fornadas encimadas por sonhos cor-de-rosa, discursos polidos e unicórnios conceptuais, onde o conflito é evitado, a fricção social suavizada e a realidade frequentemente substituída por narrativas fluidas e reconfortantes. Formamos líderes fracos e incompetentes, forjados na abundância, no aparente paradoxo de uma escolha excessiva e na liquidez dos valores. Muitos deles, dos por ali criados, talvez já tenham alcançado os corredores do poder e daí governem com políticas de conveniência, de grupo, embaladas por um politicamente correto e por um “wishful thinking” elegante, mas cada vez mais distante do povo real, aquele que tropeça, que falha, que luta, e que aprendeu a crescer em escolas públicas onde o mundo não existe almofadado nem protegido por filtros ideológicos.

Entre essa distância crescente e a realidade vivida por quem ali se formou, instalou-se um fosso silencioso, onde se perdeu a empatia, o sentido de comunidade e, tantas vezes, os mínimos necessários à responsabilidade coletiva. Mas regressemos ao nosso protagonista, ao meu bom amigo, GP e à sua singela narrativa.

Tudo decorreu numa tarde luminosa, quente, dessas que já cheiram a outono mesmo quando o verão ainda resiste. Havia um “furo” no horário, um intervalo precioso em que o tempo parecia suspender-se e que GP e os seus amigos ocupavam como só a juventude sabe. E por entre risos soltos, corridas sem destino e pontapés na bola que esporadicamente, ora encontravam o ar, ora as canelas alheias, lá iam dando largas aos anos de meninice. Porém, e talvez mais importante, no meio daquele burburinho, havia algo de essencial que se estava a formar. Era ali, mais por entre aquele alegre caos que nas enfadonhas aulas de humanidades ou ciências, onde aprendiam a ser gente.

No fim desse intervalo, no meio das correrias e extenuados pela gritaria e cansaço, respeitaram o toque de chamada para a aula e lá foram entrando como de costume, sem que conseguissem desligar da brincadeira e tomassem uma postura “bem-comportada”. Enquanto os ânimos não serenavam e o “velho professor de ciências” não assomava, a agitação lá ia continuando.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Nesses momentos, a sala era a extensão possível do pátio. As carteiras rangiam sob o peso dos corpos ainda inquietos, algumas deslocavam-se do alinhamento rigoroso que a ordem exigia, e muitas delas deixavam para memória futura mensagens gravadas à ponta de canivete.

O ar estava carregado de respirações aceleradas e de gargalhadas soltas, misturadas com o cheiro da juventude, do giz esquecido no quadro e de uma liberdade que ainda não tivera tempo de se dissipar. Com os corpos ainda quentes de excitação, entre murmúrios cúmplices, risos mal contidos e zombarias trocadas sem grande malícia, ensaiavam-se provocações, imitações exageradas e desafios silenciosos, enquanto alguém, e havia sempre alguém, assumia o papel não declarado, mas indispensável de manter viva a chama da algazarra. Havia bolas de papel lançadas com pontaria estudada, livros usados como escudos improvisados e comentários mordazes que percorriam a sala como estilhaços de riso. As gargalhadas, por vezes, explodiam sem aviso e denunciavam o autor que logo se tornava alvo de troça. Um ou outro tentava impor uma compostura fingida, ensaiando uma atitude afinada, mas bastava um olhar atravessado, um gesto caricatural ou uma careta fora de tempo para tudo regressar ao limiar de uma desordem feliz. Era aquele instante breve e irrepetível em que a autoridade ainda não se tinha materializado e uma sala entregue a si própria revelava o verdadeiro currículo oculto da escola – aprender a rir de si e dos outros, medir limites, reconhecer lideranças e perceber que a liberdade tem sempre um preço.

E no meio daquela felicidade suprema tudo era permitido. Havia entre eles uma espécie de concurso de audácia, irreverência e coragem frente a uma autoridade temida e que se adivinhava. Assim, por entre tantas provas de valentia, Carlos, uma criança habitualmente pacata e bem-comportada, incomodado que estava por ser alvo da brincadeira – hoje chamar-lhe-iam de “bullying” – arremessou uma sapatilha tentando atingir um colega mais à frente. Porém, e o acaso tem destas coisas, esta acabou por aterrar junto à porta da sala no preciso momento em que o professor Serafim entrava.

De imediato se fez silêncio e todos de forma mais ou menos apressada tentaram recuperar-se na compostura.

Enquanto vinha no corredor, o professor de ciências naturais, já imaginava o que se passava e preparava-se para lhes dar um “ralhete”. O que não esperava era por pouco ser atingido por uma sapatilha que voava vinda sabe-se lá de onde. Surpreso e irritado com o desplante, olhou-os a todos, um por um, esperando ver na cara de algum o culpado e foco da sua ira.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Mas nenhum aluno se “descoseu”. Vestiam todos de igual palidez e em todos havia um fácies de “olhos arregalados” como quem espera o pior – algo próximo do fim do mundo!

Foi então que o “velho” professor resolveu mudar de estratégia. Acalmou-se, colocou a “sapatilha” em cima da secretária e, olhando-a com a gula de quem deixa o melhor para o fim, começou a aula desse dia que era sobre o corpo humano.

O professor Serafim não nascera no lado fácil das coisas. Cedo a vida tratara de lhe ensinar que o conhecimento raramente cresce em terreno fértil e que a disciplina, quando não temperada pela compreensão, transforma-se apenas em medo. Serafim viera de uma família modesta, marcada por ausências e crescera à luz de economias apertadas e responsabilidades precoces. A juventude não lhe foi generosa. Conhecera cedo a perda de afetos de familiares próximos, de oportunidades, e de uma certa leveza da juventude de que nunca recuperaria por inteiro. Casara jovem, talvez cedo demais, e carregava consigo o peso silencioso de um lar onde as dificuldades financeiras e as preocupações quotidianas se sentavam à mesa com a mesma regularidade que o pão. Ainda assim, nunca permitiu que essas sombras atravessassem o limiar da sala de aula como queixa ou desculpa.

E fora no ensino que encontrara a motivação para acreditar e começar de novo. Na sala de aula, encontrara não apenas uma profissão, mas uma forma de superação e passagem de testemunho para que outros pudessem contornar as dificuldades que sentira. O professor Serafim ensinava Ciências Naturais com um rigor quase austero, exigindo atenção, método e respeito pelo conhecimento. Mas por detrás da voz firme e do olhar atento havia a convicção de em cada aluno, mesmo o mais irrequieto ou aparentemente distraído, poder existir uma possibilidade que merecia ser desvendada. Não tolerava a preguiça nem a insolência gratuita, mas tinha especial cuidado com os silenciosos, com os que erravam por medo ou por excesso de vida. Era severo na forma e justo nas decisões. Preferia a lição à punição fácil, ou a explicação ao castigo humilhante. Muitos só compreenderiam mais tarde, quando a fita do tempo era revisitada, que aquela exigência, tantas vezes confundida com dureza, funcionava como a “olaria” do carácter e era com respeito que por todos seria recordado. O professor Serafim acreditava que ensinar era preparar para o mundo real, um lugar onde ninguém reduz a exigência por piedade, mas onde a dignidade humana não pode nem deve ser negociada. Talvez por isso, apesar das rugas precoces e do cansaço que lhe marcava o rosto, havia nele uma bondade discreta, quase invisível. Um fundo humano que se revelava em pequenos gestos, no olhar que evitava a humilhação pública, na palavra dita a sós e numa segunda oportunidade concedida sem alarde. Não queria ser amado, mas queria ser recordado como justo e eficaz.

A aula decorreu sem grande sobressalto. O tema era sobre o funcionamento de órgãos nobres como coração, pulmões e outras vísceras escondidas na cavidade abdominal. Tudo foi dito com a suavidade e a ênfase com que o deveria ser, mas sentia-se uma calma pouco usual. Era como se houvesse um incómodo, algo por resolver. Era como se todos sentissem – “uma pedra no sapato”!

De tempos a tempos, ia deitando um olhar de soslaio para a sapatilha em cima da secretária e pensava – como iria “descalçar aquela bota”? Se fosse ríspido e intransigente, iria castigar alguém por um delito menor, um daqueles que ficaria melhor se distribuído por todos, se ignorasse o sucedido, por certo perderia autoridade. Estava o professor Serafim neste dilema quando mal adivinhava que o rumo dos acontecimentos acabaria por vir em seu auxílio.

Quando o toque de saída soou, foi como se o gongo da verdade os tivesse acordado de um falso torpor. Com a saída, o segredo ia definitivamente ser revelado e, no Carlos, cairiam consequências que eram responsabilidade de todos.

Foi então que o professor Serafim teve uma surpresa e nela uma lição que recordaria para toda a vida. Os alunos à medida que iam saindo, iam todos descalços, tornando-se impossível saber a quem pertencia a sapatilha em cima da secretária.

Um a um todos foram passando pelo mestre que se ia despedindo, reconhecendo que, mais importante que as matérias do dia, era a nobreza de um simples gesto que, por não ter sido combinado, era por isso um sentimento de grupo, uma cumplicidade que não estava ao alcance de muitos.

Não era que o professor Serafim não soubesse a quem pertencia a sapatilha. Há muito que já tinha reparado que o Carlos, esse menino doce e pacato, tinha um pé descalço. Mas foi tocado por aquele gesto de camaradagem. Quando o último aluno saiu, ele próprio saiu da sala, fechando a porta atrás de passos pesados e a leveza de quem sabe ter agido com equilíbrio e justiça. A sapatilha, essa “Sanjo” desses míticos anos 60, essa ficou em cima da secretária, para que pudesse regressar ao dono pelo seu “pé”, na certeza de que depois desse dia todos estariam melhor preparados para seguir por caminhos seguros.

A GP, esta singela história deve-o ter marcado de tal forma que me a contou passadas décadas sem que nada em particular a tivesse convocado. Foi uma recordação que se lhe assomou na memória. As memórias profundas têm desses mistérios, marcam-nos, moldam-nos, sem que saibamos exatamente onde habitam. São verdadeiros “imprints” da personalidade. GP bem poderia ter sido o Carlos, ou o primeiro a protegê-lo descalçando-se muito antes de qualquer outro. Podia, e não tenho a certeza de que o não tenha sido. Agora que o conheço, agora que lhe conheço esta história, sei que não poderia ser de outra forma. GP, para além de amigo, é alguém de carácter íntegro, movido por uma ética silenciosa e firme, alguém que não se anuncia nem procura aplauso. É um homem de gestos e com o dom da palavra. Alguém atento a tudo e a todos, incapaz de prosperar à custa da humilhação e sempre inclinado para o lado certo das coisas, mesmo quando esse seja o lado mais difícil. É alguém que aprendeu cedo que a verdadeira nobreza nunca se exibe e que a justiça, a autêntica, acontece sempre em silêncio. Assim é GP, um amigo feito de um barro moldado no tempo em que as “Sanjo® eram Sanjo”.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Reflexão - LBC sobre José Mourinho (Benfica)

Mas a malta não se enxerga? Ou esta é a forma como este ser "superior" e com uma larga experiência (...) atrás de si, fala com a nossa comunicação social? Ninguém acha estranha esta forma de o Mourinho estar, sempre a criticar, a enviar recados, a levantar suspeitas? Que cambada!

Um muro! Cuidado com o muro...Um muro!? Não o está a ver?...

(Ah, ok, está a preparar-se para "dar o salto"? Sobre o muro, claro, como sempre esteve...)




 


Livro - Charlie Brown

 


Livros lidos em 2025

Livros e publicações lidas em 2025

O nuclear, de Cédric Lewandovski

Os diários de viagem, de Albert Einstein de Ze'ev Rosenkranz

Assinado "Olrik"

A tirania da minoria de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt

O capitalismo não é o problema, é a solução, de Rainer Zitelmann

Crítica XXI (nº2)

Crítica XXI (nº3)

Quando os bobos uivam (Onésimo Teotónio Almeida)

Hereges de K. G. Chesterton

Crítica XXI (nº4)

Como se ergue um Estado (Salazar)

Confidências no exílio (Joaquim Veríssimo Serrão)

A porta de marfim, de Maria Helena Prieto

Crítica XXI (nº8)

Marcello Caetano, Um destino de Luis Menezes Leitão

Porque perdemos a guerra, de Manuel Pereira Crespo

Nexus, de Yuval Noah Harari

Os diários de Ronald Reagan

Mousinho de Albuquerque, de Eduardo de Noronha

Cartas entre Marcello Caetano e Lopez Rodo

Aparição, de Virgílio Ferreira

Galileu em Pádua, de Alessandro de Angelis 

Ensaios, de Adriano Moreira

A revolução antes da Revolução, de Luis de Freitas Branco

A exposição do mundo Português, de Augusto Castro

Adam Smith tinha razão, de Rainer Zitelmann

Português sem filtro, de Onésimo Teotónio Almeida

Como perder amigos rapidamente,  de David Marçal

Crítica XXI (nº4)

O que é uma Constituição, de Ferdinand Lassalle

Remissão, de Carlos Guedes

Selecções da BD (1 a 

História Diplomática de Portugal, de Pedro Soares Martinez 

Deus, a Ciência, as provas

A política económica do governo, de Sá Carneiro de Cavaco Silva

Solidão e poder - M. Joao Avilez 

A minha vida, de Golda Meir

Espiões de Calder Walton

Crítica XXI (nº10)

How democracies die, de Steven Levitski e 

Intimidades de Salazar, de Assis Gonçalves

Portugal na hora da verdade de Alvaro Santos Pereira

A Liberdade dos Antigos comparada com a dos Modernos (Benjamin Constant)

Crítica XXI (nº 11)

Salazar e António Ferro de António Ferro

A mecânica de Deus de Guy Consolmagno

Salazar visto pelos seus próximos de Jaime Nogueira Pinto

Sobre Democracias e cultos de morte de Douglas Murray

A Insanidade das Massas de Douglas Murray

O Laboratório progressista e a Tirania dos Imbecis de João Maurício Brás

Os novos painéis de S. Vicente de Fernando Branco

O fim da natureza de Bill Mckibben

Contos da Juventude de Fernando Branco

O tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil de Joaquim Veríssimo Serrão

Egas Moniz um biografia de João Lobo Antunes

Filosofia e doutrina do fascismo de Giovanni Gentile e Benito Mussolini

Ser mortal de Atul Gawande

A Cambada de Vera Lagoa

Crítica XXI (nº 12)

Revolucionários ... de Vera Lagoa

Discursos I de Oliveira Salazar

Soares é Fish de Augusto Cid

Eanito el estático

As 33 estratégias da Guerra de  (não acabei)

Discursos II de Oliveira Salazar

O meu treinador de Joana Bértholo

Immigration - La catastrophe Que faire? de Jean Yves le Gallou

Charlie Brown vários

O fim de tudo de Victor Davis Hanson

Discursos III de Oliveira Salazar

Um mundo infestado de demónios de Carl Sagan

A última aula de Fernando Branco

Terceiro Mundo de Franco Nogueira

Citações de Américo Thomaz de 

Boletim Militar (2º e 3º aniversários) de vários

Missão na Guiné 

Política Militar de D. Francisco Manuel de Melo

Nobody's perfect Charlie Brown


Cartoons - The Spectator

 


























Reflexão (Política) - Portugal no seu melhor (LBC)

Bom dia! Já conhecem os amendoins que vendo? Não? O aspirador que promovo? Outros produtos? E os "novos" apoiantes do PS que se torceram todos para me apoiar? Ouviram o meu querido amigo Santos Silva? Um mimo de integridade intelectual! A Catarina Mendes que ainda anteontem (29.12) quase 6 meses depois de me ter candidatado me veio dar o apoio. Estou satisfeito, sensibilizado, seguro e etc...




Estou bem assim ou ponho-me mais de lado? Sou ou não uma estrela? 



Eu confesso ao povo português: fundei uma companhia de drones para acompanhar a minha campanha





Agora, desta vez, é a sério! Acha que eu fazia esta figura para desistir?





Já tenho 325 assinaturas de nacionais do BE, 654 de colegas sem abrigo como eu, e 987 que não sei de quem são




Livro - Política Militar (D. Francisco Manuel de Melo)



 


Livro - Publicações militares (Boletim militar; Missão na Guiné)

 














Novos whiskies de Islay

 

Os últimos três whiskies de Islay descobertos. 







terça-feira, 30 de dezembro de 2025

The Spectator - Winter is coming. Thank goodness

 (personal underlines)


Winter is coming. Thank goodness

It’s easily the best season

[iStock]

The leaves on the oak tree in the park are three-quarters brown and bring to mind the two-tone hair of a model in the ‘before’ picture of a dye advert. The tiny leaves on the apple tree over the garden wall look as though they have been individually removed and stuck in an air fryer to crisp up nicely before being painstakingly reattached. The sky is leaden, the colour of Sunday afternoons on the box in the 1970s, when the grey screen swarmed with Messerschmitts, Heinkels and Spits…

It can only mean one thing. Winter is coming. And just in the nick of time. Because winter is wonderful – easily the best season, no matter what others may claim

How so? Well, it is the perfect excuse for open fires and for knitwear – and nothing hides that beach-perfect body like an Aran sweater or a herringbone tweed overcoat. It’s the perfect time for walks in the woods or across fields, mud and rotting leaves underfoot, in the rain, drizzle or sleet, with wellies struggling for purchase. It’s the perfect time for bracing strides along the beach that leave you gasping for a mug of strong tea and a slice of shortbread, or better still a pint of bitter in a pub by a roaring fire.

And the most brilliant thing of all? This goes on for months and months. It might officially begin in December and end in March, but the winter we know and love really begins now and lasts till April. This is wonderful, because it means months of Sunday roasts, served up with lashings of Strictly until Christmas, Ski Sunday after. It means the chopping of logs, the warming of wellingtons, the smell of damp dogs, mud clinging to boots. It is, in short, the time of year that gets you closer to the lost world of fingerless gloves, of Fielding, Dickens and Austen.

At the heart of it is the recognition that Britain is a winter nation, because grey skies and the damp nipping cold are the resting bitch-face of our climate. They are what we get when the weather isn’t pretending to be nice. That means we are a people schooled essentially by winter. We might not do snow-chains or snow tyres – God forbid we’d be that prepared – but we are nonetheless wintry people, folk given to tight smiles to keep out the cold and wrapping up warm, even indoors.

And that’s why we can’t get enough of it. It’s part of the reason why Captain Scott went to the South Pole. It’s why we invented competitive skiing. It’s how we dreamed up beef wellington, the Inverness overcoat and the deerstalker. It’s why we invented the novel, because what else can you do to keep yourself going through long winter nights when television hasn’t been invented and your family cheats at cards?

Yes, we are a nation birthed beneath the gunmetal skies of November, December and January – as surely as Australia, for instance, is a country born of sunshine and a swath of fauna dedicated to killing you. And thank goodness, because winter is the season that feeds Britain’s phlegmatic soul; it gives us our grit and the kind of comedy we most excel in – gallows humour. What other option is there – particularly if you’re a Georgian or Victorian and central heating is still 100 years away, and it’s April and you’ve scarcely been warm since September? In circumstances like that all you can do is laugh, so is it any coincidence that laughing turns out to be our national pastime – whether it’s at the government, or other people’s governments, or the weather, or each other? Without winter we might not have satire, Billy Connolly or the Perrier Award, or whatever it’s called now.

So we have rather a lot to be grateful to winter for, and not just for filling up the reservoirs and killing off a few mosquitoes. The roasted forerib of beef, heaped with delicious marbled fat like the periwig of a courtier to Louis XIV, would never taste so good if we didn’t have February. Sherry wouldn’t illuminate the palate quite as it does without the frost.

The problem is that like many of the best things in life, winter is the victim of its own success. It goes on too long, probably a good fortnight longer than would be ideal. And yet at the same time, it makes summer worth having by giving us spring to look forward to – otherwise those blue skies would become just so boring.

So don’t begrudge its onset. Embrace the arrival of November and the cold, dark months ahead. Stock up on horseradish sauce and mustard, get some port and tannin-dry reds in, and throw another log on the fire for Sadiq and his mate Ed. They love open fires, they really do.

The Spectator - "Apanhados"

 



The Spectator - Labour is now the party of welfare, not work

 (personal underlines)

Labour is now the party of welfare, not work

Keir Starmer and Rachel Reeves have gone into bunker mode. The pair – whose political fortunes are so tightly bound – have been forced all week to defend the Chancellor’s claims at last week’s Budget that there is a black hole in the country’s finances. Mendacity soon gave way to something closer to bewilderment. Neither can grasp why they are being called out for their omissions and dishonest briefings – always more fiction than fiscal – about the state of the economy. Their new argument is this: once you factor in the Budget’s own measures – welfare increases, the U-turn on winter fuel payments and the desire to increase headroom – a hole did indeed appear. They insist they had no choice.

What both fail to understand, however, is that voters can see these were choices. The black hole to be ‘filled’ was one created not by economic necessity, but by the Prime Minister’s political weathervane spinning out of control.

Peel back the politics and the story of this Budget is not headroom, inflation or growth. It is welfare. After last year’s Autumn Statement, the Office for Budget Responsibility forecast that by the end of the decade, nearly £1 in every £10 the government spends would go on working-age benefits. Labour’s second Budget has just added another £16 billion to that bill. Throw pensions into the mix and welfare spending is on course to hit £406 billion by 2030 – £109 billion of which will go on sickness payments.

To fund this, Reeves is euphemistically ‘asking’ those in work to pay more, pushing taxes to an all-time high and creating a system where the average person on £38,000 now hands over £2,000 a year simply to finance welfare. The squeeze is only going to get worse: someone working full-time on the minimum wage paid 12 per cent of their income to the taxman last year; by the end of the decade that will have passed 15 per cent.

We are living through a historic transfer – fiscal and human – from work to welfare. Labour has chosen a bonanza for benefit claimants funded by austerity for workers. And that transfer is accelerating. The most recent figures suggest that 6.5 million Britons are on out-of-work benefits, with more than five million under no obligation to seek work. The number of payrolled jobs has fallen by around 180,000 in a year. One in eight 16- to 24-year-olds – nearly a million young people – are now Neets: not in education, employment or training.

It is, in reality, spreadsheet socialism from a spreadsheet government. If the numbers balance out, the problem, it is believed, can be ignored. Welfare spending as a share of GDP is ‘no higher than in 2012’. So on paper it all looks fine – nothing to see here.

But believing this means wilfully ignoring a growing reality. Let’s examine the claim that total welfare spending as a share of GDP has been flat for decades. Welfare used to be dominated by unemployment; now the fastest growth is in sickness and disability benefits. When unemployment was 8 per cent, compared with about 5 per cent today, more people were at least looking for work. The chart being waved around in Whitehall does not capture the economic burden of a surging long-term sickness caseload – let alone the human cost.

Sam Miley, head of forecasting at the independent Centre for Economic and Business Research, says the rising incapacity caseload has cost an extra £14 billion in payments compared with pre pandemic, plus £13 billion in ‘forgone activity’ as people drop out of work altogether. The government’s own review by Sir Charlie Mayfield found that someone leaving the workforce in their twenties loses over £1 million in lifetime earnings – and the state incurs a similar cost. With around 5,000 people awarded sickness benefits every day, most of them unlikely to return to work, that is billions added to future tax bills. All this is entirely missed by that comforting spreadsheet which shows that welfare is ‘flat’.

Moving cash from the tax-producing parts of the economy to the benefit-claiming ones doesn’t just create a fiscal problem; it kills incentives. The question ‘Why should I bother with work?’ is becoming harder to answer.

Scrapping the two-child cap makes this worse. Analysis from the Centre for Social Justice shows that a family with one adult working full-time and the other part-time on the minimum wage takes home around £28,000 a year after tax. By contrast, a family with three children and no adults in work can expect upwards of £46,000 once Universal Credit, health benefits and Personal Independence Payments (Pip) are added. To match that standard of living through work alone, a family would need combined salaries of about £71,000. In theory, the household benefit cap should limit this. In practice, claiming a ‘qualifying’ benefit such as Pip means the cap vanishes; total benefit income shoots up. The incentive is obvious.

MPs comfort themselves that because fewer than 1 per cent of benefit claims are deemed fraudulent, the remaining 99 per cent must be genuine. But you don’t need to spend long on social media to see this is just not true. In one TikTok video, a man on UC because of ‘anxiety of interview’ explains how hard it is to live on his and his partner’s monthly budget of £2,272. Their ‘necessities’ include a Sky TV subscription, the upkeep of an African grey parrot and a monthly tanning session. Much of this content may be ‘rage bait’ – Oxford University Press’s word of the year – but newspaper investigations have found a plethora of disturbing examples. ‘Two-child cap scrapped, mate. Watch this space. Baby number three. Thank you, taxpayers,’ declares one sickfluencer.

It wasn’t meant to be this way. Throughout its history, when Labour has been out of office it has argued that decent pay and decent work were the only means by which working people could advance themselves. But when the party has been handed power, it has repeatedly deferred to spreadsheet socialism, with worklessness as the cost.

When Tony Blair won a 179-seat majority, he quickly worked out that there was an easier option than tackling welfare dependency in benefits Britain: mass migration. Job vacancies could be filled with cheap imported labour, while the proceeds of a growing economy could be used to pay benefits rather than reform them. Why pick a fight with campaigners chaining themselves to railings when you can import workers and let tax receipts do the heavy lifting?

Every government since has relied on the same economic cheat code, with young Britons paying the price. Last year, under-25 employment fell by 2 per cent, while non-EU under-25 employment increased by 16 per cent. But the trick no longer works. Today’s migrants are less skilled than those from the accession-era EU, and the OBR no longer confidently asserts that immigration automatically produces growth. Time to fix welfare, then?

Apparently not. Far easier to pin hopes elsewhere. Where Blair used migration to cover up the problems, Starmer and Reeves seem to have discovered a new saviour: artificial intelligence. The OBR said explicitly that not a single measure announced by Reeves would boost growth – but it did sketch an ‘upside scenario’ in which a successful AI rollout could lift productivity growth to 1.5 per cent a year by the end of the parliament. That would, conveniently, give Reeves enough fiscal space to reverse her tax rises, and fend off the uncomfortable question of who pays for the welfare surge.

But the point is obvious: just as one economic boom allowed Blair to ignore worklessness, another might let Starmer ignore it too. This isn’t a plan. It’s a hope that someone else – migrants then, machines now – will pick up the bill. Meanwhile the human tragedy continues.

The reality is that once-great industrial – and solidly Labour – towns and cities are languishing on welfare. More than one in five working-age adults in Manchester, Glasgow, Liverpool, Birmingham and Blackpool are on out-of-work benefits. Zoom in further and the picture is worse: parts of Grimsby, central Blackpool and Glasgow have more than half of all working-age residents claiming out-of-work benefits. Undoing that damage will be a huge, near impossible, task.

Far from lifting the working class through the power of work, Labour now seems content to let the work capability assessment become a trapdoor through which people fall into a lifetime of economic apartheid and structural abandonment. The generational pauperisation of our cities seems acceptable as long as the sums still add up.

If we are to solve this problem we must look beyond Whitehall and Westminster. Something changed in the national psyche during lockdown. Not showing up for work, skipping school, signing off sick – behaviours once frowned upon – became normal.

And it is not just ministers who must fix it. GPs have become far too ready to dish out sick notes – at a rate of 30,000 a day – rather than explain the medical benefits of work. ‘We don’t feel able to challenge patients if they want a sick note,’ says one. ‘They’ll complain. It’s very subjective.’ But with one poll finding that 83 per cent of doctors think antidepressants are over-prescribed, and that 84 per cent believe we have medicalised the normal ups and downs of life, it’s little wonder that mental health has become the main driver of rising sickness benefit caseloads and costs. This is despite the fact that studies show being out of work increases the risk of mental illness by 64 per cent, while those in work are 48 per cent less likely to have depression. This institutionalised kindness has turned out cruel.

Perhaps, though, attitudes are beginning to change. The National Centre for Social Research finds that a majority of Brits now believe the welfare system stops people from supporting themselves, while polling by More in Common shows that seven in ten think we should cut benefits for those who are able but unwilling to work.

If Labour fails to take heed of that trend, others stand ready to exploit the fairness gap it creates. Reform UK is ‘feeling confident’, as one senior source puts it, that internal polling shows the party can gain ground by tackling welfare dependency head-on. ‘We’re going to announce larger cuts than any other party, and not just on foreign nationals,’ the source says.

Labour was founded on the belief that fair wages and honest work was the path to dignity and that worklessness represented a failing Britain. Its modern-day custodians still make that case – but their actions suggest that, really, they see it as a challenge too difficult to overcome.