domingo, 1 de fevereiro de 2026

Observador - «"Pot-pourri" contra Ventura»: a fita do ano (Alberto Gonçalves)

 

(sublinhados pessoais)

«"Pot-pourri" contra Ventura»: a fita do ano

O dr. Seguro é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as expectativas que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas.

Já temos os “católicos por Seguro”, os “maçons por Seguro”, os “médicos por Seguro”, os “não-socialistas por Seguro”, os “sociais-democratas por Seguro”, os “socialistas por Seguro”, os “artistas por Seguro”, os “leninistas por Seguro”, os “liberais por Seguro”, os “ex-presidentes da República por Seguro” e os “ex-candidatos à presidência da República por Seguro”. Aguarda-se a todo o momento o apoio ao candidato por parte dos astrólogos e da Federação Ribatejana de Pelota Basca.

Tamanho consenso devia ser irritante. No caso, o consenso é sobretudo esquisito, visto que se ergueu num ápice e em volta de alguém tão improvável. Há uns meses, ninguém se lembrava do dr. Seguro. Há uns anos, o dr. Seguro não lembrava a ninguém. Durante três décadas de carreira política, o dr. Seguro, outrora o vagamente popular “Tozé”, foi o típico apparatchik que subiu sem estrondo na hierarquia partidária. Após atingir o topo, viu-se enxotado sem maneiras e decidiu hibernar. Não deixou uma marca, uma ideia, sequer um espaço vazio. A sua ausência notou-se tanto quanto a presença: não se notou.

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Se calhar é exactamente essa insipidez que explica parte do apelo (?). O dr. Seguro é, ou aparenta ser, uma tela em branco onde cada um projecta as expectativas que lhe apetecer. É inevitável que as expectativas saiam frustradas (não se imagina que a presidência do dr. Seguro satisfaça em simultâneo o prof. Cavaco e o dr. Tavares), mas a fase do desapontamento virá a seguir. Por enquanto, o objectivo é unir, juntar, agregar, enlatar. Se me permitem ultrapassar a quota de analogias por crónica, a extraordinária pluralidade dos apoiantes do dr. Seguro evoca menos o proverbial albergue espanhol do que o metropolitano de Tóquio, em que cabem todos, e os que arriscavam ficar de fora são empurrados à força para o interior da carruagem.

A segunda explicação para o consenso prende-se com a circunstância de o dr. Seguro ser um socialista, embora hoje a maioria dos seus repentinos apoiantes finja que não reparou e ele próprio disfarce. Seria inconcebível que a esquerda pura e dura como uma broca manifestasse por um candidato da “direita” um milésimo do frenesim que a “direita” dedica ao dr. Seguro. Não existe um cenário plausível em que o dr. Tavares caminhasse, ainda que metaforicamente, ao lado do prof. Cavaco para catequizar o povo acerca das vantagens do voto no dr. Cotrim.

A esquerda não cede à “direita” nem deseja cair nas graças da “direita”, que no fundo contempla com nojo. Em compensação, a “direita” encontra-se sempre mortinha por mostrar à esquerda que o nojo é imerecido, que também dispõe de “humanistas” iguais aos “humanistas” que berram pelo Hamas, por Maduro e pelos aiatolas, que todos partilham um chão comum. E a “direita” não perde uma oportunidade de se sentar no chão comum e tocar na guitarra cantigas fraternas que só terminam quando a esquerda desfaz a guitarra em cacos. Porém, a “direita” não desiste.

A terceira e talvez mais decisiva explicação para a União Nacional em curso resume-se a um nome (ou a dois): André Ventura. A quase totalidade dos argumentos usados para defender a eleição do dr. Seguro converge para a necessidade imperiosa de não se eleger o dr. Ventura. A coisa formula-se invariavelmente com requintes dramáticos e invariavelmente avisa para o que aconteceria se, por absurdo e loucura colectiva, o dr. Ventura chegasse a Belém. São imagens fortes: a Constituição em chamas, a “governabilidade” [sic] moribunda, o país exilado nas franjas do submundo. E isto sem contar com a deportação em massa de imigrantes, os campos de reeducação para ciganos e, pior, a submissão dos cidadãos em peso a 37 audições diárias de “A Portuguesa”.

Mesmo admitindo com periclitante certeza de que semelhante distopia é o que o dr. Ventura (e um terço dos eleitores) quer, a União Nacional não informa de que modo o dr. Ventura procederia para chegar lá. Por um lado, vai por aí uma enorme desconfiança na solidez das “instituições” e um entendimento desmesurado do alcance dos poderes presidenciais. Por outro lado, os abundantes inimigos do dr. Ventura estão por decidir se o homem é o taberneiro sem etiqueta de que se riem às terças, quintas e sábados, ou o demiurgo malvado que os aterroriza no resto da semana, capaz de proezas medonhas e desmesuradas.

Eu, que não rio do dr. Ventura e não o receio (nem venero), julgo que se atribui à personagem propriedades excessivas: são tais os esforços para não o “normalizar” que o pintam com aptidões paranormais. Não alinho em crendices. O dr. Ventura é apenas um político que, às vezes com razão e às vezes sem ela, ameaça a famosa “estabilidade” a ponto de federar os beneficiários desta num curioso pot-pourri. Quem não aprecia excessivamente a “estabilidade” e os seus beneficiários, votará no dr. Ventura. Quem acha que a “estabilidade” nos tem dado sucessivas alegrias, votará no pot-pourri, perdão, no dr. Seguro. E nenhuma das escolhas garante o resultado pretendido.

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