quarta-feira, 13 de julho de 2022

Futebol- Gervásio (Académica)

 (Afonso de Melo)

 

Vasco Gervásio. "Qualquer coisa que não volta; Primavera de flor adormecida..."

Coimbra passou a ter, esta semana, uma rua com o nome do maior capitão da Académica (284 vezes), na freguesia de Santo António dos Olivais. Homenagem digna e sentida.

Coimbra é a terra da saudade, até tem penedo e tudo, e agora foi tempo de revisitar as saudades de Vasco Gervásio, precisamente quando se comemoram 60 anos da sua chegada à cidade dos estudantes, para estudar, claro!, licenciou-se em Direito, e para jogar na Académica aquele futebol de musselina que fez dele absolutamente inconfundível. Nasceu na Malveira, no dia 5 de dezembro de 1943, chamava-se, de nome completo, Vasco Manuel Vieira Pereira Gervásio, foi das personagens mais completas que tive a oportunidade de conhecer e a honra de ser amigo. Tinha um sentido de humor único, curto, surpreendente, às vezes corrosivo. Acho que foi esse sentido de humor que nos ligou, isso e a Académica, pois então, sempre a Académica, a Académica que foi o seu emblema de uma vida (passou pelos juniores do Benfica), ou mesmo a sua própria vida, pelo menos uma parte enorme dela. Morreu em julho, já Verão, dia 3 de julho de 2009, ele que de nos deixou a todos que  o conheceram esta amarga sensação de coisa que não volta, como dizia o fado de António Vicente, que voou e foi um rio e levou em si guardado o choro de uma balada.

Coimbra deu-lhe o nome de uma rua, na freguesia de Santo António dos Olivais, menos do que ele merece, muito mais tarde do que ele merecia. Zé Belo, o meu querido Zé Belo, discursou emocionado nessa hora de homenagem: “Não foi, por acaso, que o Gervásio era o Capitão de uma Académica cheia de gente que podia merecer aquela braçadeira. Não foi, também,  por acaso, que o Gervásio era capitão daquela que, provavelmente,  foi a maior equipa que a Académica teve,  num período de ouro, nas décadas de 60/70. Ora, o Gervásio era o denominador comum daquela equipa e dos seus jogadores. Respirava Académica. Transpirava Académica. Consubstanciava, ainda, uma ideia contagiante, linda e apetecível de Coimbra. Mas  para ele a Académica não significa desgaste, nem trabalho, era o sentido da sua vida. E a vida que ele amava”.

Capitão dos capitães, ninguém foi mais capitão do que Vasco Gervásio, de 1968 a 1979 (284 vezes), 17 anos com a camisola negra do losango no peito, 430 jogos. Tudo números apenas, quando ele, afinal, era alma.

Uma injustiça Gervásio foi, inequivocamente, um dos grandes jogadores portugueses do seu tempo e cometeram com ele a injustiça de nunca o terem chamado para a seleção principal de Portugal (só jogou na B e na  militar). Mas a injustiça não fere nem nunca poderá ferir o seu jogo no qual os pés de pelica obedeciam a uma inteligência arguta que lhe permitia ver mais longe e mais depressa do que companheiros e adversários. De novo o Zé: “Quando aconteceu o 25 de Abril, exultou com ele, claro,  e numa acalorada discussão à volta do socialismo e do comunismo, o Gervásio fechou, assim, os calores ideológicos que alguns já evidenciavam, próprios do PREC, que vivíamos: ‘Pode vir o comunismo, mas 30 anos de boa vida ninguém mos tira!’. Era o Gervásio  com a sua fina ironia! Deixem-me traduzir-vos o que significa boa vida para um futebolista, mesmo para um estudante-atleta: treinar, correr montanha acima, (Vale de Canas ou na Serra na Figueira da Foz) ,competir, exultar, chorar nas derrotas e rir nas vitórias, estar dois dias a pensar naquele passe errado, que podia ter dado golo, ansiedade, stress antes dos jogos e também nas frequências e nos exames, que atrapalhavam muito a rotina desportiva. Para o Gervásio isto era boa vida”.

Gervásio tem uma rua. O rapaz que jogava com uma espécie de  melancolia que se transformava, de repente, em algo de luminoso, como Primavera de flor adormecida, continua a trazer-nos recordações do passado ao bater da velha Cabra...

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