quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Reflexão - Ronaldo Derangement Syndrome (Alberto Gonçalves)




(sublinhados pessoais)

Ronaldo Derangement Syndrome

O que lhes dói mais nem é Ronaldo, ou o brutal abismo que separa Ronaldo da mediocridade deles: o que lhes dói é o ocupante da Sala Oval ser Trump.

Começo por informar que não tenho conhecimento privilegiado da carreira de  Cristiano Ronaldo. Quase não vejo futebol há pelo menos vinte anos, e hoje a minha relação com a bola limita-se a ocasionais vídeos de Pelé e Cruijff no YouTube. Sucede que Ronaldo é tão omnipresente que mesmo o mais distraído dos sujeitos não consegue não saber que ele é um atleta extraordinário, um sujeito com uma dedicação quase desumana ao ofício que escolheu ou que o escolheu a ele.


Em larga medida, Ronaldo é o exacto oposto da maioria dos que, nos últimos dias, se tornaram seus detractores. E por isso Ronaldo é tudo o que os detractores detestam. Nasceu e cresceu na pobreza extrema e, através de um esforço incomum e apenas através do esforço, alcançou fama e fortuna de dimensões impensáveis. Subiu na vida, como se diz. E não se envergonha das origens. E é extraordinariamente bom no que faz, a ponto de ter dispensado as proverbiais ajudas ou “cunhas”. E, numa idade e situação em que podia passar o resto da existência na piscina a contemplar os Bugatti na garagem, continua a resistir à reforma e à preguiça.

Em suma, Ronaldo tem todos os defeitos. Faltava um. O pormenor que faltava para que o ódio dessa gente por Ronaldo explodisse sem amarras “patrióticas” chegou agora. Há duas semanas, manifestou em entrevista uma inequívoca admiração por Donald Trump. Esta semana encontrou-se com Trump na Casa Branca, onde jantou. O dinheiro, os automóveis, a ostentação, os penteados ainda se fingia tolerar, até porque o contrário implicaria exibir um rancor injustificável pelo maior desportista português e a única celebridade portuguesa. Ainda havia um módico de decoro, ou de vergonha na cara. Após a entrada em cena de Trump, o decoro foi-se e o descaramento irrompeu com força.

O ódio que se verteu nas “redes sociais” não espanta. O ódio vertido nos “media” convencionais também não. As televisões, principalmente as televisões, estão repletas de “especialistas” em Política & Variedades que ocupam noventa por cento do seu tempo a esconjurar o presidente americano (os dez por cento restantes são aplicados no dr. Ventura). E é engraçado verificar a relação directamente proporcional entre o nível de fúria que Ronaldo lhes mereceu e o grau de idiotia que os “especialistas” habitualmente demonstram. Sumidades que juraram aos espectadores pela saúde mental de Joe Biden e pela vitória de Kamala Harris acham-se com legitimidade não só para continuar a comentar coisas mas para achar “inaceitável” a ida de Ronaldo a Washington. Em canal que não recordo, vi um sujeito, que jamais vira, recomendar “cautela” a Ronaldo. Outro aconselhou Ronaldo a ir a Gaza. Não é necessariamente verdade que os recursos naturais são limitados: a estupidez de tantos “especialistas”, por exemplo, é infinita.

Corre por aí a tese de que a inveja explica tamanho ódio. Trata-se de uma explicação parcial. Claro que a burgessos convencidos de que expelir inanidades na Sic Notícias é o apogeu do cosmopolitismo, a ascensão de Ronaldo à Sala Oval deve doer. Porém, o que lhes dói mais nem é Ronaldo, ou o brutal abismo que separa Ronaldo da mediocridade deles: o que lhes dói é o ocupante da Sala Oval ser Trump. O Síndroma do Destrambelhamento fez inúmeras vítimas, e não acredito que invejem encontros com Trump – excepto durante um comício, a partir de um telhado e com arma mais bem calibrada que a de Butler, Pensilvânia. Com Biden ou Obama no poder, os medíocres calariam a inveja e louvariam a honra concedida ao “melhor jogador do mundo”.

Por fim, há a questão da Arábia Saudita. É uma ditadura brutal? É, e os recentes progressos evidentemente não bastam para redimir o regime. Mas nem a pergunta nem a resposta são essas. Eis as perguntas: alguém levantaria sequer uma ligeira objecção caso Ronaldo tivesse acompanhado uma delegação saudita ao Eliseu, a fim de obsequiar o badameco local? Ou ao Torquemada da Temu que mora em Downing Street? E eis a resposta: não, obviamente que não.

Para cúmulo, estamos a falar de criaturas que, com altíssima probabilidade, ignoraram ou aplaudiram os múltiplos e fraternos encontros de “estadistas” nacionais com Hugo Chávez, Nicolas Maduro, o sr. Lula, Fidel Castro, Vladimir Putin (depois da Crimeia), os presidentes de Angola, o soba da Guiné-Equatorial, o torcionário da China, o saudoso Kadhafi (recebido em glória por cá) e, vejam lá, o próprio príncipe herdeiro das Arábias, com quem o prof. Marcelo reuniu em Riad e em Lisboa. E estamos a falar de criaturas que possivelmente festejaram os golos da “selecção” em paraísos dos direitos humanos do calibre da África do Sul, da Rússia e do Qatar.

O problema das criaturas não é especialmente com Ronaldo, ainda que a grandeza deste os humilhe e ajude a expor a respectiva pequenez. O problema é com Trump. O problema, hoje, é sempre com Trump, que embora ao contrário de Ronaldo não pareça ter muitas virtudes, tem a virtude maior, que é a de irritar as pessoas certas: as que nunca deixam de estar erradas.

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