Bela maneira de se iniciar um ano: na história (grande liceu!), na prosa (bem escrita) e no seu sentido (algo que vai rareando). Parabéns caro dr. Torres da Costa. Obrigado por estes momentos. Luiz Boavida Carvalho
#NoTempoDasSanjo
As memórias profundas têm desses mistérios, marcam-nos, moldam-nos, sem que saibamos exatamente onde habitam. São verdadeiros “imprints” da personalidade.
Esta história, com palco no Liceu Camões, remonta algures aos anos 60. Foi-me contada por um dos seus protagonistas, a quem chamarei GP. Resgato-a da memória e registo-a aqui como testemunho de um tempo que se vai perdendo e que, como quase sempre, se dilui por entre um turbilhão de incerteza.
Dizia-se à época e eventualmente com justificação, que o Liceu Camões era um dos mais emblemáticos estabelecimentos de ensino do país. Por ali passaram gerações inteiras e alguns reconhecerão, senão os contornos desta história, pelo menos a atmosfera densa e viva que impregnava aquele espaço.
Para a miudagem que despertava para a adolescência, aqueles corredores e salas eram muito mais do que um formal lugar de aprendizagem. Era o torno do oleiro. Era ali que se lançava o barro ainda mole do devir e, no convívio diário, nas pequenas rivalidades e camaradagem genuína recorrentemente temperada por travessuras próprias da idade, aquele local era como a banca do artífice onde o carácter se definia e ganhava consistência. Era ali que o intelecto despertava, que a personalidade ganhava contornos e os princípios, ainda frágeis, começavam a tomar forma. Por entre brincadeiras e cumplicidades ia-se adquirindo a solidez necessária para o futuro e tudo quanto mais lhes reservaria o porvir.
O Liceu Camões tinha fama de forjar personalidades fortes de homens e mulheres (estas, após 1975) que viriam mais tarde a ocupar lugares de relevo na sociedade portuguesa. Não é fácil discernir se tal abundância se devia à excelência do ensino, à exigência dos mestres, à austeridade ou à qualidade da matéria-prima que alimentava aquelas sucessivas fornadas. Talvez fosse a soma de tudo isso! O certo é que nomes como Marcello Caetano, Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, José Saramago, Baptista-Bastos, Luísa Costa Gomes, Miguel Sousa Tavares, Vasco Pulido Valente ou José Cutileiro, entre demasiados outros, são testemunho e registo de um tempo em que a escola pública era, e pasmem-se muitos, uma “olaria” do mérito.
Hoje, a comparação só parece possível com algumas instituições privadas, acessíveis apenas àqueles a que a vida foi particularmente generosa. Locais onde o “mérito” pode ser adquirido como uma panaceia de um qualquer boticário. Criámos escolas para elites protegidas, viveiros cuidadosamente vedados onde crescem jovens que raramente chegam a perceber que a bonança não se distribui de forma equitativa, nem responde pelos méritos que gostam de atribuir a si próprios. Nos seus pequenos universos, o sucesso parece natural, quase hereditário, desligado do esforço, da carência ou da circunstância. Alimentamos nas novas gerações fornadas encimadas por sonhos cor-de-rosa, discursos polidos e unicórnios conceptuais, onde o conflito é evitado, a fricção social suavizada e a realidade frequentemente substituída por narrativas fluidas e reconfortantes. Formamos líderes fracos e incompetentes, forjados na abundância, no aparente paradoxo de uma escolha excessiva e na liquidez dos valores. Muitos deles, dos por ali criados, talvez já tenham alcançado os corredores do poder e daí governem com políticas de conveniência, de grupo, embaladas por um politicamente correto e por um “wishful thinking” elegante, mas cada vez mais distante do povo real, aquele que tropeça, que falha, que luta, e que aprendeu a crescer em escolas públicas onde o mundo não existe almofadado nem protegido por filtros ideológicos.
Entre essa distância crescente e a realidade vivida por quem ali se formou, instalou-se um fosso silencioso, onde se perdeu a empatia, o sentido de comunidade e, tantas vezes, os mínimos necessários à responsabilidade coletiva. Mas regressemos ao nosso protagonista, ao meu bom amigo, GP e à sua singela narrativa.
Tudo decorreu numa tarde luminosa, quente, dessas que já cheiram a outono mesmo quando o verão ainda resiste. Havia um “furo” no horário, um intervalo precioso em que o tempo parecia suspender-se e que GP e os seus amigos ocupavam como só a juventude sabe. E por entre risos soltos, corridas sem destino e pontapés na bola que esporadicamente, ora encontravam o ar, ora as canelas alheias, lá iam dando largas aos anos de meninice. Porém, e talvez mais importante, no meio daquele burburinho, havia algo de essencial que se estava a formar. Era ali, mais por entre aquele alegre caos que nas enfadonhas aulas de humanidades ou ciências, onde aprendiam a ser gente.
No fim desse intervalo, no meio das correrias e extenuados pela gritaria e cansaço, respeitaram o toque de chamada para a aula e lá foram entrando como de costume, sem que conseguissem desligar da brincadeira e tomassem uma postura “bem-comportada”. Enquanto os ânimos não serenavam e o “velho professor de ciências” não assomava, a agitação lá ia continuando.
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Nesses momentos, a sala era a extensão possível do pátio. As carteiras rangiam sob o peso dos corpos ainda inquietos, algumas deslocavam-se do alinhamento rigoroso que a ordem exigia, e muitas delas deixavam para memória futura mensagens gravadas à ponta de canivete.
O ar estava carregado de respirações aceleradas e de gargalhadas soltas, misturadas com o cheiro da juventude, do giz esquecido no quadro e de uma liberdade que ainda não tivera tempo de se dissipar. Com os corpos ainda quentes de excitação, entre murmúrios cúmplices, risos mal contidos e zombarias trocadas sem grande malícia, ensaiavam-se provocações, imitações exageradas e desafios silenciosos, enquanto alguém, e havia sempre alguém, assumia o papel não declarado, mas indispensável de manter viva a chama da algazarra. Havia bolas de papel lançadas com pontaria estudada, livros usados como escudos improvisados e comentários mordazes que percorriam a sala como estilhaços de riso. As gargalhadas, por vezes, explodiam sem aviso e denunciavam o autor que logo se tornava alvo de troça. Um ou outro tentava impor uma compostura fingida, ensaiando uma atitude afinada, mas bastava um olhar atravessado, um gesto caricatural ou uma careta fora de tempo para tudo regressar ao limiar de uma desordem feliz. Era aquele instante breve e irrepetível em que a autoridade ainda não se tinha materializado e uma sala entregue a si própria revelava o verdadeiro currículo oculto da escola – aprender a rir de si e dos outros, medir limites, reconhecer lideranças e perceber que a liberdade tem sempre um preço.
E no meio daquela felicidade suprema tudo era permitido. Havia entre eles uma espécie de concurso de audácia, irreverência e coragem frente a uma autoridade temida e que se adivinhava. Assim, por entre tantas provas de valentia, Carlos, uma criança habitualmente pacata e bem-comportada, incomodado que estava por ser alvo da brincadeira – hoje chamar-lhe-iam de “bullying” – arremessou uma sapatilha tentando atingir um colega mais à frente. Porém, e o acaso tem destas coisas, esta acabou por aterrar junto à porta da sala no preciso momento em que o professor Serafim entrava.
De imediato se fez silêncio e todos de forma mais ou menos apressada tentaram recuperar-se na compostura.
Enquanto vinha no corredor, o professor de ciências naturais, já imaginava o que se passava e preparava-se para lhes dar um “ralhete”. O que não esperava era por pouco ser atingido por uma sapatilha que voava vinda sabe-se lá de onde. Surpreso e irritado com o desplante, olhou-os a todos, um por um, esperando ver na cara de algum o culpado e foco da sua ira.
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Mas nenhum aluno se “descoseu”. Vestiam todos de igual palidez e em todos havia um fácies de “olhos arregalados” como quem espera o pior – algo próximo do fim do mundo!
Foi então que o “velho” professor resolveu mudar de estratégia. Acalmou-se, colocou a “sapatilha” em cima da secretária e, olhando-a com a gula de quem deixa o melhor para o fim, começou a aula desse dia que era sobre o corpo humano.
O professor Serafim não nascera no lado fácil das coisas. Cedo a vida tratara de lhe ensinar que o conhecimento raramente cresce em terreno fértil e que a disciplina, quando não temperada pela compreensão, transforma-se apenas em medo. Serafim viera de uma família modesta, marcada por ausências e crescera à luz de economias apertadas e responsabilidades precoces. A juventude não lhe foi generosa. Conhecera cedo a perda de afetos de familiares próximos, de oportunidades, e de uma certa leveza da juventude de que nunca recuperaria por inteiro. Casara jovem, talvez cedo demais, e carregava consigo o peso silencioso de um lar onde as dificuldades financeiras e as preocupações quotidianas se sentavam à mesa com a mesma regularidade que o pão. Ainda assim, nunca permitiu que essas sombras atravessassem o limiar da sala de aula como queixa ou desculpa.
E fora no ensino que encontrara a motivação para acreditar e começar de novo. Na sala de aula, encontrara não apenas uma profissão, mas uma forma de superação e passagem de testemunho para que outros pudessem contornar as dificuldades que sentira. O professor Serafim ensinava Ciências Naturais com um rigor quase austero, exigindo atenção, método e respeito pelo conhecimento. Mas por detrás da voz firme e do olhar atento havia a convicção de em cada aluno, mesmo o mais irrequieto ou aparentemente distraído, poder existir uma possibilidade que merecia ser desvendada. Não tolerava a preguiça nem a insolência gratuita, mas tinha especial cuidado com os silenciosos, com os que erravam por medo ou por excesso de vida. Era severo na forma e justo nas decisões. Preferia a lição à punição fácil, ou a explicação ao castigo humilhante. Muitos só compreenderiam mais tarde, quando a fita do tempo era revisitada, que aquela exigência, tantas vezes confundida com dureza, funcionava como a “olaria” do carácter e era com respeito que por todos seria recordado. O professor Serafim acreditava que ensinar era preparar para o mundo real, um lugar onde ninguém reduz a exigência por piedade, mas onde a dignidade humana não pode nem deve ser negociada. Talvez por isso, apesar das rugas precoces e do cansaço que lhe marcava o rosto, havia nele uma bondade discreta, quase invisível. Um fundo humano que se revelava em pequenos gestos, no olhar que evitava a humilhação pública, na palavra dita a sós e numa segunda oportunidade concedida sem alarde. Não queria ser amado, mas queria ser recordado como justo e eficaz.
A aula decorreu sem grande sobressalto. O tema era sobre o funcionamento de órgãos nobres como coração, pulmões e outras vísceras escondidas na cavidade abdominal. Tudo foi dito com a suavidade e a ênfase com que o deveria ser, mas sentia-se uma calma pouco usual. Era como se houvesse um incómodo, algo por resolver. Era como se todos sentissem – “uma pedra no sapato”!
De tempos a tempos, ia deitando um olhar de soslaio para a sapatilha em cima da secretária e pensava – como iria “descalçar aquela bota”? Se fosse ríspido e intransigente, iria castigar alguém por um delito menor, um daqueles que ficaria melhor se distribuído por todos, se ignorasse o sucedido, por certo perderia autoridade. Estava o professor Serafim neste dilema quando mal adivinhava que o rumo dos acontecimentos acabaria por vir em seu auxílio.
Quando o toque de saída soou, foi como se o gongo da verdade os tivesse acordado de um falso torpor. Com a saída, o segredo ia definitivamente ser revelado e, no Carlos, cairiam consequências que eram responsabilidade de todos.
Foi então que o professor Serafim teve uma surpresa e nela uma lição que recordaria para toda a vida. Os alunos à medida que iam saindo, iam todos descalços, tornando-se impossível saber a quem pertencia a sapatilha em cima da secretária.
Um a um todos foram passando pelo mestre que se ia despedindo, reconhecendo que, mais importante que as matérias do dia, era a nobreza de um simples gesto que, por não ter sido combinado, era por isso um sentimento de grupo, uma cumplicidade que não estava ao alcance de muitos.
Não era que o professor Serafim não soubesse a quem pertencia a sapatilha. Há muito que já tinha reparado que o Carlos, esse menino doce e pacato, tinha um pé descalço. Mas foi tocado por aquele gesto de camaradagem. Quando o último aluno saiu, ele próprio saiu da sala, fechando a porta atrás de passos pesados e a leveza de quem sabe ter agido com equilíbrio e justiça. A sapatilha, essa “Sanjo” desses míticos anos 60, essa ficou em cima da secretária, para que pudesse regressar ao dono pelo seu “pé”, na certeza de que depois desse dia todos estariam melhor preparados para seguir por caminhos seguros.
A GP, esta singela história deve-o ter marcado de tal forma que me a contou passadas décadas sem que nada em particular a tivesse convocado. Foi uma recordação que se lhe assomou na memória. As memórias profundas têm desses mistérios, marcam-nos, moldam-nos, sem que saibamos exatamente onde habitam. São verdadeiros “imprints” da personalidade. GP bem poderia ter sido o Carlos, ou o primeiro a protegê-lo descalçando-se muito antes de qualquer outro. Podia, e não tenho a certeza de que o não tenha sido. Agora que o conheço, agora que lhe conheço esta história, sei que não poderia ser de outra forma. GP, para além de amigo, é alguém de carácter íntegro, movido por uma ética silenciosa e firme, alguém que não se anuncia nem procura aplauso. É um homem de gestos e com o dom da palavra. Alguém atento a tudo e a todos, incapaz de prosperar à custa da humilhação e sempre inclinado para o lado certo das coisas, mesmo quando esse seja o lado mais difícil. É alguém que aprendeu cedo que a verdadeira nobreza nunca se exibe e que a justiça, a autêntica, acontece sempre em silêncio. Assim é GP, um amigo feito de um barro moldado no tempo em que as “Sanjo® eram Sanjo”.