domingo, 25 de janeiro de 2026

Observador - A Alemanha depois de Merkel (Miguel Morgado)

 



A Alemanha depois de Merkel

A Alemanha procura agora outro rumo que a faça sair do actual impasse e por isso vira-se para a enfraquecida Itália apenas por ser ali onde mora um vago vestígio de liderança política.

Tem sido acontecimento recorrente ouvir o Chanceler alemão Merz desdobrar-se em afirmações públicas surpreendentes. Não que sejam controversas; pelo contrário, exprimem um bom-senso há muito ausente dos anúncios feitos por Berlim. São surpreendentes apenas porque a Alemanha habituou-nos desde há 20 anos a seguir a sujeição à fortuna, a navegar ao sabor dos ventos até chegar a sucessivos becos sem saída.

Mas, afinal de contas, o que tem dito Merz? Responsabilizou-se pela segurança da Ucrânia sem ambiguidades numa Europa pós-americana; afrontou sem concessões a ameaça russa (não conseguindo no final financiar o esforço de guerra com os activos russos “congelados”); comprometeu-se sem as hesitações anteriores com o rearmamento alemão; denunciou como um “erro estratégico grave” o abandono da produção de energia nuclear, o que tornou a transição energética alemã “a mais cara do mundo”, provocando a delapidação da sua lendária capacidade industrial; inverteu a política migratória e a retórica cultural da coesão social; exasperou-se com a estagnação reformista e a propensão burocrática do seu país e, por arrastamento, da Europa; advertiu que a dependência económica relativamente à China e o apagamento geoestratégico relativamente ao resto do mundo não eram mais sustentáveis. E tudo isto a partir de uma situação de fraqueza económica sem precedentes desde os “milagres” do pós-guerra, a par de um perigo igualmente inédito gerado pelo aparecimento de uma poderosa força política à sua direita. Dito de outra maneira, Merz está a tentar medir forças com o desastroso legado político da sua antecessora na chancelaria e na liderança da CDU, Angela Merkel. Fá-lo agarrado a um parceiro morto chamado SPD, irrecuperável no presente e desinteressado do futuro. As suas possibilidades de sucesso não são, pois, risonhas.

Em Portugal, a discussão sobre a orientação alemã foi reduzida ao interesse partidário mesquinho e à ignorância mediática igualmente alinhada. Em 2011, Merkel era uma espécie de filha mais velha de Hitler, como os cartazes que os artistas do costume preparam para recebê-la quando ela visitou o país em 2012 no auge da crise financeira. Numa altura tão longínqua da nossa tenra consciência moral, em que o ódio político e a crispação eram piamente valorizados como sinónimos de heroísmo cívico e pose respeitável, Merkel foi vilipendiada como a maestrina perversa das desgraças portuguesas, o que ajudava a camuflar as responsabilidades de quem, cá dentro, atirara o País para o fundo.

Poucos anos mais tarde, em 2015, e sem que tal salto mortal provocasse espanto, Merkel aparecia como uma nova santa padroeira dos descamisados. Tal conversão era facilmente explicável. A Evita Péron germânica abrira as fronteiras alemãs às imigrações e aos refugiados, convocando todos os cantos do mundo para uma deslocação evidentemente impossível, mas não sem evitar todas as desgraças humanas e sociais que se lhe juntaram. O programa de assistência português terminara. Estava em curso a recuperação económica e um governo das esquerdas já no nosso povo. Merkel podia finalmente deixar de ser fascista no imaginário nacional e projectava-se para o panteão estreitamente seleccionado da “decência”.

Sem surpresas, o escrutínio português terminou aí. Por cá apreciamos mais do que qualquer outra coisa estas ilusões e mentiras mais ou menos ignóbeis desde que sejam convenientes à agenda de quem está habituado a mandar. O problema veio depois. Aos poucos lá se foi descobrindo que Merkel deixara a Alemanha estagnada, com uma infraestrutura decrépita, um tecido social em ruptura, uma dependência escandalosa da energia da Rússia em conluio com a corrupção do SPD de Schröder. Sacrificara todo e qualquer posicionamento geoeconómico à exportação de automóveis e máquinas-ferramentas para a China, derrotara cada um dos valores éticos e políticos substantivos ao lado da invasão woke e multiculturalista. A política de Merkel foi, enfim, a total ausência de impulso reformista e a cedência à gestão quotidiana do poder sem rumo nem estratégia. Como correlativo desta lista de abdicações e impotências, a AfD, insignificante 10 anos antes, disparou para, não obstante as ligações sinistras a poderes duvidosos, ameaçar a estrutura do sistema político alemão que sustentou a prosperidade e a liberdade da república federal em tempos sediada em Bona.

Neste bloqueio e em circunstâncias problemáticas, a Alemanha procura agora outro rumo que a faça sair do actual impasse. Estando a França a braços com um sistema político bloqueado à espera de ser sacudido pela violência das fracturas sociais a que preside, a Alemanha vira-se para a enfraquecida Itália apenas por ser ali onde mora um vago vestígio de liderança política.

Enganam-se os que em Portugal julgam que isto são assuntos distantes. Desde a revolução democrática que a nossa sorte esteve inteiramente dependente da âncora europeia. Sem ela, a democracia que hoje se apregoa não teria vindo à existência, nem a economia que, não sendo brilhante, nos afasta dos horrores da pobreza de outras paragens. Isso foi verdade em 1983, em 1986, em 1989, em 1999, em 2011, tal como é verdade hoje. Sucede que a “Europa” que nos salva do perigo foi, em larga medida, a Alemanha e arredores. O governo em funções e o anterior que o digam, pois vivem da manhã à noite das maravilhas do PRR e da segurança e estabilidade institucionais que importamos todos os dias da Europa. Sem a Alemanha da prosperidade e da confiança em si mesma, essa Europa pura e simplesmente não existe. Convém cuidar dela para que ela cuide de nós.

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