domingo, 25 de janeiro de 2026

Observador - Marc Carney: do merceeiro de Havel ao banqueiro de Davos - coragem zero, oportunismo total (João Maurício Brás)

 (sublinhados pessoais)



Marc Carney: do merceeiro de Havel ao banqueiro de Davos - coragem zero, oportunismo total

A ordem mundial colapsou por ser falsa: negou limites humanos, dissolveu vínculos, reduziu o cidadão a consumidor, a pátria a mercado, a cultura a produto, a política a gestão, a verdade a narrativa.

O discurso de Mark Carney em Davos (20 de janeiro de 2026) foi saudado pela comunicação social liberal-progressista como exemplar, corajoso e lúcido. Não o é. Trata-se da mais recente e sofisticada tentativa do liberalismo progressista de sobreviver ao colapso da ordem que ele próprio erigiu e de que beneficiou durante décadas. O primeiro ministro do Canadá anuncia a morte da “ordem internacional baseada em regras” como se descrevesse um acidente inevitável, uma “rupture, not a transition”, o fim de uma “pleasant fiction”. Na realidade, fala do fracasso histórico do seu próprio projeto ideológico. O liberalismo progressista não caiu por traição; caiu por ter sido aplicado na íntegra. Trump e outros fenómenos são efeitos, não causas.

Aqueles que hoje lamentam a “nova realidade brutal” são os principais arquitetos do desastre. Durante décadas, prometeram globalização regulada, justa, inclusiva e pacificadora. Entregaram desindustrialização, erosão das soberanias, dependências estratégicas letais, fragmentação social, erosão cultural e uma oligarquia tecnocrática cada vez mais desligada dos povos. A “ordem baseada em regras” nunca foi universal: foi hierarquia disfarçada, exceções convenientes para os fortes, e moral seletiva administrada por elites financeiras, jurídicas e mediáticas. Carney reconhece agora que essa ordem acabou, “the old order is not coming back”, mas falta-lhe a honestidade de admitir que foi ela própria que destruiu a credibilidade da regra. A “nova ordem” que acena não é renovação; é a velha ordem a tentar sobreviver num mundo desenraizado, de consumo e espetáculo, que se pretendia homogéneo e incontestável.

O Canadá integrou plenamente essa ordem dos mais fortes que essa elite agora denuncia com falsa humildade. A ordem liberal-progressista quis submeter o planeta, rotulando de antidemocrática qualquer recusa de capitulação. Implodida, os seus líderes deviam assumir as responsabilidades do poder hegemónico exercido sob disfarce de boas intenções. Carney não lamenta o significado perdido da ordem internacional; lamenta que ela já não dependa da sua ideologia. É verdade que o autor do discurso identifica corretamente a instabilidade crescente, a fragmentação do sistema internacional e o regresso da lógica de poder. O problema é que confunde o diagnóstico do colapso com a absolvição dos seus autores. A proposta de coordenação entre “potências médias”, “if you’re not at the table, you’re on the menu”, não é solução; é tentativa de salvar o cosmopolitismo tecnocrático sem o nomear. Troca-se o império por um condomínio de especialistas, mas mantém-se a lógica: decisões afastadas dos povos, legitimadas por “valores” abstratos, blindadas contra a política real e protegidas por retórica moral.

O banqueiro de Davos fala de realismo, mas recusa a realidade fundamental: as nações não são meras unidades económicas; são comunidades históricas. A política não é gestão de interdependências; é governo de povos concretos. A soberania não é detalhe técnico; é condição da democracia. A ordem verdadeira não nasce de regras abstratas; nasce de lealdades, limites, tradições e responsabilidade partilhada. O liberalismo progressista de Carney persiste em ver os conflitos globais como falhas de coordenação, quando são choques de civilizações, interesses vitais, identidades e visões morais inconciliáveis. A sua linguagem permanece pós-histórica; o mundo regressou ao trágico. Ao citar Havel e “living within a lie”, o merceeiro que retira o cartaz da montra, o orador aproxima-se da verdade que não ousa atravessar. A grande mentira do nosso tempo foi exatamente a de que o mercado global, a governação técnica e o progressismo cultural podiam substituir política, cultura e moral. Mas o “viver na verdade” de Havel, em O Poder dos Impotentes, não é estratégia geopolítica nem reconfiguração de alianças: é ato existencial, solitário, perigoso, muitas vezes autodestrutivo. O merceeiro arrisca tudo, vida, emprego, família, dignidade. Carney e as elites retiram o cartaz só agora que a “polícia”, a hegemonia complacente, já não vigia nem pune. Isso não é coragem; é adaptação tardia, oportunismo tardio. As referências a Tucídides, “the strong do what they can and the weak suffer what they must”, e a Havel iludem as lições verdadeiras: os Estados não caem por falta de valores; caem por má avaliação da sua posição real no poder. Os impérios criam regras enquanto lhes convêm e abandonam-nas quando limitam. Carney lamenta precisamente o fim dessa exceção conveniente para o Ocidente liberal. Substitui um cartaz por outro: as “hortaliças” deram lugar ao chavão vazio de “realismo baseado em valores”. Este discurso é emocionalmente apelativo, mas factualmente oco. Não existe “potência média coletiva” como sujeito histórico unificado; existem Estados com medos, horizontes e tolerâncias ao risco díspares. Se Havel fosse vivo, perguntaria a Carney: onde estavas quando a hipocrisia beneficiava o teu conforto? Se a ordem era má, porque viveste nela confortavelmente durante décadas? Quem denuncia a mentira do sistema sem nomear a própria cumplicidade permanece dentro dela. O novo conservadorismo recusa a nostalgia dessa ordem e a ilusão da sua reforma. Ela não colapsou por imperfeição; colapsou por ser antropologicamente falsa: negou limites humanos, dissolveu vínculos, reduziu o cidadão a consumidor, a pátria a mercado, a cultura a produto, a política a gestão, a verdade a narrativa.

A alternativa não está numa nova arquitetura multilateral desenhada em Davos. Está na restauração da política como destino comum, da economia como instrumento e não senhor, da cultura como raiz, da soberania como responsabilidade e da tradição como continuidade viva. Precisamos de pertença antes da interdependência, identidade antes da coordenação, soberania antes da regra, comunidade antes do sistema. Carney propõe resiliência sem pertença, cooperação sem identidade, ordem sem transcendência. Trump também não é a resposta. O liberalismo progressista quer salvar o mundo da história. O que importa é salvar a história do liberalismo progressista. Apesar da elegância retórica e da lucidez tática parcial, o discurso de Carney não é rutura. É o lamento de uma elite que percebeu a perda de controlo, mas ainda não entendeu porquê.

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