sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Observador - O voto é secreto. A consciência também deveria ser (José Borralho)

 

(sublinhados pessoais)

O voto é secreto. A consciência também deveria ser

Há uma linha subtil, mas decisiva, entre dizer “Esta é a minha escolha” e afirmar, ainda que implicitamente, “Esta é a escolha certa”. É aqui que o espaço democrático começa a degradar-se.

Há expressões que atravessam gerações e resistem ao tempo porque encerram princípios estruturais. “O voto é secreto” é uma delas. Não é um detalhe técnico do processo democrático; é uma salvaguarda profunda da liberdade individual. O segredo do voto existe para proteger o cidadão da pressão, do medo, da retaliação e da manipulação. Existe para garantir que, naquele instante decisivo, cada pessoa escolhe por si e apenas por si.

No entanto, assistimos hoje, sobretudo em momentos eleitorais decisivos, a um fenómeno cada vez mais intenso: figuras públicas, líderes de opinião e profissionais da influência a declararem publicamente o seu voto, acompanhando essa declaração de argumentos cuidadosamente construídos para convencer, mobilizar ou condicionar outros. Muitas vezes, não se trata apenas de partilhar uma escolha pessoal, mas de moldar consciências.

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Do ponto de vista legal, é importante dizê-lo com clareza: não existe, em regra, ilegalidade neste comportamento. A democracia protege a liberdade de expressão tanto quanto protege o segredo do voto. A lei limita a coação, a propaganda em contextos específicos e o abuso direto de poder, mas não impede a manifestação de opinião política. E ainda bem. Uma democracia sem debate seria uma democracia vazia.

Mas a legalidade não esgota a questão. Há uma diferença fundamental entre o que é legal e o que é eticamente responsável.

Quando falamos de pessoas cuja profissão, estatuto ou alcance assenta precisamente na capacidade de influenciar – seja no espaço mediático, cultural, empresarial ou digital – entramos num território diferente. Não porque essas pessoas devam ser silenciadas, mas porque o impacto da sua voz não é neutro. Influência implica responsabilidade. Sempre.

Há uma linha subtil, mas decisiva, entre dizer “esta é a minha escolha” e afirmar, ainda que implicitamente, “esta é a escolha certa”. Entre partilhar uma convicção e construir um discurso moralizador onde quem pensa de forma diferente é visto como ignorante, irresponsável ou perigoso. Quando o debate deixa de convidar à reflexão e passa a induzir culpa, medo ou vergonha, algo essencial se perde.

É precisamente aqui que o espaço democrático começa a degradar-se. Não apenas pela tentativa de influenciar, mas pela forma como se desqualifica quem escolhe de modo diferente.

Nos últimos tempos, tornou-se comum ouvir (de forma explícita ou velada) que quem vota em determinados candidatos é “burro”, “pobre”, “mal informado”, “sem formação” ou “sem capacidade crítica”. Este tipo de discurso não é apenas ofensivo. É profundamente antidemocrático.

Reduzir milhões de cidadãos a rótulos simplistas é um sinal claro de arrogância moral e pobreza argumentativa. É substituir o debate por insulto. É trocar ideias por caricaturas. É, no fundo, declarar que só um determinado perfil social, económico ou académico tem legitimidade para decidir o futuro coletivo. Ora, a democracia não foi criada para premiar elites intelectuais nem para humilhar quem pensa de forma diferente. Foi criada precisamente para garantir que todos, independentemente da sua condição, escolaridade ou contexto, têm direito a voz e escolha.

Tratar o voto alheio como um erro de ignorância não revela superioridade ética; revela medo do confronto de ideias.

Este tipo de discurso cria fraturas perigosas. Divide o país entre “esclarecidos” e “atrasados”, entre “bons cidadãos” e “maus votantes”. Alimenta ressentimento, radicaliza posições e destrói pontes de diálogo. Pior ainda: empurra muitas pessoas para o silêncio, não por falta de opinião, mas por receio de humilhação pública.

O paradoxo é evidente. O voto é secreto para libertar o cidadão do medo, mas o espaço público transforma-se num palco de intimidação simbólica. Uma pressão que não vem do Estado, mas da opinião social amplificada. Uma pressão que não ameaça com punições legais, mas com desprezo, exclusão e julgamento moral.

Há também um fenómeno menos discutido, mas igualmente relevante. Muitas declarações públicas de voto não nascem apenas de convicções profundas. Nascem do medo de não falar. Medo de ser interpretado como cúmplice. Medo de ser associado ao silêncio. Medo de perder estatuto, relevância ou pertença. Em muitos casos, não se fala para defender uma ideia; fala-se para evitar um rótulo.

E isso deveria inquietar-nos.

Uma democracia madura não exige alinhamento público permanente. Exige capacidade de discordar sem desumanizar. Exige cidadãos capazes de ouvir argumentos sem precisar de os absorver. Exige, acima de tudo, confiança na inteligência, na autonomia e na dignidade do outro.

O verdadeiro contrassenso não está em alguém dizer em quem vota. Está em defender a democracia enquanto se tenta reduzir a liberdade emocional e intelectual dos outros. Está em proclamar a diversidade, mas apenas quando ela coincide com a nossa própria visão. Está em confundir esclarecimento com arrogância e convicção com superioridade moral.

Ser democrata, neste contexto, é recusar a lógica da pressão disfarçada de virtude. É rejeitar a ideia de que há votos nobres e votos indignos. É acreditar que cada português tem o direito e a capacidade de decidir por si, sem precisar de ser corrigido, iluminado ou envergonhado.

Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer não seja se as pessoas devem ou não declarar o seu voto. Talvez seja outra, bem mais incómoda: estamos a criar um espaço público que eleva o debate e respeita o cidadão ou um ruído permanente que fragiliza a democracia em nome da moral?

No fim, o voto continuará a ser secreto. A questão é saber se a nossa consciência coletiva ainda respeita verdadeiramente essa liberdade ou se tem medo dela.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Observador - Mais 4628 razões para votar pelo Seguro (Alberto Gonçalves)

 



(sublinhados pessoais)

Mais 4628 razões para votar pelo Seguro

Eu quero ser democrata, e um democrata não admite alternativas nem dissensões. Nós, democratas, temos de ser uns para os outros – e todos contra o Outro.

Faltam duas semanas para as eleições e, como é próprio das democracias consolidadas, o resultado está decidido: tem de ganhar o candidato que as pessoas virtuosas dizem que tem de ganhar. E as pessoas virtuosas dizem que tem de ganhar António José Seguro, sob pena de ganhar o Outro e afundar o país nas trevas do fascismo.

O dr. Seguro não é fascista. O dr. Seguro esteve com Guterres e nem por uma vez criticou as maravilhas do rendimento mínimo. O dr. Seguro esteve com Sócrates e jamais proferiu um ataque populista à corrupção. O dr. Seguro esteve na liderança do PS e nunca pactuou com a austeridade cega ditada pela “troïka” e aplicada pelo pérfido governo de Pedro Passos Coelho. O dr. Seguro só não esteve com Costa por meras vicissitudes do destino. O dr. Seguro é bom e humanista. Não acreditam? Perguntem-lhe. E é virtuoso, como os virtuosos que o apoiam e ao contrário da cáfila de filhos de uma mãe desavergonhada que não o apoiam. Tirando o pormenor de ser militante do PS há 45 anos, o dr. Seguro quase nem é socialista.

E não se trata apenas de uma questão ideológica. Está em jogo uma dimensão clínica. Com ponderação, Sérgio Sousa Pinto garante que somente os “atrasados mentais” [sic] hesitam entre o partido do Outro e o PS, leia-se entre o Outro e o dr. Seguro. Além de ninguém desejar ser fascista, ninguém deseja ser atrasado mental, pelo que não há hesitação possível quanto ao caminho a trilhar. Não basta não votar no Outro, é preciso votar no dr. Seguro. E não basta votar no dr. Seguro: é preciso anunciá-lo ao mundo (ou aos espectadores da Sic, vá) com toda a força que o desrespeito pelos pulmões e o respeito pelas instituições nos conferem.

Temos a obrigação cívica de espalhar o anúncio através dos meios que pudermos, nas televisões, nas rádios, nos jornais, nos cafés, nos escritórios, nos autocarros e nos jantares em família. Devemos gritar nas ruas (até às dez da noite, por causa dos vizinhos e da polícia) que estamos perante a eleição mais importante desde a insurreição de Viriato e que o voto em Seguro é decisivo para impedir que em dois meses Portugal se transforme na Alemanha de 1933. Ou no Portugal de 1973. Ou na América de 2026.

Assim, é com urgência e orgulho que eu, que não quero ser fascista, racista, xenófobo, homofóbico e columbófilo, e que não sou menos virtuoso que os demais, venho por este meio anunciar o meu apoio inequívoco ao dr. Seguro. À semelhança de cerca de 99,8% dos notáveis da nação, e de braço metaforicamente dado a socialistas moderadíssimos e democratas encartados do gabarito da dra. Temido, da dra. Leitão,  do dr. Pedro Nuno e do dr. Tavares, além do cançonetista Tordo, votarei Seguro no dia 8. Eu quero ser democrata, e um democrata não admite alternativas nem dissensões.

Nós, democratas, temos de ser uns para os outros – e todos contra o Outro. A divisão esquerda/direita é um instrumento insidioso dos fascistas e deixou de existir quando os democratas, sobretudo os da direita, decidiram aboli-la. Os democratas não dividem a sociedade, excepto para dividir a sociedade em Decentes contra Indecentes (os Decentes somos nós). E em Fascismo versus Civilização, sendo que na civilização cabem a direita civilizada, a social-democracia civilizada, o liberalismo civilizado, o socialismo civilizado, o comunismo civilizado, os civilizados adeptos do Hamas e o cançonetista Tordo. Acima das diferenças microscópicas e da divertida golpada de 2015, partilhamos os valores da integridade, sem esquecer a integridade de Catarina Martins, que no parlamento europeu protege os aiatolas do fascismo dos manifestantes. É como se navegássemos, unidos e fraternos, numa flotilha imaginária ao som da “Tourada”.

No Domingo, durante o discurso da vitória, o dr. Seguro deu o mote. Primeiro, prometeu “unir os portugueses”. Aplaudi. Depois especificou a que portugueses se referia: “Todos os democratas contra o extremismo de quem semeia o ódio”. Aplaudi de pé. Reparem que nem o dr. Seguro, paradigma supremo da tolerância e da benevolência e da inclusão, está disposto a incluir extremistas, para cúmulo dos que semeiam ódio com a enxada do radicalismo. Numa democracia cabem aqueles que os verdadeiros democratas permitem. Os portugueses que não são democratas de acordo com a concepção consagrada do termo – os fascistas e atrasados mentais que não votam no dr. Seguro – não são portugueses. Em nome do humanismo, o ideal era mandá-los para a terra deles. Infelizmente, parece que a terra dos fascistas é esta e os fascistas têm por enquanto o insuportável direito de aqui viver e, raios partam isto, votar.

E este é o problema. Os fascistas andam por aí. E são imensos. E teimosos. E não se esforçam por se integrar nem se importam de destoar. E rejeitam que os critérios da decência sejam impostos por um sistema político que lhes parece progressivamente promíscuo e indecoroso. E insistem em questionar a natureza de uma democracia que permanentemente os segrega e humilha. E multiplicam-se em relação directa ao escárnio que os democratas lhes dedicam. Ainda não se multiplicaram o suficiente para vencer agora, mas um dia os fascistas chegam lá – graças ao desalmado empenho de tantos humanistas que seriam fascistas se não obedecessem às directivas dos humanistas restantes. Por isso obedecem. E eu também: voto no candidato da decência para não ser fascista. E para desfrutar da liberdade. É mais Seguro.

Observador - O temível regresso dos Acácios (Nuno Lebreiro)

 



O temível regresso dos Acácios

Os grandes responsáveis por vivermos hoje de espinha vergada e mão estendida são também aqueles que hoje nos querem à viva força convencer que Seguro configura uma inevitabilidade nacional.

Para um país onde metade dos eleitores não exerce o direito de voto e o discurso público passa, genericamente, ao lado de tudo o que são as grandes questões do seu tempo, não pode deixar de ser um paradoxo a forma como o mundo mediático português se agita em frémitos de excitação com a “actualidade política”. Por estes dias, claro está, as eleições presidenciais cobrem o pleno da atenção — há que espremer a vaca até ao último clique — com a corrida ou, como muitos gostam de colocar a coisa, o “embate”, entre André Ventura, o novo enfant terrible da política nacional, e António José Seguro, o português detentor do record no Guiness para o político menos interessante do planeta.

Não me levem a mal, Seguro, para além do chavão, agora inevitável e por todos compungidamente repetido, que garante e certifica a sua impoluta honestidade, parece-me um indivíduo simpático. Ainda assim, apesar dessa aparente simpatia e apregoada honestidade, devo admitir que, não lhe conhecendo especial causa ou ideia, ainda me lembro dos tempos onde, quer liderando o PS quer por lá cirandando nos corredores, nos brindava com os lugares comuns do costume, repetindo com gosto e monótona convicção a mesma cassete dos grandes clássicos socialistas do nosso século — Guterres, Sócrates e Costa. Daí que, não levando a mal quem vá na cantilena, lamento, mas não a compro.

Desde logo, não sou socialista, pelo que vejo com natural apreensão, senão aversão, o discurso gasto, pobre e obsoleto com que Seguro se faz agora timoneiro apelando às grandes forças democráticas, humanistas e, para arrepiar os pelos da nuca, “progressistas”. Mais, vejo o partido socialista como a força política que piores danos causou a Portugal nas últimas décadas. Primeiro, foi com o PS que Guterres nos atirou de tanga para um pântano do qual, em boa verdade, nunca saímos, estando ainda hoje agarrados a um modelo de endividamento, estatização e centralização políticas. Depois, foi também com o PS, então com Sócrates — e Seguro confortavelmente sentado como deputado na Assembleia da República — que, entre 2005 e 2011, o socialismo nos afundou, aí já de fio-dental, no pântano ainda mais profundo da bancarrota. Finalmente, foi também o PS, desta feita com Costa, que após uma governação dificílima de Passos Coelho — bem-sucedida à conta de inúmeros sacrifícios exigidos aos portugueses —, os mesmíssimos socialistas, com os ventos soprando favoráveis devido à mudança de políticas do BCE e da UE, trataram de tudo desfazer, mandando borda fora a derradeira oportunidade de relançamento da prosperidade nacional neste primeiro quartel do Século XXI.

A verdade é que o PS custou-nos, não apenas décadas de desenvolvimento, isso é certo, mas, pior, desbaratou por porca conveniência política a soberania económica nacional face a Bruxelas naquelas que, somadas, terão sido as piores governações político-económicas dos últimos 100 anos em Portugal. Do mesmo modo, também não me esqueço que durante esta última década de vergonhosa destruição do país às mãos de um PS acolitado pela extrema-esquerda — hoje felizmente moribunda — Seguro manteve-se, como todos os bons socialistas, calado. Ou seja, não apenas foram o partido de Seguro junto com toda essa pandilha morta-viva da “geringonça” — uma tropa-fandanga que vale eleitoralmente o equivalente a dois Manuéis Joões Vieira — os grandes responsáveis por vivermos hoje de espinha vergada e mão estendida à espera das ordens de Von der Leyen, como são também esses que hoje nos querem à viva força convencer que Seguro configura uma inevitabilidade nacional.

Mais. Convém ainda recordar como toda essa gente tratou Passos Coelho, por eles apodado de terrível e tenebroso “fascista”, “racista”, masoquista, sádico político, bem como não sei mais quantos epítetos, ou “istas”, tantos quanto a hipócrita, parasitária e parola “inteligência” nacional se lembrou de atirar para as ventoinhas mediáticas, assim espalhando asneira, pouca-vergonha e falsidade, tal qual agricultor fertilizando o campo com estrume, em alta-rotação, sempre bem assistida pela jornalada de serviço — a mesma gente que agora propala Seguro como homem providencial repleto de virtudes.

Ora, se não é este mundo do “comentariado”, da “análise”, dos especialistas da especialidade mediática, um chafardel cobardolas que, sempre a coberto da unanimidade político-mediática, vilipendia o herói derradeiro da política nacional — Passos Coelho — enquanto eleva ao panteão da glória redentora da democracia nacional um homem — Seguro — cuja maior qualidade é a sua reconhecida banalidade, bom, se não é isto a prova cabal de que o mundo mediático é uma ridícula fraude que tudo perverte, então não sei que será.

Assim chegamos ao extraordinário manifesto de 250 almas que por estes dias circula apelando aos “não-socialistas” a votar no socialista Seguro. Esquecendo a evidente contradição, verguemo-nos desde logo perante o brilhantismo da oportunidade política. Que obra-prima social, literária, moral! Não admira que hordas, resmas, paletes, tudo o que é gente virtuosa, recomendável e “não-socialista”, todos pingando pura, doce e deliciosa democracia, se tenha unido em função do manifesto. Quantos não terão, estremecendo, vibrando, fremindo, acorrido a tentar assinar o papel! E quantos mais, coitados, não se terão quedado macambúzios, taciturnos, quebrantados, frustrados, por não ter alcançado tamanha honra e não terem ali conseguido colar o seu nome, brilhando, junto com os melhores dos melhores “não-socialistas” de Portugal…

Eis, caros leitores, ali, naquele papel, timbrado em astuta virtude, o sagaz pináculo da finíssima, depurada, pasteurizada, nata “não-socialista” nacional! Será, por isso, apenas curvados pelo peso de tamanho talento que poderemos intentar sorver os argutos argumentos ali plasmados, aqueles postulados capazes de esclarecer, iluminar e elucidar até as mentes mais obtusas sobre as superiores razões axiomáticas que nos forçam todos, moral e intelectualmente, a compreender, e aceitar, que na segunda volta presidencial apenas existe uma opção verdadeiramente democrática. Uma! A de Seguro, pois claro. Já a outra, naturalmente, coloca em risco o sistema, o regime, a democracia e, quem sabe, o equilíbrio climático do planeta.

Daí, um agradecimento estará, desde logo, na ordem do dia. Há que enaltecer o fervor democrático, a pura abnegação salvífica em prol do interesse nacional, que guia tão prestigiadas mentes “não-socialistas” a apelar ao voto no socialista Seguro, o novel redentor da pátria. E a nós, naturalmente, resta-nos interiorizar tão sábias palavras explicitando as razões pelas quais Seguro, apesar de socialista, pelo seu carácter excepcionalíssimo, merece tamanha unanimidade democrática.

Ora, mas que desilusão! Para pasmo meu, lendo-se o papel, chupando-se todas as linhas até ao tutano, memorizando-se tão insignes palavras para não perder pitada, percebe-se que as propaladas virtudes de Seguro, afinal, reduzem-se a uma e uma apenas: simplesmente, Seguro não é Ventura. Pelo contrário, dá-se o caso de ser uma outra pessoa. E essoutro, Ventura, esse sim, como explica sapiente e definitivamente o papel, é que é um vetusto demónio tenebroso que, vindo destruir a civilização tal qual a conhecemos, obriga a votar em Seguro. Daí que, trocando por miúdos, o erudito argumento se resuma de forma singela: Seguro é óptimo porque Ventura é péssimo, perigosíssimo, inaceitável. E, de facto, lamenta-se, mas há que reconhecer, consternados, que a elaborada e complexa sofisticação do raciocínio por parte de tão ilustre e numerosa parentela pariu, afinal, apenas um roedor de pequeníssimo porte.

Absorvido o choque, sobra uma conclusão deveras extraordinária: aquelas sumidades todas, tanta sapiência junta, tamanho vulto intelectual reunido, a mais altíssima racionalidade “não-socialista” portuguesa concertada e, apesar da pose moralista digna de um Conselheiro Acácio, partilham todos, afinal, a sagacidade política de Xi, o bosquímano do Kalahari que, de tanga, em Os Deuses Devem Estar Loucos, perante a revolução trazida para a sua comunidade por uma garrafa de Coca-Cola caída do céu,pensa que pode livrar-se do problema caminhando até ao fim do mundo e atirando-a abismo abaixo. É que também os nossos amigos “não-socialistas” imaginam que se livram de André Ventura, o intruso que lhes veio baralhar o esquema, deitando-o fora, que é como quem diz, unindo todo o sistema, todo o regime, todo o mundo mediático, toda a inteligência nacional e, em nome da Virtude, do Bem e da Democracia, expulsando-o penhasco abaixo para fora do sistema político.

Ora, mas o mundo não funciona assim. Aliás, já em 2020, aquando do célebre manifesto “A clareza que defendemos” — que não era nem claro, nem especificava o que defendiam — assinado por muitos dos mesmos que agora participam na declaração de voto “não-socialista” por Seguro, tive a oportunidade de reiteradamente lamentar toda a estratégia, pensamento e argumentação deste tipo como profundamente errada e contra-produtiva. Desde logo, ambos os documentos falham pelo tom moralista que apresentam. De dedo espetado no ar, os signatários apressam-se a explicar que existe uma disputa, que nessa disputa há apenas duas posições possíveis, que a deles é política, moral e democraticamente correta e, obviamente, a do outro lado, pelo contrário, será, não apenas errada, mas, mais relevante, democraticamente inaceitável.

São os signatários do papel, portanto, os hodiernos Conselheiros Acácios ao serviço da democracia nacional, aqueles virtuosos sábios que, representando a moral e os bons costumes democráticos, detêm alegada autoridade para decretar que o adversário, ali vilificado como, entre outras coisas, anti-democrático, portanto imoral, deverá, em nome dos mais altos princípios — em 2020 era a ordem liberal, agora é o regime democrático — ser simplesmente, como a garrafa de Coca-Cola, erradicado. É desse púlpito que os signatários Acácios, professando a profundeza, alteza e clareza dos mais elevados valores e princípios morais, se arrogam a exortar todos a pensar e agir como eles, ou seja, a votar como deve ser votado. Aliás, foi daí, desse pedante e ridículo moralismo, relembremos, que nasceram as célebres “linhas vermelhas”.

Tudo isso, como me fartei de atempadamente avisar em diversos artigos e no Linhas Direitas [podcast agora também aqui disponível em vídeo, releve-se a publicidade], foi um tiro no pé de toda a direita: primeiro, representou a capitulação face àquilo que a esquerda dominante nas redacções e nas academias definia como aceitável, ainda para mais copiando-lhe o tom e os modos; depois, dividiu a direita impedindo-a de efectivamente reformar o país, mal do qual ainda padecemos hoje numa oportunidade única que se vai esfumando; finalmente, ao colocar todo o sistema contra Ventura, ofereceu a este último toda a razão quando afirmava que apenas ele representava uma verdadeira alternativa ao sistema, precisamente aquele que se uniu contra si.

Vaticinei, na altura, o óbvio: tal isolamento apenas faria Ventura e o Chega crescerem exponencialmente na medida em que, em estando o sistema unido perante um adversário único, se forçaria tudo o que é eleitor descontente a votar na única opção que verdadeiramente se afirmava como diferente de todas as outras — e assim foi, em apenas 5 anos, desde o PCP até ao CDS, tudo se foi paulatinamente esvaziando para as mãos de André Ventura.

Pelos vistos, a direita Acácia não aprendeu nada. Vai daí e é vê-la agora aí toda empertigada, entusiasticamente reencarnada no manifesto “não-socialistas por um socialista”. Olhando de fora, tudo se repete: o tom moralista, a união de todos (os bons) contra o intruso (mau), a asneira de fazer depender a sobrevivência do regime e da direita “não-socialista” do apoio político, conformado, unânime, numa única solução, ainda para mais num socialista. Que os nossos Acácios acreditem nisso, tudo bem; agora que se arroguem mais uma vez a perorar a sua “verdade democrática” do mais alto dos pedestais passando um atestado de inimigo da democracia a quem não aceite a sua receita, isso apenas revela quão completamente incapazes são de compreender o mundo em que vivem — e tamanha incompetência sairá muito caro, não tanto a Seguro, que provavelmente sobreviverá, mas, principalmente, à direita portuguesa, uma vez mais dividida em nome da decência e dos bons valores que os iluminados do “comentariado” resolveram revelar aos incréus, mais uma vez para benefício do PS e demais acólitos da esquerda e extrema-esquerda.

Finalmente, há ainda um outro pequeno pormenor que escapa aos nossos Acácios: é que é precisamente esse tom moralista, unanimista, pseudo-virtuoso que já farta — e farta cada vez mais, cada vez mais gente. Farta o unanimismo mediático generalizado de comentadores medíocres que se repetem uns aos outros; fartam as palmadas nas costas de gente que, para garantir o poiso nas cadeiras giratórias dos estúdios de TV, se congratula mutuamente por dizerem as mesmas coisas; farta o labéu de isto ou aquilo pespegado a quem discorda, os eternos “istas”, com que esses “garantes da democracia” arrotam e se babam do alto da sua privilegiada posição face ao povaréu que, imaginado espectador obediente, deve agradecer a asneirada e a ignorância constantemente reverberada pelos media fora. Tudo isso farta, e já farta há muito tempo.

No fundo, aquilo que os Acácios não perceberam, e continuam sem perceber, é que é também deles e do seu patético pedestal que o povo está farto — e é por estar farto deles que vota em Ventura. E quanto mais os Acácios se indignarem e berrarem de dedo em riste, mais o povo votará em Ventura. Afinal, se a suprema e douta argumentação Acácia para votar em Seguro se resume ao facto deste não ser Ventura, então ninguém pode ficar admirado se houver muitos outros que votem em Ventura quanto mais não seja por este não ser Acácio.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Observador - Marc Carney: do merceeiro de Havel ao banqueiro de Davos - coragem zero, oportunismo total (João Maurício Brás)

 (sublinhados pessoais)



Marc Carney: do merceeiro de Havel ao banqueiro de Davos - coragem zero, oportunismo total

A ordem mundial colapsou por ser falsa: negou limites humanos, dissolveu vínculos, reduziu o cidadão a consumidor, a pátria a mercado, a cultura a produto, a política a gestão, a verdade a narrativa.

O discurso de Mark Carney em Davos (20 de janeiro de 2026) foi saudado pela comunicação social liberal-progressista como exemplar, corajoso e lúcido. Não o é. Trata-se da mais recente e sofisticada tentativa do liberalismo progressista de sobreviver ao colapso da ordem que ele próprio erigiu e de que beneficiou durante décadas. O primeiro ministro do Canadá anuncia a morte da “ordem internacional baseada em regras” como se descrevesse um acidente inevitável, uma “rupture, not a transition”, o fim de uma “pleasant fiction”. Na realidade, fala do fracasso histórico do seu próprio projeto ideológico. O liberalismo progressista não caiu por traição; caiu por ter sido aplicado na íntegra. Trump e outros fenómenos são efeitos, não causas.

Aqueles que hoje lamentam a “nova realidade brutal” são os principais arquitetos do desastre. Durante décadas, prometeram globalização regulada, justa, inclusiva e pacificadora. Entregaram desindustrialização, erosão das soberanias, dependências estratégicas letais, fragmentação social, erosão cultural e uma oligarquia tecnocrática cada vez mais desligada dos povos. A “ordem baseada em regras” nunca foi universal: foi hierarquia disfarçada, exceções convenientes para os fortes, e moral seletiva administrada por elites financeiras, jurídicas e mediáticas. Carney reconhece agora que essa ordem acabou, “the old order is not coming back”, mas falta-lhe a honestidade de admitir que foi ela própria que destruiu a credibilidade da regra. A “nova ordem” que acena não é renovação; é a velha ordem a tentar sobreviver num mundo desenraizado, de consumo e espetáculo, que se pretendia homogéneo e incontestável.

O Canadá integrou plenamente essa ordem dos mais fortes que essa elite agora denuncia com falsa humildade. A ordem liberal-progressista quis submeter o planeta, rotulando de antidemocrática qualquer recusa de capitulação. Implodida, os seus líderes deviam assumir as responsabilidades do poder hegemónico exercido sob disfarce de boas intenções. Carney não lamenta o significado perdido da ordem internacional; lamenta que ela já não dependa da sua ideologia. É verdade que o autor do discurso identifica corretamente a instabilidade crescente, a fragmentação do sistema internacional e o regresso da lógica de poder. O problema é que confunde o diagnóstico do colapso com a absolvição dos seus autores. A proposta de coordenação entre “potências médias”, “if you’re not at the table, you’re on the menu”, não é solução; é tentativa de salvar o cosmopolitismo tecnocrático sem o nomear. Troca-se o império por um condomínio de especialistas, mas mantém-se a lógica: decisões afastadas dos povos, legitimadas por “valores” abstratos, blindadas contra a política real e protegidas por retórica moral.

O banqueiro de Davos fala de realismo, mas recusa a realidade fundamental: as nações não são meras unidades económicas; são comunidades históricas. A política não é gestão de interdependências; é governo de povos concretos. A soberania não é detalhe técnico; é condição da democracia. A ordem verdadeira não nasce de regras abstratas; nasce de lealdades, limites, tradições e responsabilidade partilhada. O liberalismo progressista de Carney persiste em ver os conflitos globais como falhas de coordenação, quando são choques de civilizações, interesses vitais, identidades e visões morais inconciliáveis. A sua linguagem permanece pós-histórica; o mundo regressou ao trágico. Ao citar Havel e “living within a lie”, o merceeiro que retira o cartaz da montra, o orador aproxima-se da verdade que não ousa atravessar. A grande mentira do nosso tempo foi exatamente a de que o mercado global, a governação técnica e o progressismo cultural podiam substituir política, cultura e moral. Mas o “viver na verdade” de Havel, em O Poder dos Impotentes, não é estratégia geopolítica nem reconfiguração de alianças: é ato existencial, solitário, perigoso, muitas vezes autodestrutivo. O merceeiro arrisca tudo, vida, emprego, família, dignidade. Carney e as elites retiram o cartaz só agora que a “polícia”, a hegemonia complacente, já não vigia nem pune. Isso não é coragem; é adaptação tardia, oportunismo tardio. As referências a Tucídides, “the strong do what they can and the weak suffer what they must”, e a Havel iludem as lições verdadeiras: os Estados não caem por falta de valores; caem por má avaliação da sua posição real no poder. Os impérios criam regras enquanto lhes convêm e abandonam-nas quando limitam. Carney lamenta precisamente o fim dessa exceção conveniente para o Ocidente liberal. Substitui um cartaz por outro: as “hortaliças” deram lugar ao chavão vazio de “realismo baseado em valores”. Este discurso é emocionalmente apelativo, mas factualmente oco. Não existe “potência média coletiva” como sujeito histórico unificado; existem Estados com medos, horizontes e tolerâncias ao risco díspares. Se Havel fosse vivo, perguntaria a Carney: onde estavas quando a hipocrisia beneficiava o teu conforto? Se a ordem era má, porque viveste nela confortavelmente durante décadas? Quem denuncia a mentira do sistema sem nomear a própria cumplicidade permanece dentro dela. O novo conservadorismo recusa a nostalgia dessa ordem e a ilusão da sua reforma. Ela não colapsou por imperfeição; colapsou por ser antropologicamente falsa: negou limites humanos, dissolveu vínculos, reduziu o cidadão a consumidor, a pátria a mercado, a cultura a produto, a política a gestão, a verdade a narrativa.

A alternativa não está numa nova arquitetura multilateral desenhada em Davos. Está na restauração da política como destino comum, da economia como instrumento e não senhor, da cultura como raiz, da soberania como responsabilidade e da tradição como continuidade viva. Precisamos de pertença antes da interdependência, identidade antes da coordenação, soberania antes da regra, comunidade antes do sistema. Carney propõe resiliência sem pertença, cooperação sem identidade, ordem sem transcendência. Trump também não é a resposta. O liberalismo progressista quer salvar o mundo da história. O que importa é salvar a história do liberalismo progressista. Apesar da elegância retórica e da lucidez tática parcial, o discurso de Carney não é rutura. É o lamento de uma elite que percebeu a perda de controlo, mas ainda não entendeu porquê.

The Spectator - cartoon

 Palavras para quê?




Observador - A Alemanha depois de Merkel (Miguel Morgado)

 



A Alemanha depois de Merkel

A Alemanha procura agora outro rumo que a faça sair do actual impasse e por isso vira-se para a enfraquecida Itália apenas por ser ali onde mora um vago vestígio de liderança política.

Tem sido acontecimento recorrente ouvir o Chanceler alemão Merz desdobrar-se em afirmações públicas surpreendentes. Não que sejam controversas; pelo contrário, exprimem um bom-senso há muito ausente dos anúncios feitos por Berlim. São surpreendentes apenas porque a Alemanha habituou-nos desde há 20 anos a seguir a sujeição à fortuna, a navegar ao sabor dos ventos até chegar a sucessivos becos sem saída.

Mas, afinal de contas, o que tem dito Merz? Responsabilizou-se pela segurança da Ucrânia sem ambiguidades numa Europa pós-americana; afrontou sem concessões a ameaça russa (não conseguindo no final financiar o esforço de guerra com os activos russos “congelados”); comprometeu-se sem as hesitações anteriores com o rearmamento alemão; denunciou como um “erro estratégico grave” o abandono da produção de energia nuclear, o que tornou a transição energética alemã “a mais cara do mundo”, provocando a delapidação da sua lendária capacidade industrial; inverteu a política migratória e a retórica cultural da coesão social; exasperou-se com a estagnação reformista e a propensão burocrática do seu país e, por arrastamento, da Europa; advertiu que a dependência económica relativamente à China e o apagamento geoestratégico relativamente ao resto do mundo não eram mais sustentáveis. E tudo isto a partir de uma situação de fraqueza económica sem precedentes desde os “milagres” do pós-guerra, a par de um perigo igualmente inédito gerado pelo aparecimento de uma poderosa força política à sua direita. Dito de outra maneira, Merz está a tentar medir forças com o desastroso legado político da sua antecessora na chancelaria e na liderança da CDU, Angela Merkel. Fá-lo agarrado a um parceiro morto chamado SPD, irrecuperável no presente e desinteressado do futuro. As suas possibilidades de sucesso não são, pois, risonhas.

Em Portugal, a discussão sobre a orientação alemã foi reduzida ao interesse partidário mesquinho e à ignorância mediática igualmente alinhada. Em 2011, Merkel era uma espécie de filha mais velha de Hitler, como os cartazes que os artistas do costume preparam para recebê-la quando ela visitou o país em 2012 no auge da crise financeira. Numa altura tão longínqua da nossa tenra consciência moral, em que o ódio político e a crispação eram piamente valorizados como sinónimos de heroísmo cívico e pose respeitável, Merkel foi vilipendiada como a maestrina perversa das desgraças portuguesas, o que ajudava a camuflar as responsabilidades de quem, cá dentro, atirara o País para o fundo.

Poucos anos mais tarde, em 2015, e sem que tal salto mortal provocasse espanto, Merkel aparecia como uma nova santa padroeira dos descamisados. Tal conversão era facilmente explicável. A Evita Péron germânica abrira as fronteiras alemãs às imigrações e aos refugiados, convocando todos os cantos do mundo para uma deslocação evidentemente impossível, mas não sem evitar todas as desgraças humanas e sociais que se lhe juntaram. O programa de assistência português terminara. Estava em curso a recuperação económica e um governo das esquerdas já no nosso povo. Merkel podia finalmente deixar de ser fascista no imaginário nacional e projectava-se para o panteão estreitamente seleccionado da “decência”.

Sem surpresas, o escrutínio português terminou aí. Por cá apreciamos mais do que qualquer outra coisa estas ilusões e mentiras mais ou menos ignóbeis desde que sejam convenientes à agenda de quem está habituado a mandar. O problema veio depois. Aos poucos lá se foi descobrindo que Merkel deixara a Alemanha estagnada, com uma infraestrutura decrépita, um tecido social em ruptura, uma dependência escandalosa da energia da Rússia em conluio com a corrupção do SPD de Schröder. Sacrificara todo e qualquer posicionamento geoeconómico à exportação de automóveis e máquinas-ferramentas para a China, derrotara cada um dos valores éticos e políticos substantivos ao lado da invasão woke e multiculturalista. A política de Merkel foi, enfim, a total ausência de impulso reformista e a cedência à gestão quotidiana do poder sem rumo nem estratégia. Como correlativo desta lista de abdicações e impotências, a AfD, insignificante 10 anos antes, disparou para, não obstante as ligações sinistras a poderes duvidosos, ameaçar a estrutura do sistema político alemão que sustentou a prosperidade e a liberdade da república federal em tempos sediada em Bona.

Neste bloqueio e em circunstâncias problemáticas, a Alemanha procura agora outro rumo que a faça sair do actual impasse. Estando a França a braços com um sistema político bloqueado à espera de ser sacudido pela violência das fracturas sociais a que preside, a Alemanha vira-se para a enfraquecida Itália apenas por ser ali onde mora um vago vestígio de liderança política.

Enganam-se os que em Portugal julgam que isto são assuntos distantes. Desde a revolução democrática que a nossa sorte esteve inteiramente dependente da âncora europeia. Sem ela, a democracia que hoje se apregoa não teria vindo à existência, nem a economia que, não sendo brilhante, nos afasta dos horrores da pobreza de outras paragens. Isso foi verdade em 1983, em 1986, em 1989, em 1999, em 2011, tal como é verdade hoje. Sucede que a “Europa” que nos salva do perigo foi, em larga medida, a Alemanha e arredores. O governo em funções e o anterior que o digam, pois vivem da manhã à noite das maravilhas do PRR e da segurança e estabilidade institucionais que importamos todos os dias da Europa. Sem a Alemanha da prosperidade e da confiança em si mesma, essa Europa pura e simplesmente não existe. Convém cuidar dela para que ela cuide de nós.

Teatro - Tarzan

 Em 03.10.2025 e 04.10.2025 fizemos 3 sessões do Tarzan com a Plateias D'Arte.












segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

The Spectator - Environmental regulations are killing nuclear power

 (personal underlines)


Environmental regulations are killing nuclear power

Sizewell B (photo: iStock)

There is no greener form of power than nuclear power. It emits less carbon and uses less space per megawatt than any other form of power. Yet rules designed to protect nature have made it far more expensive than it needs to be and put it at a competitive disadvantage when competing against dirtier and more land-hungry forms of power. This is the reason why Hinkley Point C, when finished, will be the most expensive nuclear power plant ever built on Earth. 

So, what’s that got to do with the price of fish? A lot, actually. The Nuclear Regulatory Taskforce, a group appointed by the PM to figure out how to get the UK’s extreme nuclear construction costs down, have published a scathing report. It is full of infuriating examples, but none more so than the lengths to which EDF were forced to go to protect a tiny number of fish.

Hinkley Point C’s ‘Fish Disco’ has become a symbol of the absurdity of Britain’s planning system. At a cost of £50 million, speakers will be installed to play jumbo-jet level noise to deter fish from entering the water intake pipe. EDF fought the requirement for years – they were concerned for the safety of divers employed to repair the speakers – but eventually gave in when the dispute dragged on for so long that a safer alternative was developed.

The ‘fish disco’ is just the tip of the iceberg. EDF are also spending £150 million on a ‘world first’ fish recovery and returns system and half a billion on special water-intake heads. All in all, £700 million is being spent on fish protection. And how many fish are we protecting? Around a hundred per year. In other words, we will spend around £230,000 per fish saved over the next 25 years. It is an indefensible waste of money. It will make electricity more expensive at a time when it is crucial for both the economy and the climate that it gets cheaper. 

If nature is your priority, then it should anger you too. We could do much more to protect wildlife for much, much less. The report cites the example of a project that removed a weir and reopened up to 160 kilometres of natural habitat to salmon. It cost just £100,000, or just over a third of what Hinkley Point C spent saving a single fish.

In one case, EDF were required to develop, build, and operate a water treatment plant to remove trace levels of naturally occurring metals from groundwater before it was discharged into the Severn Estuary. The miniscule environmental benefit from removing the naturally occurring metals was almost certainly outweighed by the environmental impact of the treatment plant, which itself requires energy and chemicals. On top of that, regulators forced EDF to discharge the water 500 metres offshore. This required a longer pipe, which cost £60 million to build.

Sizewell C’s environmental impact assessment stretched to 44,000 pages (or 80,000 if you include all the supporting documentation). It is striking how ‘into the weeds’ these assessments get. The assessment included modelling on pilings driven into the seabed which looked at ‘the three-decibel difference in sound depending on which hammer would be used.’

Renewable campaigners and nuclear advocates often find themselves on opposite sides on the debate about energy policy, but one area where there should be consensus is on the impact of the EU-derived Habitats Regulations.

For every nuclear power station spending £230,000 to save a fish, there’s an offshore wind farm spending the same to save a guillemot. The taskforce cite the example of three windfarms that are stuck in planning limbo because they might damage a bit of seabed where a rare worm could be.

Every member of the public has an interest in knowing the cost of environmental mitigations like the ones above. We are the ones who ultimately end up paying for them – either in higher bills, or as with HS2’s bat tunnel, in higher taxes. Yet, the public is mostly kept in the dark.

The regulators and ministers deciding on projects typically don’t get information about the cost either. One of less radical suggestions in this radical report is to change the rules so developers include a cost estimate in their environmental assessment of any mitigation measure that is potentially over £500,000.

If decision makers could easily see just how bad these regulations are, then I suspect they wouldn’t blink before implementing the report’s more radical measures. The best of these is the idea to create a massive government-run nature fund that nuclear developers could pay into, at a cost of up to £1 million per acre, instead of having to provide expensive fish discos and extra-long discharge pipes. For Hinkley Point C, this could cost as much as £430 million. Even so, that’s still less than they spent on fish protection.

Observador - Esquerda, Irão e Venezuela (Rodrigues do Carmo)

 




(sublinhados pessoais)

Esquerda, Irão e Venezuela

Reina o silêncio. Nenhum voto. Nenhuma vigília. A Dra. Leitão não parece preocupada. A morte, quando não envolve os Estados Unidos ou Israel, deixa de ser politicamente excitante.

Há muito que a esquerda portuguesa desistiu de compreender o mundo. Mas raramente o fez com a alegria performativa destes últimos dias.

Na última semana voltou a cumprir a sua função essencial de se manifestar com solenidade moral, linguagem indignada e completo alheamento da realidade. Em Lisboa e noutras capitais europeias, desfilou indignada “contra a agressão à Venezuela e ao Direito Internacional”, empunhando faixas, berrando slogans e exibindo a mesma convicção com que, há poucos meses, marchava mascarada de tartaruga ninja do Hamas, melancias à lapela, keffiyehs ao pescoço, como se o ridículo resolvesse os problemas do mundo.

O embaraço começou quando a encenação deu de caras com venezuelanos reais e não os indivíduos abstractos da bolha ideológica. Gente que fugiu. Gente que atravessou fronteiras a pé. Gente que deixou filhos, pais, casas e mortos para trás. E que, em vez de se juntar ao protesto contra a “agressão”, festejava. Festejava a captura de Nicolás Maduro, criatura que, no léxico progressista, é simultaneamente uma vítima do imperialismo e uma “figura complexa”. Como todos os ditadores e torcionários, desde que façam as suas malvadezas em nome de uma causa que agrade à esquerda zangada.

Mas convém começar pela realidade, lugar que esta gente raramente frequenta. Nicolás Maduro (des)governou a Venezuela durante mais de uma década, dando continuidade ao “milagre” socialista de Hugo Chávez, e conseguiu transformar um dos países mais ricos da América Latina numa experiência de miséria estrutural. Hiperinflação, fome, colapso dos serviços públicos, eleições de faz-de-conta, opositores presos, exilados ou mortos. Sete a oito milhões de venezuelanos fugiram. Um detalhe!

O importante é denunciar “a agressão”. Sempre a agressão. Do agressor certo. O padrão repete-se, com notável coerência, no rectângulo à beira-mar plantado. Em Lisboa, a Dra. Leitão, do Partido Socialista, decidiu patrocinar um voto de protesto pela morte de uma cidadã americana numa operação policial nos Estados Unidos. A cidadã, numa decisão trágica, investiu com o carro contra um agente armado que bloqueava a viatura. O agente disparou.

As opiniões divergem: legítima defesa ou uso excessivo da força? O que não diverge é a existência, nos Estados Unidos, de um sistema judicial funcional, capaz de investigar, julgar e condenar, se for caso disso. Um sistema que dispensa as lições de Direito dadas pela Dra. Leitão e pela ala vigilante da esquerda lisboeta.

Mas enquanto em Lisboa se sinaliza virtude, no Irão morre-se sem cerimónia. Centenas, talvez milhares, de iranianos e iranianas foram mortos deliberadamente pelo regime teocrático. Não por erro. Não por acidente. Mas porque ousaram sair à rua e pedir liberdade. Execuções sumárias, tortura, prisões arbitrárias. Aqui não há ambiguidades. Aqui há repressão nua e crua. E, no entanto, reina o silêncio. Nenhum voto. Nenhuma vigília. Nenhum acampamento universitário. A Dra. Leitão não parece preocupada. A morte, quando não envolve os Estados Unidos ou Israel, deixa de ser politicamente excitante.

A estridência vem sempre do mesmo lado. Da esquerda profissional da indignação, instalada nas universidades, nas ONG subsidiadas, nos partidos que vivem do protesto. Uma esquerda que só reconhece vítimas quando estas encaixam na narrativa e só reconhece crimes quando o alegado criminoso fala inglês ou hebraico. Uma esquerda cujo cérebro ético tem um hemisfério inteiro paralisado, enquanto o outro se agita em fúria selectiva.

E, no entanto, a realidade insiste em existir. Enquanto o PS aprova votos simbólicos, no Irão sucede algo de verdadeiramente sério. Os iranianos perderam o medo. Mulheres queimam o véu em público. Estudantes enfrentam a polícia. Trabalhadores fazem greves. Pessoas saem à rua sabendo que podem não regressar. Quando um povo deixa de temer a morte, nenhuma tirania sobrevive indefinidamente. O regime dos aiatolas pode ainda impor, à bala, parênteses de silêncio, mas não pode voltar atrás. Cada morto é uma fissura irreparável.

O regime iraniano não assenta em “diferenças culturais”, como gostam de explicar os antropólogos de serviço. Assenta na negação sistemática das liberdades humanas mais básicas.

O ícone desta revolta, mulheres sem véu a acender um cigarro com a fotografia em chamas do aiatola, resume tudo o que a esquerda se recusa a encarar. A liberdade começa na simples decisão de uma mulher não ter de se esconder. E perante isto, o feminismo institucional cala-se. Sempre pronto a protestar quando a vítima é agredida pelo agressor “certo”, sempre ausente quando as mulheres são esmagadas pelos homens errados.

A explicação é simples, embora moralmente repugnante. A esquerda europeia, e a portuguesa em particular, vivem da fantasia de que tudo o que se opõe à democracia liberal merece indulgência. Caiu o comunismo, caiu o Muro, e a esquerda órfã apaixonou-se pelo islamismo político como novo símbolo de resistência ao Ocidente. O antiamericanismo tornou-se critério de virtude. A democracia liberal, pecado original. E Israel, encarnação do mal absoluto.

Por isso, Gaza enche avenidas e o Irão cabe à vontade na Rua da Betesga. Por isso, Israel e os Estados Unidos são julgados com lupa, enquanto os aiatolas executam manifestantes sem acordar ninguém no Largo do Rato, no ISCTE ou na Assembleia Municipal de Lisboa.  A esquerda não escolhe causas pela justiça. Escolhe-as pelo proveito ideológico.

Isto não é apenas hipocrisia ocasional. É método. E enquanto persistir, continuará a distinguir vítimas de primeira e de segunda, ditaduras toleráveis e intoleráveis, mortes que merecem cartazes e mortes que merecem silêncio ou até aplauso, como as israelitas.

A esquerda portuguesa, entre votos simbólicos, manifestações carnavalescas e seminários bem financiados, continua a escolher a ignomínia. E, incrivelmente, continua a reivindicar superioridade moral.

Almoço Fontanelas

Almoço em 16 de Janeiro de 2026 em Fontanelas, na sociedade com Paulo Santos, Tó Zé Sardinha, eu, Pedro Teixeira e Zé Luis Nascimento.



















continua "em projecto"...


Reflexão (LBC) - As presidenciais

Agradeço a onda de apoia, perdão, apoio daqueles meus camaradas que ao longo destes anos não me ligaram a ponta de um chavelho, antes me enxutaram do partido, mas que agora aparecem todos com o rabinho a dar a dar! Este é o VERDADEIRO PARTIDO SOCIALISTA!




E eu a julgar que ía ser presidente. O dinheiro que gastei em drones para me filmarem de cima...

Onde é que falhei? Tantos anos a estudar para fazer comentários da treta na televisão, e é esta a paga!! Este povo é esquisito!






A rir, a rir...eles não se enxergarão?



E continuam a rir...Feitios!...

















sábado, 17 de janeiro de 2026

Polemia - Les COP, des grandes messes inutiles

(soulignements personels)



 


Les COP, des grandes messes inutiles


Samuel Furfari, qui est ingénieur, docteur en sciences appliquées, enseignant en sciences politiques et auteur d’une vingtaine d’ouvrages, a travaillé durant trente-six ans à la Direction générale de l’énergie de la Commission Européenne. Son dernier livre, La Vérité sur les COP — Trente ans d’illusions (Éditions L’Artilleur, 336 pages, 20 euros), préfacé par Carlo Ripa di Meana, ancien commissaire européen à l’environnement et ancien ministre italien de l’environnement, « raconte de l’intérieur les méthodes de fonctionnement et les contradictions de ces gigantesques réunions au très fort retentissement médiatique ».

1. La question du dérèglement climatique anthropique
2. Une idéologie globaliste
4. Trente années de COP

La question du dérèglement climatique anthropique

Ce livre ne traite ni de la science du climat ni des rapports du GIEC : « Le débat scientifique est devenu si polarisé, voire clivant, qu’il discrédite ceux qui remettent en question certains de ses aspects. La controverse actuelle sur l’impact de l’homme sur le climat, bien que présentée comme un débat clos par les médias dominants, reste vivace dans certains cercles. L’opposition à ce qui est perçu comme un dogme scientifique persiste, alimentée par des arguments sérieux, mais freinée par l’inégalité des moyens et par les intérêts financiers colossaux qui soutiennent la position dominante. »

Le préfacier décrit quant à lui la manière dont sa position « a progressivement évolué jusqu’à se renverser » : « Je ne crois plus dans le dogme du réchauffement climatique causé par l’homme et, par conséquent, je ne crois plus à l’origine anthropique de l’effet de serre. […] En réalité, le climat évolue constamment et cette évolution dépend de nombreux facteurs tels que la composition chimique de l’atmosphère, la dynamique des grandes masses océaniques, les champs magnétiques produits par le “vent solaire” et la trajectoire parcourue par la Terre dans la galaxie, pour n’en citer que quelques-uns. […] En Italie, ainsi que j’ai pu le constater à l’occasion de diverses rencontres au cours de ces dernières années, une bonne partie de la communauté scientifique pense comme moi. »

Une idéologie globaliste

La genèse intellectuelle de la pensée environnementale contemporaine est issue des travaux du Club de Rome, fondé en 1968 par des industriels, des scientifiques et des hauts fonctionnaires inquiets de la croissance démographique et économique dans une « planète finie ».

En 1991, ce groupe de réflexion « dévoile le ressort profond de sa démarche » en écrivant que son objectif vise à « fédérer l’humanité autour d’un ennemi commun, non plus militaire ou idéologique, mais environnemental », prescrivant ainsi une transformation profonde des sociétés au nom de la préservation de la planète.

Le rôle des ONG

Dans l’Union européenne, les ONG écologistes assignent régulièrement en justice les États qui ne se conforment pas aux objectifs ou aux principes issus des conventions internationales. Fortes du soutien d’un appareil médiatique militant, ces organisations savent que des juges leur donneront raison, y compris en l’absence de textes juridiquement contraignants.

La situation est encore aggravée quand les instances internationales sont elles-mêmes largement influencées, voire infiltrées, par des activistes issus des ONG.

Trente années de COP

En 1995, les Nations Unies organisent la première Conférence des parties (COP), c’est-à-dire des États signataires, qui rassemblera chaque année des milliers de délégués scientifiques, des responsables politiques et des ONG du monde entier dans l’objectif d’analyser et de limiter l’augmentation de gaz à effet de serre.

Cette conférence se tient en Allemagne, qui s’impose comme leader de la diplomatie climatique durant cette période de recomposition mondiale post-Guerre froide. Depuis 1996, Bonn accueille également le siège du secrétariat de la convention-cadre des Nations Unies sur les changements climatiques.

La COP3, au Japon, fixe pour la première fois des objectifs chiffrés de réduction des émissions pour les nations industrialisées, bien que le représentant américain ait averti qu’il n’était pas question de « décider de la taille des réfrigérateurs des citoyens américains ».

La COP6, au Pays-Bas, est suspendue sans accord en raison d’une absence de consensus, avant de reprendre quelques mois plus tard en Allemagne. « Ce report illustre la difficulté de parvenir à un compromis sur des enjeux aussi complexes, où se mêlent intérêts économiques, énergétiques et considérations de souveraineté nationale. »

La COP15, au Danemark, voit également l’illusion d’un consensus se dissiper, les pays émergents du Sud refusant de s’engager sans contreparties substantielles et les États-Unis n’étant pas prêts à ratifier un accord international contraignant du fait de l’opposition du Congrès américain.

« Depuis lors, les chefs d’État se montrent plus prudents : ils assistent à l’ouverture des COP, posent pour la photo de famille et prononcent des discours, mais évitent d’être présents lors des conclusions, laissant aux négociateurs le soin d’assumer les échecs ou les compromis décevants. »

La COP19, en Pologne, « restera dans les annales comme un sommet où l’on a surtout brillé par l’art de sauver les apparences ». Le pays organisateur accueille également un sommet international sur le charbon, dont elle est grande productrice.

La COP21, en France, mobilise toute la diplomatie et les médias nationaux pour éviter de réitérer l’échec de Copenhague. Le ministre des Affaires étrangères Laurent Fabius, qui la préside, déclare solennellement : « Il y aura un avant et un après-COP21. »

L’accord de Paris prévoit ainsi que les signataires s’engagent à contenir la hausse de la température mondiale bien en dessous de 2°C par rapport à l’ère préindustrielle, tout en poursuivant leurs efforts pour limiter cette hausse à 1,5°C.

« Malgré son importance symbolique, l’accord repose avant tout sur la bonne volonté des États et la pression politique plutôt que sur des mécanismes de contrôle et de sanction contraignants. » En réalité, les pays s’engagent simplement à « poursuivre les efforts », tout en sachant que respecter le seuil indiqué supposerait des changements radicaux dans les modes de vie, les économies et les systèmes énergétiques.

La COP24, en Pologne à nouveau, réunit près de 8 000 participants dont 406 pour la seule délégation guinéenne ! De son côté, la France n’est représentée que par 188 personnes… Greta Thunberg fait également sa première apparition médiatisée.

Au même moment, le mouvement des Gilets jaunes contraint le gouvernement français à faire machine arrière sur l’augmentation de la taxe carbone sur les carburants, une mesure censée incarner la détermination de la France à réduire ses émissions de CO2.

La COP26, en Écosse, voit le nouveau converti à l’écologisme, le Premier ministre britannique Boris Johnson, échouer complètement dans son projet de « sortie du charbon », en raison notamment de l’opposition de la Chine et de l’Inde, grands consommateurs de ce combustible fossile.

Les COP27 et 28, qui se déroulent respectivement en Égypte et aux Émirats arabes unis, marquent « un tournant significatif dans les conclusions de ces grands rendez-vous climatiques, jusqu’alors largement influencés par les militants écologistes et l’Union européenne ».

Dubaï, l’un des plus grands producteurs mondiaux de pétrole, accueille 85 000 participants ! « D’année en année, la COP bat ses propres records d’affluence, au point que l’on se demande si l’objectif n’est plus de sauver le climat, mais de battre le record du monde des rassemblements diplomatiques. »

Lors de cette COP28, Vladimir Poutine se rend en visite officielle à Abou Dhabi sans se rendre sur le site de la conférence, témoignant ainsi du peu de considération qu’il porte aux sommets climatiques. « La signature de l’accord de Paris par la Russie ne doit donc pas être interprétée comme une adhésion sincère aux objectifs climatiques, mais plutôt comme un calcul géopolitique. En s’engageant formellement, Moscou renforce la dynamique d’autopénalisation de l’Union européenne, qui multiplie les contraintes sur son industrie et son économie, tout en préservant ses propres intérêts énergétiques et stratégiques. »

La COP29 se tient en Azerbaïdjan, qui est devenu « un acteur incontournable du marché pétrolier mondial et un fournisseur croissant de gaz naturel ». « Alors qu’elle ne cesse d’appeler à la décarbonation, Ursula von der Leyen a récemment exhorté le président Ilham Aliyev à doubler les exportations de gaz azerbaïdjanais vers l’Union européenne, illustrant ainsi les contradictions flagrantes entre les discours officiels et les réalités géopolitiques. » Pour cet homme d’État, il n’est pas question, comme le résume l’auteur, « de sacrifier la stabilité sociale ou la croissance économique sur l’autel d’objectifs climatiques irréalistes, imposés par des militants ignorant les réalités du terrain ».

De fait, cette conférence constitue un échec pour les activistes climatiques en raison de la réalité des rapports de force internationaux : « Le véritable tournant a été la prise de conscience que la lutte contre les émissions de CO2, telle qu’elle était portée par certains courants européens, cachait en réalité une volonté d’imposer un modèle de décroissance incompatible avec les aspirations de la majorité des pays du monde. »

Qu’attendre de la COP30 au Brésil ? « Un festival de bonnes intentions jetables, d’universalismes creux et d’autosatisfaction climatique. […] Le nouveau tourisme militant a encore de beaux jours devant lui sur les rives de l’Amazone… jusqu’à la prochaine déforestation record. »

***

La population mondiale croissante aspirant à une plus grande prospérité, « et donc à une énergie abondante et bon marché, comme le souhaitait l’Union européenne avant sa conversion à l’écologisme, […] les impératifs économiques et sociaux, ainsi que la nécessité d’un approvisionnement énergétique sûr, rendent improbable une réduction de la demande de combustibles fossiles ».

« Seule l’Union européenne continue d’accorder une importance quasi dogmatique à l’accord de Paris, quitte à compromettre délibérément sa propre compétitivité industrielle. ».

« La réalité, c’est que l’industrie européenne se délite, que les emplois se déplacent ailleurs et que les citoyens se lassent d’assumer la facture d’une politique climatique synonyme de suicide économique. »

Johan Hardoy
25/11/2025