(sublinhados pessoais)
Entre o centrão e o voto útil
Continuam a perguntar-se como é que Trump, Ventura e afins foram possíveis, em vez de se perguntarem que mundo os tornou possíveis; que mundo permitiu que só eles agitem as estagnadas águas sistémicas
Para parte substancial dos eleitores, estas presidenciais são um pantanal que torna difícil qualquer escolha ou vontade de escolha.
Candidaturas inúteis, há muitas, sobretudo as três anuladas que vão continuar a figurar nos boletins de voto para confundir ainda mais o povo; candidaturas úteis, ou seja, que vão oscilando nas sondagens mas com viabilidade de passar à segunda volta, há uma da Direita – André Ventura – e quatro do Centrão – António José Seguro, Gouveia e Melo, Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes.
E há uma novidade. Os candidatos da Extrema Esquerda – do Partido Comunista, do BE, do Livre e do PAN – não chegarão, todos juntos, a 10%, apesar de, na comunicação social, funcionarem como se representassem aí uns 50% do eleitorado. Encolheram agora nas urnas, mas há cinquenta anos, também sem maioria popular, foram eles e os seus predecessores ideológicos que, instrumentalizando o MFA, fizeram os maiores estragos como mentores da ditadura militar de geometria variável que, a partir de 28 de Setembro de 1974 e até 25 de Novembro de 1975, dominou o país. Pode mesmo dizer-se que, entre a “descolonização exemplar” que inspiraram – com a cumplicidade do Dr. Soares, a indiferença dos dirigentes do PSD e do CDS e o braço do MFA – e as nacionalizações que se seguiram ao 11 de Março, ditaram o Portugal que ficou. É uma coisa que a propaganda tem vindo a tapar mas que, aos poucos, os portugueses vão percebendo. A baixa significativa de popularidade destes partidos, e agora dos seus candidatos, é sinal disso.
A Esquerda e o voto útil
Para esta Esquerda não há, assim, voto útil. Se acaso algum esquerdista quiser ser útil na primeira volta, terá de votar num dos candidatos do Centrão. Mas em quem? Só se, tapando a cara do candidato com uma mão, votar pelo Seguro com a outra. Marques Mendes, alinhado com o poder e com os poderes, estará fora de questão; Cotrim, ainda que as suas posições em matéria de família e costumes, nação e Europa, não se afastem muito das da Esquerda, é indissociável do patronato e demasiadamente liberal economicamente para ser considerado; e o Almirante Gouveia e Melo, apesar da serenata dada às “forças do progresso” na caça ao voto útil e da alardeada simpatia pelo Dr. Soares, não parece reunir as credenciais… e é militar. E pela mesma razão que a Direita gosta tradicionalmente de fardas (a ponto de, no Verão de 74, haver quem achasse que Vasco Gonçalves, por ser coronel, “ia pôr isto na ordem”), a Esquerda, apesar do 25 de Abril e do MFA, continua a desconfiar dos militares.
Já para os eleitores do Centrão, o tal Centrão que o Almirante, situando-se rigorosamente num ponto intermédio entre o PS e o PSD, gostaria de captar por inteiro, multiplicam-se as opções e complica-se a escolha. Tanto Seguro como o Almirante, tanto Cotrim como Marques Mendes reclamam o seu voto, o voto do Centrão.
Entretanto a Direita nacional-conservadora e nacional-popular só tem uma opção possível: André Ventura. É, por isso, natural que Ventura esteja à frente nalgumas sondagens, podendo, eventualmente, passar à segunda volta. Se assim for, é também natural que o candidato do Centrão que passe com ele venha a ser eleito, uma vez que, numa segunda volta, é mais do que certa a mobilização d e uma “frente anti-fascista”.
Basta ver o que em França tem vindo a acontecer na segunda volta das presidenciais: Jean-Marie e Marine Le Pen ficaram em primeiro lugar na primeira volta, mas perderam na segunda, gerando a convergência da Esquerda, do Centrão e do Centro-Direita. Em 2027 talvez já não haja 50% de “antifascistas” na segunda volta, possibilidade que ditou o recurso preventivo à manipulação judicial para impedir Marine de concorrer. Infelizmente, parece que o jovem Jordan Bardella reúne os mesmos apoios da líder do Rassemblement National, substituindo-a até com vantagem.
A pedra no charco
A bem ou a mal, André Ventura tem conseguido fazer a diferença no caldo morno da política doméstica. Ventura não deixa de ser um político que vem do sistema, um político academicamente mais qualificado do que a maioria dos outros, mas um político saído do PSD.É, porém, um político que, a partir do sistema, viu que os partidos à direita do PS, em quase meio século, não tinham sido capazes de se curar do medo das etiquetas que a Esquerda sempre colou e continua a colar a quem a enfrenta a sério e sem medo: salazarista, fascista, nazi, xenófobo, racista, populista, estúpido, crente, retrógrado, inculto, boçal, maligno… detentor, enfim, de todas as insuficiências e de todos os excessos, de todas as inferioridades e fobias, de todos os pecados e patologias.
Foi manipulando este medo que a Esquerda dissuadiu a AD, nas suas versões várias, de invocar valores de Direita como Deus, Pátria, Família, por serem “valores salazaristas”. Ora o problema é que os líderes dessa direita da Esquerda não viram que esses mesmos valores podiam e deviam ser defendidos em Democracia, e se foram progressivamente alheando da realidade do país e do seu próprio eleitorado.
Também não viram que o Ocidente estava a mudar e que as soluções tímidas ao centro, ou a mera identificação da Direita com a economia liberal, era pouco, já não chegava. Não viram porque não quiseram ver, porque entraram num mundo paralelo onde reina uma ordem internacional liberal que já morreu. Também não viram nem querem ver que os oitenta anos de paz no Ocidente desde 1945 tiveram menos que ver com o Direito Internacional e as Nações Unidas do que com a posse de armas nucleares pelas grandes potências.
E continuam a perguntar-se como é que Trump, Ventura e afins foram possíveis, são possíveis, em vez de se perguntarem que mundo os tornou possíveis; que mundo, que ordem e que práticas sociais e políticas levaram a que só a pedrada no charco de uma qualquer excentricidade e radicalidade de “extrema-direita” consiga agitar as estagnadas águas sistémicas, incapazes de saciar quem quer que seja e de responder à realidade.
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