segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Observador - Esquerda, Irão e Venezuela (Rodrigues do Carmo)

 

(sublinhados pessoais)

Esquerda, Irão e Venezuela

Reina o silêncio. Nenhum voto. Nenhuma vigília. A Dra. Leitão não parece preocupada. A morte, quando não envolve os Estados Unidos ou Israel, deixa de ser politicamente excitante.

Há muito que a esquerda portuguesa desistiu de compreender o mundo. Mas raramente o fez com a alegria performativa destes últimos dias.

Na última semana voltou a cumprir a sua função essencial de se manifestar com solenidade moral, linguagem indignada e completo alheamento da realidade. Em Lisboa e noutras capitais europeias, desfilou indignada “contra a agressão à Venezuela e ao Direito Internacional”, empunhando faixas, berrando slogans e exibindo a mesma convicção com que, há poucos meses, marchava mascarada de tartaruga ninja do Hamas, melancias à lapela, keffiyehs ao pescoço, como se o ridículo resolvesse os problemas do mundo.

O embaraço começou quando a encenação deu de caras com venezuelanos reais e não os indivíduos abstractos da bolha ideológica. Gente que fugiu. Gente que atravessou fronteiras a pé. Gente que deixou filhos, pais, casas e mortos para trás. E que, em vez de se juntar ao protesto contra a “agressão”, festejava. Festejava a captura de Nicolás Maduro, criatura que, no léxico progressista, é simultaneamente uma vítima do imperialismo e uma “figura complexa”. Como todos os ditadores e torcionários, desde que façam as suas malvadezas em nome de uma causa que agrade à esquerda zangada.

Mas convém começar pela realidade, lugar que esta gente raramente frequenta. Nicolás Maduro (des)governou a Venezuela durante mais de uma década, dando continuidade ao “milagre” socialista de Hugo Chávez, e conseguiu transformar um dos países mais ricos da América Latina numa experiência de miséria estrutural. Hiperinflação, fome, colapso dos serviços públicos, eleições de faz-de-conta, opositores presos, exilados ou mortos. Sete a oito milhões de venezuelanos fugiram. Um detalhe!

O importante é denunciar “a agressão”. Sempre a agressão. Do agressor certo. O padrão repete-se, com notável coerência, no rectângulo à beira-mar plantado. Em Lisboa, a Dra. Leitão, do Partido Socialista, decidiu patrocinar um voto de protesto pela morte de uma cidadã americana numa operação policial nos Estados Unidos. A cidadã, numa decisão trágica, investiu com o carro contra um agente armado que bloqueava a viatura. O agente disparou.

As opiniões divergem: legítima defesa ou uso excessivo da força? O que não diverge é a existência, nos Estados Unidos, de um sistema judicial funcional, capaz de investigar, julgar e condenar, se for caso disso. Um sistema que dispensa as lições de Direito dadas pela Dra. Leitão e pela ala vigilante da esquerda lisboeta.

Mas enquanto em Lisboa se sinaliza virtude, no Irão morre-se sem cerimónia. Centenas, talvez milhares, de iranianos e iranianas foram mortos deliberadamente pelo regime teocrático. Não por erro. Não por acidente. Mas porque ousaram sair à rua e pedir liberdade. Execuções sumárias, tortura, prisões arbitrárias. Aqui não há ambiguidades. Aqui há repressão nua e crua. E, no entanto, reina o silêncio. Nenhum voto. Nenhuma vigília. Nenhum acampamento universitário. A Dra. Leitão não parece preocupada. A morte, quando não envolve os Estados Unidos ou Israel, deixa de ser politicamente excitante.

A estridência vem sempre do mesmo lado. Da esquerda profissional da indignação, instalada nas universidades, nas ONG subsidiadas, nos partidos que vivem do protesto. Uma esquerda que só reconhece vítimas quando estas encaixam na narrativa e só reconhece crimes quando o alegado criminoso fala inglês ou hebraico. Uma esquerda cujo cérebro ético tem um hemisfério inteiro paralisado, enquanto o outro se agita em fúria selectiva.

E, no entanto, a realidade insiste em existir. Enquanto o PS aprova votos simbólicos, no Irão sucede algo de verdadeiramente sério. Os iranianos perderam o medo. Mulheres queimam o véu em público. Estudantes enfrentam a polícia. Trabalhadores fazem greves. Pessoas saem à rua sabendo que podem não regressar. Quando um povo deixa de temer a morte, nenhuma tirania sobrevive indefinidamente. O regime dos aiatolas pode ainda impor, à bala, parênteses de silêncio, mas não pode voltar atrás. Cada morto é uma fissura irreparável.

O regime iraniano não assenta em “diferenças culturais”, como gostam de explicar os antropólogos de serviço. Assenta na negação sistemática das liberdades humanas mais básicas.

O ícone desta revolta, mulheres sem véu a acender um cigarro com a fotografia em chamas do aiatola, resume tudo o que a esquerda se recusa a encarar. A liberdade começa na simples decisão de uma mulher não ter de se esconder. E perante isto, o feminismo institucional cala-se. Sempre pronto a protestar quando a vítima é agredida pelo agressor “certo”, sempre ausente quando as mulheres são esmagadas pelos homens errados.

A explicação é simples, embora moralmente repugnante. A esquerda europeia, e a portuguesa em particular, vivem da fantasia de que tudo o que se opõe à democracia liberal merece indulgência. Caiu o comunismo, caiu o Muro, e a esquerda órfã apaixonou-se pelo islamismo político como novo símbolo de resistência ao Ocidente. O antiamericanismo tornou-se critério de virtude. A democracia liberal, pecado original. E Israel, encarnação do mal absoluto.

Por isso, Gaza enche avenidas e o Irão cabe à vontade na Rua da Betesga. Por isso, Israel e os Estados Unidos são julgados com lupa, enquanto os aiatolas executam manifestantes sem acordar ninguém no Largo do Rato, no ISCTE ou na Assembleia Municipal de Lisboa.  A esquerda não escolhe causas pela justiça. Escolhe-as pelo proveito ideológico.

Isto não é apenas hipocrisia ocasional. É método. E enquanto persistir, continuará a distinguir vítimas de primeira e de segunda, ditaduras toleráveis e intoleráveis, mortes que merecem cartazes e mortes que merecem silêncio ou até aplauso, como as israelitas.

A esquerda portuguesa, entre votos simbólicos, manifestações carnavalescas e seminários bem financiados, continua a escolher a ignomínia. E, incrivelmente, continua a reivindicar superioridade moral.

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