domingo, 4 de janeiro de 2026

Reflexão - 12 resoluções de Ano Novo (Alberto Gonçalves)

 




(sublinhados pessoais)

12 resoluções de Ano Novo

Onze firmes propósitos antes de suspender temporaria e intencionalmente toda a actividade cerebral para acreditar no décimo segundo.

1. Votar à distância nas eleições presidenciais. Manter a distância ao assunto após as eleições, incluindo a distância ao candidato que só escolherei no momento de fazer o “X” e, sobretudo, ao candidato que infelizmente ameaça ganhar. Confirmar a impressão de que, numa singela década, o prof. Marcelo foi capaz de duas proezas: a) reduziu a dignidade do cargo a escombros; b) devido a a) tornou indiferente a competência do sucessor, que com vantagem poderia ser um psiché ou pior (será pior).

2. Deixar de falar ou de sequer reconhecer a existência de criaturas que usam a palavra “resiliência” fora da conotação latina original (“ricochetear”) ou da mecânica dos materiais. A borracha é resiliente, as pessoas não. Quando muito, as pessoas poderiam ser “resistentes”, mas não resistem a torturar a língua.

3. Enfiar nesta cabeça dura que não se pode confundir “anti-sionismo” com “anti-semitismo”. “Anti-sionismo” consiste apenas em abominar a criação de Israel, criticar as políticas de qualquer governo de Israel, reprovar a pretensão dos judeus em viver em Israel, condenar reacções violentas de Israel a ataques de terroristas genocidas, apelar a boicotes de tudo o que é israelita ou judeu, insultar e perseguir e agredir israelitas ou judeus, tolerar israelitas ou judeus desde que se criem condições para nos vermos livres deles, etc. Anti-semitismo é uma coisa diferente.

4. Desenvolver uma consciência ambiental e dedicar-me ao escrutínio das alterações climáticas. Quero ver se as temperaturas estão de facto a aumentar. Sobretudo, quero “torcer”, como os adeptos da bola, para que aumentem, já que a cada ano se me encolhe a tolerância e a paciência para com o frio. Também gostava de torcer, não metaforicamente, o pescoço ao primeiro sujeito que garantiu vivermos num clima temperado.

5. Ouvir com a maior atenção as sucessivas declarações dos “líderes” europeus sobre a inabalável coesão da UE. Inventariar a quantidade de anúncios de “projectos”, “iniciativas”, “planos”, “programas”, “missões”, “roadmaps” (estrangeiro), “estratégias” e “agendas” destinados a afirmar o continente enquanto potentado económico, militar, cultural e eclesiástico. De seguida, pretendo abrir a boca de pasmo e repetir quatrocentas e trinta e sete vezes a frase: “Felizmente a Europa acordou!” Depois da tampinha agarrada à garrafa, não tarda espantaremos a Terra com a invenção de uma garrafa agarrada à tampinha. O futuro é nosso.

6. Emoldurar o artigo da “The Economist”, que elegeu Portugal como “a economia do ano”. Pendurá-lo ao lado do comunicado de imprensa do Movimento Raeliano Português, em que se avisa para a chegada iminente de extraterrestres e se exige com urgência “enquadramento internacional pacífico e responsável, independente de qualquer especulação sensacionalista”.

7. Arranjar uma “causa” ou uma teoria da conspiração. Aborrece-me ver tanta gente empenhada em coisas que me escapam. Não gostaria que continuassem a escapar-me. Preciso de abraçar um propósito, a lutar em prol dos “direitos trans” ou contra os hebreus que manipulam o mundo, a apoiar o feminismo que defende a burca ou a desmascarar a “ida” à Lua. O importante é que possa fingir-me virtuoso ou imaginar-me inteligente. Quero encontrar um desígnio e abrir conta naquelas redes sociais tão alternativas que ninguém as conhece. Quero sentir-me acima dos demais. Quero integrar-me, em suma.

8. Passar mais tempo a ver espécimes que vêem vídeos verticais sem parança, com o dedinho matreiro pronto a deslizar no vidro do telemóvel. Analisar-lhes as reacções ou a falta delas. Medir-lhes a frequência de piscadelas. Submetê-las a TAC e ressonância magnética, se possível. Deixar-me fascinar.

9. Viajar, como costumo, até aos Estados Unidos. Tentar não ser detido no aeroporto de chegada, onde, segundo relatos de quem à cautela nunca saiu de Carcavelos, as autoridades locais desataram a deter cidadãos inocentes aos milhares, quiçá milhões, para interrogatório, devassa da privacidade digital e desaparecimento sumário. Tentar não escutar os gritos lancinantes das vítimas. Esforçar-me cobardemente por não criticar Trump em público, ao contrário de 96,4% dos meus colegas de comentário, os quais não receiam exprimir a sua opinião individual – por acaso igualzinha à de todos os outros. Ponderar substituir a América por um passeio a um país realmente livre e civilizado, como o Reino Unido ou a Venezuela.

10. Estudar com minúcia as listas de livros, discos, filmes e receitas de bacalhau à Zé do Pipo que peritos elaboraram no final de 2025, de modo a evitá-los criteriosamente em 2026 e nos quarenta anos subsequentes.

11. Elogiar os imigrantes, sejam quem forem e quantos forem. Quanto ao “quem”, são sempre maravilhosos, excepto se vierem do Ocidente e trouxerem dinheiro. Quanto ao “quantos”, quantos mais melhor, visto que (quase) todos chegam emprenhados de duas ideias fixas: salvar a nossa segurança social e estimular a nossa economia. Chega a ser comovente – e incompreensível – que um desgraçado se dê ao trabalho de sair do Paquistão, percorrer sete mil quilómetros e se estabelecer numa cave esconsa da Amadora com o único objectivo de nos ajudar. Mas acontece.

12. Suspender a actividade cerebral de forma a acreditar piamente que a descida voluntária das sociedades ocidentais rumo um lugar mais irracional, mais opressivo, mais perigoso, mais ignorante, mais escuro, mais vigiado, mais primitivo, mais feio, mais triste e menos ocidental é para o nosso bem.

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